Passageiro para Frankfurt
Capítulo II
– Sim. O professor Shoreham diz que a resposta é não. Ele decidiu que o
projeto era contrário...
Ela fez uma pausa e se voltou para o homem na poltrona. Ele fez gestos
pitorescos com a cabeça, com uma das mãos, e alguns sons guturais saíram
de sua boca. Ela esperou e então falou:
– O próprio professor lhes dirá, ele ficou com medo. Medo do que a ciência fez
em seus tempos de triunfo. As coisas que ela descobriu e soube, as coisas que
ela inventou e deu para o mundo. Os medicamentos prodigiosos que nem
sempre foram prodigiosos, a penicilina que salvou vidas e a penicilina que
tirou vidas, os transplantes de coração que trouxeram desilusões e o
desapontamento de uma morte que não era esperada. Ele viveu no período da
fissão nuclear; novas armas que massacraram. As tragédias da
radioatividade; as poluições que as novas descobertas industriais trouxeram.
Ele ficou com medo do que a ciência poderia fazer, caso fosse usada
indiscriminadamente.
– Mas isso é um benefício. Um benefício para todos – exclamou Munro.
– Muitas coisas já foram benéficas. Sempre saudadas como grandes benefícios
para a humanidade, como grandes prodígios. E aí surgem os efeitos
colaterais, e, pior do que isso, o fato de que por vezes elas traziam não
benefícios, mas desastres. E assim ele decidiu que desistiria. Ele afirma – a
srta. Neumann começou a ler um papel que tinha nas mãos enquanto, a seu
lado, o professor Shoreham assentia sua concordância na poltrona – o
seguinte:
Estou satisfeito por ter feito aquilo que me propus a fazer, por ter realizado a
minha descoberta. Mas decidi não colocá-la em circulação. Ela precisava ser
destruída. E portanto ela foi destruída. E portanto a resposta aos senhores é
não. Não há benevolência em estoque. Poderia ter havido no passado, mas
agora todas as fórmulas, todo o conhecimento técnico, as minhas anotações e
o meu registro dos procedimentos necessários desapareceram – reduzidos a
cinzas – eu destruí a minha criação.
II
Robert Shoreham fez um grande esforço para enunciar uma fala rouca e difícil.
– Eu destruí a minha criação e ninguém neste mundo sabe como eu cheguei a
ela. Um homem me ajudou, mas ele está morto. Ele morreu de tuberculose um
ano após o nosso sucesso. Os senhores precisam ir embora. Não posso ajudá-
los.
– Mas esse seu conhecimento significa que o senhor poderia ter salvado o
mundo!
O homem na poltrona fez um ruído curioso. Era uma risada. A risada de um
homem aleijado.
– Salvar o mundo. Salvar o mundo! Que frase! Isso é o que os seus jovens
pensam que estão fazendo! Avançam com violência e ódio para salvar o
mundo. Mas não sabem como! Terão de fazer por si mesmos, com seus
próprios corações, com suas próprias mentes. Não podemos lhes fornecer um
modo artificial de fazê-lo. Não. Uma bondade artificial? Nada disso. Não
seria real. Não significaria nada. Seria contrário à natureza. – Shoreham
disse lentamente: – Contra Deus.
As duas últimas palavras saíram de forma inesperada, enunciadas com clareza.
Ele olhou em volta para os seus ouvintes. Era como se lhes implorasse
compreensão e ao mesmo tempo não tivesse nenhuma esperança efetiva disso.
– Eu tinha o direito de destruir o que criara...
– Duvido muito – disse o sr. Robinson. – Conhecimento é conhecimento. Aquilo
que o senhor fez nascer, dando-lhe vida, não deveria destruir.
– O senhor tem o direito de opinar... mas os fatos o senhor terá de aceitar.
– Não – o sr. Robinson emitiu a palavra com força.
Lisa Neumann se virou para ele com raiva.
– O que o senhor quer dizer com “Não”?
Os olhos dela soltavam faíscas. Uma mulher bonita, pensou o sr. Robinson.
Uma mulher que amara Robert Shoreham a vida toda, provavelmente. Ela o
amara, havia trabalhado com ele e agora estava vivendo a seu lado,
prestando serviços a ele com seu intelecto, dando-lhe devoção em sua forma
mais pura, sem piedade.
– Há coisas que aprendemos no decorrer de uma vida – disse o sr. Robinson. –
Não creio que a minha vida será longa. Eu carrego um peso grande demais,
só para começar. – Ele suspirou ao olhar para o seu corpanzil. – Mas de fato
sei algumas coisas. Estou com a razão, Shoreham. O senhor também terá de
admitir que eu estou com a razão. O senhor é um homem honesto. Não teria
destruído o seu trabalho. Não teria conseguido se forçar a fazer isso. Ainda
deve tê-lo em algum lugar, trancado, escondido, não nesta casa, – Ele está falando bobagem. Os senhores precisam aceitar a resposta do
provavelmente. Aposto, e eu estou apenas tentando adivinhar, que está
guardado em algum lugar num cofre ou num banco. Ela também sabe disso. O
senhor confia nela. A srta. Neumann é a única pessoa no mundo em quem o
senhor confia.
Shoreham disse, e dessa vez sua voz era quase perfeitamente compreensível:
– Quem é o senhor? Quem diabos é o senhor?
– Sou apenas um homem que entende de dinheiro – disse o sr. Robinson – e das
coisas que se ramificam a partir do dinheiro. Pessoas e suas idiossincrasias e
suas práticas na vida. Se o senhor quisesse, poderia colocar as mãos
novamente no trabalho que deixou de lado. Não estou dizendo que o senhor
poderia fazer o mesmo trabalho agora, mas acho que ele está todo lá, em
algum lugar. O senhor nos disse quais são os seus pontos de vista, e eu não
diria que eles são todos errados – falou o sr. Robinson. – Possivelmente o
senhor está certo. Benefícios à humanidade são coisas traiçoeiras com as
quais lidar. O pobre Beveridge, liberdade em relação à necessidade,
liberdade em relação ao medo, liberdade em relação a fosse o que fosse, ele
pensou que estava fazendo um paraíso na terra dizendo aquilo e planejando e
executando. Mas não resultou um paraíso na terra, e eu não acredito que o
seu Benvo ou qualquer que seja o nome que o senhor lhe deu (parece uma
comida industrializada) tampouco vá criar um paraíso na terra. A
benevolência tem os seus perigos como tudo mais. O que ela fará é nos
poupar de muito sofrimento, dor, anarquia, violência, escravidão às drogas.
Sim, ela pode impedir um monte de coisas ruins, e poderia impedir algo
importante. Poderia... apenas poderia... fazer uma diferença na vida das
pessoas. Jovens. Esse seu Benvolo... agora eu o fiz parecer um produto de
limpeza... irá tornar as pessoas benevolentes, e eu admito que talvez elas se
tornem também condescendentes, acomodadas e satisfeitas consigo mesmas,
mas há uma pequena chance também de que, se você mudar a natureza das
pessoas à força e elas tiverem de continuar tendo essa natureza até que
morram, uma ou duas delas... não muitas... poderão descobrir que possuíam
uma vocação natural, na humildade e não no orgulho, para aquilo que
estavam sendo forçadas a fazer. Realmente mudá-las, eu quero dizer, antes
que morram. Que não sejam capazes de perder um hábito que adquiriram.
O coronel Munro disse:
– Não entendo um pingo do que você está falando!
A srta. Neumann disse:
professor Shoreham. Ele faz o que quiser com suas descobertas. Os senhores
não podem coagi-lo.
– Não – disse Lord Altamount. – Nós não vamos coagi-lo ou torturá-lo, Robert,
ou forçá-lo a revelar os seus esconderijos. Você fará o que considera correto.
Todos estão de acordo.
– Edward? – falou Robert Shoreham.
Sua voz falhou ligeiramente de novo, suas mãos se movimentaram numa
gesticulação, e a srta. Neumann traduziu de pronto.
– Edward? Ele diz que o senhor é Edward Altamount...
Shoreham falou mais uma vez e ela pegou as palavras.
– Ele lhe pergunta, Lord Altamount, se o senhor definitivamente, com a sua
inteligência e do fundo do coração, está lhe pedindo para passar o Projeto
Benvo à sua responsabilidade. Ele afirma... – ela fez uma pausa, observando,
escutando – ele afirma que o senhor é o único homem na vida pública no qual
sempre confiou. Se for o seu desejo...
James Kleek se pôs de pé num movimento repentino. Ansioso, veloz como um
raio, ele parou ao lado da cadeira de Lord Altamount.
– Deixe-me ajudá-lo, senhor. O senhor está passando mal. Não está bem. Por
favor, afaste-se um pouco, srta. Neumann. Eu... eu preciso cuidar dele. Eu...
eu tenho os remédios dele comigo. Eu sei o que fazer...
James Kleek colocou a mão no bolso e sacou uma seringa hipodérmica.
– A menos que ele tome isto logo, será tarde demais...
Ele pegara o braço de Lord Altamount, enrolando a sua manga, apertando a
carne entre os dedos, e estava prestes a inserir a agulha.
Mas alguém mais se mexeu. Horsham estava do outro lado da sala e empurrou
o coronel Munro de lado; sua mão segurou a mão de James Kleek e arrancou
a seringa hipodérmica. Kleek lutou o mais que pôde, mas Horsham era forte
demais para ele. E Munro também já estava ao lado deles.
– Então foi você, James Kleek – ele disse. – Foi você o traidor, o discípulo fiel
que não era um discípulo fiel.
A srta. Neumann tinha corrido até a porta, escancarando-a e chamando:
– Enfermeira! Venha depressa. Venha.