Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 36 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo II

– Sim. O professor Shoreham diz que a resposta é não. Ele decidiu que o

projeto era contrário...

Ela fez uma pausa e se voltou para o homem na poltrona. Ele fez gestos

pitorescos com a cabeça, com uma das mãos, e alguns sons guturais saíram

de sua boca. Ela esperou e então falou:

– O próprio professor lhes dirá, ele ficou com medo. Medo do que a ciência fez

em seus tempos de triunfo. As coisas que ela descobriu e soube, as coisas que

ela inventou e deu para o mundo. Os medicamentos prodigiosos que nem

sempre foram prodigiosos, a penicilina que salvou vidas e a penicilina que

tirou vidas, os transplantes de coração que trouxeram desilusões e o

desapontamento de uma morte que não era esperada. Ele viveu no período da

fissão nuclear; novas armas que massacraram. As tragédias da

radioatividade; as poluições que as novas descobertas industriais trouxeram.

Ele ficou com medo do que a ciência poderia fazer, caso fosse usada

indiscriminadamente.

– Mas isso é um benefício. Um benefício para todos – exclamou Munro.

– Muitas coisas já foram benéficas. Sempre saudadas como grandes benefícios

para a humanidade, como grandes prodígios. E aí surgem os efeitos

colaterais, e, pior do que isso, o fato de que por vezes elas traziam não

benefícios, mas desastres. E assim ele decidiu que desistiria. Ele afirma – a

srta. Neumann começou a ler um papel que tinha nas mãos enquanto, a seu

lado, o professor Shoreham assentia sua concordância na poltrona – o

seguinte:

Estou satisfeito por ter feito aquilo que me propus a fazer, por ter realizado a

minha descoberta. Mas decidi não colocá-la em circulação. Ela precisava ser

destruída. E portanto ela foi destruída. E portanto a resposta aos senhores é

não. Não há benevolência em estoque. Poderia ter havido no passado, mas

agora todas as fórmulas, todo o conhecimento técnico, as minhas anotações e

o meu registro dos procedimentos necessários desapareceram – reduzidos a

cinzas – eu destruí a minha criação.

II

Robert Shoreham fez um grande esforço para enunciar uma fala rouca e difícil.

– Eu destruí a minha criação e ninguém neste mundo sabe como eu cheguei a

ela. Um homem me ajudou, mas ele está morto. Ele morreu de tuberculose um

ano após o nosso sucesso. Os senhores precisam ir embora. Não posso ajudá-

los.

– Mas esse seu conhecimento significa que o senhor poderia ter salvado o

mundo!

O homem na poltrona fez um ruído curioso. Era uma risada. A risada de um

homem aleijado.

– Salvar o mundo. Salvar o mundo! Que frase! Isso é o que os seus jovens

pensam que estão fazendo! Avançam com violência e ódio para salvar o

mundo. Mas não sabem como! Terão de fazer por si mesmos, com seus

próprios corações, com suas próprias mentes. Não podemos lhes fornecer um

modo artificial de fazê-lo. Não. Uma bondade artificial? Nada disso. Não

seria real. Não significaria nada. Seria contrário à natureza. – Shoreham

disse lentamente: – Contra Deus.

As duas últimas palavras saíram de forma inesperada, enunciadas com clareza.

Ele olhou em volta para os seus ouvintes. Era como se lhes implorasse

compreensão e ao mesmo tempo não tivesse nenhuma esperança efetiva disso.

– Eu tinha o direito de destruir o que criara...

– Duvido muito – disse o sr. Robinson. – Conhecimento é conhecimento. Aquilo

que o senhor fez nascer, dando-lhe vida, não deveria destruir.

– O senhor tem o direito de opinar... mas os fatos o senhor terá de aceitar.

– Não – o sr. Robinson emitiu a palavra com força.

Lisa Neumann se virou para ele com raiva.

– O que o senhor quer dizer com “Não”?

Os olhos dela soltavam faíscas. Uma mulher bonita, pensou o sr. Robinson.

Uma mulher que amara Robert Shoreham a vida toda, provavelmente. Ela o

amara, havia trabalhado com ele e agora estava vivendo a seu lado,

prestando serviços a ele com seu intelecto, dando-lhe devoção em sua forma

mais pura, sem piedade.

– Há coisas que aprendemos no decorrer de uma vida – disse o sr. Robinson. –

Não creio que a minha vida será longa. Eu carrego um peso grande demais,

só para começar. – Ele suspirou ao olhar para o seu corpanzil. – Mas de fato

sei algumas coisas. Estou com a razão, Shoreham. O senhor também terá de

admitir que eu estou com a razão. O senhor é um homem honesto. Não teria

destruído o seu trabalho. Não teria conseguido se forçar a fazer isso. Ainda

deve tê-lo em algum lugar, trancado, escondido, não nesta casa, – Ele está falando bobagem. Os senhores precisam aceitar a resposta do

provavelmente. Aposto, e eu estou apenas tentando adivinhar, que está

guardado em algum lugar num cofre ou num banco. Ela também sabe disso. O

senhor confia nela. A srta. Neumann é a única pessoa no mundo em quem o

senhor confia.

Shoreham disse, e dessa vez sua voz era quase perfeitamente compreensível:

– Quem é o senhor? Quem diabos é o senhor?

– Sou apenas um homem que entende de dinheiro – disse o sr. Robinson – e das

coisas que se ramificam a partir do dinheiro. Pessoas e suas idiossincrasias e

suas práticas na vida. Se o senhor quisesse, poderia colocar as mãos

novamente no trabalho que deixou de lado. Não estou dizendo que o senhor

poderia fazer o mesmo trabalho agora, mas acho que ele está todo lá, em

algum lugar. O senhor nos disse quais são os seus pontos de vista, e eu não

diria que eles são todos errados – falou o sr. Robinson. – Possivelmente o

senhor está certo. Benefícios à humanidade são coisas traiçoeiras com as

quais lidar. O pobre Beveridge, liberdade em relação à necessidade,

liberdade em relação ao medo, liberdade em relação a fosse o que fosse, ele

pensou que estava fazendo um paraíso na terra dizendo aquilo e planejando e

executando. Mas não resultou um paraíso na terra, e eu não acredito que o

seu Benvo ou qualquer que seja o nome que o senhor lhe deu (parece uma

comida industrializada) tampouco vá criar um paraíso na terra. A

benevolência tem os seus perigos como tudo mais. O que ela fará é nos

poupar de muito sofrimento, dor, anarquia, violência, escravidão às drogas.

Sim, ela pode impedir um monte de coisas ruins, e poderia impedir algo

importante. Poderia... apenas poderia... fazer uma diferença na vida das

pessoas. Jovens. Esse seu Benvolo... agora eu o fiz parecer um produto de

limpeza... irá tornar as pessoas benevolentes, e eu admito que talvez elas se

tornem também condescendentes, acomodadas e satisfeitas consigo mesmas,

mas há uma pequena chance também de que, se você mudar a natureza das

pessoas à força e elas tiverem de continuar tendo essa natureza até que

morram, uma ou duas delas... não muitas... poderão descobrir que possuíam

uma vocação natural, na humildade e não no orgulho, para aquilo que

estavam sendo forçadas a fazer. Realmente mudá-las, eu quero dizer, antes

que morram. Que não sejam capazes de perder um hábito que adquiriram.

O coronel Munro disse:

– Não entendo um pingo do que você está falando!

A srta. Neumann disse:

professor Shoreham. Ele faz o que quiser com suas descobertas. Os senhores

não podem coagi-lo.

– Não – disse Lord Altamount. – Nós não vamos coagi-lo ou torturá-lo, Robert,

ou forçá-lo a revelar os seus esconderijos. Você fará o que considera correto.

Todos estão de acordo.

– Edward? – falou Robert Shoreham.

Sua voz falhou ligeiramente de novo, suas mãos se movimentaram numa

gesticulação, e a srta. Neumann traduziu de pronto.

– Edward? Ele diz que o senhor é Edward Altamount...

Shoreham falou mais uma vez e ela pegou as palavras.

– Ele lhe pergunta, Lord Altamount, se o senhor definitivamente, com a sua

inteligência e do fundo do coração, está lhe pedindo para passar o Projeto

Benvo à sua responsabilidade. Ele afirma... – ela fez uma pausa, observando,

escutando – ele afirma que o senhor é o único homem na vida pública no qual

sempre confiou. Se for o seu desejo...

James Kleek se pôs de pé num movimento repentino. Ansioso, veloz como um

raio, ele parou ao lado da cadeira de Lord Altamount.

– Deixe-me ajudá-lo, senhor. O senhor está passando mal. Não está bem. Por

favor, afaste-se um pouco, srta. Neumann. Eu... eu preciso cuidar dele. Eu...

eu tenho os remédios dele comigo. Eu sei o que fazer...

James Kleek colocou a mão no bolso e sacou uma seringa hipodérmica.

– A menos que ele tome isto logo, será tarde demais...

Ele pegara o braço de Lord Altamount, enrolando a sua manga, apertando a

carne entre os dedos, e estava prestes a inserir a agulha.

Mas alguém mais se mexeu. Horsham estava do outro lado da sala e empurrou

o coronel Munro de lado; sua mão segurou a mão de James Kleek e arrancou

a seringa hipodérmica. Kleek lutou o mais que pôde, mas Horsham era forte

demais para ele. E Munro também já estava ao lado deles.

– Então foi você, James Kleek – ele disse. – Foi você o traidor, o discípulo fiel

que não era um discípulo fiel.

A srta. Neumann tinha corrido até a porta, escancarando-a e chamando:

– Enfermeira! Venha depressa. Venha.