O Senador

Fernanda Terra · Capítulo 15 de 36

Páginas do PDF

O Senador

Capítulo 14 · Comecei a me espreguiçar ciente que ainda…

 

Comecei a me espreguiçar ciente que ainda não estava na minha King Size do tríplex, mas já não estava mais sozinha como nos primeiros vinte dias. Só que ao passar a mão na cama, percebi um vazio estranho.

— Onde Artur se meteu? — pensei alto, sorrindo, pois isso acontecia inconscientemente quando estava perto dele.

Abri os olhos me deparando sozinha não só na cama como no quarto.

— Amor? — sentei coçando os olhos em busca de algum sinal dele. — Artur? —levantei indo até o banheiro, mas nada.

Tentei seu celular, o nosso particular, mas não obtive muito sucesso. Decidi então tomar um banho e procurá-lo pela pousada. Alguém saberia dizer onde meu Senador poderia estar.

Tomei meu banho meio a contragosto, vendo sua toalha molhada, sinal de que já havia passado por ali e saído sem mim. Me arrumei, toda encapotada por causa do frio e saí em direção à recepção encontrando Ana por lá.

— Bom dia, Ana!

— Bom dia, Linda. Dormiu bem, querida?

— Muito bem — porém acordei péssima e sozinha. — Ana, você viu o Artur hoje pela manhã? — ela sorriu.

— Sim, querida. O Senador saiu logo cedo com Dibe, disse que precisava reencontrar um lugar.

— Sem mim — fiz um muxoxo.

— Ele estava muito animado.

— Sim, ele está — sorri orgulhosa do meu amor, mesmo que ele tivesse me abandonado naquela manhã. Depois daqueles torturantes vinte dias, não conseguiria ficar muito mais tempo sem Artur. Aproveitei que estava ali com Ana para explicar os motivos da omissão da minha identidade quando cheguei à pousada. — Ana, eu queria me desculpar por... — ela apertou carinhosamente minha mão, cúmplice.

— Linda, acho que posso te chamar assim, não é?

— Claro, Ana.

— Você não precisa me explicar nada, querida. Gostei de você mesmo com aquela peruca ruiva — corei envergonhada —, quando a vi entrando por aquela porta — apontou para a entrada da pousada. — Sei que seria complicado realizar suas pesquisas informando de imediato sua identidade.

— É.

— Então não se preocupe. Eu entendi perfeitamente.

— Obrigada, Ana. Eu só gostaria de dizer que odeio ter que enganar as pessoas...

— Linda, nós da aldeia temos o dom de conhecer a índole das pessoas olhando para seus olhos. E você, menina, é a pessoa que precisava estar ao lado do Senador Scott para guiar seus passos tanto na política como na vida — arrepiei-me lembrando do que Artur e eu tínhamos conversado a respeito da nossa cumplicidade, não só na vida pessoal, mas também na política.

— Obrigada novamente.

— Eu que agradeço por hospedar e conhecer duas pessoas tão bonitas que tem nossos futuros nas mãos.

— Farei de tudo para não decepcioná-los.

— Você não vai. Eu sei, confio em vocês dois — Ana deu a volta no balcão, fazendo com que eu me aproximasse lhe dando um abraço. — Vou deixá-la à vontade.

— Ok! Vou aproveitar também para revisar algumas coisas, estarei no meu quarto e… Obrigada.

— Disponha, querida. E, tome seu café, ordens do Senador — revirei os olhos me despedindo dela e indo para o restaurante da pousada para tomar meu café da manhã a contragosto.

Poderia parecer loucura para quem observava de fora, mas minha vida sem Artur nunca fez muito sentido antes de conhecê-lo. Depois de me tornar sua, vivia inteiramente para esse amor e não me arrependia nem um segundo por isso. Na verdade, nossa dependência, como ele mesmo gostava de intitular, era mútua, mas quem se importava com isso?

Depois que Artur chegou a Sumas, há uma semana, estávamos inteiros novamente e empenhadíssimos em nosso projeto pessoal. Nunca tinha visto meu amor tão emocionado como quando o apresentei o prospecto da vida de uma Primeira-dama. Esse seria nosso ideal, chegarmos ao topo juntos, com o propósito de ajudar as pessoas que confiaram e que ainda confiariam seus votos ao político Artur Scott.

Outra prioridade, depois que Artur chegou, foi ligar para meus pais e me desculpar. Nunca quis causar nenhum tipo de preocupação a eles, mesmo sabendo que tudo que me dissesse respeito os preocuparia a ponto de os fazer voarem para Nova York, com meu pai tentando capar meu noivo antes dele contar o real motivo pelo qual fugi.

Mas depois de uma longa conversa, com Artur ao meu lado segurando minha mão, tudo se resolveu, principalmente depois que prometi a eles que Washington seria minha primeira parada na volta para casa.

Depois de tomar o café da manhã sozinha, também a contragosto, subi para enviar mais uma parte pronta da matéria à revista e enquanto redigia os últimos detalhes, meu celular tocou. Por coincidência era Mark.

— Oi, Chefe, tudo bem? — atendi animada.

— Com você sim, não é, Linda? Já com o nosso acordo…

— Não sei do que você está falando...

— Eu já sei que seu querido noivo a encontrou e que está aí com você — ele estava sendo irônico.

— Você tem razão, Artur está aqui comigo, sim, mas não vejo onde isso pode afetar meu desempenho, estou cumprindo todos os prazos, não estou, Chefe? — usei da mesma ironia.

— Essa é uma matéria secreta, Linda.

— E alguém, por acaso, descobriu o teor dela? — retruquei.

— Ele não é homem pra você — disse. Eu não estava entendendo para onde essa conversa nos levaria.

— Mark, me desculpe, mas o que você tem a ver com isso?

— Linda, quando você viajou, ele veio até a revista e me ameaçou.

— Eu conheço meu noivo, Mark, sei muito bem do que ele é capaz.

— Artur é autoritário, prepotente…

— Eu sei todos os defeitos e qualidades dele, Mark, isso se chama casamento. Não preciso que me digam como ele é — estava começando a ficar irritada.

— Linda…

— Mais alguma instrução profissional? — eu queria terminar aquela conversa o quanto antes.

— Não, apenas que nosso acordo tem que ser cumprido.

— Ele vai ser. Eu nunca descumpri um contrato, pode ficar tranquilo. E se era apenas isso eu vou desligar, pois estava finalizando mais uma parte da matéria para te enviar.

— Linda, me desculpe, eu me preocupo com você.

— Obrigada por sua preocupação, mas eu dispenso. Estou em uma das melhores fases da minha vida, Mark. Tchau — desliguei antes de ouvir sua despedida.

Meu Deus! As pessoas iam mesmo dizer o que eu devia fazer da minha vida? Nem meus pais nunca fizeram isso, principalmente em relação a Artur, já que o conheciam melhor, só teciam elogios ao genro. Na verdade o problema estava aí. Mark ou até mesmo Átila conheciam apenas o lado político, cruel, autoritário e prepotente de Artur, não que ele não fosse assim também, mas meu noivo conseguia ser o melhor príncipe de um conto de fadas quando estava ao meu lado. E por isso, além de amá-lo desde sempre, com todos seus defeitos e qualidades, eu ainda me apaixonava por ele todos os dias novamente. Só que para quem enxergava de fora seria difícil entender.

— Argh! Que raiva!

— Raiva do que, Linda, o que aconteceu? — eu estava tão irritada que não percebi quando Artur entrou no quarto.

— Raiva? Quem disse raiva?

— Você disse, Linda Marilyn. Com quem estava falando para te deixar nesse estado? — ele apontou para o celular ainda na minha mão.

— Com ninguém — joguei o aparelho na cama. Não ia atiçar a ira do meu Senador. Conhecendo-o tão bem seria melhor evitar mais um confronto entre ele e Mark. — Onde você foi sem mim?

— Não desconverse, Linda Marilyn, você está visivelmente irritada.

— Estou mesmo — fui até ele ficando na ponta dos pés para morder seu queixo. — Você me abandonou. Não me esperou para tomarmos nosso banho e café juntos. Saiu sem mim, não sei para onde, e agora volta como se nada tivesse acontecido — ele sorriu apertando-me pela cintura enquanto sussurrava no meu ouvido.

— Não podia acordá-la, era uma surpresa.

— Surpresa? — me animei.

— Sim, Linda Marilyn, uma surpresa — Artur mordeu o lóbulo da minha orelha. — E surpresas não se contam antes da hora.

— Isso não se faz, amor — disse derretida nos seus braços. — Me conta, vai! — esfreguei-me ainda mais no seu corpo em busca de atrito.

— Não! Está com fome? — o safado me deu um selinho se afastando.

— Fome? Sim, eu estou com muita fome — o puxei pela nuca atacando sua boca. E quando nossas línguas se encontraram uma corrente elétrica passou por nossos corpos, deixando com que as mãos falassem por si próprias. As roupas foram devidamente jogadas no chão e Artur me pegou no colo, prensando-me contra a parede. — Eu quero você, Senador — essa frase sempre seria a gota d’água.

— Quer? Você quer o que, princesa? — ele lambeu o vão de meus seios, fazendo-me gemer. — É isso que você quer? — Artur envolveu meu seio com uma de suas mãos, deslizando os polegares em meu mamilo duro.

— Sim — toquei meu sexo com seu membro já duro entre minhas pernas. — Me come, amor.

— Pega… Ele é seu, princesa.

Desci minha mão entre nossos corpos, agarrando-o, e posicionei minha entrada ali movendo o quadril ao seu encontro. Artur, por sua vez, afastou meu corpo e apertando minha bunda com um impulso entrou em mim.

— Vou fazer você perder os sentidos, gostosa.

— Eu amo você.

— Não mais que eu — gargalhamos e ele começou a estocar como um louco. Chegamos ao ápice juntos e completamente suados.

— Que tal um banho matinal atrasado?

— Perfeito. Principalmente se aceitar meu convite para um almoço especial em Vancouver depois — sorri beijando sua boca.

— Ótima pedida, Senador — ele gemeu me levando para o banheiro ainda no seu colo, onde me comeu novamente, levando-me as alturas.

 

— Como pode um paraíso naturalmente preservado como Sumas estar tão perto de uma metrópole? — disse assim que chegamos ao restaurante Absinthe Bistro, especializado em comida francesa, uma das preferidas do meu noivo, depois de uma pequena viagem de uma hora de carro.

— A conservação de Sumas, mesmo depois da explosão urbana é algo louvável. Se bem que Vancouver preza muito seu lado natural, até por conta do turismo, principalmente no inverno.

— Você já conhecia a cidade? — lembrei de sua viagem aos Alpes Suíços com Melissa. — Pelo que me lembro, sua ex-namorada gosta muito do inverno — Artur gargalhou.

— Como poderia esquecer, depois do apelido tão carinhoso que a deu?

— Engraçadinho — fechei a cara.

— Sabe que não precisa se preocupar com isso, não é? — ele tocou minha mão. — Já lhe dei provas o suficiente dos lugares de minha preferência, principalmente se for ao seu lado — me derreti. — Mas respondendo sua pergunta, visitei Vancouver algumas vezes, porém em sua maioria a trabalho e sozinho. Foi Dibe que me ajudou a pesquisar alguns lugares interessantes, mais perto da civilização. Estava sentindo falta da movimentação da nossa rotina em Nova York e Washington.

— Eu também, amor.

Saíamos praticamente todos os fins de semana quando estávamos em casa. E digamos que Sumas não é um lugar muito badalado.

— Até quando pretende ficar em Sumas?

— Mais um mês… Está no contrato — fiz um muxoxo, mas ele sorriu.

— Ótimo.

— Por quê?

— Curiosa — ele brincou novamente.

— Artur Sebastian, estou ficando nervosa com todo esse mistério — ele sorriu e ali percebi como meu noivo estava leve e tranquilo, sem ter que colocar aquela máscara de homem de ferro. — Mas sem brincadeiras, por que quer saber quanto tempo ainda temos aqui, está cansado de...

— Nem termine seu raciocínio errôneo, Linda Marilyn. Estou em uma das melhores fases da minha vida — sorri. — Só preciso saber quanto tempo ainda tenho para organizar a surpresa — bufei, fazendo-o gargalhar mais uma vez.

— Se não vai me contar mesmo pelo menos não provoque — ele continuou rindo para mim quando a maître se aproximou.

— Querem fazer seus pedidos? — ela se derreteu ao perceber a presença de Artur ali, faltando se oferecer junto com o cardápio. Preparei-me para responder, mas meu Senador foi mais rápido, pegando minha mão por cima da mesa, enquanto passava sua perna na minha por debaixo, mostrando sutilmente a quem ele pertencia.

— Sim, senhorita. Para entrada, duas sopas de cebola e como prato principal, Blanquette de vitela. Obrigado — ele sorriu educado com a vadia retribuindo.

— Mais alguma coisa?

— Nos traga a carta de vinhos também — sorri, beijando a mão de Artur. — Escolha o melhor, amor. A ocasião merece — ele tentou disfarçar mas não aguentou, sorrindo e beijando também minha mão em cima do anel de noivado.

É isso mesmo, minha querida. Ele é meu noivo! Parei, respirando fundo e observando a reação de Artur e dei graças a Deus de não ter pensado alto.

— Pedirei ao sommelier que venha pessoalmente mostrar ao senhor nossa melhor safra. Mais alguma coisa? — ela não tinha coragem de olhar para mim. E o pior, não tirava os olhos do meu homem.

— Faça o que minha noiva pediu, por favor — Artur Sebastian tinha o dom de inflar meu ego.

— Sim, senhor. Trago em um minuto — fuzilei-a com os olhos.

— Minha vontade nesse momento é de voar no pescoço dessa vadia.

— Você sabe que isso não é necessário, minha Primeira-dama. Olhe pra mim, Linda — ele ergueu meu rosto corado de raiva. — Eu sou seu.

— Eu sei, mas tenho que colocá-las em seu lugar.

— O seu lugar é que importa, princesa.

— Mas você as deslumbra todas às vezes — bufei irritada.

— Coloco medo também — sorrimos e tive que concordar lembrando a conversa com Mark. — Mas isso foi bom — disse deixando-me sem entender —, pois assim não me importuna mais com sua curiosidade — o fuzilei também.

— Não vamos começar de novo, não é? — ele gargalhou e puxou sua cadeira para mais perto da minha, beijando meus lábios assim que a maître voltou com a carta de vinhos dizendo que o sommelier já viria nos atender. É claro que provoquei, demorando um pouco mais dentro da sua boca, deixando a vadia completamente sem ação. Aquele era o meu lugar.

Nosso almoço transcorreu muito bem. A mulherzinha revezou com mais três garçonetes e o especialista em vinhos para atender nossa mesa. Sim, havíamos nos tornado o show público do local, só faltavam pedir uma foto. E mesmo acostumados com esse tipo de reação das pessoas com a nossa presença, isso seria engraçado e constrangedor, principalmente se a foto fosse apenas com o meu Senador com as vadias.

Enquanto esperávamos o cartão de crédito de Artur voltar, depois dele já ter pago a conta, seu celular tocou.

— Odeio celulares — sorri beijando seu queixo antes de descansar a cabeça em seu ombro.

— Fala, McCartney — o repreendi levantando a cabeça e rindo da sua careta reformulando o atendimento ao celular. — Boa tarde, Ethan.

— Bem melhor, amor — o beijei novamente voltando para seu ombro.

— Ok! Estarei aí hoje à noite — ergui a cabeça novamente olhando diretamente para seus olhos, que também demonstravam frustração. — Tudo bem, até mais.

— O dever o chamou? — ele sorriu fracamente.

— Sim, preciso estar em Washington amanhã pela manhã.

— Você tem um dever a cumprir com a população que lhe confiou seu voto, amor — acariciei seu rosto.

— Você tem razão, mas voltarei o mais rápido possível.

— Eu sei que sim, uma nova ponte área.

— Isso! — rimos nos levantando assim que seu cartão chegou.

— Vamos arrumar sua mala então, caro Senador.

— Essa é minha Primeira-dama — segurou minha cintura beijando delicadamente meus lábios. Saí de lá sem olhar para trás, eu não precisava de mais nada. Já tinha o que tantas desejavam. O amor do meu Senador.

Voltamos para Sumas e enquanto arrumava sua mala, que não era muito grande, Artur organizava sua partida com o piloto do jato.

A despedida foi a mais complicada.

— Me ligue assim que pousar. Não me faça ter que usar o rastreador, quer dizer... — eu estava sem o nosso celular desde que fugi para Sumas. Artur sorriu, como se adivinhasse meus pensamentos, estendendo-o em minha direção.

— De volta as suas mãos, de onde não deveria ter saído.

— Me perdoe — fui sincera, pegando o celular de sua mão.

— Não há nada a ser perdoado, princesa. Você estava certa o tempo todo, só não faça isso novamente. Eu adoro esse celular — sorri enlaçando seu pescoço.

— Eu também amo esse celular — fiquei na ponta dos pés e o beijei apaixonadamente. — Mas amo mais você — ele gemeu e mordeu meu lábio inferior.

— Temos algo em comum então, Senhorita — sorri, próxima a sua boca e Artur aproveitou para capturá-la novamente. — Linda, antes de ir... — ele parou olhando para mim enquanto recuperávamos nossos fôlegos. — Quero que me prometa que ficará longe daquele nativo.

— Artur! — o repreendi. Ele não tinha com o que se preocupar. — Amor, eu sou sua, lembra? — ele sorriu vitorioso, apertando-me ainda mais pela cintura.

— Só faça o que estou te pedindo.

— Se isso te deixar mais tranquilo, eu faço.

— E vou deixar Jonathan com você.

— Não precisa, amor. Estou trabalhando e você viu com seus próprios olhos como isso aqui é tranquilo — tentei argumentar. — Ele será mais útil ao seu lado em Washington.

— Tudo bem, mas vou instruir Dibe — gargalhei.

— Você não tem jeito.

— Eu apenas prezo por seu bem estar, princesa.

— Eu sei — me derreti novamente em seus braços. — Agora vá, você precisa estar em Washington ainda essa noite.

— Ok! Ligo assim que aterrissar.

— Eu espero — sorrimos e com um beijo Artur se foi, levando com ele metade do meu coração.

Os dias se passaram arrastados sem Artur ao meu lado. Ele tinha voltado para Washington há apenas três dias, mas eu já estava sentindo muito sua falta. Ana, percebendo isso, veio conversar comigo durante o café da manhã.

— Linda, não fique assim. Ele já está para voltar, não está?

— Está, Ana, me desculpe, mas sem Artur... — ela sorriu.

— Que tal darmos um passeio hoje? A aldeia vai abrir a noite de lua cheia com a tradicional fogueira,

A fogueira... Eu sempre quis ouvir as histórias dos Suquamish, porém Artur havia me pedido para me manter afastada de Átila e como o mesmo disse no dia que nos encontrou lá, aquela era a sua aldeia.

— Não sei, Ana.

— Linda, você vai comigo e com Dibe, não terá perigo.

— E a Mai, ela não vai querer estar lá?

— É uma longa história, Linda — fiquei curiosa.

— Desculpe, Ana, eu não queria...

— Não precisa se desculpar, querida. Na verdade Mai sofre muito quando vai para aldeia — ela pausou, olhando tristemente para a filha na recepção. — Ela e Mahal, você se lembra dele?

— Claro, o noivo de Paloma — oh, meu Deus! Ele a trocou por outra.

— Sim, o noivo da minha sobrinha Paloma — Jesus Cristo! O problema era muito grave mesmo. — Eles se apaixonaram quando Paloma veio morar conosco ainda em Pismo Beach e não conseguimos mais ficar lá — ela disse triste —, principalmente depois que meu Harry morreu, não tinha mais sentido. Você me entende, não é, Linda?

— É claro que sim, mas… E agora, como ela está? — apontei discretamente para Mai.

— Se recuperando. E por isso gostaria muito da sua companhia na fogueira hoje. Uma amiga para chegar junto comigo. E não se preocupe, Dibe estará conosco.

— Ok, Ana! Você me convenceu, vamos à fogueira — ela sorriu me abraçando. Eu devia isso a ela, por ser tão prestativa, uma amiga e mãe durante todo o tempo que estive ali em sua pousada e muito mais, por não ter me julgado quando omiti a ela minha identidade.

Antes de sair, tentei falar com Artur, para avisá-lo que estava indo, porém seu celular caiu direto na caixa de mensagens. Fiquei preocupada, mas pensaria nisso depois. Eu iria me divertir um pouco na fogueira mais famosa de Sumas e conhecer um pouco mais da sua cultura.

Chegamos à Pismo Beach e Átila veio direto ao nosso encontro.

— Mais que honra, Senhorita Primeira-dama — senti uma pontada de ironia na sua voz, mas não disse nada.

— Boa noite, Átila, tudo bem?

— Tudo ótimo. Melhor agora com você ao meu lado — devo ter feito uma careta repulsiva, pois Ana veio me salvar.

— Venha, Linda, as histórias vão começar.

— Vamos sim, a gente se vê, Átila.

— Com certeza — ele tinha um sorriso sarcástico no rosto e minha vontade naquele momento era lhe dar um soco e arrebentar seus dentes. Isso estava começando a ficar desrespeitoso.

Sentamo-nos ao redor da fogueira e minha raiva foi parcialmente esquecida, sendo substituída pelo encantamento das inúmeras histórias daquele povo. Pedi permissão e anotei tudo para minha matéria, especialmente para nossa pesquisa pessoal. Artur ficaria louco com elas.

Durante uma pausa, saí de perto do pessoal em busca de algo quente para beber, estava muito frio e precisava me aquecer, pois mesmo vestida com botas forradas, calça legging de lã e um sobretudo creme, aquele lugar era congelante. Contudo, Átila veio atrás de mim.

— Tome, Linda, é uma delícia — estendeu-me um copo. — Chocolate quente da reserva, o melhor de todos.

— Obrigada — peguei o copo de suas mãos e dei meu primeiro gole. — Nossa é bom mesmo. Forte, mas muito saboroso.

— Eu disse que era — ele esticou a mão para perto do meu rosto que eu automaticamente recuei. — Não precisa ter medo, eu não mordo, só está sujo aqui — apontou para minha boca. Afastei-me mais, limpando o chocolate. — Linda, você é tão bonita, o que faz com aquele brutamontes?

— Eu não lhe dei o direito de falar assim do meu noivo! — comecei a ficar irritada pela segunda vez naquela semana. Quem ele e Mark pensavam que eram para falar assim de Artur?

— Você merece alguém que a ame de verdade e não que prefira você exposta em uma vitrine.

— O quê? Você não sabe nada da minha vida, seu moleque. E não tem o direito de falar assim do meu noivo. Você não nos conhece.

— Me deixe mostrar como você pode ser feliz comigo, Linda — ele veio para cima de mim, tentando me agarrar.

— Me larga, Átila. Acho que você já bebeu demais por hoje — disse tentando me afastar.

— Mas, Linda… — tudo aconteceu muito rápido. Átila foi jogado no chão por um soco de Artur.

— Ela disse para largar, seu moleque!

— Artur! — disse nervosa.

— Vai para o carro, Linda — ele estava irado.

— Artur...

— E você — chutou o corpo de Átila ainda no chão por conta da bebida —, fique longe da minha mulher, eu não vou avisar novamente.

— Você é muito prepotente, não merece a mulher que tem — outro soco. Nesse momento a aldeia estava em peso ali, porém não me acovardei, chegando mais perto do seu corpo caído.

— Limpe sua boca para falar do meu marido, seu moleque — vi um vislumbre de sorriso no rosto de Artur. — Você não o conhece e mesmo se conhecesse, sua ignorância nunca o deixaria entender sua grandeza. Eu sempre fui dele — olhei para meu noivo — e sempre vou ser. Peço perdão a todos, mas pessoas que não se dão ao respeito não merecem fazer parte dessa comunidade tão especial.

— Quem é você para falar na minha aldeia — Átila disse prepotente, ainda do chão.

— Uma mulher honrada que teve que ouvir que o marido não prestava de um bêbado metido a galã. Por favor, me perdoem novamente. Vamos embora, Artur, não temos mais nada para fazer aqui — puxei Artur pela mão, encontrando os olhos de Ana, me desculpando por todo o ocorrido.

— Me desculpe — disse assim que entramos no carro.

— Eu te avisei — ele ainda estava muito irritado.

— Me perdoe, amor. Eu vim com a Ana, nunca imaginei que...

— Você sabia o que aquele moleque queria. Sempre soube.

— Não, Artur! Olhe pra mim! — ele se limitou a dirigir e o silêncio predominou dentro do carro. Comecei a chorar de raiva daquele nativo insignificante, que havia instalado uma briga entre nós. — Eu vou matar aquele filho da puta — esbravejei alto.

— Essa é a minha vontade também. Desça.

— Oi?

— Desça, Linda Marilyn, já estamos na pousada — não reparei quando chegamos em Sumas.

— E você — chorei ainda mais —, não vem?

— Não — desci em prantos, porém em silêncio.

O que era aquilo? Artur acelerou e saiu cantando pneus. Isso nunca tinha acontecido conosco.

— Artur... — Ana chegou naquele exato momento tirando-me da chuva, que não percebi que tinha começado a cair. — Eu preciso encontrá-lo, Ana. Ele está com raiva de mim.

— Calma, meu bem, ele vai voltar. O Senador te ama. Agora venha se aquecer.

Ana me levou até o quarto fazendo-me tomar um banho quente e trazendo um chá para que eu pudesse me acalmar. Na verdade, tomei um calmante para isso, um chá aumentaria mais minha raiva e eu mataria Átila ainda naquela noite.

Onde Artur tinha se metido?

Devidamente medicada e quente, Ana me deixou sozinha para que eu pudesse descansar.

Deitei sem conseguir dormir, não parava de chorar…

Apenas me acalmei quando ouvi a porta sendo destrancada e ele me chamando.

— Princesa.

O que aconteceu, será que eu estava sonhando?