O Livro do Juízo Final
Capítulo 3
Ela ouviu os carrilhões na hora em que entrou. Soavam fracos e metálicos, como a música natalina que estava tocando na High Street. A sala de controle era para ser à prova de som mas, cada vez que alguém abria a porta da antessala que dava para fora, ela podia ouvir o som fantasmagórico e distante das canções de Natal.
A dra. Ahrens tinha chegado primeiro, e depois o sr. Dunworthy, e nas duas vezes Kivrin teve certeza de que eles tinham ido lá para dizer que ela não saltaria. A dra. Ahrens quase cancelara o salto durante a internação no hospital, quando a vacina antiviral inchou, formando um enorme calombo vermelho na parte interna do braço de Kivrin.
— Você não vai a lugar nenhum enquanto esse inchaço não desaparecer — sentenciou a dra. Ahrens, recusando-se a dar alta. O braço de Kivrin ainda coçava, mas ela não confessaria isso à dra. Ahrens, porque a médica podia contar alguma coisa ao sr. Dunworthy, que tinha reagido com horror todo o tempo, desde que soube que ela saltaria.
Já faz dois anos que eu disse que saltaria, pensou Kivrin. Dois anos. Quando no dia anterior ela foi lhe mostrar as roupas, ele ainda tentou dissuadi-la.
— Não gosto da maneira como Medieval está cuidando deste salto — comentou ele. — E mesmo que eles estivessem tomando as precauções adequadas, uma jovem não tem nada que ir sozinha para a Idade Média.
— Está tudo preparado — disse ela. — Eu sou Isabel de Beauvrier, filha de Gilbert de Beauvrier, um nobre que viveu em East Riding entre 1276 e 1332.
— E o que a filha de um nobre de Yorkshire está fazendo sozinha na estrada Oxford-Bath?
— Eu não estava sozinha. Viajava para Evesham com meus criados, para trazer meu irmão, que está doente num mosteiro de lá. No caminho fomos atacados por um bando de ladrões.
— Por um bando de ladrões — repetiu ele, piscando os olhos através das lentes.
— Tirei essa ideia do senhor, quando disse que as mulheres nunca viajavam sozinhas para lugar nenhum na Idade Média, que elas estavam sempre cercadas de gente. Então, eu estava cercada de gente, mas meus criados fugiram quando fomos atacados, e os ladrões levaram os cavalos e todas as nossas coisas. O sr. Gilchrist acha que é uma história plausível. Ele disse que a probabilidade de…
— Só é plausível porque a Idade Média era repleta de assassinos e ladrões.
— Eu sei — disse ela, impaciente. — E também de portadores de doenças, e de cavaleiros errantes e de outros tipos perigosos. Será que não havia uma só pessoa de bem na Idade Média?
— Estavam todas ocupadas, queimando feiticeiras.
Ela decidiu que era melhor mudar de assunto.
— Vim para mostrar minha roupa — tentou, virando-se devagar para que ele visse a túnica azul e a capa branca forrada com pele de coelho. — Meu cabelo vai estar solto na hora do salto.
— Não há necessidade de se vestir de branco na Idade Média — avisou ele. — Só vai ficar suja.
E naquela manhã ele não tinha se comportado melhor. Estava andando de um lado para o outro na área de observação, como um futuro pai, ansioso. Ela passou a manhã inteira preocupada, achando que de repente ele iria mandar interromper todos os procedimentos.
Já tinha havido demoras e adiamentos suficientes. O sr. Gilchrist insistira em explicar várias vezes como o recorde funcionava, como se ela fosse uma caloura. Ninguém tinha a menor confiança nela, exceto talvez Badri, e mesmo ele fora insuportavelmente cuidadoso, medindo e voltando a medir a área da rede, e a certa altura apagando um conjunto inteiro de coordenadas e começando de novo.
Ela pensou que nunca chegaria a hora de ir para a posição e, quando isso aconteceu, foi ainda pior, ficar ali deitada, com os olhos fechados, imaginando o que estaria acontecendo. Latimer dizia a Gilchrist que estava preocupado por causa da grafia que Isabel tinha escolhido para seu nome, como se as pessoas lá no seu destino soubessem ler, quanto mais soletrar. Montoya veio e ficou parada junto dela, antes de dizer que a maneira de identificar Skendgate era pelos afrescos do Juízo Final que havia na igreja: algo que já dissera a Kivrin uma dúzia de vezes antes.
Alguém, que ela julgou ser Badri porque era o único que não tinha instruções para dar, inclinou-se sobre ela, moveu-lhe o braço mais para perto do corpo e ajeitou a saia. O chão era duro e alguma coisa estava incomodando, pressionando logo abaixo das costelas. O sr. Gilchrist disse algo e os sinos recomeçaram a tocar.
Por favor, pensou Kivrin, por favor, imaginando se a dra. Ahrens tinha de repente resolvido que ela precisaria de outra vacina, ou se Dunworthy tinha corrido até a Faculdade de História e convencido todos a reclassificar o índice de risco para 10.
Seja lá quem fosse, estava mantendo a porta aberta: ela ainda podia ouvir os sinos, embora não reconhecesse a melodia. Não era uma melodia. Era um dobre de um sino vagaroso, firme, que fazia uma pausa e depois prosseguia, e Kivrin pensou: cruzei.
Ela estava deitada sobre o lado esquerdo, as pernas desajeitadamente abertas, como se tivesse sido nocauteada pelos ladrões, e o braço cobrindo parte do rosto, como se para se defender da pancada que provocara o sangramento na testa. A posição do braço permitia que abrisse os olhos sem ser percebida, mas ela não abriu de imediato. Ficou imóvel, tentando escutar.
Exceto pelo sino, não havia nenhum som. Se estivesse deitada às margens de uma estrada do século XIV, devia haver no mínimo um barulho de pássaros e de esquilos. Talvez os animais tivessem silenciado de súbito por conta daquele aparecimento repentino, ou por conta do halo produzido pela rede, que deixava partículas cintilantes no ar, como uma geada, durante vários minutos.
Depois de certo tempo um pássaro cantou, e depois outro. Alguma coisa se mexeu por perto, parou e depois se mexeu de novo. Um esquilo do século XIV, ou um rato-do-campo. Houve um roçagar mais leve que era provavelmente o vento mexendo nas árvores, embora ela não sentisse nenhuma brisa no rosto. Acima de tudo, vindo lá de longe, continuava o som distante daquele sino.
Ela imaginou por que o sino estaria tocando. Podia ser o toque das vésperas. Ou das matinas. Badri tinha comentado que não fazia ideia de quanto desvio temporal poderia haver. Ele tinha pedido para adiar o salto enquanto fazia uma série de testes, mas o sr. Gilchrist dissera que Probabilidade calculava um desvio médio de 6,4 horas.
Ela não sabia a que horas ocorrera o salto. Faltavam quinze minutos para as onze quando saiu da sala de preparação. Tinha visto a srta. Montoya olhando o relógio e perguntado que horas eram. Mas não tinha ideia de quanto tempo se passara depois. Pareciam ter sido horas.
O salto tinha sido marcado para o meio-dia. Se tudo tivesse corrido pontualmente, e Probabilidade estivesse certa sobre o desvio, seriam cerca de seis da tarde, tempo avançado demais para as vésperas. E, se eram as vésperas, por que o sino não parava de tocar?
Talvez fosse um chamado para a missa, ou para um funeral, ou um casamento. Sinos tocavam quase o tempo todo na Idade Média: para avisar sobre invasões, sobre incêndios, para ajudar uma criança perdida a achar o caminho de volta para a aldeia, até mesmo para afastar tempestades. Podia estar tocando por qualquer motivo.
Se o sr. Dunworthy estivesse ali, estaria convencido de que se tratava de um funeral. “A expectativa de vida nos anos 1300 era de trinta e oito anos”, dissera ele na primeira vez em que ela falara de sua vontade de ir à Idade Média. “E você só chegaria a essa idade se sobrevivesse ao cólera, à varíola e às infecções no sangue, e se não comesse carne estragada nem bebesse água poluída. Claro, tudo isso se não fosse atropelada por uma carroça ou queimada na fogueira por bruxaria.”
Ou se não morresse congelada, pensou Kivrin. Estava começando a se sentir entrevada de frio, embora estivesse ali há pouco tempo. O objeto que pressionava suas costelas parecia tê-las atravessado e estar enfiado no seu pulmão. O sr. Gilchrist lhe pedira para ficar deitada ali por vários minutos e depois para se levantar cambaleando, como quem acabasse de voltar a si. Kivrin achava que não bastavam vários minutos, considerando o cálculo da Probabilidade sobre o número de viajantes naquela estrada. Sem dúvida se passariam mais do que vários minutos até que um viajante aparecesse por acaso, e ela não queria abrir mão da vantagem de ser vista aparentemente inconsciente.
E era uma vantagem, apesar do sr. Dunworthy pensar que metade da Inglaterra cairia sobre uma mulher inconsciente para estuprá-la, enquanto a outra metade preparava a fogueira em que a queimaria depois. Se ela estivesse consciente, as pessoas que prestassem socorro fariam perguntas. Se estivesse sem sentidos, primeiro eles falariam entre si sobre ela e sobre outras coisas. Discutiriam a respeito de onde poderiam levá-la, fariam suposições sobre quem poderia ser e de onde estaria vindo, e essas especulações trariam muito mais informação do que um simples “Quem é você?”.
Só que agora ela sentia uma urgente necessidade de fazer o que o sr. Gilchrist tinha sugerido: ficar de pé e olhar em volta. O chão estava gelado, havia aquela dor lateral e sua cabeça estava começando a latejar ao ritmo do sino. A dra. Ahrens tinha dito que isso aconteceria. Uma viagem tão longa ao passado provocaria todos os sintomas do deslocamento temporal: dor de cabeça, insônia e uma desarrumação total dos ritmos circadianos. Ela estava sentindo tanto frio. Seria esse outro sintoma do deslocamento temporal ou o chão onde estava deitada era tão gelado que o frio já tinha atravessado sua capa? Ou será que o desvio fora maior do que os técnicos previam, e ela tinha chegado no meio da noite?
Pensou se estaria mesmo deitada no meio da estrada. Se estivesse, por certo não devia permanecer ali. Um cavalo apressado ou alguma carroça seguindo aquela trilha poderiam passar por cima dela no escuro.
Sinos não tocam no meio da noite, disse ela de si para si, e havia luz demais se filtrando por entre as pálpebras fechadas para ser de noite. Mas se o toque que ela ouvia era o toque das vésperas, isso queria dizer que estava escurecendo, e era melhor que ela ficasse de pé e desse uma olhada em volta antes de ser noite fechada.
Ela ficou novamente escutando os pássaros, o vento nas ramagens, um som constante de algo sendo arranhado. O sino parou e seu eco ficou soando no ar, e Kivrin ouviu um som baixinho, como o de alguém prendendo a respiração ou o movimento de um pé sobre terra solta, bem pertinho.
Kivrin se retesou toda, torcendo para que essa reação involuntária não pudesse ser percebida através das dobras da roupa, e esperou, mas não ouviu passos nem vozes. E nada de pássaros. Havia alguém, ou algo, parado ali perto. Ela tinha certeza. Podia ouvir e sentir uma respiração bem próxima. Aquilo se demorou ali um longo tempo, sem se mexer. Depois do que pareceu uma eternidade, Kivrin percebeu que também estava prendendo a respiração, e soltou o ar bem devagar. Ficou prestando atenção, mas agora não conseguia ouvir nada mais além do latejar do próprio sangue. Respirou fundo outra vez, e soltou um gemido.
Nada. Seja lá o que fosse, não se moveu, não fez um som sequer, e o sr. Dunworthy tinha razão: fingir-se de desmaiada não era a melhor maneira de entrar num século onde os lobos ainda rondavam pela floresta. E os ursos. Os pássaros recomeçaram a cantar de repente, o que significava que não tinha sido um lobo, ou que ele tinha ido embora. Kivrin refez todo o ritual de escutar em volta, depois abriu os olhos.
Não pôde ver nada a não ser a manga da túnica, que estava caída sobre seu nariz, mas o simples ato de abrir os olhos aumentou sua dor de cabeça. Ela voltou a fechá-los, gemeu, mexeu-se, moveu o braço o bastante para que, quando abrisse os olhos de novo, pudesse avistar qualquer coisa. Gemeu outra vez e ergueu as pálpebras.
Não havia ninguém parado diante dela, e não estava no meio da noite. O céu, por entre o emaranhado dos galhos das árvores, era de um pálido azul-cinza. Ela se sentou e olhou em volta.
Uma das primeiras coisas que o sr. Dunworthy dissera ao saber de seu plano de ir à Idade Média foi: “Eles eram imundos e cheios de doenças, o fundo do poço da História. Por isso, quanto mais cedo você se livrar dessas fantasias de contos de fadas que tem sobre eles, melhor”.
E ele tinha razão. Claro que ele tinha razão. Mas ali estava ela, num bosque de conto de fadas. Ela e a carroça e todas as outras coisas tinham chegado a um pequeno espaço aberto, quase pequeno e coberto demais para ser considerado uma clareira. Árvores altas e grossas se curvavam por cima dela.
Estava caída junto a um carvalho. Acima, podia avistar algumas folhas em forma de concha nos galhos quase nus. O carvalho estava cheio de ninhos, embora os pássaros tivessem parado de cantar novamente, assustados pelos movimentos dela. A relva no solo era espessa, um tapete de folhas mortas e ervas ressequidas que devia ser macio mas não era. O objeto duro que machucava suas costelas era a casca de uma bolota. Cogumelos brancos manchados de vermelho amontoavam-se em volta das raízes retorcidas do carvalho. Neles, e em tudo mais na pequena clareira — nos troncos das árvores, na carroça, na hera — cintilava a geada condensada pelo halo.
Era óbvio que ninguém tinha estado ali, jamais estivera, e era óbvio também que aquela não era a estrada Oxford-Bath e que nenhum viajante apareceria ali dentro de 1,6 hora. Nem em hora nenhuma. Aparentemente, os mapas medievais que eles usaram para determinar o local do salto eram mesmo tão pouco exatos quanto o sr. Dunworthy dissera. A estrada que procuravam estava, é claro, mais ao norte do que os mapas diziam, e ela estava ao sul, no bosque de Wychwood.
“Determine imediatamente sua localização espacial e temporal”, dissera o sr. Gilchrist. Ela pensou em como faria aquilo. Perguntando aos pássaros? Estavam muito alto para que ela pudesse ver a que espécie pertenciam, e as extinções em massa não tinham começado a não ser na década de 1970. A menos que pertencessem a espécies extintas como os pombos-passageiros ou os dodos, a presença das aves não daria nenhuma indicação útil de espaço ou de tempo.
Quando ela começou a levantar, os pássaros explodiram numa algazarra selvagem de asas. Kivrin não se moveu até o barulho amainar, então ficou de joelhos. O tatalar das asas recomeçou. Ela juntou as mãos, apertou uma palma contra a outra e fechou os olhos, para que o viajante que presumivelmente iria encontrá-la pensasse que estava rezando.
“Cheguei”, informou ela, e então se deteve. Se revelasse que tinha aterrissado no meio de um bosque, em vez de na estrada Oxford-Bath, isso serviria apenas para confirmar o que o sr. Dunworthy estava pensando, ou seja, que o sr. Gilchrist não sabia direito o que estava fazendo e que ela era incapaz de se cuidar. Então lembrou que isso não faria a menor diferença, porque eles só ouviriam a gravação depois que ela tivesse regressado em segurança.
Se ela regressasse em segurança, o que dificilmente aconteceria se continuasse naquele bosque até anoitecer. Era o fim da tarde ou o começo da manhã: por entre as árvores era impossível de saber e, mesmo quando ela fosse para o espaço aberto e pudesse ver bem o céu, não conseguiria estimar apenas pela posição do sol. O sr. Dunworthy dissera que as pessoas às vezes ficavam andando em círculos durante todo o tempo de sua viagem ao passado. Tinha ensinado a ela como observar a direção das sombras, mas para fazer isso Kivrin precisava saber que horas eram, e não podia desperdiçar tempo tentando adivinhar que direção era esta ou aquela. Precisava sair dali por conta própria. A floresta estava quase toda imersa na sombra.
Não havia nenhum sinal de uma estrada ou mesmo de uma trilha. Kivrin deu a volta em torno da carroça e das caixas, procurando uma passagem por entre os troncos. A vegetação do bosque parecia menos fechada na direção que ela imaginou ser o oeste. Porém, quando ela tomou aquele rumo, sempre olhando para trás para ter certeza de ter à vista a desbotada cobertura azul da carroça, não passava de um aglomerado de bétulas, cujos troncos brancos davam uma ilusão de espaço vazio. Ela voltou para a carroça e experimentou ir na direção oposta, mesmo com a floresta estando mais escura daquele lado.
A estrada ficava a apenas uns cem metros dali. Kivrin pulou por cima de um tronco caído, passou por um arbusto de salgueiros e olhou bem. Era a estrada principal, como as pessoas de Probabilidade tinham chamado. Mas não parecia. Aliás, nem sequer parecia uma estrada. Era mais uma trilha. Ou um caminho de passagem para o gado. Então aquelas eram as maravilhosas estradas da Inglaterra do século XIV, as estradas que estavam aquecendo o comércio e expandindo os horizontes.
A estrada era tão estreita que mal dava para passar uma carroça, embora fosse evidente que carroças passavam por ali, ou pelo menos uma delas havia passado. Era possível perceber fundos sulcos de rodas, já cheios de folhas secas. Em um ou outro, viam-se pequenas poças de água escura, bem como às margens da estrada, e uma fina crosta de gelo já tinha se formado em alguns buracos.
Kivrin estava parada no fundo de uma depressão. A estrada subia de maneira constante nas duas direções a partir do local onde ela estava e, no que parecia ser o norte, só havia árvores até metade da subida. Ela virou-se para olhar o outro lado. Dali era possível vislumbrar de relance um pedaço do tecido azul da cobertura da carroça, mas ninguém seria capaz de ver Kivrin deitada ali. A estrada mergulhava no bosque que se erguia de ambos os lados, e se estreitava, tornando o local o ponto ideal para um ataque de assassinos e ladrões.
Era o lugar ideal para dar credibilidade à sua história, mas ninguém nunca a enxergaria ali, ao passar às pressas por aquele trecho estreito. De resto, mesmo que alguém avistasse aquela mancha azul entre as folhas, pensaria que era uma emboscada e fugiria a galope.
Ocorreu de súbito a Kivrin que, ficando ali naquele matagal, ela parecia mais uma ladra do que a donzela inocente que tinha acabado de levar uma pancada na cabeça.
Ela foi para o meio da estrada e pôs a mão na testa.
— Oh, ajudai-me, pois estou com medo e malferida! — exclamou.
O intérprete deveria traduzir automaticamente para inglês médio tudo o que ela pronunciasse, mas o sr. Dunworthy insistira para que ela memorizasse as primeiras frases. Ela e o sr. Latimer tinham trabalhado na pronúncia durante toda a tarde da véspera.
— Ajudai-me, pois fui roubada por ladrões cruéis! — disse ela.
Ela avaliou se valia a pena deitar-se ali na estrada, mas agora que estava em campo aberto podia perceber que era bem mais tarde do que tinha imaginado, quase o pôr do sol. Se quisesse saber o que havia do outro lado daquela colina, era melhor partir imediatamente. Mas primeiro precisava marcar o local do retorno com algum tipo de sinal.
Não havia nada que distinguisse aqueles salgueiros de qualquer outro. Ela procurou uma pedra que pudesse colocar no ponto de onde podia ver a carroça, mas não encontrou nenhuma no meio dos arbustos ou na beira da estrada. Finalmente ela entrou de volta no mato, com os galhos agarrando-se no seu cabelo ou na capa, pegou e levou o baú forrado de latão, copiado do museu Ashmolean, de volta para a estrada.
Estava longe de ser perfeito: era pequeno o bastante para que alguém apressado passasse direto sem vê-lo, mas ela estava indo somente até o topo da colina. Se resolvesse caminhar até a vila mais próxima, voltaria para deixar um sinal mais permanente. E nenhum viajante devia passar por ali tão cedo. Os sulcos das rodas de carroça estavam endurecidos de gelo, as folhas, intactas, e nas pequenas poças havia neve. Ninguém passara por ali o dia inteiro, a semana inteira talvez.
Ela ajeitou a relva em torno do baú, no chão, e partiu em direção à colina. A estrada, a não ser pela parte de lama gelada ao fundo, era mais plana do que Kivrin esperava, de terra socada e dura, o que significava que cavalos passavam ali com frequência, apesar do aspecto desolado do lugar.
Era uma subida suave, mas Kivrin se sentiu cansada logo ao dar os primeiros passos, e suas têmporas recomeçaram a latejar. Esperou que os sintomas do deslocamento temporal não piorassem, porque já percebia que estava muito longe de tudo. Ou talvez fosse só uma ilusão. Ela ainda não tinha “determinado sua localização temporal”, e aquele caminho e aquele bosque não revelavam nenhum indício dos anos 1320.
Os únicos sinais de civilização eram aqueles rastros de carroça, o que significava que ela podia estar em qualquer ponto entre a invenção da roda e o início das estradas pavimentadas, nem mesmo isso com certeza. Ainda existiam vias exatamente como aquela a menos de dez quilômetros de Oxford, preservadas com carinho pelo National Trust para turistas japoneses e americanos.
Talvez ela não tivesse ido a lugar nenhum, e do outro lado da colina encontraria o M1 ou a escavação onde trabalhava a srta. Montoya ou as instalações de SDI. Detestaria determinar minha localização temporal sendo atropelada por uma bicicleta ou por um carro, pensou ela, passando rapidamente para a margem da estrada. Mas, se não fui a lugar nenhum, como se explica essa maldita dor de cabeça, e por que penso que não vou aguentar dar um só passo mais?
Chegou ao topo da colina e parou, sem fôlego. Não havia necessidade de sair da estrada. Nenhum veículo tinha passado por ali ainda. Nenhum cavalo nem qualquer carro. E ela estava, como tinha pensado, longe demais de qualquer lugar. Ali não havia árvores, e ela podia ver num raio de muitos quilômetros. O bosque onde a carroça estava subia até metade da colina e se interrompia ali, mas se espalhava amplamente para sul e oeste. Se ela tivesse avançado mais naquela direção, aí sim, estaria perdida.
Havia árvores bem longas, a leste, também, acompanhando um rio cujos reflexos azuis ela podia ver ocasionalmente. Seria o Tâmisa? O Cherwell? Pequenos agrupamentos ou filas ou aglomerados de árvores se espalhavam pelos campos além, mais árvores do que ela alguma vez imaginara ter existido na Inglaterra. O Livro do juízo final de 1086 tinha registrado não mais do que quinze por cento da terra coberta de florestas, e Probabilidade calculara que os terrenos limpos para pastagens e povoados teriam reduzido a doze por cento nos anos 1300. A equipe de Probabilidade, ou as pessoas que escreveram o Livro do juízo final, tinham subestimado em muito esses números. Havia árvores por toda parte.
Kivrin não conseguia avistar nenhum povoado. As árvores estavam nuas e, através dos galhos cinzentos e escuros à luz do entardecer, ela teria conseguido enxergar igrejas ou tetos de mansões, mas dali não se avistava nada que se parecesse a um lugar habitado.
Só que, mesmo assim, devia haver habitações porque havia pastagens, em longas faixas cobrindo o campo, num estilo claramente medieval. Num dos campos havia ovelhas, o que era medieval também, mas ela não podia ver ninguém tomando conta. Bem longe, a leste, via-se uma mancha cinza difusa que devia ser Oxford. Apertando os olhos, ela quase conseguia avistar as muralhas e a forma quadrada da Carfax Tower, embora não visse sinal das torres de St. Frideswide ou de Osney na luz do poente.
O sol estava mesmo se pondo. O céu se cobria de uma cor azul-lavanda muito pálida, com um traço de rosa junto ao horizonte, a oeste, e ela não tinha andado em círculos porque, no pouco tempo em que esteve ali, percebeu como ele ficara mais escuro.
Kivrin fez o sinal da cruz e cruzou os dedos em prece, aproximando as mãos do rosto.
— Bem, sr. Dunworthy, aqui estou. Parece que acabei no lugar certo, mais ou menos. Não estou exatamente na estrada Oxford-Bath. Estou a cerca de quinhentos metros ao sul, numa estrada secundária. Posso ver Oxford. Parece estar a uns quinze quilômetros.
Ela deu sua estimativa sobre a estação do ano e a hora do dia, e descreveu o que achava que podia ver, e depois parou e apertou o rosto nas mãos. Devia gravar ali no seu Livro do juízo final o que pretendia fazer, mas não sabia bem o que era. Devia haver uma dúzia de povoados nas planícies que se desenrolavam a oeste de Oxford, mas ela não podia ver nenhum, mesmo avistando os campos cultivados e a estrada.
Não havia ninguém na estrada, que descia pelo lado oposto da colina e desaparecia imediatamente dentro de um pequeno bosque cerrado. Quase um quilômetro adiante via-se a estrada principal, onde Kivrin devia desembocar: era larga, plana e de um verde pálido, para onde aquela estrada que se perdia no bosque evidentemente conduzia. Não havia ninguém que ela pudesse enxergar.
À sua esquerda e a meio caminho através da planície na direção de Oxford, ela observou um movimento longínquo, mas não passava de um rebanho de vacas que se dirigiam para um aglomerado de árvores, que deviam ocultar um vilarejo. Não era o vilarejo que a srta. Montoya queria que ela procurasse — Skendgate ficava ao sul da estrada.
A menos que ela estivesse no lugar completamente errado, e não estava. Aquilo lá no leste era com certeza Oxford, e o Tâmisa fazendo uma curva suave ao sul, indo rumo àquela névoa cinza-marrom que devia ser Londres, mas nada daquilo informava a localização do vilarejo. Talvez estivesse entre aquele ponto e a estrada, apenas oculto, ou talvez na direção oposta, ou no outro lado da estrada. Não havia tempo para verificar tudo.
Estava escurecendo depressa. Dentro de meia hora talvez houvesse luzes que indicassem o caminho, mas ela não podia se dar ao luxo de esperar. O rosa já tinha se transformado em lavanda no oeste, e o azul por cima de sua cabeça estava roxo. Além disso, o frio estava aumentando, e o vento, ficando mais forte. As dobras da capa drapejavam em torno do seu corpo, e ela puxou com mais força a veste. Não queria passar uma noite de dezembro numa floresta, com uma dor de cabeça infernal e uma matilha de lobos, mas também não queria passá-la ali fora, naquela estrada fria, esperando que alguém aparecesse.
Podia ir rumo a Oxford, mas não havia como chegar lá antes que escurecesse. Se pelo menos pudesse avistar um vilarejo, qualquer vilarejo, poderia passar a noite ali e procurar o povoado da srta. Montoya na manhã seguinte. Olhou para o trecho de estrada que tinha percorrido, tentando enxergar um vislumbre de luz ou de fumaça de uma casa. Nada. Seus dentes começaram a bater.
E então começaram os sinos. O da Carfax primeiro, soando como sempre tinha soado, mesmo refundido umas três vezes desde os 1300, e depois, antes que a primeira badalada tivesse morrido de todo, os demais, como se estivessem à espera de um sinal de Oxford. Estavam tocando as vésperas, claro, chamando as pessoas nos campos, dizendo que era hora de parar o trabalho e vir fazer as preces.
E dizendo a ela onde estavam os vilarejos. Embora os sinos batessem quase em uníssono, ela podia ouvir cada um separadamente, alguns tão distantes que apenas o eco último e mais fraco chegava até ela. Ali, ao longo daquele renque de árvores, e ali, e ali. O vilarejo para onde as vacas começavam a voltar estava por trás daquela elevação suave. As vacas apressavam o passo ouvindo o som do sino.
Havia dois vilarejos ali embaixo do nariz dela: um do lado oposto da estrada principal, o outro depois de algumas plantações, perto do riacho cercado de árvores. Skendgate, o vilarejo onde a srta. Montoya trabalhava, estava exatamente onde tinha imaginado, lá atrás, na direção de onde viera, para lá dos rastros congelados de carroça, por trás de uma colina baixa, a cerca de três quilômetros.
Kivrin ficou de mãos postas.
— Acabo de descobrir onde fica o vilarejo — disse, imaginando se os sons dos sinos ficariam registrados no Livro do juízo final. — Fica nesta estrada menor. Vou buscar a carroça e arrastá-la para a estrada, e depois vou andar para o vilarejo antes que escureça e desmaiar na frente de alguma porta.
Um dos sinos estava bem distante a sudoeste, tão fraco que ela mal podia ouvi-lo. Ela imaginou se seria o sino que tinha escutado mais cedo, e por que teria tocado. Talvez Dunworthy tivesse razão, e fosse um funeral.
— Eu estou bem, sr. Dunworthy — disse ela para dentro das mãos. — Não se preocupe comigo. Estou aqui há mais de uma hora e até agora nada aconteceu comigo.
Os sinos foram morrendo aos poucos, com o sino de Oxford mais uma vez tomando a dianteira aos outros, se bem que, de maneira impossível, o seu som se manteve vibrando no ar além de todos os demais. O céu ficou de um azul-violeta, e uma estrela surgiu cintilando a sudeste. As mãos de Kivrin estavam ainda entrelaçadas em forma de prece. “É bonito aqui.”
TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL
(000249-000614)
Bem, sr. Dunworthy, aqui estou. Parece que acabei no lugar certo, mais ou menos. Não estou exatamente na estrada Oxford-Bath. Estou a cerca de quinhentos metros ao sul, numa estrada secundária. Posso ver Oxford. Parece estar a uns quinze quilômetros.
Não sei ao certo quando cheguei mas, se o horário previsto era meio-dia, houve umas quatro horas de desvio. A estação do ano está correta. As árvores estão com poucas folhas, mas as folhas no chão estão mais ou menos intactas, e somente cerca de um terço dos campos foi arado. Não posso dizer com certeza minha localização temporal enquanto não chegar a um vilarejo e perguntar a alguém que dia é. Vocês provavelmente sabem mais sobre onde e quando estou do que eu, ou pelo menos ficarão sabendo assim que tiverem o fix.
Mas sei que estou no século certo e posso ver os campos da pequena colina onde me encontro. São os campos clássicos da Idade Média, arredondados na extremidade onde o gado faz o contorno. As pastagens têm cercas que, em um terço, são tipicamente saxônicas, enquanto as demais são cercas de pilriteiro normando. Probabilidade calculou que essa proporção seria de vinte e cinco a setenta e cinco por cento em 1300, mas com base no Suffolk, que fica a leste daqui.
Ao sul e a oeste só vejo florestas. Wychwood? Todas sem folhas, até onde posso afirmar. Ao leste vejo o Tâmisa. Quase consigo avistar Londres, embora saiba que é impossível. Em 1320, eu estaria a mais de oitenta quilômetros, não é mesmo, em vez de apenas trinta e poucos? Ainda acho que consigo avistá-la. Posso ver com certeza as muralhas da cidade de Oxford, e a Carfax Tower.
É muito bonito aqui. Não tenho a sensação de que há sete séculos nos separando. Oxford está bem ali, dá para ir a pé, e não posso tirar da cabeça a ideia de que, se eu descer esta colina e entrar na cidade, vou encontrar todos vocês aí no laboratório do Brasenose, esperando pelo fix. Badri franzindo a testa diante das tabelas nos monitores, a srta. Montoya impaciente para voltar para sua escavação, e o senhor, sr. Dunworthy, cacarejando como uma galinha velha. Não me sinto separada de vocês de jeito nenhum, nem sequer me sinto distante.