Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 4 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo III

é que eles vendem uma coisa dessas, no balcão? Preciso personificar uma

mulher?

– Não. Não há qualquer necessidade para uma troca de papéis. O senhor foi

roubado e drogado, mas permanece sendo a mesma pessoa. Tome uma

decisão. Não há muito tempo. Os minutos estão passando bem rápido. Eu

tenho que fazer a minha própria transformação.

– A senhorita venceu – ele disse. – Não se deve recusar o incomum quando nos

oferecem.

– Eu esperava que o senhor pudesse ter essa reação, mas foi um lance de sorte.

Stafford Nye tirou seu passaporte do bolso. Ele o enfiou no bolso exterior do

manto que estivera usando. Depois se levantou, bocejou, olhou em volta,

olhou o relógio e caminhou até o balcão, onde vários produtos estavam

expostos para venda. Não chegou nem mesmo a olhar para trás. Comprou um

livro de bolso e manuseou alguns animaizinhos de pelúcia, um presente

adequado para uma criança. Por fim escolheu um panda. Ele olhou em volta

do saguão, retornou para onde estivera sentado. O manto tinha sumido e a

garota também. O copo de cerveja pela metade estava em cima da mesa

ainda. Este é o meu momento, ele pensou, de correr o risco. Stafford pegou o

copo, afastou-se um pouco e bebeu a cerveja. Não com grande rapidez. Muito

lentamente. O gosto era o mesmo que ele tinha sentido antes.

– Agora eu não sei – disse Sir Stafford. – Agora eu não sei.

Ele atravessou o saguão até um canto distante. Havia uma família um tanto

barulhenta sentada ali, rindo e conversando. Ele se sentou perto deles,

bocejou, deixou sua cabeça cair para trás na borda da almofada. Foi

anunciado um voo partindo para Teerã. Um grande número de passageiros se

levantou e foi fazer fila junto ao portão do número indicado. O saguão ainda

permanecia meio cheio. Stafford abriu o seu livro de bolso. Bocejou

novamente. Ele estava realmente sonolento agora, sim, ele estava muito

sonolento... Ele só precisava pensar onde seria o melhor lugar para dormir.

Algum lugar onde ele pudesse permanecer...

A Trans-European Airways anunciou a saída de seu avião, voo 309 para

Londres.

III

Um bom grupo de passageiros se levantou para obedecer à convocação.

Àquela altura, entretanto, mais passageiros haviam entrado no saguão de O sonho se transformou naquele momento, como é habitual nos sonhos, e ele

trânsito à espera de outros aviões. Avisos se seguiram dando conta de

nevoeiro em Genebra e outros contratempos de viagem. Um homem esbelto e

de estatura mediana, vestindo um manto azul escuro com o forro vermelho

aparecendo e com um capuz puxado sobre uma cabeça de cabelos bem curtos,

não visivelmente mais descuidada do que muitas das cabeças dos rapazes de

hoje em dia, atravessou o saguão para pegar o seu lugar na fila do avião.

Depois de apresentar o bilhete de embarque, ele saiu pelo portão de número

9.

Mais avisos se seguiram. Swissair voando para Zurique. BEA para Atenas e

Chipre – e então um tipo diferente de aviso:

– Srta. Daphne Theodofanous, passageira para Genebra, queira por favor

comparecer ao portão de embarque. O avião para Genebra foi adiado devido

ao nevoeiro. Os passageiros viajarão com escala em Atenas. A aeronave está

prestes sair.

Outros avisos vieram referindo-se a passageiros para o Japão, para o Egito,

para a África do Sul, linhas aéreas abrangendo o mundo todo. O sr. Sidney

Cook, passageiro para a África do Sul, foi instado a comparecer ao balcão de

voo, onde havia uma mensagem para ele. Daphne Theodofanous foi chamada

novamente.

– Esta é a última chamada para o voo 309.

Num canto do saguão, uma menina olhava para um homem num terno escuro

que dormia profundamente, sua cabeça encostada na almofada do sofá

vermelho. Em sua mão ele segurava um pequeno panda de pelúcia.

A mão da menina se estendeu na direção do panda. Sua mãe disse:

– Ora, Joan, não toque nisso. O pobre cavalheiro está dormindo.

– Onde ele está indo?

– Talvez ele esteja indo para a Austrália também – disse a mãe –, como nós.

– Ele tem uma menininha que nem eu?

– Acho que sim – disse a mãe.

A menina suspirou e olhou para o panda de novo. Sir Stafford Nye continuou a

dormir. Ele estava sonhando que tentava atirar num leopardo. Um animal

muito perigoso, ele dizia para o guia de safári que o acompanhava.

– Um animal muito perigoso, foi o que eu sempre ouvi. Você não pode confiar

num leopardo.

estava tomando chá com sua tia-avó Matilda e tentando fazê-la ouvir. Ela

estava mais surda do que nunca! Stafford não tinha ouvido nenhum dos avisos

a não ser o primeiro, dirigido à srta. Daphne Theodofanous. A mãe da

menininha disse:

– Eu sempre fico imaginando o que se passa, sabe, com os passageiros que não

aparecem. Quase sempre, quando se vai para qualquer lugar de avião, se

ouve isso. Alguém que eles não conseguem encontrar. Alguém que não tenha

escutado a chamada ou algo do gênero. Eu sempre fico imaginando quem é

essa pessoa e o que ela está fazendo, e por que ela não apareceu. Suponho

que essa senhorita Não-sei-das-quantas tenha acabado de perder o seu avião.

O que é que eles vão fazer com ela, então?

Ninguém foi capaz de responder a essa pergunta, porque ninguém tinha a

informação adequada.