O Senador

Fernanda Terra · Capítulo 30 de 36

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O Senador

Capítulo 29 · Acordei em mais uma manhã de outono…

 

Acordei em mais uma manhã de outono em casa, sozinha na cama. Tínhamos voltado do hospital há uma semana e em nenhuma das manhãs anteriores tive o prazer de estar com meu marido ao meu lado.

Espreguicei ronronando como uma gata e me estiquei toda na nossa King Sinze.

— Mais uma ronronada dessa e eu entro em você sem avisar — sorri ainda com os olhos fechados.

— Espero que não esteja correndo nessa maldita esteira — ele sorriu fracamente, o que me fez abrir os olhos e procurar o dono da voz que me arrepiava, mesmo depois de quase três anos. O encontrei já vestido todo de preto e de banho tomado na frente da nossa cama. — Bom dia, meu amor — engatinhei até ele que tocou carinhosamente meu rosto.

— Bom dia, princesa — me deu um selinho.

— Já pronto, nem me esperou — fiz manha, o fazendo sorrir.

— Hoje é o grande dia, Linda, não consegui dormir direito — Artur começou a andar de um lado para o outro do quarto.

— Como se eu não tivesse reparado — revirei os olhos.

Aquele era o dia dos depoimentos sobre o escândalo das fraudes e corrupção envolvendo o nome da nossa família.

— Vai dar tudo certo — levantei beijando suas costas. — Me espera? Fico pronta em alguns minutos.

— Não desceria sem você, princesa. Vai lá — ele bateu fracamente na minha bunda e percebi sua tensão no ar.

Debaixo do chuveiro pensei que havia chegado o dia que a armação de Raquel e Ryan Laurence cairia por terra. Toda aquela esperteza amadora os levaria para cadeia, por crimes como falsidade ideológica, corrupção, fraude e lavagem de dinheiro, por enquanto. Mas, tinha certeza que logo as investigações sobre o atentado seriam concluídas também, e isso nos faria respirar com mais facilidade. Voltaríamos a nossa rotina normal.

Saí do chuveiro vestindo também uma calça e uma camisa preta. Quando voltei para o quarto encontrei Artur na janela.

— Estou pronta — se virou estendendo a mão para mim em silêncio.

Descemos encontrando toda nossa equipe e família na sala.

— Bom dia, aconteceu alguma coisa? — perguntei sentindo alguma coisa no ar, enquanto beijava mamãe, Emma e Mary.

— Bom dia, filha, Artur. Nós encontramos um vídeo em que Ryan Laurence aparece no dia do seu atentado nas proximidades da Biblioteca Nacional — sentei em choque.

— Eu quero ver isso agora — Artur se alterou atrás de mim recebendo o tablet do meu pai. — Amador, filho da puta — esbravejou, passando-me o aparelho.

O vídeo mostrava Ryan passar rápido por uma das câmeras e aparentava estar bem nervoso.

— Já podemos usar isso contra eles hoje? — perguntei diretamente para Susanne, parada do outro lado da sala, ao lado de Ethan.

— O depoimento hoje será no Tribunal da Justiça Política, Linda, mas vamos mandar uma cópia do vídeo para a polícia agora mesmo. Na verdade, não temos provas concretas ainda, só que juntando com toda a documentação que entregaremos contra eles, ficará bem mais fácil Ryan e Raquel serem capturados.

— Temos mais alguma coisa, Chefe? — Artur perguntou para meu pai.

— A bala veio de uma arma de longa distância, quase extinta aqui nos Estados Unidos. Então estamos investigando quem ainda possui uma e veremos se isso pode nos levar até eles, Artur.

— Já contataram nossos homens? — olhei de um para outro, confusa.

— Eles já estavam de sobre aviso desde o dia do atentado — George disse calmo.

— “Homens”... Tipo, poder paralelo?

— Sim, Linda, o Galpão 77 é o nosso Poder Paralelo, e os interiores do Pentágono nos ajudam muito com seus homens — Artur disse tocando meu ombro. — A polícia em alguns casos não é muito eficaz. Precisamos de pessoas que trabalhem com mais rapidez e agilidade, o que às vezes, por conta das leis, atrasam — virou novamente para o pai e Sal deixando-me pensativa. Mesmo com meu pai trabalhando dentro do Pentágono a vida inteira, isso ainda era muito fictício para mim. — E aí, descobriram alguma coisa?

— Apenas que o casal saiu de Nova York. Estão em uma cidade próxima, perto da família.

— Eles podem estar planejando uma fuga, pois estão se sentindo acuados.

— Sim, Linda, mas temos olhos e ouvidos em cima deles vinte e quatro horas — Sal disse calmo.

— Eles não escaparão tão fácil — George completou.

— Precisamos ir, o depoimento é daqui à uma hora.

— Ok, Susanne, você vem conosco na limousine, assim acertamos os últimos detalhes do depoimento — Artur disse revirando os olhos assim que me viu levantar. — Não adiantaria dizer que prefiro você em casa, não é?

— Não. Estou indo me arrumar, você não vem? — virei às costas e subi para nosso quarto.

A chegada ao Tribunal de Justiça Política de Nova York foi bastante tumultuada por conta do número estrondoso de jornalistas, repórteres e fotógrafos que estavam cobrindo o caso.

Porém, a população também estava em peso ali, nos dando a tranquilidade e a força para lutarmos por nossa verdade.

Descemos na porta do local, mas mesmo assim fomos achincalhados de perguntas sem cabimento, o que nos fez erguer a cabeça, entrelaçar nossas mãos e entrar dignamente no Tribunal.

— Isso vai ser melhor do que eu pensava — Artur disse animado, enquanto eu tremia por dentro. — Você está bem? — às vezes ficava espantada como ele me conhecia tanto.

— Estou bem, amor — o abracei e sentamos para esperar ele e George serem chamados.

— Senador Artur Scott e George Scott. Acompanhem-me, por favor — um funcionário do Tribunal os chamou depois de alguns minutos.

— Eu amo você e estarei aqui rezando por nossa família.

— Eu sei que sim — ele me beijou e saiu acompanhado do pai e da nossa advogada.

— Ele não deveria estar aqui, Ethan. Artur ainda está em recuperação — sentei novamente, arrumando o vestido preto que continha um chalé de lã por cima, por conta do vento gelado de Nova York.

— Ele é forte, Linda, vai dar tudo certo. Vamos para casa hoje com a imagem dos Scott limpa.

— Você tem razão — suspirei deixando a cadeira me aconchegar.

Fiquei em oração, enquanto Ethan e Jared andavam de um lado para o outro falando no celular. E depois do que me pareceu horas, Artur, meu sogro e Susanne saíram da sala de depoimentos com os semblantes que me fizeram respirar e até sorrir aliviada.

— E aí? — corri em sua direção o abraçando.

— Calma, princesa. Estamos livres — sorriu. — Porém, nesse exato momento Ryan e Raquel Laurence estão em maus lençóis. Tudo foi esclarecido, as provas entregues, e a partir de agora será apenas uma questão de tempo para eles serem pegos.

— E o vídeo?

— Já entregamos também. E com toda a documentação nas mãos da justiça, apontando os reais culpados daquela matéria que gerou o escândalo, mesmo que não tenhamos as provas concretas do atentado ainda, tudo levará até eles — George disse tranquilo. — Mas Sal já está trabalhando para conseguirmos liquidar de vez com essa pendência.

— Vamos para casa, você precisa descansar — olhei feio para meu marido. — O quê?

— Nós precisamos, Senador — ele sorriu, beijando-me e entrelaçou nossas mãos.

Saímos com a mesma cabeça erguida da entrada, porém Artur fez questão de parar ao lado do pai diante de todos os jornalistas e Jared tratou de contornar o tumulto a nossa volta.

— Senador, como foi o depoimento? Vocês têm algo a dizer?

— Apenas que as provas da verdade já estão nas mãos da justiça, e que a partir de agora será uma questão de tempo para que os reais culpados sejam condenados — Artur disse sereno.

— O senhor está querendo dizer que foram vítimas de uma armação? — sorrimos os três, sarcasticamente. Como podem ser tão burros?

— Vocês terão, enfim, as provas que tanto almejaram — ele pausou. — Mas tomem cuidado com aquilo que publicarem daqui para frente, pois o feitiço pode virar contra o feiticeiro. Agora nos deem licença que ainda estou em recuperação.

— E essa armação tem a ver com o atentado? Vocês desconfiam das mesmas pessoas querendo acabar com o império dos Scott?

— Não somos homens de meias palavras e desconfianças, meu caro. Nós temos certeza que tudo que falamos e fazemos. Por isso chegamos ao topo — meu sogro se interpôs na entrevista. — Vocês saberão de todos os detalhes em breve. E se arrependerão, como sempre, de terem julgado sem ao menos dar o beneficio da dúvida. Agora nos deem licença, eu tenho uma nora grávida e um filho se recuperando de um atentado, precisamos ir para casa.

Saímos de lá mais uma vez acenando para aqueles que sempre estiveram ao nosso lado, mostrando toda nossa superioridade.

Quem não devia, não tinha motivos para temer. E os Scott nunca tiveram, sempre foram honestos e fiéis aos seus propósitos, pessoais e profissionais.

Já dentro da limousine, aconchegada delicadamente no ombro de Artur vendo-os discutir sobre o que havia acontecido há minutos atrás, percebi que faltava algo ainda para nossa vitória ser completa.

— Precisamos ir até a mídia — levantei a cabeça.

— Como, Linda?

— George, precisamos mostrar e contar tudo que fizeram conosco.

— Mas, Linda, a imprensa não merece isso, eles ficaram todos contra nós, não tiveram a preocupação… — Artur disse sério.

— Não todos, amor — toquei seu rosto.

— E o que você sugeria?

— Uma exclusiva.

— Com quem? — mordi os lábios com medo de dizer o nome que estava em meus pensamentos e que se encaixaria perfeitamente para nossa entrevista. — Quem, Linda?

— Mark Adams, da The Democratic — me encolhi sem coragem de olhar para Artur.

— A paquita, Linda? — ele bufou encostando-se ao banco.

— Essa é uma revista muito respeitada no ramo, apesar de pequena.

— É disso que precisamos, George, de alguém para mostrar nossa verdadeira história sem querer lucrar em cima.

— Mas tem que ser a paquita?

— Artur! — meu sogro o repreendeu.

— O jornalista é talentoso, temos que admitir.

— Amor, eu conheço Mark e sua gana de justiça. Não encontraremos outro em lugar algum.

— Eu sei. Você tem razão — ele voltou a olhar para meu rosto e sorriu. — Tudo bem, vamos à entrevista. Você está de acordo, pai?

— Com certeza — George sorriu.

— Não poderia ser minha companheira mais perfeita — sussurrou no meu ouvido.

— E você o meu. Vou ligar para ele agora — peguei meu celular e disquei o número já conhecido por mim. Depois do segundo toque ele atendeu.

— Adams falando.

— Mark?

— Linda? — sorri da sua confusão. Na cabeça dele eu não o dirigiria a palavra nunca mais, porém, Mark era uma boa pessoa e acima de tudo o melhor profissional para o que pretendíamos fazer.

— Sim, Mark, sou eu, Linda.

— Como você está, quer dizer... Como vocês... Artur está bem?

— Sim, Mark, nós estamos bem e Artur se recuperando muito bem — sorri acariciando seu rosto e ele beijou minha mão, carinhosamente, mas ainda muito sério.

— Eu… Gostaria de me desculpar pelo que fiz na época em que estava em Sumas, Linda, sua matéria é a mais acessada e lida da história da revista.

— Obrigada, Mark, fico muito feliz em ter feito um bom trabalho para sua revista. Eu que sempre vou lhe agradecer por aquela viagem — sorri mais uma vez para Artur, entrelaçando nossas mãos.

— Mas você não me ligou para isso, não é? — olhei para todos que estavam conosco na limousine e sorri.

— Não. Na verdade estamos precisando dos seus serviços.

— Algum problema?

— Você sabe que sim.

— É claro, eu li sobre isso, não publiquei nada até poder ouvir o que a Família Scott tinha a dizer — sim, eu havia feito a escolha certa.

— Por isso o escolhemos para ter essa conversa. Você pode nos encontrar ainda hoje?

— É claro, onde?

— No tríplex — disse decidida com Artur me olhando assustado. — Daqui a uma hora, tudo bem para você?

— Tudo bem, Linda. Vou ficar feliz em poder ajudar vocês.

— Eu sei que sim, por isso foi o primeiro nome que me veio à cabeça. Nos vemos daqui a pouco.

— Até — desliguei virando para meu marido que estava a ponto de resmungar.

— No tríplex, Linda?

Não disse?!

— Sim, amor. Precisamos mostrar nossa idoneidade e nada melhor que abrirmos a porta da nossa casa para isso.

— Linda tem razão, Artur, precisamos mostrar a essa corja que estamos tranquilos em relação a tudo, por nossa verdade ser absoluta.

— Mas, pai! Nunca abrimos nossas vidas para ninguém, principalmente nossas casas.

— Existe sempre uma primeira vez — acariciei seu rosto.

— Já pensou em demitir Jared e contratá-la como sua assessora? — Ethan brincou, fazendo com que Jar revirasse os olhos.

— Não, McCartney, eu não pensei — Artur me abraçou. — Linda é minha mulher, minha companheira…

— Já entendemos, Artur. Linda é seu tudo — gargalhou piscando para Lizzy.

— Porém estou pensando seriamente em mexer na minha equipe de assessoria pessoal — meu marido parou pensativo. — A atual não tem medo do perigo — rimos juntos e seguimos rumo ao tríplex, onde, em poucos minutos, daríamos uma das mais bombásticas entrevistas que a política já tinha ouvido falar.

 

— Uma exclusiva para minha revista? — Mark perguntou aturdido, enquanto começávamos nossa reunião às portas fechadas, no escritório.

— Sim, Adams, você tem a idoneidade e o profissionalismo para confiarmos nossa história — George disse sério.

— Fico muito lisonjeado com a escolha e vou me doar por completo para que essa exclusiva exploda no mundo político. Sempre confiei na honestidade de vocês, mas acima de tudo, sempre achei esse escândalo muito esquematizado para meu gosto.

— Isso mostra que você não é um amador, Mark — Artur disse pela primeira vez, fazendo-me sorrir e acariciar sua perna por debaixo da mesa, em sinal de paz.

— Então podemos começar?

— A hora que quiser.

— Posso ligar para meu fotógrafo ou vocês preferem a sessão de fotos em outro lugar? — Mark perguntou em dúvida, o que fez com que Artur olhasse diretamente para mim e o pai, porém percebendo nosso consentimento, respondeu:

— Será feito tudo aqui, Adams. Pode avisar seu profissional. E, Ethan, traga os dossiês — nossos olhos se encontraram novamente. — Quero que Mark conheça com quem estamos lidando.

E foi assim que se iniciou a exclusiva, fazendo-me lembrar da nossa entrevista na Ilha de Emma, lá atrás, onde começamos a desenvolver os laços do nosso companheirismo, cumplicidade, confiança e fortalecendo ainda mais o nosso amor.

Aquela lembrança me fez sorrir, sem desconectar minhas mãos e muito menos os olhos do meu maior orgulho, Artur Sebastian Scott. Enquanto isso, ele e George revelavam toda a verdade para o interessado e perspicaz, Mark Adams.

E por seu sorriso complacente, naquele momento ele compreendia tudo o que havia lhe dito na época, em Sumas.

Artur poderia ser era um homem grosso, autoritário, com quem merecia essa sua atitude, mas era a pessoa mais íntegra e honesta em seus ideais políticos e profissionais. Sem contar que não havia no mundo alguém mais carinhoso e entregue quando apaixonado, nesse caso, por mim.

Sorri ainda mais orgulhosa e a entrevista transcorreu da melhor maneira possível. Na hora da sessão de fotos, já tarde da noite, encostei-me à porta do nosso escritório, exausta, depois de um dia completamente estressante, mas permaneci ali, observando meu marido ao lado do pai, completamente relaxado para o fotógrafo, porém não perdendo a capa dura e imponente em frente aos desconhecidos.

Esses eram os Scott.

Imponentes e temidos sim, porém os homens mais honestos e verdadeiros que o mundo já tivera o prazer de ter como líderes.

Depois de tudo pronto, lendo o começo da entrevista com Mark, emocionei-me.

Sim, poderiam ser os hormônios da gravidez, mas também trazia junto comigo uma sensação de paz e de poder voltar a respirar aliviada. Minha família voltava a ser idolatrada por sua transparência e verdade de uma vida inteira.

E tive a certeza ali que nenhuma sujeira seria capaz de se interpor na transparência da verdade absoluta.

 

A verdade não é algo para se ter medo, principalmente se você sempre trabalhou honestamente tendo uma única preocupação: Seu povo!

Hoje falaremos com quem não se deixou abater por calúnias e difamações envolvendo seu sobrenome em todas as primeiras capas de jornais.

Hoje falaremos com quem mostrou a verdade, mesmo sem dever nada para ninguém, de cabeça erguida.

Essa cabeça que deita no travesseiro à noite, sem se preocupar, pois quem não deve nunca temerá…

Mesmo que as injustiças se tornem uma bola de neve, a verdade sempre prevalecerá junto a eles.

Hoje estou falando diretamente da casa de um dos nomes mais famosos no mundo da política.

Com vocês, George e Artur Scott

Por M ark A dam s - T he D em ocratic