Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 24 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo 15 - Tia Matilda vai a uma cura

CAPÍTULO 15

 

Tia Matilda vai a uma cura

 

I

– Uma cura de algum tipo, eu pensei... – arriscou Lady Matilda.

– Uma cura? – repetiu o dr. Donaldson.

Ele pareceu ligeiramente intrigado por um momento, perdendo o seu ar de

onisciência médica, o que, é claro, assim Lady Matilda refletiu, era uma das

ligeiras desvantagens relacionadas ao fato de ser atendida por um médico

jovem em vez do espécime mais velho com o qual a pessoa esteve acostumada

durante vários anos.

– Era assim que nós costumávamos chamar isso – Lady Matilda explicou. –

Nos meus tempos de moça, sabe, a gente ia para uma Cura. Marienbad,

Carlsbad, Baden-Baden, todo o resto. Outro dia eu li no jornal sobre esse

novo lugar. Bem novo e moderno. Segundo dizem, cheio de novas ideias e

coisas assim. Não que eu seja uma vendida em relação a novas ideias, mas eu

realmente não teria medo delas. Quero dizer, elas provavelmente seriam as

mesmas coisas sendo repetidas. Água com gosto de ovo podre e a última

novidade em dieta e caminhar para obter a Cura, ou as Águas, ou seja lá

como chamem agora, numa hora um tanto inconveniente da manhã. E eu

imagino que eles lhe façam massagens ou algo assim. Costumavam ser algas

marinhas. Mas esse lugar fica em algum ponto nas montanhas. Bavária ou

Áustria ou outro lugar parecido. Então não suponho que sejam algas

marinhas. Musgo peludo, talvez... isso parece nome de cachorro. E talvez um

agradável copo de água mineral acompanhando a água sulfurosa com gosto

de ovo. Edifícios soberbos, pelo que eu sei. A única coisa que deixa uma

pessoa nervosa, nos dias de hoje, é que eles parecem nunca colocar

corrimãos em nenhum desses prédios modernos e estilosos. Lances de escada

de mármore e tudo mais, mas nada em que a gente possa se segurar.

– Acho que sei qual é o lugar que a senhora tem em mente – disse o dr.

Donaldson. – Tem sido bastante divulgado na imprensa.

– Bem, você sabe como a gente é, com a minha idade – disse Lady Matilda. – A

gente gosta de experimentar coisas novas. Realmente, acho que isso só serve – Acho que poderia lhe fazer um tremendo bem.

para divertir. Não faz com que você realmente sinta que a sua saúde

melhorou. Mesmo assim, você não acha que poderia ser uma boa ideia, dr.

Donaldson?

O dr. Donaldson olhou para ela. Ele não era tão jovem como Lady Matilda o

retratara em sua mente. Ele mal estava se aproximando dos quarenta, e era

um homem gentil, de tato, disposto a fazer as vontades de seus pacientes

idosos até onde considerasse desejável, sem qualquer perigo efetivo de que

eles tentassem algo obviamente inadequado.

– Tenho certeza de que não lhe faria nenhum mal – ele disse. – Poderia ser uma

ótima ideia. É claro que uma viagem é um pouco cansativa, muito embora

seja possível voar para os lugares com muita rapidez e facilidade hoje em

dia.

– Com rapidez, sim. Com facilidade, não – disse Lady Matilda. – Rampas e

escadas rolantes e entrar e sair dos ônibus do aeroporto para o avião, e do

avião para outro aeroporto e do aeroporto para outro ônibus. Tudo isso, não

é mesmo? Mas fiquei sabendo que as pessoas podem obter cadeiras de rodas

nos aeroportos.

– É claro que sim. Excelente ideia. Se a senhora prometer fazer isso e não

pensar que pode ficar andando por todos os cantos...

– Eu sei, eu sei – disse sua paciente, interrompendo-o. – Você me entende. Você

é mesmo um homem muito compreensivo. Toda pessoa tem seu orgulho, não é

mesmo, e enquanto a gente ainda consegue claudicar por aí com uma bengala

ou um pequeno apoio, a gente não vai querer parecer absolutamente uma

pessoa debilitada ou acamada ou algo assim. Seria mais fácil se eu fosse um

homem – ela devaneou. – Quero dizer, poderia amarrar a perna toda com uma

daquelas enormes ataduras e coisas acolchoadas como se sofresse de gota.

Quero dizer, gota não é grande problema para o sexo masculino. Ninguém os

vê com maus olhos por causa disso. Alguns dos amigos mais antigos poderão

pensar que eles andaram exagerando um pouco no vinho do porto, porque

esta costumava ser a ideia, embora eu acredite que não seja nem um pouco

verdadeiro. O vinho do porto não provoca gota. Sim, uma cadeira de rodas, e

eu poderia voar para Munique ou um lugar parecido. Daria para arranjar um

carro ou algo assim na outra ponta.

– A senhora vai levar a srta. Leatheran junto, é claro.

– Amy? Ah, é claro. Eu não conseguiria me virar sem ela. De todo modo, você

acha que isso não me faria nenhum mal?

– Você é realmente um homem muito gentil.

Lady Matilda lhe deu a piscadela de olhos com a qual ele agora estava ficando

familiarizado.

– Você acha que vai me divertir e me deixar animada ir para um lugar novo e

ver alguns novos rostos, e é claro que está totalmente certo. Mas eu gostaria

de pensar que estou indo em busca de uma Cura, embora eu realmente não

tenha nada que precise ser curado. Nada, não é mesmo? Quero dizer, exceto a

idade avançada. Infelizmente a idade avançada não pode ser curada, ela

somente avança mais ainda, não é isso?

– O importante é o seguinte: a senhora vai se divertir? Bem, eu creio que vai.

A propósito: quando se sentir cansada fazendo alguma coisa, pare de fazê-la.

– Vou beber copos de água se a água tiver gosto de ovo podre. Não porque eu

goste ou porque eu francamente ache que me faça algum bem. Mas dá uma

espécie de sentimento mortificante. É como as mulheres velhas no nosso

vilarejo costumavam ser. Elas sempre queriam um remédio bom e forte, com

cor preta ou púrpura ou rosa, e um sabor acentuado de hortelã. Elas

pensavam que isso lhes fazia muito mais bem do que uma inofensiva pílula ou

um frasco comum que apenas parecia estar cheio de água comum sem

nenhuma cor exótica.

– A senhora sabe bastante sobre a natureza humana – disse o dr. Donaldson.

– Você é muito gentil comigo – disse Lady Matilda. – Fico agradecida. Amy!

– Sim, Lady Matilda?

– Pegue um atlas para mim, por favor. Não me lembro bem da Bavária e dos

países em volta.

– Vejamos. Um atlas. Deve haver algum na biblioteca, eu suponho. Decerto nós

temos alguns atlas velhos por aí, datando de 1920 ou algo aproximado, eu

suponho.

– Eu estava imaginando algo um pouco mais moderno.

– Atlas – disse Amy, numa profunda reflexão.

– Se não tivermos, você pode comprar um e me trazer amanhã de manhã. Será

bastante difícil porque todos os nomes são diferentes, os países são

diferentes, e eu não saberei onde estou. Mas você vai ter que me ajudar com

isso. Encontre para mim uma grande lente de aumento, pode ser? Tenho a