Passageiro para Frankfurt
Capítulo III
– Ou seja, você pensa que Sir Stafford...
– Não, não, nunca se envolveu muito com mulheres. A ironia é o problema dele.
Ele gosta de surpreender as pessoas. Ele não consegue evitar: gosta de levar
a melhor sobre as pessoas.
– Bem, isso não é muito satisfatório, é?
– Por que não? – rebateu o coronel Pikeaway.
– Gostar de uma piada interna é muito melhor do que ter algum acordo com um
desertor.
– Se pudéssemos sentir que ele é realmente sólido... O que você diria? A sua
opinião pessoal?
– Sólido como um sino – disse o coronel Pikeaway. – Os sinos são sólidos, mas
isso é diferente, não? – ele sorriu amavelmente. – Eu não me preocuparia, se
fosse você – disse.
III
Sir Stafford Nye empurrou para o lado a sua xícara de café. Pegou o jornal,
passando os olhos pelas manchetes, e então o abriu cuidadosamente na
página que publicava os anúncios pessoais. Ele já estava acompanhando essa
coluna específica por sete dias. Era frustrante, mas não surpreendente. Por
que diabos ele esperava encontrar uma resposta? Seu olhar percorreu
lentamente a miscelânea de peculiaridades que sempre havia tornado aquela
página um tanto fascinante aos olhos dele. Os anúncios não eram
estritamente pessoais. A metade ou até mesmo mais do que a metade eram
apenas anúncios disfarçados ou ofertas de coisas para vender ou por
comprar. Talvez devessem ter sido colocados numa seção diferente, mas
tinham ido parar ali considerando que daquela maneira provavelmente
saltariam aos olhos com mais facilidade. Incluíam um ou dois anúncios de
caráter esperançoso.
“Homem jovem que se opõe ao trabalho pesado e que gostaria de uma vida
tranquila ficaria contente em assumir um emprego que lhe fosse
conveniente.”
“Garota quer viajar para o Camboja. Recusa-se a cuidar de crianças.”
“Arma de fogo usada em Waterloo. Aguardando ofertas.”
“Casaco de pele magnífico. Precisa ser vendido imediatamente. Dona viajando
para o exterior.”
“Você conhece Jenny Capstan? Seus bolos são soberbos. Venha à Lizzard
Street, n˚ 14, S.W.3.”
Por um instante o dedo de Stafford Nye se deteve. Jenny Capstan. Ele gostou
do nome. Existia alguma Lizzard Street? Ele supunha que sim. Nunca ouvira
falar. Com um suspiro, seu dedo desceu pela coluna e quase de imediato se
deteve mais uma vez.
“Passageiro para Frankfurt. Quinta-feira, 11 de novembro. Hungerford
Bridge, 7h20.”
Quinta-feira, 11 de novembro. Era... sim, era hoje. Sir Stafford Nye se recostou
em sua cadeira e bebeu mais café. Estava excitado, empolgado. Hungerford.
Hungerford Bridge. Ele se levantou e foi até a cozinha. A sra. Worrit estava
cortando batatas em tiras e jogando-as dentro de uma grande tigela com
água. A mulher levantou o rosto com certa surpresa.
– Quer alguma coisa, senhor?
– Sim – disse Sir Stafford Nye. – Se alguém lhe dissesse “Hungerford Bridge”,
aonde a senhora iria?
– Aonde eu iria? – a sra. Worrit considerou. – O senhor quer dizer: se eu
quisesse ir, é isso?
– Façamos essa suposição.
– Bem, então eu acho que iria até a Hungerford Bridge, não é isso mesmo?
– A senhora quer dizer que iria para Hungerford em Berkshire?
– Onde fica isso? – perguntou a sra. Worrit.
– Treze quilômetros depois de Newbury.
– Eu já ouvi falar em Newbury. O meu velho jogou num cavalo lá no ano
passado. Se deu bem.
– Então a senhora iria para Hungerford perto de Newbury?
– Não, é claro que não – disse a sra. Worrit. – Ir até lá para quê? Eu iria para
a Hungerford Bridge, é claro.
– Ou seja...
– Bem, fica perto de Charing Cross. O senhor sabe onde é. A ponte sobre o
Tâmisa.
– Sim – disse Sir Stafford Nye. – Sim, eu sei muito bem onde fica. Obrigado, – Sim, obrigada.