O Livro do Juízo Final

Connie Willis · Capítulo 34 de 39

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O Livro do Juízo Final

Capítulo 33

 

Sepultaram Rosemund na cova que o caseiro havia aberto para ela. “Vocês vão precisar dessas covas”, dissera ele, e tinha razão. Roche e ela jamais teriam conseguido cavar aquela terra. Mal conseguiram carregar o corpo da menina para fora e cruzar o campo.

Puseram o cadáver no chão, entre as covas. Rosemund parecia inacreditavelmente magra deitada ali em sua túnica, devastada até quase nada restar. Os dedos da mão direita, ainda meio curvos com o formato da maçã que a menina soltara, não passavam de ossinhos.

— Você ouviu a confissão dela? — perguntou Roche.

— Sim — respondeu Kivrin, e teve a impressão de que dizia a verdade.

Rosemund confessara ter medo do escuro e da peste e de ficar sozinha, revelara o amor pelo pai e que sabia que nunca mais voltaria a vê-lo. Tudo que a própria Kivrin não se atrevia a confessar.

Kivrin retirou o broche que Sir Bloet dera a Rosemund e embrulhou o cadáver da menina com a capa, cobrindo-lhe a cabeça. Roche ergueu o corpo nos braços, como o de uma criança adormecida, e desceu para dentro da cova.

Teve dificuldade na hora de sair, e Kivrin precisou agarrar-lhe as mãos enormes e puxá-lo para fora. Quando começou as preces para os mortos, ele disse: “Domine, ad adjuvandum me festina”.

Kivrin olhou ansiosa para ele. Temos que ir embora daqui antes que ele também fique doente, pensou ela, que não o corrigiu. Não temos um instante a perder.

— Dormiunt in somno pacis — disse Roche, e apanhou a pá e começou a encher a cova.

Pareceu demorar uma eternidade. Kivrin revezou com ele, tentando arrancar lascas daqueles blocos de terra congelada e procurando pensar que distância conseguiriam percorrer antes do cair da noite. Não era meio-dia ainda. Se partissem logo, poderiam atravessar o Wychwood e cruzar a estrada Oxford-Bath até a Midland. Poderiam alcançar a Escócia em uma semana, perto de Invercassley ou Dornoch, lugares onde a peste jamais chegou.

— Padre Roche — disse ela, assim que ele começou a nivelar a terra, batendo com a face da pá. — Temos que ir para a Escócia.

— Escócia? — perguntou ele, como se nunca tivesse ouvido aquele nome.

— Sim — respondeu ela. — Precisamos ir embora deste lugar. Temos que pegar o burro e seguir para a Escócia.

Ele assentiu.

— Precisamos levar os sacramentos conosco. Além disso, antes de partir, preciso tocar o sino para Rosemund, para que sua alma suba em paz para o céu.

Ela quis dizer que não, que não havia tempo, que precisavam partir agora, sem perder um segundo, mas concordou.

— Vou buscar Balaam — disse.

Roche caminhou para o campanário e ela disparou rumo ao estábulo para buscar o burro, chegando antes do padre. Ela queria que saíssem logo dali, o mais depressa possível, antes que alguma coisa acontecesse, como se a peste estivesse esperando um descuido para saltar em cima dos dois, como um monstro escondido na igreja ou no lugar de fabricação de cerveja ou no celeiro.

Kivrin atravessou o pátio correndo, entrou no estábulo e puxou o burro para fora. Começou a amarrar os alforjes em cima dele.

O sino deu uma batida e depois silenciou. Kivrin se deteve, com os arreios presos na mão, aguçando os ouvidos, à espera de uma nova badalada.

Três toques para uma mulher, pensou ela, e entendeu por que o som tinha parado. Uma pancada para uma criança. Oh, Rosemund.

Ela amarrou as tiras da cilha e começou a encher os alforjes, pequenos demais para dar conta de tudo. Teria que amarrar alguns sacos por cima. Encheu um saco de pano com aveia para o burro, recolhendo-a no celeiro com as mãos e derramando boa quantidade no chão imundo. Depois atou o saco com uma corda tosca que achou pendurada na baia do pônei de Agnes. A outra ponta da corda estava presa à baia com um nó apertado que Kivrin não conseguiu desatar. No fim, teve que ir correndo à cozinha buscar uma faca e voltou, já arrastando os sacos de mantimentos que tinha separado antes.

Cortou e dividiu a corda em pedaços mais curtos, jogou longe a faca e foi até o burro, que estava tentando abrir com os dentes o saco de aveia. Amarrou este e os outros sacos com firmeza sobre o lombo do animal, usando os pedaços de corda, e depois o conduziu para o pátio aberto e dali atravessou o campo rumo à igreja.

Não avistou Roche em lugar algum. Ela ainda precisava recolher os cobertores e as velas, mas achou que devia primeiro guardar os sacramentos dentro dos alforjes. Comida, aveia, cobertores, velas. O que poderia estar esquecendo?

Roche surgiu à porta. Não carregava nada nas mãos.

— Onde estão os sacramentos? — perguntou ela.

Ele não respondeu. Por um instante, encostou-se ao umbral da porta, olhando para Kivrin com aquela mesma expressão no rosto de quando comunicara a notícia da morte do bailio. Só que já morreram todos, ponderou ela, não resta ninguém mais para morrer.

— Preciso tocar o sino — falou ele, e começou a ir na direção do campanário.

— Já tocou — observou ela. — Não há tempo para um funeral completo. Temos que partir para a Escócia. — Ela atou o burro ao portão, os dedos gelados manuseando com dificuldade aquela corda áspera, e correu atrás de Roche, agarrando-o pela manga. — O que foi?

Roche se virou para ela quase com violência, e a expressão daquele rosto encheu Kivrin de medo. Parecia um degolador, um assassino.

— Tenho que tocar o sino das vésperas — avisou ele, livrando-se rudemente da mão dela.

Oh, não, pensou Kivrin.

— É apenas meio-dia. Ainda não é a hora das vésperas — disse ela. Ele está cansado, é só isso, pensou. Nós dois estamos tão exaustos que mal conseguimos pensar direito. Ela voltou a segurá-lo pela manga. — Venha, padre. Precisamos ir agora se quisermos cruzar todo o bosque antes do anoitecer.

— Já passou da hora — insistiu ele —, e eu ainda não toquei. Lady Imeyne vai se zangar.

Oh, não, pensou ela, oh não, oh não.

— Pode deixar, eu toco o sino — comentou ela. — O senhor precisa voltar para a casa e descansar.

— Está escurecendo — observou ele, aborrecido. Abriu a boca como se fosse gritar com ela, e um grande jorro de vômito sangrento se projetou para fora, atingindo o gibão de Kivrin.

Oh não oh não oh não.

Ele olhou atônito para o gibão encharcado, e a violência desapareceu do seu rosto.

— Venha, precisa se deitar um pouco — falou ela, a mente a todo vapor. Nunca conseguiremos chegar à casa grande.

— Estou doente? — perguntou ele, ainda olhando a roupa dela, manchada de sangue.

— Não — respondeu ela. — Só está cansado e precisa se deitar um pouco.

Ela o conduziu para a igreja. A certa altura, o padre tropeçou, e ela pensou, Se ele cair, jamais conseguirei levantá-lo. Usando as costas para manter aberta a pesada porta, Kivrin ajudou Roche a entrar e a se sentar no chão, apoiando-se à parede.

— Acho que todo este trabalho me cansou — disse ele, apoiando a cabeça nas pedras da parede. — Acho que vou dormir um pouco.

— Isso, durma — concordou Kivrin.

Assim que ele fechou os olhos, ela correu de volta à casa grande para buscar cobertores e um almofadão, para preparar um catre. Quando chegou carregando tudo, ele não estava mais lá.

— Padre Roche? — gritou ela, tentando enxergar no interior escuro da nave. — Onde o senhor está?

Não houve resposta. Ela correu para fora de novo, ainda prendendo as cobertas contra o peito, mas ele também não estava no campanário nem no pátio por trás da igreja. Era impossível que tivesse ido para a casa. Ela voltou correndo à igreja e percorreu toda a nave e lá estava ele, de joelhos diante da estátua de santa Catarina.

— O senhor precisa se deitar — disse ela, espalhando os cobertores sobre o chão.

Ele deitou-se, obediente, e ela pôs o almofadão embaixo de sua cabeça.

— É a peste, não é? — indagou o padre, erguendo os olhos para ela.

— Não — respondeu ela, puxando as cobertas sobre o corpo dele. — O senhor está cansado, só isso. Procure dormir.

Ele virou-se de lado, dando as costas para ela, mas poucos minutos depois se sentou, a expressão assassina de volta ao rosto, e jogou as cobertas para um lado.

— Tenho que tocar as vésperas — avisou, em tom de acusação, e Kivrin quase não conseguiu impedir que ele ficasse de pé. Quando ele voltou a cochilar, ela rasgou algumas tiras na borda já dilacerada do seu gibão e amarrou as mãos do padre ao biombo.

— Não faça isso com ele — Kivrin murmurava sem parar e sem perceber. — Por favor, por favor, não faça isso com ele.

O padre abriu os olhos.

— Deus com certeza ouvirá uma prece calorosa assim — observou ele, e mergulhou num sono mais profundo, mais tranquilo.

Kivrin saiu correndo e descarregou e desamarrou o burro. Recolheu os sacos de comida e a lamparina e trouxe tudo para dentro da igreja. O padre ainda dormia. Ela correu de novo para fora, cruzou o pátio e puxou um balde de água do poço.

Aparentemente Roche não tinha despertado, mas quando Kivrin torceu um trapo de pano rasgado da toalha do altar e molhou a testa dele, o padre disse, sem abrir os olhos:

— Tive medo de que você tivesse ido embora.

Ela limpou a crosta de sangue seco em sua boca.

— Eu não posso ir para a Escócia sem o senhor.

— Não era para a Escócia — disse ele. — Para o céu.

Ela comeu um pouco do pão velho e do queijo, e tentou tirar um cochilo, mas fazia frio demais. Quando Roche mudava de posição e murmurava algo durante o sono, ela podia ver o vapor de sua respiração.

Acendeu uma fogueira, depois de arrancar as estacas da cerca de uma cabana próxima e de empilhá-las diante do biombo, mas aquilo encheu a igreja de fumaça, mesmo com as portas abertas. Roche tossiu e vomitou de novo. Desta vez era quase só sangue.

Ela apagou o fogo e, em duas viagens apressadas, trouxe todas as peles e cobertores que pôde encontrar, preparando com eles uma espécie de ninho.

A febre de Roche aumentou durante a noite. Ele chutou as cobertas e esbravejou contra Kivrin, a maior parte do tempo com palavras que ela não compreendia.

— Vá, maldita! — vociferou ele a certa altura, e repetiu várias vezes, furioso: — Está ficando escuro!

Kivrin trouxe as velas do altar e de cima do biombo, e as colocou diante da estátua de santa Catarina. Quando os protestos de Roche contra a escuridão ficaram mais fortes, ela acendeu todas as velas e voltou a cobrir o doente, o que pareceu ajudar.

A febre dele subiu mais um pouco, e os dentes chocalhavam apesar das pilhas de cobertas sobre o corpo. Kivrin teve a impressão de que a pele de Roche começava a escurecer, os vasos sanguíneos se rompendo e formando uma hemorragia subcutânea. Não faça isso. Por favor.

Pela manhã, ele estava melhor. A pele afinal não estava escura: aquela aparência manchada fora apenas uma ilusão criada pela luz bruxuleante das velas. A febre baixara um pouco, e ele dormiu profundamente durante toda a manhã e a maior parte da tarde, sem voltar a vomitar. Ela foi buscar mais água antes que escurecesse.

Algumas pessoas se recuperavam espontaneamente e outras eram salvas pelas orações. Nem todos os infectados morriam. A taxa de mortalidade da peste pneumônica era de apenas noventa por cento.

Ele estava acordado quando ela entrou, iluminado por um facho de lamparina enfumaçada. Ela se ajoelhou e levou um copo d’água à boca dele, segurando-lhe a cabeça para que pudesse beber.

— É a doença azul — observou ele quando Kivrin abaixou-lhe a cabeça.

— O senhor não vai morrer — disse ela. Noventa por cento. Noventa por cento.

— Precisa tomar minha confissão.

Não. Ele não podia morrer. Ela ficaria ali sozinha. Ela abanou a cabeça, sem poder falar.

— Pai, perdoai-me, porque eu pequei — começou ele, em latim.

Ele não havia pecado. Cuidara dos doentes, abençoara os moribundos, sepultara os mortos. Era Deus quem devia pedir perdão.

— … em pensamentos, em palavras, em atos e por omissão. Eu estava irritado com Lady Imeyne. Eu gritei com Maisry. — Ele engoliu com esforço. — Eu tive pensamentos carnais com uma santa do Senhor.

Pensamentos carnais.

— Humildemente peço perdão a Deus, e a absolvição a Vós, Pai, se me julgardes merecedor.

Não há nada a perdoar, era o que ela gostaria de poder dizer. Seus pecados não são pecados. Pensamentos carnais. Nós tomamos conta de Rosemund durante as crises dela, protegemos o vilarejo na chegada de um menino indefeso e enterramos um bebê de seis meses. É o fim do mundo. Sem dúvida o senhor tem direito a alguns pensamentos carnais.

Ela ergueu a mão inutilmente, incapaz de dizer as palavras da absolvição, mas ele não pareceu notar.

— Oh, meu Deus — prosseguiu ele —, meu coração está tão triste porque Vos ofendi.

Porque Vos ofendi. O senhor é um santo de Deus, ela gostaria de dizer a ele. Aliás, onde diabos está Deus agora? Por que não vem salvá-lo?

Não havia mais óleos. Kivrin molhou as pontas dos dedos no balde e fez o sinal da cruz sobre os olhos, os ouvidos, o nariz, a boca e as mãos dele, aquelas mãos que tinham segurado as suas quando ela estava à beira da morte.

— Quid quid deliquisti — disse Roche, e ela mergulhou outra vez a mão na água e traçou a cruz nas solas dos pés dele.

— Libera nos, quaesumus, Domine — ele anunciou.

— Ab omnibus malis — disse Kivrin — praeteritis, praesentibus, et futuris.

Livrai-nos, Deus, nosso Senhor, de todos os males passados, presentes e futuros.

— Perducat te ad vitam aeternum — murmurou ele.

E que venha a nós a vida eterna.

— Amém — finalizou Kivrin, inclinando-se para aparar o sangue que escorria pela boca de Roche.

Ele vomitou durante o resto da noite e a maior parte do dia seguinte. Depois, mergulhou na inconsciência até a tarde, respirando de modo ofegante e irregular. Kivrin sentou ao seu lado, molhando com água a testa escaldante.

— Não morra — pediu ela, nas vezes em que Roche engasgou, antes de voltar a respirar com dificuldade. — Não morra — repetiu, com delicadeza. — O que vou fazer sem o senhor? Vou ficar aqui sozinha.

— Você não deve ficar aqui — avisou ele, abrindo um pouquinho os olhos. Estavam vermelhos e inchados.

— Pensei que estivesse dormindo — observou ela, num tom de lamento. — Não quis acordar o senhor.

— Você precisa voltar para o céu — disse ele. — E rezar para minha alma no purgatório, para que meu tempo lá seja mais curto.

Purgatório. Como se Deus fosse fazê-lo sofrer ainda mais do que já estava sofrendo.

— O senhor não vai precisar das minhas orações — exprimiu ela.

— Você precisa voltar para o lugar de onde veio — falou o padre, e sua mão se ergueu, oscilando diante do rosto, como se ele quisesse desviar uma pancada.

Kivrin agarrou e segurou a mão dele, mas com delicadeza, para não machucar a pele, e depois a encostou no rosto.

Você precisa voltar para o lugar de onde veio. Eu bem que queria, pensou Kivrin, perguntando-se por quanto tempo teriam mantido o salto aberto antes de desistir dela. O sr. Dunworthy não deixaria que fizessem isso enquanto ainda restasse uma esperança. Mas não resta, pensou ela. Eu não estou em 1320. Estou aqui, no fim do mundo.

— Não posso voltar — revelou ela. — Não sei o caminho.

— Precisa fazer um esforço e lembrar — argumentou Roche, soltando a mão e gesticulando com ela. — Agnes, me passe a cruz.

Estava delirando. Kivrin, que se encontrava sentada, ficou de joelhos, temendo que ele tentasse ficar de pé outra vez.

— Onde você caiu — prosseguiu ele, segurando com a mão o cotovelo do braço que gesticulava para ter apoio, e Kivrin percebeu que ele estava tentando apontar numa direção. — Passe a cruz. A encruzilhada.

Passar a encruzilhada?

— O que há depois da encruzilhada? — perguntou ela.

— O lugar onde eu encontrei você quando caiu do céu — respondeu ele, e deixou os braços caírem.

— Pensei que Gawyn tinha me encontrado — disse ela.

— Sim — concordou Roche, como se não visse contradição no que ela dizia. — Encontrei ele na estrada quando eu estava trazendo você para a casa grande.

Ele encontrara Gawyn na estrada.

— O lugar onde Agnes caiu — continuou ele, tentando ajudar Kivrin a lembrar. — Quando fomos buscar o azevinho.

Por que o senhor não me disse quando estávamos lá?, pensou Kivrin, mas já sabia a resposta. Ele estava atarefado com o burro, que empacou na crista da colina e se recusava a avançar mais, porque tinha visto o salto alguns dias antes.

Então Kivrin compreendeu que Roche havia se inclinado sobre ela, na clareira, olhando-a de cima para baixo quando ela ainda estava caída, cobrindo o rosto com o braço. Eu ouvi ele, pensou Kivrin. E vi a pegada.

— Você tem que voltar para aquele lugar, e depois para o céu — sussurrou ele e fechou os olhos.

Ele presenciara a chegada dela durante o salto, contemplara Kivrin enquanto estava caída com o braço cobrindo o rosto e a pusera em cima do burro quando percebeu que ela estava doente. E ela nunca desconfiara, nem mesmo quando o viu pela primeira vez na igreja, nem mesmo quando Agnes mencionou que o padre pensava que ela era uma santa.

Tudo porque Gawyn dissera que a tinha encontrado. Gawyn, que gostava de contar vantagem e acima de tudo queria impressionar Lady Eliwys. “Eu achei e trouxe você para cá”, dissera ele, que talvez nem visse isso como mentira. O padre do vilarejo era alguém sem importância alguma, afinal. E, durante todo aquele tempo, quando Rosemund estava doente e Gawyn partira para Bath e o local do salto fora aberto e depois fechado outra vez, Roche sabia exatamente onde era.

— Não precisa esperar por mim — prosseguiu ele. — Sem dúvida estão à sua espera.

— Pssst — fez ela. — Tente dormir.

Ele mergulhou de novo num sono turbulento, as mãos ainda se movendo, inquietas, tentando apontar alguma coisa, tentando beliscar as cobertas. Empurrou a coberta para o lado, e sua mão desceu até a virilha. Pobre homem, pensou Kivrin, não vai ser poupado de nenhuma humilhação.

Ela pôs as mãos dele de volta sobre o peito e o cobriu, mas Roche voltou a afastar as cobertas e puxou a barra da túnica por cima dos culotes. Enfiou a mão ali, estremeceu imediatamente e puxou o braço, e algo naquele movimento fez Kivrin se lembrar de Rosemund.

Ela franziu a testa. Ele havia vomitado sangue. Isso e o estágio da doença a levaram a pensar que ele estava com a peste pneumônica, até porque ela não tinha visto nenhum bulbo embaixo dos braços dele quando tirou seu casaco. Kivrin puxou para o lado a túnica dele, expondo por baixo as ceroulas grosseiramente tecidas. Eram apertadas no meio e presas à traseira da alva. Jamais conseguiria tirá-las sem erguer o corpo dele, e havia tanto pano ali que ela não conseguia enxergar nada.

Ela pousou a mão muito de leve na coxa dele, lembrando o quanto o braço de Rosemund ficara sensível. Ele esboçou um recuo mas não acordou, e ela enfiou a mão tocando o tecido por dentro. Estava muito quente. “Perdão”, murmurou ela, e enfiou a mão até a virilha.

Ele gritou e fez um movimento convulsivo, erguendo os joelhos bruscamente, mas Kivrin já havia se afastado, pondo a mão sobre a boca. O bulbo era gigantesco, quente como água fervente ao toque dos dedos. Deveria ter sido lancetado muitas horas atrás.

Roche não acordou, mesmo tendo gritado. Seu rosto estava manchado, e sua respiração era regular mas ruidosa. Os movimentos espasmódicos tinham mais uma vez afastado as cobertas. Kivrin voltou a cobri-lo. Os joelhos do padre se ergueram, mas já não com tanta força, e ela aproximou mais outros cobertores em volta dele e depois pegou a última vela em cima do biombo e colocou na lamparina e a acendeu usando uma das velas de santa Catarina.

— Volto num instante — avisou ela, e cruzou a extensão da nave, saindo da igreja.

A luminosidade lá fora levou Kivrin a piscar os olhos, embora já fosse quase noite. O céu estava nublado, mas soprava pouco vento, e a temperatura parecia mais quente do que dentro da igreja. Ela atravessou o relvado correndo, protegendo com a mão a face aberta da lamparina.

No estábulo, havia uma faca bem afiada, que ela usara para dividir a corda quando estava fazendo os preparativos para a viagem. Era preciso esterilizá-la antes de cortar o bulbo. Precisava sarjar aquele nódulo inchado antes que estourasse dentro do corpo. Quando os bulbos surgiam na virilha, estavam perigosamente próximos da artéria femoral. Mesmo que Roche não sangrasse até a morte logo após a cisão, todo aquele veneno iria direto para sua corrente sanguínea. Aquele bulbo deveria ter sido lancetado muitas horas atrás.

Ela cruzou correndo o espaço que separava a pocilga vazia do celeiro, e entrou no pátio. A porta do estábulo estava aberta, e Kivrin ouviu que havia alguém lá dentro. Seu coração deu um pulo.

— Quem está aí? — perguntou, erguendo a lamparina.

A vaca do caseiro estava encostada numa das baias, comendo a aveia derramada no chão. Ergueu a cabeça, olhou para Kivrin, e veio bamboleando na direção dela.

— Não tenho tempo agora — disse Kivrin.

Apanhou a faca, que estava jogada sobre um rolo de cordas e correu para fora. A vaca a seguiu, trotando desajeitadamente devido ao úbere inchado e cheio de leite, e soltando mugidos lamentosos.

— Vá embora! — gritou Kivrin, quase em lágrimas. — Preciso ajudar Roche, senão ele vai morrer.

Olhou para a faca. Estava imunda. Quando achou o objeto na cozinha, já estava sujo, e Kivrin o largara mais de uma vez em cima do estrume e da sujeira no chão do estábulo, enquanto cortava as cordas.

Foi até o poço e apanhou o balde. Não havia mais que uma gota de água no fundo, com uma fina camada de gelo por cima. A água não dava sequer para cobrir a faca, e acender um fogo para esterilizá-la levaria uma eternidade. Não havia tempo. Talvez o bulbo já tivesse se rompido. Ela precisava de álcool, mas tinham usado todo o vinho ao lancetar bulbos e dar sacramentos aos moribundos. Pensou na garrafa do secretário, no pavilhão de Rosemund.

A vaca emparelhou e esbarrou nela.

— Não! — exclamou Kivrin com firmeza, e empurrou a porta da casa grande, erguendo a lamparina.

Estava escuro na antessala, mas um pouco de luminosidade se filtrava para dentro do salão através das janelas estreitas, formando longos e fumacentos fachos de uma luz pálida, que pousava sobre o chão frio e a grande mesa e o saco de maçãs que Kivrin havia derramado.

Os ratos não correram. Assim que Kivrin entrou, olharam para ela com as orelhinhas pretas fremindo e logo voltaram a atacar as maçãs. Havia quase uma dúzia deles em cima da mesa, e um estava plantado sobre o banquinho de três pernas de Agnes, as patinhas erguidas diante do focinho, como se estivesse rezando.

Ela pousou a lamparina no chão.

— Fora! — exclamou.

Os ratos na mesa nem sequer ergueram a cabeça. O que parecia estar rezando a encarou, por entre as patinhas encolhidas, um olhar frio, interrogativo, como se ela fosse uma intrusa.

— Fora daqui! — gritou Kivrin, e correu sobre os roedores.

Eles continuaram ali. Dois correram para trás do saleiro, e outro largou a maçã que estava segurando, produzindo um baque surdo sobre a mesa. A fruta rolou e acabou caindo sobre o chão coberto de juncos.

Kivrin ergueu a faca.

— Fora! — Cravou com força a faca na mesa, e os ratos se espalharam. — Daqui! — Ergueu a faca de novo. Varreu com o braço as maçãs em cima da mesa, jogando as frutas no chão. Os roedores pularam e rolaram por entre os juncos. Surpreso, ou assustado, o rato que estava no banco de Agnes correu diretamente para Kivrin. — Fo-ra-da-qui! — Ela atirou a faca na direção dele, que deu meia-volta para baixo do banco e desapareceu correndo.

— Saiam todos daqui! — berrou ela, e enterrou o rosto nas mãos.

— Muuuuu — mugiu a vaca, já na antessala.

— É uma doença — sussurrou Kivrin, trêmula, as mãos ainda cobrindo o rosto. — Não foi culpa de ninguém.

Foi até onde estava a faca e a apanhou, e em seguida a lamparina. A vaca tentara se enfiar pela porta da frente e agora estava presa, mugindo de fazer pena.

Kivrin a deixou ali e subiu até o pavilhão, ignorando os sons de patinhas fugitivas, que vinham lá de cima. O quarto estava gelado. O lençol que Eliwys deixara pendurado tapando a janela tinha se rasgado e pendia por uma ponta. Os cortinados do dossel estavam abaixados do lado em que o secretário se pendurara para tentar se erguer, e o colchão estava afastado meio para fora da cama.

De baixo da cama ouviam-se ruídos, mas Kivrin não tentou investigar a origem. O baú estava aberto, a tampa entalhada apoiada nos pés da cama, a pesada capa roxa do secretário dobrada em cima.

A garrafa de vinho tinha rolado para baixo da cama. Kivrin estirou-se no chão e tateou à procura. A garrafa escorregou de seus dedos, e ela teve que arrastar quase metade do corpo embaixo da cama para poder agarrá-la com firmeza.

A rolha tinha escapulido, provavelmente quando a garrafa rolara para baixo da cama. Ainda havia um resto de vinho pegajoso grudado ao gargalo de vidro.

— Oh, não — disse ela, desesperançada, e ficou sentada ali por um longo minuto, segurando a garrafa vazia.

Não havia mais vinho na igreja. Roche usara tudo nos últimos sacramentos.

De repente, lembrou-se da garrafa que ele oferecera quando ela precisou cuidar do joelho de Agnes. Voltou a se meter embaixo da cama, tateando com cuidado, com receio de derrubá-la. Não sabia se restaria muito vinho dentro, mas achava que não tinha usado todo.

Apesar da cautela, quase derrubou a garrafa quando a tocou, mas conseguiu segurá-la antes que caísse. Saiu de baixo da cama e balançou o recipiente. Estava quase pela metade. Ela guardou a faca por baixo do cinto do gibão, pôs a garrafa embaixo do braço, agarrou a capa do secretário e desceu a escada para o salão. Os ratos tinham voltado e estavam atacando as maçãs, mas desta vez fugiram às pressas quando ouviram seus passos descendo a escada, e ela tentou não olhar onde estavam se escondendo.

A vaca já conseguira enfiar metade do corpo através da porta e agora bloqueava a passagem. Kivrin pôs as coisas todas no chão, junto aos biombos, limpando o piso dos juncos para que a garrafa ficasse de pé sobre as lajes, e empurrou a vaca para trás, enquanto ela mugia num lamento interminável.

Assim que se viu do lado de fora, a vaca tentou seguir Kivrin de novo.

— Não — disse ela. — Não tenho tempo.

Ainda assim foi ao celeiro, subiu até a parte de cima e de lá jogou para baixo uma braçada de feno. Depois, recolheu os pertences e voltou correndo para a igreja.

Roche tinha mergulhado de novo na inconsciência. Seu corpo estava relaxado. As pernas enormes estavam estiradas e afastadas, e as palmas das mãos, voltadas para cima. Parecia um homem derrubado por uma pancada. A respiração era pesada e trêmula, como se ele estivesse com calafrios.

Kivrin o cobriu com a pesada capa roxa.

— Padre Roche, voltei — disse ela, dando umas pancadinhas no braço estendido, mas o homem não deu sinal de ter escutado.

Ela removeu a proteção da lamparina e usou a chama da vela para acender todas as outras. Restavam apenas três das velas de Lady Imeyne, todas pela metade. Kivrin acendeu um lampião também, assim como a grossa vela de sebo no nicho da estátua de santa Catarina, e trouxe tudo mais para perto das pernas de Roche, para que pudesse enxergar melhor.

— Vou ter que tirar suas ceroulas — avisou ela, afastando as cobertas. — Preciso lancetar o bulbo.

Ela desatou as extremidades puídas das ceroulas, e ele não esboçou nenhum recuo ao seu toque, mas gemeu um pouco, produzindo um som engasgado.

Ela puxou as ceroulas para baixo, tentando fazê-las passar pelos quadris e depois pelas pernas, mas eram muito apertadas. Teria que cortar.

— Vou cortar as ceroulas — informou ela, engatinhando até onde deixara a faca e a garrafa de vinho. — Vou tomar cuidado para não machucar o senhor.

Ela cheirou o gargalo da garrafa e tomou um golezinho, que a fez tossir. Ótimo. Um vinho velho e saturado de álcool. Derramou-o sobre a lâmina da faca, limpou o gume na perna da roupa, derramou mais um pouco, tendo o cuidado de poupar o suficiente para colocar depois no corte.

— Beata — murmurou Roche. Sua mão desceu até a virilha.

— Está tudo bem — disse Kivrin, agarrando uma das pernas da ceroula e cortando a lã. — Sei que agora está doendo, mas vou ter que lancetar o bulbo. — Ela puxou o tecido com as duas mãos e felizmente ele se rasgou, produzindo um som rascante e alto. Os joelhos de Roche se contraíram. — Não, deixe as pernas abaixadas — pediu Kivrin, tentando empurrar os joelhos dele para baixo. — Tenho que cortar o bulbo.

Não conseguiu forçá-los para baixo. Ignorou-os por um instante e terminou de rasgar as ceroulas, enfiando a mão por baixo da perna dele para rasgar o resto do tecido até em cima. Avistou o bulbo: era duas vezes maior que o de Rosemund, e estava completamente preto. Deveria ter sido lancetado horas atrás, dias atrás.

— Roche, por favor, abaixe as pernas — pediu ela, apoiando o peso do corpo sobre os joelhos dele. — Preciso abrir a ferida da peste.

Não houve resposta. Ela não sabia ao certo se ele poderia responder, se aqueles músculos não estavam se contraindo involuntariamente, como os do secretário, mas não podia ficar esperando o espasmo passar, se era mesmo isso. O bulbo podia se romper a qualquer instante.

Kivrin afastou-se por uns instantes e depois se ajoelhou junto dos pés dele, enfiando as mãos por baixo de suas pernas, empunhando a faca. Quando Roche gemeu, ela afastou a faca um pouquinho, mas em seguida avançou com muito cuidado, até que a ponta tocou no bulbo.

O pontapé que ele desferiu acertou em cheio o peito dela, jogando-a longe. A faca saiu tilintando sobre as lajes do piso. Kivrin ficou sem ar e permaneceu ali, arquejando, respirando fundo, em haustos ruidosos. Tentou se sentar. Uma pontada de dor cruzou o lado direito do peito e ela caiu para trás, agarrando as costelas.

Roche continuava gritando, um som longo, atroz, como o de um animal sendo torturado. Sempre com a mão apertando as costelas, Kivrin rolou até ficar deitada sobre o lado esquerdo para enxergar o padre. Ele se contorcia de um lado para o outro como uma criança, gritando o tempo todo, os joelhos erguidos defensivamente até o peito. De onde estava, Kivrin não podia ver o bulbo.

Ela tentou se levantar, apoiando-se nas lajes com a mão até ficar meio sentada. Tateou em volta até conseguir se apoiar em ambas as mãos, e procurou ficar de joelhos. Gritou de dor, gritinhos curtos que foram abafados pelos urros de Roche. O pontapé dele devia ter quebrado algumas costelas. Ela cuspiu na mão, receosa de ver sangue na saliva.

Quando por fim se ajoelhou, conseguiu sentar durante um momento, esperando a dor diminuir.

— Desculpe — disse ela, baixinho. — Não quis machucar o senhor.

Ela meio que se arrastou de joelhos até ele, usando a mão direita para se apoiar. O esforço a levou a respirar mais fundo, e cada respiração era como uma punhalada no peito.

— Está tudo bem, Roche — sussurrou —, estou chegando.

Ao som da voz de Kivrin, ele puxou as pernas espasmodicamente, e ela se moveu para o lado, ficando entre ele e a parede do lado, fora do seu alcance. Quando deu o pontapé, ele acabou derrubando uma das velas de santa Catarina. A vela agora jazia numa poça amarela, ainda ardendo. Kivrin a colocou de pé, antes de levar a mão ao ombro do padre.

— Psssst, Roche. Está tudo bem. Estou aqui agora — disse.

Ele parou de gritar.

— Desculpe — pediu ela, inclinando-se sobre ele. — Não quis machucar o senhor. Só queria lancetar o bulbo.

Os joelhos dele se ergueram ainda mais. Kivrin pegou e ergueu a vela vermelha para iluminar aquele corpo descoberto. Agora podia ver o bulbo, preto e inchado à luz da vela. Ela nem sequer o arranhara. Ergueu a vela mais alto, tentando ver onde tinha ido parar a faca, que tilintara na direção do túmulo. Kivrin ergueu a vela naquela direção, procurando enxergar algum reflexo de metal. Não viu nada.

Começou a se levantar, mexendo-se com muito cuidado para evitar a dor, mas em meio ao movimento sentiu uma pontada forte e deu um grito, curvando-se para a frente.

— O que foi? — perguntou Roche. Seus olhos estavam abertos, e havia um pouco de sangue no canto de sua boca. Ela pensou se ele teria mordido a língua quando gritava. — Machuquei você?

— Não — respondeu ela, ajoelhando-se perto dele. — Não machucou. — Ela limpou a boca de Roche usando a manga do gibão.

— Você precisa… — começou ele, e quando abriu a boca um pouco mais de sangue escorreu. Ele engoliu com esforço. — Você precisa dizer a prece dos moribundos.

— Não — objetou ela. — O senhor não vai morrer. — Ela voltou a limpar a boca dele. — Só que preciso cortar o bulbo, antes que se rompa.

— Não — pediu ele, e Kivrin não entendeu se ele queria dizer não vá embora ou não corte o bulbo.

Roche estava rangendo os dentes, e escorria sangue por entre eles. Ela sentou-se, com cuidado para não gritar de dor, e pôs a cabeça dele no colo.

— Requiem aeternam dona eis — iniciou ele, e algo gorgolejou em sua garganta. — Et lux perpetua.

O sangue estava minando do céu da boca de Roche. Kivrin levantou a cabeça do padre um pouco mais, amontoando as dobras da capa púrpura embaixo, e limpou a boca e o queixo dele com a manga do gibão, já empapada. Ela estendeu a mão para segurar na alva.

— Não — falou ele.

— Não vou — tranquilizou ela. — Estou bem aqui.

— Reze por mim — disse ele, e tentou erguer as mãos postas à frente do peito. — Req…

Ele se engasgou na palavra que queria dizer e apenas produziu um som líquido na garganta.

— Requiem aeternam — ajudou Kivrin, que ficou também de mãos postas. — Requiem aeternam dona eis, Domine.

— Et lux… — disse ele.

A vela vermelha perto de Kivrin bruxuleou e apagou-se, enchendo a igreja com o odor acre da fumaça. Ela olhou as outras velas em volta. Restava apenas uma, a última das velas de cera de Lady Imeyne, e já tinha ardido quase até a borda do suporte redondo de metal.

— Et lux perpetua — prosseguiu Kivrin.

— Luceat eis… — continuou Roche, e parou, tentando passar a língua pelos lábios ensanguentados. A língua estava inchada e endurecida. — Dies irae, dies illa. — Ele engoliu de novo e tentou fechar os olhos.

— Não obrigue ele a passar por isso tudo — implorou ela, em inglês moderno. — Por favor. Não é justo.

— Beata — disse ele, ou assim ela entendeu, já tentando lembrar qual era a frase seguinte, mas não começava com “bendita”.

— O quê? — perguntou ela, inclinando-se sobre ele.

— Nos últimos dias… — balbuciou Roche, com a voz embaralhada pelo inchaço da língua.

Ela se inclinou mais para perto.

— Eu temi que Deus tivesse nos abandonado por completo — prosseguiu.

E abandonou, pensou ela. Limpou de novo a boca e o queixo de Roche com a borda do gibão. E abandonou.

— Mas Ele, na Sua grande misericórdia, não nos abandonou. — Roche voltou a engolir, com dificuldade. — Ele enviou a Sua santa até nós.

Ergueu a cabeça e tossiu, e o sangue jorrou sobre os dois, encharcando o peito dele e os joelhos dela. Kivrin tentou freneticamente limpar e estancar o sangue, tentou manter a cabeça de Roche erguida, e as lágrimas eram tantas que não conseguia enxergar direito.

— E eu não posso ajudar o senhor em nada — lamentou ela, limpando as lágrimas.

— Por que está chorando? — perguntou ele.

— O senhor salvou minha vida — respondeu ela, e sua voz se engasgou num soluço. — E eu não posso salvar a sua.

— Todos os homens têm que morrer — consolou ele. — E ninguém, nem mesmo Cristo, pode salvá-los.

— Eu sei — falou ela, levando a mão ao próprio rosto e tentando recolher as lágrimas. Elas se acumularam na palma e depois gotejaram sobre o pescoço de Roche.

— E mesmo assim você me salvou — disse ele, e sua voz soava um pouco mais clara. — Do medo. — Aspirou o ar, gorgolejando. — E da descrença.

Ela limpou as lágrimas com as costas da mão e segurou a mão de Roche. Estava fria e parecia já um pouco rígida.

— Sou o mais abençoado dos homens por ter você aqui — acrescentou ele, e cerrou os olhos.

Kivrin mudou um pouco de posição para apoiar as costas na parede. Lá fora, já havia escurecido, e nenhuma luminosidade entrava pelas janelas estreitas. A chama da vela de Lady Imeyne estralou, oscilou, depois voltou a se erguer acesa. Kivrin se moveu para que a cabeça de Roche não forçasse suas costelas. Ele gemeu, e sua mão se agitou como querendo soltar-se da mão dela, mas Kivrin segurou firme. A vela estralou de novo, ficou um pouco mais brilhante, e depois a igreja mergulhou em completa escuridão.

TRANSCRITO DO LIVRO DO JUÍZO FINAL

 

(082808-083108)

Acho que não vou conseguir voltar, sr. Dunworthy. Roche me disse onde era o local do salto, mas acredito que estou com algumas costelas partidas, e não há mais cavalos por aqui. Não acredito que possa montar no burro de Roche sem sela.

Vou fazer o possível para que a srta. Montoya encontre isto. Diga ao sr. Latimer que a inflexão adjetival ainda prevalecia em 1348. E diga ao sr. Gilchrist que ele estava errado. As estatísticas não eram exageradas.

(Pausa)

Não quero que vocês se culpem pelo que aconteceu. Sei que teriam vindo me buscar se pudessem, mas eu não teria conseguido partir de qualquer maneira, não com Agnes tão doente.

Eu queria saltar e, se não tivesse saltado, eles estariam sozinhos aqui e ninguém jamais ficaria sabendo o quanto estavam assustados e o quanto eram corajosos e insubstituíveis.

(Pausa)

É estranho. Quando eu não consegui achar o local do salto e a peste chegou, o senhor parecia tão distante, e pensei que jamais voltaria a vê-lo. Mas agora eu sei que o senhor estava comigo o tempo inteiro e que nada, nem a Peste Negra, nem os setecentos anos, nem a morte, nem tampouco as coisas futuras ou outra criatura seria capaz de me separar do seu carinho e do seu cuidado. O senhor estava comigo durante cada minuto.