O Senador

Fernanda Terra · Capítulo 18 de 36

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O Senador

Capítulo 17 · Chegamos à Washington exatamente duas horas antes…

 

Chegamos à Washington exatamente duas horas antes do Pronunciamento da Posse de Artur.

Fomos direto para o palácio, onde meu cabeleireiro e maquiador Alex já me esperava, junto com o exclusivo vestido de corte reto na altura dos joelhos, em um tom palha discreto, com decote fechado da Chanel.

Entretanto, junto de Alex, nossos pais nos esperavam também na sala do palácio e a fisionomia de Sal não era nada animadora.

— Pai, mãe — desconectei minha mão da de Artur e corri até eles, abraçando-os. — Senti tantas saudades.

— Não foi o que nos pareceu — meu pai estava chateado.

— Pai, sei que errei por não contar, mas eu precisava desse tempo — olhei para Artur suplicando ajuda.

— E foi uma das melhores coisas que sua filha fez na vida, Chefe — ele já estava ao meu lado sorrindo. — Linda me mostrou como se governa do outro lado, com os pés no chão, no meio daqueles que me colocaram no topo. Devo tudo isso a ela, Sal, então por mais que tenhamos enlouquecido, ela precisava me levar até lá.

— Oh, meu Deus! Me orgulho ainda mais de você, bebê — Ruth veio e me abraçou carinhosamente. — Senti tanto sua falta.

— Eu também, mãe, mas já estamos aqui e atrasados — olhei para Alex que não tirava os olhos do relógio.

— Ainda temos muito que conversar hoje — George me cumprimentou. — Linda, ainda tem muito a nos contar sobre tudo que descobriu sobre a história da nossa família também.

— Você não imagina o quanto, pai — Artur disse orgulhoso.

— Boa tarde, querida. Senti muito sua falta também.

— Eu também, Emma — abracei minha sogra e olhamos as duas juntas, para nosso cabeleireiro exclusivo. — Já estou subindo. Está tudo certo para o pronunciamento?

— Sim, querida. Jared providenciou tudo, pois hoje vocês anunciarão a data do casamento também, não é? — assenti vendo George sorrir e meu pai fazer uma careta engraçada.

— Pai, já estou casada com Artur há mais de dois anos — sorri o abraçando novamente.

— Eu sei, mais agora oficialmente é diferente.

— Diferente nada, ele está esperando essa formalidade desde que Artur a levou para o tríplex, na primeira semana de namoro — todos riram da minha mãe, que foi fuzilada pelos olhos do Chefe Stevens.

— Sua esposa — dei de ombros, beijando seu rosto. — Vem, amor. Você também precisa se arrumar — estendi a mão para Artur que ainda ria. Mas antes de subir ele ainda olhou para meu pai e disse:

— Eu nunca deixaria Linda Marilyn sem a oficialização da nossa relação, Sal. Fique tranquilo que faremos tudo segundo os costumes.

— Acho bom — balancei a cabeça sorrindo e olhei cúmplice para mamãe, que suspirava encantada.

— E hoje à noite quero um jantar apenas para a família para anunciarmos o casamento oficialmente.

— Já está tudo organizado, filho. Agora vão se arrumar, o Capitólio está à espera do seu novo Presidente.

— Obrigado, mãe — Artur beijou o rosto da mãe e subimos juntos para o quarto. — Vou me arrumar no quarto de hóspedes, assim vocês ficarão mais à vontade — me beijou na porta, fazendo uma careta para Alex.

— Ok! Só me espere para descermos juntos. Não me demoro.

— Tudo bem, apenas fique mais exuberante, se isso ainda for capaz.

— É capaz sim, se o Senhor Senador me deixar cuidar dela. Desgrudem agora e Poderosa Linda, venha comigo — Artur corou de raiva, mas eu apaziguei a situação sorrindo da coragem de Alex em cutucar o leão com vara curta.

— Até mais tarde, amor — o beijei novamente entrando na nossa suíte.

— Até — ele se dirigiu para o quarto ao lado sem reclamar, mesmo querendo matar meu cabeleireiro.

Em menos de uma hora estava pronta e à espera de Artur, que entrou no nosso quarto maravilhoso em um terno Dior.

— Você está perfeito — me aproximei.

— Tirou as palavras da minha boca — sorrimos selando nossos lábios.

— Vamos? Já estou pronta.

— Vamos, princesa. E hoje você voltará para casa com a data do nosso casamento marcada oficialmente.

— É tudo que mais quero — descemos, encontrando nossos pais ainda na sala. Emma e Ruth, como sempre juntas, conversando sobre alguma coisa animada, enquanto George e Sal, com seus copos de whisky em mãos, observavam tudo sérios.

Saímos todos juntos e o caminho até o Capitólio foi curto. Como sempre toda a imprensa do mundo já nos esperava.

Sorrimos, descendo do carro de mãos dadas. Escoltados por dezenas de seguranças, conseguimos chegar até a parte interna do local.

— Eu tenho que ir — Artur disse com nossos corpos colados, enquanto éramos fotografados.

— Vá e assuma o que é seu por direito. Isso será apenas o começo, Senhor Presidente — lhe dei um selinho, vendo-o respirar fundo.

— Eu amo você. Não saia do meu campo de visão, preciso do seu apoio sempre.

— Eu não sairei, nunca — ele saiu com Jared e Ethan ao seu lado, que sorriram cúmplices para mim.

Artur estava visivelmente nervoso. Aquele seria mais um passo importante na sua carreira. A Presidência do Senado daria a ele plenos poderes para os assuntos mais importantes do país e deixaria o caminho aberto para sua mais almejada carreira na política. A presidência dos EUA seria dele, comigo ao seu lado. E eu seria sua linda Primeira-dama, literalmente.

Tínhamos ainda um caminho muito longo a percorrer. Artur passaria mais tempo em Washington, o que nos protegeria um pouco da loucura que se instalaria em nossas vidas a partir do anúncio do casamento. Eu teria apenas três meses para organizar o evento mais comentado do ano e isso já estava me deixando maluca. Além do mais, a partir do dia seguinte, concordaria com Artur sobre os cuidados em andarmos com mais seguranças, afinal, não sabíamos do que Raquel e Ryan Laurence seriam capazes depois de suas demissões, então era melhor nos prevenirmos. E por falar em prevenção...

Meu Deus!

Ainda estava anestesiada com o pedido que meu Senador havia me feito durante nosso primeiro encontro na clareira.

Ele queria um filho meu. Um sonho que sempre idealizei, mas nunca tive coragem de falar. Artur Sebastian me pediu um filho!

Um filho concebido na nossa clareira, como seu pai havia sido, para completar nosso amor.

Um filho que já poderia estar dentro do meu ventre – o toquei ainda liso. Sim, havia me atrapalhado com a pílula por conta da minha ida para Sumas e estava sem um método contraceptivo há mais de dois meses. Suspirei idealizando mais um sonho. Aquela, com certeza, seria a melhor hora para nosso pequeno príncipe vir. Mas não comentaria nada ainda com Artur para não deixá-lo mais nervoso e ansioso. Deixaria as coisas acontecerem naturalmente e, se Deus achasse que já era hora, eu seria a mulher mais completa e feliz desse mundo.

Voltei à realidade, vendo meu futuro marido subir ao Plenário e cumprimentar Richard Walker*, seu colega de partido e parceiro em muitas leis aprovadas no Senado. Os dois formariam um belo time na Casa Branca. Conversaria com Artur sobre isso depois, mesmo ouvindo boatos do suposto afastamento de Richard da política, depois da crise que sua carreira sofreu. Olhei para o outro lado do salão e vi Emma Morris, sorrindo apaixonada, observando os passos do seu noivo. Fiquei feliz por terem se acertado e, quando nossos olhos se cruzaram, a cumprimentei com um sorriso aberto. Éramos ali as primeiras-damas de nossos homens e mesmo nunca tendo a oportunidade de conversar com ela intimamente, gostava do seu trabalho, principalmente quando se tratava da defesa do Senador Walker6, pois ainda era sua assessora de imprensa.

Meus olhos se conectaram novamente aos de Artur, que se colocou à frente de sua nova cadeira no Capitólio, começando assim seu discurso.

— Boa tarde a todos os presentes. Gostaria primeiramente de agradecer a confiança, agora dos meus colegas de profissão, que me elegeram seu Presidente hoje. Darei o meu melhor, como sempre fiz e dedicarei meu mandato a todos os projetos a serem votados e, principalmente, elaborados. Especialmente hoje posso dizer que sou uma pessoa melhor. Melhor no aspecto pessoal, melhor no âmbito profissional. Eu aprendi o que é ver o povo com os pés no chão, aprendendo como governar olhando diretamente nos olhos daqueles que nos elegeram. E isso eu devo única e exclusivamente a mulher que Deus me deu de presente, embrulhada em um vestido vermelho. Eu devo hoje a minha vida à mulher com quem me casarei em breve, à futura mãe dos meus filhos, à minha companheira de toda vida, Linda Marilyn Stevens. Obrigado a todos.

O Congresso se levantou para aplaudir meu homem, deixando-me ainda mais extasiada com sua declaração de amor.

Sim, eu sonhei com isso.

Desejei com todas minhas forças que Artur conseguisse enxergar onde seria meu lugar, ao seu lado e não à sua sombra.

Eu havia realizado meu propósito de quando fugi para Sumas. E não existiria valor que comprasse o orgulho e principalmente o sentimento de ter ganhado uma das batalhas mais importantes da minha vida, quer dizer, das nossas vidas, ao vê-lo em cima daquele Plenário dizendo que aprendeu a dirigir seu país com os pés no chão.

Beijando cada lágrima caída, Artur me pegou nos braços dizendo que me amava. Eu estava tão emocionada que nem vi quando ele desceu do Plenário.

— Obrigada por ter ido me encontrar — solucei nos seus braços.

— Eu que agradeço por você me fazer chegar até lá. Eu amo você por tudo, futura Senhora Scott — sorri lhe dando um selinho.

— Eu também amo você, mas acho que temos um pronunciamento a fazer agora — entrelacei nossas mãos.

— Concordo plenamente, minha mais linda Primeira-dama — Artur abriu seu sorriso mais sincero. E ali enxerguei mais uma vez sua honestidade vinda do sangue Scott, usada não apenas na política, mas sim, em sua vida inteira.

Fomos até o local da coletiva, escoltados novamente por nossos seguranças e lá todos os jornalistas já nos esperavam.

Olhando ao redor, ainda com um sorriso nos lábios, congelei quando meus olhos encontraram meu ex-chefe Victor Parker ali. Artur percebendo minha mudança seguiu meus olhos e sorriu.

— Não se preocupe, princesa.Você venceu e hoje é superior a tudo e a todos. E ele... Meu Deus! Perdeu seu cargo e uma de suas melhores jornalistas, sendo rebaixando a cobrir nossa coletiva! — balançou a cabeça. — Isso deve ser frustrante — sorriu diabolicamente.

Sabia que Artur estava certo. Mary não poderia estar aqui, pois cobria um evento beneficente em Nova York. Estratégia de Victor para nos encontrar? Não sei... Havia algo que me deixava com o pé atrás em relação a ele, mas não pensaria naquilo ainda, começaríamos nosso pronunciamento em alguns minutos e era nisso que tinha que me concentrar.

Diferente das outras vezes, naquela tarde eu estava ao seu lado, do outro lado, como sua mulher e, ao invés de ficar receosa, eu sentia segurança. Artur sempre estaria comigo e isso me bastava. Não teria medos. Muito menos receios. Meu homem de ferro estava ao meu lado e já havia dado abertura ao nosso pronunciamento enquanto divagava.

— Antes de qualquer coisa, gostaria de agradecer a presença de todos aqui para o anúncio oficial de nosso casamento — Artur sorriu abertamente olhando para mim. — Esse que é, sem dúvida alguma, o pronunciamento mais importante da minha vida. Gostaria de compartilhar com todos vocês que estaremos nos casando no dia treze de agosto, e faço questão que publiquem essa data em todos os meios de comunicação. Essa será a data mais feliz das nossas vidas! — ele entrelaçou ainda mais nossas mãos. — A data onde tornarei oficialmente Linda Marilyn Stevens uma Scott. A Scott que ela nasceu para ser. A Scott que ela sempre foi em seu imenso coração. Obrigado a todos e passo a palavra a minha excelentíssima noiva — Artur me passou o microfone e eu não sabia se conseguiria dizer mais alguma palavra depois de mais uma declaração de amor. Mas respirei fundo e complementei seu raciocínio.

— Boa tarde a todos. Gostaria apenas de dizer algumas palavras a vocês, caros colegas de profissão. Eu, que já estive por algum tempo onde estão hoje, sei o quanto é importante nossas declarações e, por isso não abri mão desse comunicado oficial. Hoje venho à frente de todos, dizer que me tornar uma Scott é bem mais que estar ao lado de Artur — olhei para meu amor, que sorria orgulhoso. — Me tornar uma Scott é uma das responsabilidades mais lindas que já tive em toda minha vida. Sempre fui apreciadora e, acima de tudo, pesquisadora da sua política em toda sua trajetória até aqui. Artur Sebastian Scott sempre foi minha parte mais intrigante da pesquisa. Ele me ensinou que para um político ser respeitado e cumprir seu papel, têm que ser autoritário sim, para combater todo o tipo de farsa e corrupção, porém honesto e sempre disposto a fazer o melhor a quem o colocou aqui. Artur é um político excepcional, mas é um homem melhor ainda. Sua integridade, hombridade, seu carisma, sua sedução — nossos olhos se encontraram novamente —, me deixaram completamente apaixonada e podem ter a certeza que debaixo desse político honesto e íntegro, existe o homem mais lindo que já conheci. Lindo por dentro, por sua humildade, por seu amor. Obrigada, amor. Obrigada, a todos os colegas presentes e uma boa tarde.

Todos aplaudiram de pé. Pude ver nossos pais e toda equipe de Artur ali, prestigiando um dos momentos mais especiais das nossas vidas, que fiz questão de dividir com a população, que nos adorava, através da imprensa do país, quiçá do mundo.

Um pouco depois as perguntas começaram.

— E já escolheram o local da cerimônia, Linda Marilyn? — Artur beijou meus cabelos, sorrindo.

— Ainda estamos estudando, Derek. Chegamos de uma viagem de dois meses há duas horas e vamos nos sentar com os organizadores na próxima semana — sorri para o jornalista.

— Se mudarão para Washington de vez? — outra pergunta, mas respondida por Artur dessa vez.

— Não. Ainda temos uma vida em Nova York. Vamos nos dividir, como estamos fazendo nos últimos dois anos. Obrigado a todos, acho que por hora é isso.

Todos aplaudiram novamente e começaram a se dispersar.

— Tudo bem? — Artur enlaçou minha cintura durante algumas fotos.

— Tudo perfeitamente bem, eu amo você.

— Também amo você, Senhora Scott.

— Eu gosto de como isso soa — sorrimos e fomos fotografados abraçados.

— Boa tarde, Linda Marilyn! Vejo que está muito bem — senti meu coração disparar ao ver Victor tão perto, mas fui dura, não poderia demonstrar fraqueza.

— Boa tarde — respondi com uma frieza educada.

— Senador.

— Parker — Artur usou da mesma tática.

— Vim lhes dar os parabéns e dizer que desejo toda a felicidade aos noivos — senti tanta falsidade naquelas palavras, mas não me abati.

— Obrigado, Parker. E pelo que estamos vendo aqui, o namorico progrediu, não é? Vamos, Linda, temos algumas pessoas nos esperando — assenti vendo as narinas do meu ex-chefe inflarem.

— Uma boa tarde, Victor.

— Boa tarde — disse seco enquanto nos afastávamos. Victor na época que me demitiu perdeu seu cargo de diretor chefe, sendo rebaixado à jornalista político, ficando assim em meu lugar. Ótima tática do dono do jornal, que não poderia ficar sem um jornalista em suas colunas diárias. Então nada mais justo do que castigá-lo. Não gostava de como isso soava, porém Parker havia cavado sua própria sepultura jogando comigo. Ele, sem nenhum pudor, pediu que eu escolhesse entre meu “namorico” e minha profissão. Para seu desapontamento, eu escolhi, deixando que Artur desse a cartada final, com ele saindo prejudicado moral e profissionalmente. Mas a escolha foi inteiramente sua, desde o começo dessa história ridícula misturando nossas vidas pessoais dentro do trabalho, afetando até a coluna que agora era sua, dando alfinetadas que de longe chegavam a afetar a integridade de Artur.

Saímos do local nos despedindo de todos os jornalistas e assim que entramos na limusine Artur me abraçou.

— Eu deveria ter acabado com ele naquela época — disse, puxando-me para seu colo.

— Não deveria não, eu estou bem e... Ele é apenas um jornalista medíocre que pensou que eu fosse da sua laia, mas sou muito honesta aos meus sentimentos, coisa que ele nunca vai saber o que é. Somos superiores a ele, amor. E não precisamos mover um dedo, Victor cavou sua própria cova sendo rebaixado de cargo.

— Ok! Não vamos mais falar sobre isso.

— Não vale à pena.

— Não, não vale. Então, preparada para nosso jantar oficial de noivado, Futura Senhora Scott? — mudou totalmente de assunto nos descontraindo.

— Preparadíssima.

E como previsto, nosso jantar oficial de noivado foi maravilhoso. Estávamos ao redor de nossas famílias e dos amigos, Jared e Ethan. Não havia tido a oportunidade para conversar com Jar, mas faria isso assim que chegássemos à Nova York no dia seguinte. Em contra partida, conversei bastante com Sal, que merecia minha atenção depois do que o fiz passar, deixando-o mais tranquilo a respeito da minha viagem e prometendo que nunca mais faria nada parecido.

Eu estava feliz.

Nós estávamos felizes.

Ainda assim, o dia seguinte seria decisivo para a Scott’s, mas nada nos afetaria. Nós éramos fortes, por sermos unidos e, acima de tudo, honestos. E aquela tinha sido a principal lição de Artur no período em que estivemos em Sumas. Eu me orgulhava muito disso.