Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 25 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo II

impressão de que eu estava lendo na cama com uma, outro dia, e ela

provavelmente deslizou entre a cama e a parede.

Suas solicitações tomaram um certo tempo até que fossem cumpridas, mas o

atlas, a lente de aumento e um atlas mais antigo para comparação foram

afinal apresentados e Amy, boa mulher que era, Lady Matilda pensou, foi

extremamente prestativa.

– Sim, aqui está. O nome ainda parece ser Monbrügge ou algo assim. Fica no

Tirol ou na Bavária. Tudo parece ter mudado de lugar, ganhando nomes

diferentes...

II

Lady Matilda olhou em volta de seu quarto na Gasthaus. Era bem decorado.

Era caríssimo. Combinava conforto com uma aparência de tamanha

austeridade que poderia levar o habitante a ser atraído por um ascético

programa de exercícios, por uma dieta e possivelmente por sessões de

massagem. A mobília, ela pensou, era muito interessante. Todos os gostos

eram atendidos. Havia uma enorme escritura gótica emoldurada na parede. O

alemão de Lady Matilda já não era tão bom como havia sido em sua infância,

mas o texto tratava, ela pensou, da dourada e encantadora ideia de um

retorno à juventude. Não apenas a juventude tinha o mundo em suas mãos

como também os velhos estavam sendo gentilmente doutrinados a sentir que

eles mesmos poderiam desfrutar de um segundo florescimento dourado.

Aqui havia caridosos auxílios para capacitar um indivíduo a seguir a doutrina

de qualquer um dos muitos caminhos de vida que atraíam diferentes

categorias de pessoas. (Sempre presumindo que elas tinham dinheiro

suficiente para pagar por isso.) Num lado da cama havia uma Bíblia dos

Gideões igual àquelas que Lady Matilda, quando em viagem nos Estados

Unidos, tantas vezes tinha visto junto à cama. Ela pegou a Bíblia com um ar

de aprovação, abriu as páginas ao acaso e pousou o dedo num versículo em

particular. Lady Matilda o leu, balançando a cabeça num assentimento

satisfeito, e fez uma breve anotação num caderno que estava na mesinha de

cabeceira. Ela fizera isso com grande frequência no decorrer de sua vida –

era o seu modo de obter orientação divina num curto prazo.

Já fui jovem e agora sou velho, no entanto não vi os justos desamparados.

Ela fez investigações adicionais pelo quarto. Posicionado à mão, mas não

aparente demais, havia um Almanaque de Gotha, modestamente situado numa

divisão inferior da mesinha de cabeceira. Um livro muitíssimo valioso para – Perdão, Lady Matilda, o que foi que a senhora disse?

aqueles que desejassem se familiarizar com os estratos mais altos da

sociedade, recuando centenas de anos no passado, e que ainda era observado

e percebido e conferido por pessoas de linhagem aristocrática ou

interessadas pelo assunto. Vai ser bem útil, ela pensou, terei muito para ler.

Perto da escrivaninha, junto ao fogão de porcelana de época, havia edições em

brochura de certas pregações e dogmas dos modernos profetas do mundo.

Aqueles que agora ou recentemente vinham gritando no deserto estavam aqui

para ser estudados e aprovados por jovens seguidores com halos de cabelo,

estranhas vestimentas e corações fervorosos. Marcuse, Guevara, Lévi-

Strauss, Fanon.

Para o caso de desenvolver quaisquer conversações com a juventude dourada,

seria melhor ela ler um pouco daquilo também.

Naquele momento houve uma tímida batida na porta. A porta se abriu um

pouco e o rosto da fiel Amy apareceu no canto. Amy, Lady Matilda pensou de

repente, iria parecer exatamente uma ovelha quando fosse dez anos mais

velha. Uma ovelha boa, fiel e carinhosa. No momento, Lady Matilda ficava

feliz por constatar, ela ainda era como uma ovelhinha rechonchuda, muito

agradável, com vistosos cabelos encaracolados, com olhos pensativos e

afetuosos, capaz de emitir carinhosos “bés” em vez de balidos.

– Espero que a senhora tenha dormido bem.

– Sim, minha querida, minha noite de sono foi excelente. Você conseguiu

aquela coisa?

Amy sempre sabia o que ela queria. Entregou o pedido nas mãos de sua patroa.

– Ah, o programa da minha dieta. Muito bem.

Lady Matilda o leu com atenção e disse:

– É tão inacreditavelmente sem graça! Como é essa água que eles esperam que

a pessoa beba?

– O gosto não é lá muito bom.

– Pois é, imaginei que não fosse. Volte daqui a meia hora. Quero que você

mande uma carta.

Movendo para o lado a bandeja do seu café da manhã, ela se deslocou até a

escrivaninha. Pensou por alguns minutos e então escreveu sua carta.

– Vai surtir efeito – ela murmurou.