O Livro do Juízo Final
Livro três
Sepultei com as minhas próprias mãos cinco dos meus filhos numa única cova… Sem sinos, sem
lágrimas. É o fim do mundo.
Agnolo di Tura
Siena, 1347
24
Dunworthy passou os dois dias seguintes ligando para todos os nomes de técnicos da lista de Finch e para todas as agências de pesca da Escócia, e ajudando a montar mais uma ala de enfermos no Bulkeley-Johnson. Das pessoas detidas no colégio, mais quinze tinham contraído o vírus, entre elas a sra. Taylor, que um dia desabou quando ainda faltavam quarenta e nove toques para terminar o número.
— Ela apagou por completo e largou o sino — relatou Finch. — O sino deu uma volta completa, fazendo um barulho infernal, e a corda chicoteou ao redor como uma coisa viva. Acabou se enrolando no meu pescoço e quase me estrangulou. A sra. Taylor queria continuar, depois que voltou a si, mas é claro que já era tarde. Gostaria que conversasse com ela, sr. Dunworthy. Ela está bastante desanimada. Diz que nunca vai se perdoar por ter decepcionado as outras. Eu disse para ela não se sentir culpada, que às vezes as coisas simplesmente acontecem além do nosso controle, o senhor não acha?
— Acho — respondeu Dunworthy.
Ele não conseguira ainda nem sequer fazer contato com algum técnico, quanto mais convencê-lo que fosse a Oxford, e também não tinha localizado Basingame. Ele e Finch telefonaram para todos os hotéis da Escócia, e depois para cada pousada e cada chalé para alugar. William conseguira cópias dos extratos do cartão de crédito de Basingame, mas não constava nenhuma compra de isca nem de botas de cano longo em alguma longínqua cidade escocesa, como Dunworthy havia secretamente esperado, nem qualquer débito após o dia 15 de dezembro.
A rede de telefonia estava ficando cada vez pior. A imagem sumira das ligações, e a mensagem gravada, anunciando que devido à epidemia todas as linhas estavam ocupadas, interrompia quase todas as chamadas que ele tentava fazer depois de pressionar apenas dois algarismos.
Ele não se preocupava tanto com Kivrin porque a carregava consigo para onde quer que fosse, um fardo pesado, enquanto digitava um telefone após outro, esperava por ambulâncias, escutava as lamúrias da sra. Gaddson. Andrews não retornara seus recados, ou talvez não tivesse podido completar a ligação. Badri fazia monólogos confusos sobre a morte, que as enfermeiras aplicadamente registravam em pedaços de papel. Enquanto esperava que os técnicos, os guias de pesca ou alguém mais atendesse o telefone, ele examinava as frases de Badri à procura de pistas. “Negra”, dissera Badri. E também “laboratório” e “Europa”.
A rede de telefonia continuou a piorar. A gravação já entrava quando ele digitava o primeiro algarismo e inúmeras vezes ele não obteve nem sinal. Desistiu por algum tempo e dedicou-se a estudar as planilhas de contatos. William conseguira cópias dos registros médicos confidenciais das pessoas que eram contatos primários, e Dunworthy examinou as fichas com cuidado, procurando tratamentos de raios X ou visitas ao dentista. Um dos primários fizera um raio X do maxilar, mas assim que olhou melhor Dunworthy percebeu que fora no dia 24, depois que a epidemia já tinha começado.
Foi até o hospital para perguntar aos primários que estavam lúcidos se tinham animal de estimação ou se haviam caçado patos recentemente. Os corredores estavam abarrotados de macas com pacientes deitados. Havia verdadeiros engarrafamentos diante da porta da Emergência e bloqueando o acesso ao elevador. Não havia como contornar aquilo, e ele usou as escadas.
A enfermeira loura de William esbarrou com ele na porta da Ala de Isolamento. Usava uma touca branca e uma máscara.
— Receio que não possa entrar — disse ela, erguendo uma mão enluvada.
Badri morreu, pensou ele.
— O sr. Chaudhuri está pior? — perguntou.
— Não. Na verdade, parece que está reagindo melhor agora. Mas acabou nosso estoque de trajes de segurança. Londres prometeu que mandará uma remessa amanhã. Os funcionários do hospital estão se virando com trajes de pano, mas não temos o bastante para ceder às visitas. — Ela remexeu no bolso e tirou um pedaço de papel. — Anotei isto aqui que ele disse — falou ela, estendendo o papel. — Receio que a maior parte tenha sido ininteligível. Ele menciona o nome do senhor e o de… Kivrin?… é isso mesmo?
Dunworthy aquiesceu, olhando para o papel.
— Às vezes são palavras isoladas, mas na maioria do tempo não faz sentido.
Ela tentara escrever foneticamente e, quando entendia uma palavra, sublinhava. “Não pode”, Badri dissera, e “ratos” e “tão preocupado”.
No domingo de manhã, metade dos detidos já estava com a doença, e quem não tinha adoecido ainda cuidava dos demais. Dunworthy e Finch já tinham desistido de todos os planos de colocar esse pessoal em alas, e em todo caso não haveria colchonetes suficientes. Deixaram os doentes nas camas em que já dormiam ou os transferiram com cama e tudo para as instalações do Salvin, para evitar que os enfermeiros improvisados se desgastassem demais.
As sineiras iam adoecendo, uma a uma, e Dunworthy ajudou a instalar algumas na velha biblioteca. A sra. Taylor, que ainda conseguia andar, insistiu em visitá-las.
— É o mínimo que posso fazer — disse, arfando pelo esforço de caminhar ao longo do corredor —, depois que abandonei elas dessa maneira.
Dunworthy ajudou a sra. Taylor a se recolher ao colchão de ar que William tinha levado lá para cima, e a cobriu com um lençol.
— “O espírito está pronto, mas a carne é fraca” — disse ele.
Também se sentia fraco, cansado até a medula dos ossos devido à falta de sono e aos sucessivos fracassos. Finalmente tinha conseguido, nos intervalos entre ferver água para o chá e lavar os urinóis, fazer contato com uma técnica do Magdalen.
— Ela está no hospital — dissera a mãe da moça, parecendo cansada e preocupada.
— Ela adoeceu quando?
— No dia de Natal.
Um lampejo de esperança. Talvez a técnica do Magdalen fosse a origem.
— Sua filha apresentava que sintomas? — perguntou rapidamente. — Dor de cabeça? Febre? Desorientação?
— Ruptura do apêndice — disse ela.
Na manhã de segunda, três quartos dos detidos estavam doentes. Chegaram ao fim, como Finch previa, os estoques de roupas de cama, de máscaras do SNS e, mais urgente ainda, de temps, de antimicrobióticos e de aspirina.
— Tentei ligar para o hospital pedindo mais — disse Finch, exibindo uma lista a Dunworthy —, mas os telefones estão todos mudos.
Dunworthy partiu para o hospital para trazer os suprimentos.
A rua em frente à Emergência estava engarrafada, um aglomerado caótico de ambulâncias e táxis e manifestantes com um cartaz proclamando “O primeiro-ministro nos abandonou à morte”. Ao se esgueirar entre eles e chegar até a porta, Dunworthy viu Colin, que se aproximava. Estava molhado, como sempre, rosto corado, nariz vermelho do frio. O casaco estava desabotoado.
— Os telefones estão mudos — comentou ele. — Rede sobrecarregada. Estou levando os recados. — Ele puxou um maço desorganizado de papéis do bolso do casaco. — Precisa mandar mensagem para alguém?
Sim, pensou ele. Para Andrews. Para Basingame. Para Kivrin.
— Não — respondeu.
Colin enfiou os papéis, já úmidos, de volta no bolso.
— Vou indo então. Se estiver procurando minha tia-avó Mary, ela está na Emergência. Acabaram de chegar cinco novos casos. Uma família inteira. O bebê estava morto — acrescentou ele, e partiu a toda por entre os carros parados.
Dunworthy conseguiu abrir caminho até a Emergência e apresentou sua lista ao administrador-geral, que o encaminhou para o Setor de Suprimentos. Os corredores continuavam abarrotados de macas com rodas, embora ali estivessem todas alinhadas ao longo de ambas as paredes, de modo que havia uma passagem estreita no meio. Curvada sobre uma das macas, havia uma enfermeira com máscara cor-de-rosa e touca lendo algo para um dos pacientes.
— “O Senhor fará com que a peste se apegue a ti” — recitou ela, e Dunworthy percebeu tarde demais que era a sra. Gaddson, mas ela estava tão concentrada na leitura que nem ergueu a vista. — “Até que te elimine do solo em que estás entrando.”
A peste se apegará a ti, repetiu ele em silêncio, e pensou em Badri. “Foram os ratos”, dissera ele. “Matou todo mundo. Metade da Europa.”
Kivrin não pode estar em meio à Peste Negra, pensou ele, virando o corredor na direção do Setor de Suprimentos. Andrews garantira que o desvio máximo era de cinco anos. Em 1325, a peste ainda sequer começara na China. Andrews mencionara também que as duas únicas coisas que não teriam abortado automaticamente o salto eram o desvio e as coordenadas, e Badri, quando ainda tinha condições de responder às perguntas de Dunworthy, insistiu que checara as coordenadas de Puhalski.
Ele entrou no Setor de Suprimentos. Não havia ninguém na recepção. Ele tocou a sineta.
Todas as vezes que Dunworthy conseguira falar com Badri, o técnico tinha respondido que as coordenadas do estagiário estavam corretas, mas seus dedos se moviam nervosamente sobre o lençol, digitando, digitando o fix. Isso não pode estar certo.Tem alguma coisa errada.
Tocou a sineta de novo, e uma freira-enfermeira emergiu por entre as prateleiras. Fora visivelmente recrutada entre os aposentados para atender a emergências. Teria uns noventa anos pelo menos, e o jaleco branco estava amarelado pelo tempo, mas ainda engomado e bem durinho. As juntas estalaram quando ela se inclinou para receber a lista.
— Tem autorização para receber o material?
— Não — respondeu ele.
Ela devolveu a lista e um formulário em três páginas.
— Todas as ordens têm que ser autorizadas pelo chefe de ala.
— Não temos chefe de ala — falou ele, começando a dar sinais de raiva. — Não temos ala. Temos cinquenta pessoas detidas em dois dormitórios, e os suprimentos estão acabando.
— Em casos assim, a autorização tem que ser assinada pelo médico encarregado.
— A médica encarregada está com uma enfermaria cheia de pacientes para cuidar. Ela não tem tempo de assinar autorizações. Estamos no meio de uma epidemia.
— Estou sabendo — disse a enfermeira, com frieza. — Todas as autorizações têm que ser assinadas pelo médico encarregado — repetiu ela, já caminhando de volta, com as juntas rangendo, para o meio das prateleiras.
Dunworthy voltou para a Emergência. Mary não estava mais lá. O administrador sugeriu que conferisse a Ala de Isolamento, mas ela também não estava ali. Ele considerou a possibilidade de falsificar a assinatura de Mary, mas precisava vê-la pessoalmente para falar sobre a impossibilidade de conseguir um técnico, a impossibilidade de passar por cima da autoridade de Gilchrist e abrir a rede. Não conseguia obter uma simples aspirina, e já estavam em 3 de janeiro.
Por fim, esbarrou em Mary no laboratório. Ela estava falando ao telefone, então aparentemente a rede estava funcionando outra vez, embora o visual fosse só chuvisco. Ela nem estava olhando para a tela, e sim para o console, que apresentava no monitor o mapa de todas as ramificações dos contatos.
— Qual é a dificuldade, exatamente? — estava questionando ela. — Vocês disseram que tudo estaria aqui dois dias atrás.
Houve uma pausa enquanto o interlocutor perdido no chuvisco dava alguma desculpa.
— Como assim, foi mandado de volta? — perguntou ela, com incredulidade. — Estou aqui com umas mil pessoas doentes de influenza.
Houve outra pausa. Mary digitou alguma coisa no console, e um mapa diferente apareceu.
— Bem, envie de novo! — gritou ela. — Preciso disso agora! Tem gente morrendo aqui! Preciso desse material aqui em… alô? Está me ouvindo?
A tela apagou. Ela se virou ao desligar o aparelho e viu Dunworthy. Fez um sinal para que entrasse.
— Alô! — exclamou ao telefone. — Alôôô?… — Bateu o aparelho com força. — Os telefones não funcionam, metade da minha equipe contraiu o vírus, e os análogos ainda não chegaram porque algum idiota não permitiu a entrada na área de quarentena — disse, zangada.
Ela desabou no assento diante do console e esfregou os dedos com força no rosto.
— Desculpa — pediu ela. — Está sendo um dia terrível. Esta tarde três pacientes morreram ao chegar ao hospital. Uma das vítimas era um bebê de seis meses.
Ela continuava usando o ramo de azevinho na lapela do jaleco. O ramo e o jaleco estavam surrados, e Mary tinha uma expressão indescritível de cansaço, as linhas em volta da boca formando sulcos profundos no rosto. Ele imaginou há quanto tempo ela não dormia, e se ela própria saberia dizer, caso alguém perguntasse.
Ela esfregou dois dedos ao longo das linhas acima dos olhos.
— A gente nunca se acostuma com a ideia de que não pode fazer nada — disse ela.
— Eu sei.
Ela ergueu os olhos para Dunworthy, quase como se só então tivesse percebido sua presença ali.
— Está precisando de alguma coisa, James?
Ela estava sem dormir, sem receber ajuda e tinha lidado com três óbitos naquele dia, um deles de um bebê. Já estava com problemas demais na cabeça para poder se preocupar com Kivrin.
— Não — respondeu ele, e estendeu o formulário. — Sua assinatura, apenas.
Ela assinou sem olhar.
— Fui falar com Gilchrist hoje de manhã — disse ela, devolvendo as folhas assinadas.
Ele olhou para ela, surpreso demais para falar.
— Fui ver se conseguia convencê-lo a abrir a rede mais cedo. Expliquei que não é preciso esperar até a imunização completa. Basta imunizar o grupo de risco atingido pelo vírus para eliminar com eficiência os vetores de contágio.
— E nenhum dos seus argumentos surtiu o menor efeito.
— Não. Ele está plenamente convencido de que o vírus chegou aqui vindo do passado. — Mary suspirou. — Ele rabiscou gráficos mostrando os padrões cíclicos de mutações dos mixovírus tipo A. De acordo com sua teoria, um dos mixovírus tipo A existentes em 1318-1319 era um H9N2. — Ela esfregou a testa de novo. — Ele não vai abrir o laboratório enquanto não acontecer a imunização completa e a quarentena não for suspensa.
— E isso será quando? — perguntou ele, mesmo já fazendo uma ideia.
— A quarentena precisa ser mantida até sete dias depois da imunização completa ou catorze dias depois do último caso registrado — respondeu ela, como se estivesse comunicando uma má notícia.
Último caso registrado. Duas semanas sem incidência alguma.
— Quanto tempo levaria uma imunização em escala nacional?
— Assim que tivermos quantidade suficiente de vacinas, não demora muito. A vacinação contra a Pandemia só levou dezoito dias.
Dezoito dias. Depois de haver vacina suficiente. Final de janeiro.
— Será tarde demais — disse ele.
— Eu sei. Temos que identificar a origem do vírus de modo preciso, só isso. — Ela desviou o rosto para o console. — Você sabe, a resposta já está aqui. Nós apenas estamos olhando para o lugar errado. — Ela tocou nas teclas abrindo um novo gráfico. — Estou rodando aqui uma série de correlações, procurando estudantes de veterinária, contatos primários que morem perto de um zoológico, endereços na zona rural. Esta lista aqui é de secundários registrados em DeBrett, caçadores de tetrazes e tudo mais. Só que o mais próximo que algum deles chegou de uma ave domesticada foi quando comeu ganso no Natal.
Ela abriu a planilha com os contatos. Badri continuava no topo da lista. Ela ficou sentada bastante tempo olhando para aquele nome, tão distante quanto Montoya ao contemplar os seus ossos.
— A primeira coisa que um médico precisa aprender é não colocar um peso grande demais nas costas quando perde um paciente — disse, e Dunworthy ficou pensando se ela se referia a Kivrin ou a Badri.
— Eu vou dar um jeito de abrir a rede — falou ele.
— Espero que sim — suspirou ela.
A resposta não estava nos gráficos dos contatos nem nos seus pontos em comum. Estava em Badri, cujo nome era ainda, apesar de todo o interrogatório a que foram submetidos os primários e de todas as pistas falsas, a origem de tudo. Badri era o paciente zero, e em algum instante nos quatro ou seis dias antes do salto havia entrado em contato com um reservatório do vírus.
Dunworthy subiu ao quarto para vê-lo. Havia um enfermeiro na mesinha do lado de fora do quarto de Badri, um rapaz alto e nervoso que parecia não ter mais de dezessete anos.
— Onde está… — começou Dunworthy, e só então percebeu que não sabia o nome da enfermeira loura.
— Ela adoeceu também — disse o rapaz. — Ontem. Ela foi a vigésima enfermeira da equipe médica a cair doente com o vírus, e eles não têm mais substitutos. Pediram a ajuda de estudantes do terceiro ano. Na verdade, eu ainda sou do primeiro, mas já tive treinamento em primeiros socorros.
Ontem. Um dia inteiro tinha se passado, então, sem ninguém para anotar o que Badri dissera.
— Lembra alguma coisa que Badri possa ter falado durante o tempo em que esteve tomando conta dele? — perguntou, sem muita esperança. Um estudante de primeiro ano. — Alguma palavra, alguma frase que você tenha conseguido entender?
— É o sr. Dunworthy, não é isso? — perguntou o rapaz, estendendo um kit de SPGs. — Eloise mencionou que o senhor estava interessado em tudo que o paciente dissesse.
Dunworthy vestiu os trajes, que tinham acabado de chegar. Eram brancos, marcados com pequenas cruzes negras ao longo da abertura traseira do jaleco. Ele imaginou onde será que tinham conseguido aquele material.
— Ela ficou bem doente, mas não parava um segundo de repetir o quanto isso era importante.
O rapaz conduziu Dunworthy para o quarto de Badri, olhou para a tela acima da cama, e depois para o doente. Pelo menos ele olha para o paciente, pensou Dunworthy.
Badri estava deitado com os braços por cima do cobertor, movendo as mãos, que pareciam como as mãos da ilustração do livro de Colin sobre a tumba de um cavaleiro. Seus olhos estavam abertos e fundos, mas ele não olhou para Dunworthy nem para o enfermeiro, nem sequer para o cobertor, que suas mãos inquietas não conseguiam segurar.
— Já tinha estudado o tema, mas nunca tinha visto até agora — comentou o rapaz. — É um sintoma terminal comum em casos respiratórios. — Ele foi até o console, digitou alguma coisa e apontou para o canto superior esquerdo da tela. — Anotei tudo isto.
Tinha anotado, sim, até o que era ininteligível. Escrevera foneticamente, com reticências para representar as pausas, e usando (sic) depois de palavras incertas.
“Metade”, escrevera ele, e “picape (sic)” e “Por que ele não vem?”.
— A maioria das anotações é de ontem — acrescentou o rapaz, movendo o cursor para a parte de baixo da tela. — Ele falou um pouco hoje de manhã. Agora, é claro, parou de falar.
Dunworthy se sentou junto da cama e pegou na mão de Badri. Estava fria como gelo, mesmo através da luva impermeável. Ele olhou para a tela com a temperatura. Badri não tinha mais febre, nem aquele rubor escuro que viera com ela. Parecia ter perdido toda a cor. Sua pele estava da cor de cinza molhada.
— Badri — chamou. — Aqui é Dunworthy. Preciso fazer algumas perguntas.
Não houve resposta. Uma mão, frouxa e fria, continuou na mão enluvada de Dunworthy, e a outra prosseguiu se movendo, como se tentasse apanhar alguma coisa sobre o cobertor.
— A dra. Ahrens acha que você pode ter contraído a doença de algum animal, um pato selvagem, um ganso.
O enfermeiro olhou com interesse para Dunworthy, e depois de novo para Badri, como se tivesse a expectativa de testemunhar outro fato inédito da medicina.
— Badri, você se lembra? Você teve algum tipo de contato com patos ou gansos na semana anterior ao salto?
A mão de Badri se moveu. Dunworthy franziu a testa enquanto observava, pensando se seria uma tentativa de comunicar alguma coisa. Porém, quando ele a soltou um pouco, aqueles dedos magros e descarnados apenas reagiram como que tentando se desvencilhar dos seus dedos, da sua palma, do seu pulso.
Dunworthy sentiu-se envergonhado, de repente, de estar ali maltratando Badri com perguntas, quando o rapaz já não ouvia, já não percebia que havia alguém ali, já não se importava com nada.
Ele pousou a mão de Badri de volta sobre o cobertor.
— Descanse — disse ele, dando umas pancadinhas de leve. — Procure descansar.
— Duvido que ele esteja escutando — falou o enfermeiro. — Quando chegam a esse estágio não estão nada lúcidos.
— Sim, eu sei — concordou Dunworthy.
Mas continuou sentado ali.
O enfermeiro ajustou um tubo de soro, examinou-o com nervosismo e ajustou de novo. Olhou ansioso para Badri, ajustou o soro pela terceira vez e enfim saiu. Dunworthy ficou sentado, olhando os dedos de Badri, que pareciam estar pegando placidamente coisas minúsculas em cima do cobertor, ou tentando erguer a coberta mas sem conseguir segurá-la. Tentando se prender a algo. De vez em quando, ele murmurava alguma coisa, baixo demais para se ouvir. Dunworthy fez um afago leve no braço dele, de cima a baixo. Depois de algum tempo, os gestos de Badri ficaram mais vagarosos, embora Dunworthy não soubesse se isso era um bom ou um mau sinal.
— Cemitério — disse Badri.
— Não — falou Dunworthy. — Não.
Ficou mais tempo ali, fazendo afago no braço de Badri, mas depois de algum tempo achou que isso o deixava mais agitado. Levantou-se.
— Tente descansar — disse mais uma vez, e saiu.
O enfermeiro estava sentado à mesinha, lendo um exemplar de Cuidados com pacientes.
— Por favor, me avise quando… — começou Dunworthy, e então percebeu que não conseguiria terminar a frase. — Me avise. Por favor.
— Sim, senhor — concordou o rapaz. — Onde vai estar?
Ele remexeu nos bolsos à procura de um pedaço de papel para anotar e acabou encontrando a lista dos suprimentos em falta. Tinha quase esquecido.
— Estou no Balliol — respondeu. — Mande um mensageiro.
Voltou para o Setor de Suprimentos.
— Isso aqui não foi preenchido completamente — disse a velha, num tom seco, quando Dunworthy entregou o formulário assinado.
— Já consegui a assinatura — respondeu Dunworthy, entregando a lista. — Pode preencher o resto.
Ela examinou a lista com desaprovação.
— Não temos máscaras nem temps. — Ela pegou um pequeno frasco de aspirinas. — Também estamos sem sintamicina e sem AZL.
O frasco de aspirina continha talvez vinte comprimidos. Ele guardou o medicamento no bolso e saiu para a High, até encontrar uma farmácia. Um pequeno grupo de manifestantes fincava pé sob a chuva, erguendo cartazes onde se liam NãO É JUSTO e PREÇOS ABUSIVOS. Dunworthy entrou. No estabelecimento também as máscaras haviam acabado e os temps e as aspirinas estavam a preços escandalosos. Ele comprou tudo que havia.
Passou a noite distribuindo os medicamentos e examinando o gráfico sobre Badri, em busca de algum vestígio sobre a origem do vírus. Badri realizara um salto presencial para Século XIX, na Hungria, no dia 10 de dezembro, mas o gráfico não dizia em que ponto da Hungria, e William, flertando com as mulheres detidas que ainda estavam de pé, também não sabia.
Os telefones estavam fora de cogitação outra vez, e continuavam assim pela manhã, quando Dunworthy tentou ligar para se inteirar do estado de Badri. Nem sequer obteve sinal, mas assim que pousou o receptor o telefone tocou.
Era Andrews. Dunworthy ouvia com muita dificuldade a voz dele por entre a estática.
— Desculpa ter demorado tanto — disse ele, e mais alguma coisa que se perdeu inteiramente no ruído.
— Não estou ouvindo bem — avisou Dunworthy.
— Falei que tive dificuldade em completar as ligações. Os telefones… — Mais estática. — Fiz a checagem dos parâmetros. Usei três diferentes latitudes e longitudes, e triangulei o… — O restante se perdeu.
— Qual era o desvio máximo? — gritou Dunworthy no fone.
A linha ficou clara por alguns instantes.
— Seis dias. Isso foi com uma latitude e longitude de… — Mais estática. — Trabalhei com algumas probabilidades, e o máximo possível para quaisquer latitudes e longitudes numa circunferência de cinquenta quilômetros ainda era de cinco anos e…
A estática voltou, e a linha ficou muda. Dunworthy pousou o receptor. Devia estar se sentindo mais aliviado, mas não era capaz de experimentar nenhuma emoção. Gilchrist não pretendia abrir a rede em 6 de janeiro, estivesse Kivrin no reencontro ou não. Ele estendeu a mão ao fone, pensando em ligar para o Escritório de Turismo da Escócia, mas antes disso o aparelho começou a tocar.
— Aqui é Dunworthy — disse ele, apertando os olhos para ver melhor, mas a tela continuava completamente chuviscada.
— Quem? — perguntou uma voz de mulher que parecia rouca ou sonolenta. — Desculpe… — murmurou ela. — Eu ia ligar para… — disse algo pastoso demais para se entender, e a tela apagou.
Ele esperou para ver se tocava de novo e depois foi para a rua, em direção ao Salvin. O sino da Magdalen Tower estava dando as horas. Soava como uma badalada de funeral no meio daquela chuva incessante. A sra. Piantini, ao que parece, também tinha escutado o sino: estava parada no meio do pátio, de camisola, erguendo solenemente os braços, acompanhando um ritmo que só ela escutava.
— E um, e dois, e agora, e depois — dizia ela, enquanto Dunworthy tentava conduzi-la para dentro.
Finch apareceu com o semblante preocupado.
— São os sinos, senhor — comentou ele, segurando o outro braço da mulher. — Deixam ela perturbada. Acho que deveriam parar de tocar, levando em conta as circunstâncias.
A sra. Piantini desvencilhou-se da mão de Dunworthy.
— Cada pessoa deve tocar o seu sino sem interrupções — esbravejou ela.
— Concordo plenamente — disse Finch, agarrando o braço dela com toda força, como se fosse a corda de um sino, e conduzindo-a de volta ao seu colchão.
Colin apareceu deslizando pelo piso, ensopado como sempre e quase roxo de frio. Seu casaco estava aberto, e o cachecol cinza que ganhara de Mary pendia inútil em volta do pescoço. Ele estendeu um papel com recado a Dunworthy.
— É da pessoa que está cuidando de Badri — disse ele, abrindo um pacote dos tabletes de sabão e jogando na boca um chiclete de cor azul-clara.
Como Colin, o bilhete também estava molhado. Dunworthy leu: “Badri está chamando pelo senhor”, embora a palavra Badri estivesse tão borrada que ele mal distinguia além do “B”.
— O pessoal da enfermagem comentou se o estado de Badri piorou?
— Não, só passaram o recado. E a tia-avó Mary disse que, quando o senhor for lá, precisa tomar o seu reforço. Avisou que não sabe quando o análogo vai chegar.
Dunworthy ajudou Finch, que lutava para acomodar a sra. Piantini no leito, e foi às pressas para a Emergência, onde subiu para a Ala de Isolamento. Havia uma nova enfermeira, agora uma mulher de meia-idade, com pés inchados. Estava sentada com as pernas estendidas perto dos monitores, assistindo a um vidder de bolso, mas se levantou assim que ele apareceu.
— Por acaso é o sr. Dunworthy? — perguntou ela, obstruindo o caminho. — A dra. Ahrens deixou instruções para que o senhor a procurasse imediatamente lá embaixo.
Falou isso numa voz calma, até simpática, e ele pensou: Essa enfermeira está tentando me poupar. Ela não quer que eu entre e veja o que há lá dentro. Quer que Mary me conte primeiro.
— É Badri, não é isso? Ele morreu.
Ela pareceu surpresa de verdade.
— Oh, não, ele está bem melhor na manhã de hoje. Não recebeu meu recado? Ele está conseguindo se sentar.
— Se sentar? — repetiu ele, fitando-a, imaginando se ela também estaria delirando devido à febre.
— Ele ainda está muito debilitado, é claro, mas sua temperatura está normal e ele está lúcido. O senhor precisa encontrar a dra. Ahrens na Emergência. Ela disse que é urgente.
Ele olhou ansioso para a porta fechada do quarto de Badri.
— Diga a Badri que subirei para falar com ele assim que puder — falou ele, apressando-se na direção da porta.
Quase esbarrou em Colin, que ao que tudo indica acabava de chegar.
— O que está fazendo aqui? — perguntou ele. — Algum dos técnicos telefonou?
— Fui escalado para tomar conta do senhor — respondeu Colin. — Minha tia-avó disse que não confia que o senhor vá tomar o seu reforço. Preciso levá-lo para fazer isso.
— Não posso. Tenho um assunto urgente para tratar na Emergência — avisou ele, dando passadas largas ao longo do corredor.
Colin começou a correr para acompanhá-lo.
— Bem, depois do assunto urgente, então. Ela pediu que eu não deixasse o senhor sair do hospital sem fazer isso.
Mary estava à espera deles quando a porta do elevador se abriu.
— Estamos com mais um caso — disse, com expressão sombria. — É Montoya. — Ela começou a caminhar na direção da Emergência. — Estão trazendo ela de Witney.
— Montoya? — repetiu Dunworthy. — Impossível. Ela estava lá na escavação, sozinha.
Ela empurrou a porta de vaivém.
— Aparentemente, não.
— Mas ela disse que… Tem certeza de que é o vírus? Ela estava trabalhando em plena chuva. Talvez seja outra doença.
Mary abanou a cabeça.
— A equipe de paramédicos fez um teste preliminar. É o vírus. — Ela parou na mesa de recepção e perguntou ao administrador-geral: — Já chegaram?
Ele abanou a cabeça:
— Não. Acabaram de entrar no perímetro de quarentena.
Mary foi até a porta e olhou para fora, como se não tivesse acreditado naquelas palavras.
— Recebemos um telefonema dela hoje de manhã, muito confusa — prosseguiu, voltando-se para Dunworthy e para o menino. — Telefonei para o hospital de Chipping Norton, que é a unidade de saúde mais próxima, e pedi que mandassem uma ambulância, mas eles disseram que oficialmente a escavação está sob quarentena. Eu também não poderia mandar alguém daqui buscá-la. Por fim, consegui convencer o SNS para dar a autorização para uma ambulância.— Ela espiou pela porta mais uma vez. — Quando é que ela foi para a escavação?
— Eu… — Dunworthy fez um esforço para lembrar. Ela telefonara para perguntar sobre agências de pesca na Escócia no dia de Natal, depois ligara de novo na mesma tarde para dizer “não se incomode” porque resolvera falsificar a assinatura de Basingame. — Dia de Natal — respondeu. — Se o escritório do SNS estava aberto nesse dia. Ou então no dia 26. Não, dia 26 foi feriado. Dia 27, então. E ela não viu ninguém de lá até aqui.
— Como sabe?
— Quando nos falamos, ela estava se queixando de que não poderia dar conta da escavação sozinha. Queria que eu ligasse para o SNS para pedir a ajuda de alguns voluntários.
— Há quanto tempo foi isso?
— Dois… não, três dias atrás — disse ele, franzindo a testa. Os dias pareciam se emendar uns nos outros por causa das noites sem dormir.
— Será que ela pode ter encontrado alguém na fazenda disposto a ajudar, depois que falou com você?
— Não fica ninguém lá durante o inverno.
— Pelo que me lembro, Montoya é do tipo que recrutaria qualquer um que passasse por perto. Talvez ela tenha sido ajudada por alguém de passagem.
— Ela disse que não havia ninguém nos arredores. É um lugar muito isolado.
— Bem, ela deve ter encontrado alguém. Ela está há sete dias na escavação, e o período de incubação é de apenas doze a quarenta e oito horas.
— Chegou a ambulância! — exclamou Colin.
Mary ajudou a abrir as portas traseiras, com Dunworthy e Colin nos seus calcanhares. Dois enfermeiros com máscaras puxaram para fora uma padiola e a colocaram numa maca com rodas. Dunworthy reconheceu um deles. Era um dos paramédicos que haviam trazido Badri.
Colin estava curvado sobre a maca, olhando com interesse para Montoya, que estava deitada de olhos fechados. Sua cabeça estava apoiada em travesseiros, e o rosto tinha a mesma coloração vermelho-escura que ele vira no rosto da sra. Breen. Colin inclinou-se um pouco mais, e Montoya tossiu diretamente no rosto dele.
Dunworthy agarrou a gola do casaco de Colin e arrastou o garoto para longe.
— Saia daí. Está querendo pegar o vírus? E por que não está usando sua máscara?
— Acabou.
— Nem era para você estar aqui. Quero que volte agora mesmo para o Balliol e…
— Não posso. Estou aqui para me certificar de que o senhor vai tomar o seu reforço.
— Então se sente ali — ordenou Dunworthy, indicando uma cadeira na área de recepção. — E fique longe dos pacientes.
— É melhor o senhor não tentar bancar o espertinho para cima de mim — avisou Colin em tom ameaçador, mas se sentou, puxou a goma de mascar da boca e limpou na manga do casaco.
Dunworthy voltou até a padiola.
— Lupe — estava dizendo Mary —, precisamos fazer algumas perguntas. Quando adoeceu?
— Hoje de manhã — respondeu Montoya. Sua voz estava rouca, e então Dunworthy se deu conta de que devia ter sido ela a pessoa que telefonara. — Tive uma dor de cabeça terrível ontem à noite… — Ela ergueu uma mão suja de lama e correu o dedo ao longo das sobrancelhas. — Mas pensei que era por estar forçando demais a vista.
— Quem estava com você na escavação?
— Ninguém — respondeu Montoya, parecendo surpreendida.
— E quanto a pacotes? Alguém de Witney mandou alguma encomenda?
Ela começou a abanar a cabeça negativamente mas, como isso pareceu lhe causar dor, ficou imóvel.
— Não — disse. — Levei tudo comigo.
— E não havia ninguém para ajudar você no sítio arqueológico?
— Ninguém. Pedi ao sr. Dunworthy para dizer ao SNS que eu precisava de ajuda, mas ele não disse. — Mary virou-se para olhar para Dunworthy, e Montoya acompanhou seu olhar. — Estão mandando alguém? — perguntou a ele. — Nunca conseguirão encontrá-lo, se não mandarem logo alguém para lá.
— Encontrar o quê? — quis saber ele, imaginando se a resposta de Montoya merecia fé ou se já era um quase delírio.
— A escavação já está pela metade de água a esta altura.
— Mas encontrar o quê?
— O recorde de Kivrin.
Ele viu num lampejo súbito a imagem de Montoya de pé junto ao túmulo, remexendo numa caixa lamacenta cheia de pequenos ossos. Ossos do pulso. Aquilo eram ossos de um pulso, e ela estivera examinando suas cristas irregulares, à procura de um esporão de osso que na realidade se revelaria como uma peça de um equipamento de gravação. O recorde de Kivrin.
— Ainda não cavei todas as tumbas — prosseguiu Montoya. — E lá continua chovendo. Precisam mandar alguém o quanto antes.
— Tumbas? — repetiu Mary, olhando para Dunworthy sem compreender. — Do que é que ela está falando?
— Ela está escavando no sítio de uma igreja medieval, procurando o corpo de Kivrin — respondeu ele, com amargura. — Procurando o recorde que foi implantado no pulso dela.
Mary não estava escutando.
— Quero os gráficos de todos os contatos — falou ela para o administrador. Virou-se para Dunworthy. — Badri esteve lá na escavação, não é verdade?
— Esteve.
— Quando?
— Dias 18 e 19 — respondeu ele.
— No local da igreja?
— Isso. Ele e Montoya abriram juntos a tumba de um cavaleiro.
— Uma tumba — repetiu Mary, como se isso fosse a resposta a uma pergunta. Ela se inclinou sobre Montoya. — De que época era essa tumba?
— Era de 1318 — disse Montoya.
— Você trabalhou na tumba durante esta semana? — perguntou Mary.
Montoya fez menção de assentir, mas parou.
— Fico tão tonta quando mexo a cabeça — explicou, queixosa. — Eu precisei mover o esqueleto. A água estava entrando na tumba.
— Em que dia você mexeu na tumba?
Montoya franziu a testa.
— Não lembro. No dia antes dos sinos, acho.
— Dia 31 — disse Dunworthy, inclinando-se sobre ela. — Voltou a mexer lá desde então?
Ela tentou abanar a cabeça outra vez.
— Os gráficos estão aqui — avisou o administrador.
Mary caminhou depressa para a mesa e tirou o teclado das mãos dele. Pressionou as teclas, olhou o monitor, voltou a escrever.
— O que é? — indagou Dunworthy.
— Quais são as condições lá na tal igreja? — perguntou Mary.
— Condições? — repetiu ele, sem entender. — Está tudo coberto de lama. Montoya cobriu o pátio da igreja com lonas, mas ainda está caindo muita chuva lá dentro.
— Faz calor?
— Faz. Ela se queixou de que estava muito abafado por lá. Havia vários aquecedores elétricos ligados. O que está acontecendo?
Ela deslizou o dedo pela tela, à procura de algo.
— Vírus são organismos excepcionalmente resistentes — começou ela. — Podem ficar adormecidos por longos períodos e depois despertar. Já foram encontrados vírus vivos em múmias egípcias. — O dedo dela se deteve em uma data. — Foi o que eu pensei. Badri passou quatro dias na tumba antes de voltar com o vírus.
Ela se virou para o administrador.
— Quero que enviem uma equipe para a escavação agora mesmo — ordenou ela. — Peguem autorização com o SNS. Digam a eles que talvez tenhamos encontrado a origem do vírus. — Ela digitou algo em outra tela, correu o dedo por outra lista de nomes, digitou mais alguma coisa e se recostou, olhando o monitor. — Tínhamos quatro contatos primários sem nenhuma conexão positiva com Badri. Dois estiveram na escavação quatro dias antes de adoecer. Outro esteve lá três dias antes.
— O vírus está na escavação? — perguntou Dunworthy.
— Está. — Ela deu um sorriso pesaroso. — Receio que no fim das contas Gilchrist estava com a razão. O vírus veio mesmo do passado. Ele saiu da tumba do cavaleiro.
— Kivrin esteve na escavação — disse ele.
Agora foi Mary quem pareceu não compreender.
— Quando?
— Na tarde do domingo anterior ao salto. Dia 19.
— Tem certeza?
— Ela me disse antes de partir. Queria que as mãos parecessem autenticamente machucadas.
— Oh, meu Deus — falou Mary. — Se Kivrin foi exposta ao vírus quatro dias antes do salto, ela não tinha recebido ainda o reforço de células-T. O vírus pode ter obtido uma chance de se reproduzir e invadir o sistema imunológico dela. Kivrin pode ter adoecido.
Dunworthy agarrou-lhe o braço.
— Mas isso não pode ter acontecido. A rede não permitiria que ela passasse se havia alguma chance de infectar os contemps.
— Ela não teria ninguém para infectar — observou Mary. — Não se o vírus veio mesmo da tumba do cavaleiro. Não se ele morreu de fato em 1318. Os contemps já teriam sido expostos ao vírus. Já estariam imunizados. — Ela caminhou às pressas até onde estava Montoya. — Quando Kivrin foi à escavação, ela trabalhou na tumba?
— Não sei dizer — respondeu Montoya. — Eu não estava lá. Tive uma reunião com Gilchrist.
— Quem poderia saber? Quem mais estava escalado naquele dia?
— Ninguém. Todos estavam indo para suas casas no feriado.
— Como ela sabia o que deveria fazer?
— Os voluntários sempre deixam bilhetes para o próximo quando vão embora.
— Quem esteve lá naquela manhã? — perguntou Mary.
— Badri — falou Dunworthy e partiu imediatamente para a Ala de Isolamento.
Foi direto para o quarto de Badri. A enfermeira, apanhada com os pés inchados em cima da mesa, disse:
— Espere! Não pode entrar aí sem colocar as vestes de segurança! — exclamou ela, levantando-se, mas Dunworthy já tinha entrado.
Badri estava reclinado na cama, apoiado por travesseiros. Estava muito pálido, como se a doença tivesse descolorido sua pele, e bastante debilitado, mas ergueu os olhos quando Dunworthy entrou e começou a falar.
— Kivrin chegou a trabalhar na tumba do cavaleiro? — inquiriu Dunworthy.
— Kivrin? — repetiu ele, a voz fraca, quase inaudível.
A enfermeira irrompeu porta adentro.
— Sr. Dunworthy, não está autorizado a entrar aqui…
— No domingo — prosseguiu Dunworthy. — Era para você ter deixado um bilhete para ela, explicando o que deveria fazer. Você disse a Kivrin para trabalhar na tumba?
— Sr. Dunworthy, o senhor está se expondo ao vírus… — disse a enfermeira.
Mary entrou no quarto, enfiando luvas impermeáveis.
— Não pode ficar aqui sem usar as roupas de proteção, James — comentou ela.
— Euavisei ele, dra. Ahrens — falou a enfermeira — mas ele forçou a passagem e…
— Você deixou um bilhete para Kivrin, lá na escavação, dizendo que era para ela fazer alguma coisa na tumba? — insistiu Dunworthy.
Badri assentiu sem força com a cabeça.
— Ela foi exposta ao vírus — disse Dunworthy a Mary. — No domingo. Quatro dias antes de saltar.
— Oh, não — sussurrou Mary.
— O que foi? O que aconteceu? — indagou Badri, tentando se erguer da cama. — Onde está Kivrin? — Os olhos dele foram de Dunworthy até Mary. — Vocês trouxeram ela de volta, não foi? Assim que viram o que tinha acontecido? Puxaram ela de volta?
— O que foi que aconteceu? — ecoou Mary. — O que está dizendo?
— Claro que vocês trouxeram ela de volta — disse Badri. — Ela não está em 1320. Está em 1348.