Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 22 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Livro 3 - Em casa e no exterior

LIVRO 3

 

Em casa e no exterior

CAPÍTULO 13

 

Conferência em Paris

 

Numa sala em Paris encontravam-se cinco homens sentados. Era uma sala que

já recebera reuniões históricas antes. Um belo número delas. Essa reunião

era, de muitas formas, diferente, mas prometia ser não menos histórica.

Monsieur Grosjean presidia o encontro. Ele era um homem preocupado

fazendo seu melhor para progredir em meio a tudo com facilidade e modos

sedutores que muitas vezes o tinham ajudado no passado. Ele não sentia que

seus modos o estivessem ajudando muito hoje. Signor Vitelli chegara da Itália

por via aérea uma hora antes. Seus gestos eram febris, seus modos se

mostravam desequilibrados.

– Isso ultrapassa qualquer coisa – ele estava dizendo –, ultrapassa qualquer

coisa que se pudesse ter imaginado.

– Esses estudantes – disse Monsieur Grosjean. Não estamos todos nós

sofrendo?

– É mais do que os estudantes. Isso vai além dos estudantes. Podemos

comparar isso com o quê? Um enxame de abelhas. Uma calamidade da

natureza intensificada. Intensificada além de qualquer coisa que se pudesse

ter imaginado. Eles marcham. Eles têm metralhadoras. Sabe-se lá onde eles

adquiriram aviões. Eles propõem tomar conta por inteiro do norte da Itália.

Mas isso é loucura! São crianças... nada mais. E no entanto têm bombas,

explosivos. Na cidade de Milão, excedem o número dos policiais. O que

podemos fazer, eu lhe pergunto? Os militares? O exército também está

rebelado. Eles dizem que estão com les jeunes. Dizem que não há esperança

para o mundo exceto através da anarquia. Falam em algo que chamam de

“terceiro mundo”, mas isso não pode simplesmente acontecer.

Monsieur Grosjean suspirou.

– É muito popular entre os jovens – ele disse –, a anarquia. Uma crença na

anarquia. Sabemos disso desde os tempos da Argélia, a partir de todos os

transtornos com os quais o nosso país e o nosso império colonial sofreram. E

o que podemos fazer? Os militares? No fim das contas eles apoiam os

estudantes.

– Os estudantes, ah, os estudantes – disse Monsieur Poissonier.

Ele era um membro do governo francês para quem a palavra “estudante” era

um anátema. Se lhe tivessem perguntado, ele teria admitido uma preferência

pela gripe asiática ou até mesmo por um surto de peste bubônica. Qualquer

uma dessas desgraças era preferível, em sua mente, às atividades dos

estudantes. Um mundo sem estudantes! Era com isso que Monsieur Poissonier

por vezes sonhava. Eram bons sonhos. Não ocorriam com frequência, no

entanto.

– Quanto aos magistrados – disse Monsieur Grosjean –, o que foi que

aconteceu com as nossas autoridades judiciais? A polícia... sim, a polícia é

leal ainda, mas no judiciário eles se recusam a impor sentenças, não no caso

de jovens que são levados a julgamento diante deles, jovens que destruíram

propriedade, propriedade do governo, propriedade privada... todo tipo de

propriedade. E qualquer um gostaria de saber: por que não? Andei fazendo

investigações nos últimos tempos. A Préfecture me sugeriu certas coisas. Uma

melhoria é necessária, eles dizem, no padrão de vida das autoridades

judiciárias, especialmente nas áreas de província.

– Ora, ora – disse Monsieur Poissonier –, você precisa ter cuidado com o que

sugere.

– Ma foi, por que eu deveria ser cuidadoso? As coisas precisam ser expostas à

luz do dia. Já tivemos fraudes antes, fraudes gigantescas, e agora temos

dinheiro circulando por aí. Dinheiro, e nós não sabemos de onde ele vem, mas

a Préfecture me disse, e eu acredito, que eles estão começando a ter uma

ideia de para onde o dinheiro está indo. Vamos ficar contemplando, podemos

contemplar um estado corrupto subsidiado por alguma fonte externa?

– Na Itália também – disse Signor Vitelli –, na Itália, ah, eu poderia lhes dizer

certas coisas. Sim, eu poderia lhes contar qual é a nossa suspeita. Mas quem,

quem está corrompendo o nosso mundo? Um grupo de industriais, um grupo

de magnatas? Como seria possível algo assim?

– Esse negócio precisa parar – disse Monsieur Grosjean. – Uma atitude

precisa ser tomada. Ação militar. Ação da Força Aérea. Esses anarquistas,

esses saqueadores, eles vêm de todas as classes. É preciso acabar com isso.

– O controle com gás lacrimogêneo tem tido um razoável sucesso – disse

Monsieur Poissonier, com certa dúvida.

– O gás lacrimogêneo não é suficiente – disse Monsieur Grosjean. – O mesmo

resultado seria obtido se colocássemos os estudantes descascando montes de

cebolas. Lágrimas jorrariam de seus olhos. É preciso mais do que isso.

Monsieur Poissonier falou, com voz chocada:

– Você não está sugerindo o uso de armas nucleares...

– Armas nucleares? Quel blague! O que podemos fazer com armas nucleares?

O que seria do solo da França, o que seria do ar da França se nós usássemos

armas nucleares? Podemos destruir a Rússia, sabemos disso. Também

sabemos que a Rússia pode nos destruir.

– Você não está sugerindo que grupos de estudantes em marcha, em

manifestações, poderiam destruir as nossas forças de autoridade...

– É exatamente o que eu estou sugerindo. Recebi um aviso sobre tais coisas.

Sobre estocagem de armas, várias formas de guerra química e outras coisas.

Recebi relatórios de alguns dos nossos eminentes cientistas. Segredos são

conhecidos. Depósitos... mantidos em segredo... armamentos de guerra foram

roubados. O que vai acontecer a seguir, eu lhes pergunto? O que vai

acontecer a seguir?

A pergunta foi respondida inesperadamente e com mais rapidez do que

Monsieur Grosjean poderia ter calculado. A porta se abriu e o secretário

principal se aproximou de seu chefe, o rosto revelando urgente preocupação.

Monsieur Grosjean olhou para ele com desagrado.

– Eu não disse que não queria ser interrompido?

– Sim, de fato, Monsieur le Président, mas a situação é um tanto inusitada –

ele se curvou na direção do ouvido de seu patrão. – O marechal está aqui. Ele

está pedindo para entrar.

– O marechal? Você quer dizer...

O secretário assentiu com a cabeça vigorosamente, diversas vezes, para

confirmar que era isso mesmo. Monsieur Poissonier olhou para o seu colega

com perplexidade.

– Ele está pedindo admissão. Não aceitará uma recusa.

Os outros dois homens na sala olharam primeiro para Grosjean e depois para

o agitado italiano.

– Não seria melhor – disse Monsieur Coin, o ministro dos Assuntos Internos –

se...

Ele parou no “se”, quando a porta mais uma vez foi aberta e um homem entrou

a passos largos. Um homem muito conhecido. Um homem cuja palavra não

apenas tinha sido lei, mas estivera inclusive acima da lei na nação francesa

durante muitos anos no passado. Vê-lo naquele momento foi uma surpresa

indesejável para aqueles que estavam ali sentados.

– Ah, eu os saúdo, meus caros colegas – disse o marechal. – Venho para ajudá-

los. Nosso país está em perigo. Precisamos agir, agir imediatamente! Venho

me colocar à disposição de vocês! Assumo toda a responsabilidade pela

atuação nesta crise. Pode haver perigo. Eu sei que há, mas a honra está

acima do perigo. A salvação da França está acima do perigo. Eles marcham

rumo a nós agora. Uma vasta horda de estudantes, de criminosos que foram

libertados das cadeias, alguns deles tendo cometido crimes de homicídio.

Homens que cometeram incêndio criminoso. Eles gritam nomes. Cantam.

Bradam o nome de seus professores, de seus filósofos, daqueles que os

lideraram nesse caminho de insurreição. Aqueles que ocasionarão a perdição

da França a menos que alguma coisa seja feita. Os senhores ficam aqui

sentados, deploram a situação. É preciso fazer mais do que isso. Mandei

chamar dois regimentos. Alertei a Força Aérea, telegramas cifrados especiais

foram mandados para os nossos vizinhos aliados, para os meus amigos na

Alemanha, porque agora ela é nossa aliada nesta crise! Os tumultos precisam

ser eliminados. Rebelião! Insurreição! Perigo para homens, mulheres e

crianças, para propriedades. Avançarei agora para suprimir a insurreição,

para falar com eles como um pai, como um líder. Esses estudantes, esses

criminosos inclusive, eles são meus filhos. Eles são a juventude da França.

Parto para falar com eles sobre isso. Eles haverão de me ouvir, governos

serão revistos, seus estudos poderão ser retomados sob seus próprios

auspícios. As subvenções que eles tinham eram insuficientes, suas vidas

haviam sido privadas de beleza, de liderança. Estou indo até eles para

prometer tudo isso. Falo em meu próprio nome. Falarei também em nome dos

senhores, em nome do governo. Os senhores fizeram o melhor que podiam,

atuaram tão bem quanto poderiam, mas precisamos de uma liderança mais

forte. A minha liderança. Estou indo agora. Tenho listas de outros telegramas

cifrados que terão de ser enviados. Determinados repressores nucleares que

podem ser usados em locais pouco frequentados podem ser acionados numa

determinada forma modificada e, embora talvez provoquem terror na

multidão, nós sabemos que não há neles nenhum perigo real. Pensei em tudo.

Meu plano terá prosseguimento. Venham, meus leais amigos, me acompanhem.

– Marechal, nós não podemos permitir... o senhor não pode se colocar em

perigo. Nós precisamos...

– Não vou ouvir nada do que os senhores queiram dizer. Eu me entrego à minha

perdição, ao meu destino.

O marechal se deslocou a passos largos no rumo da porta.

– A minha equipe está lá fora. Os meus seguranças escolhidos. Parto agora

para falar com esses jovens rebeldes, essa jovem flor de beleza e terror, para

lhes dizer no que consistem os seus deveres.

Ele desapareceu pela porta com a grandeza de um ator principal interpretando

o seu papel favorito.

– Bon Dieu, ele está falando sério! – disse Monsieur Poissonier.

– Ele vai arriscar sua vida – disse Signor Vitelli. – Quem sabe? Ele tem

bravura, é um homem de muita bravura. Isso é valente, sim, mas o que

acontecerá com ele? Com o ânimo que les jeunes têm agora, eles podem matá-

lo.

Um suspiro de prazer escapou dos lábios de Monsieur Poissonier. Poderia ser

verdade, ele pensou. Sim, poderia ser verdade.

– É possível – ele disse. – Sim, podem matá-lo.

– Ninguém deseja isso, é claro – Monsieur Grosjean disse com cuidado.

Monsieur Grosjean de fato desejava isso. Ele o esperava, embora um

pessimismo natural o levasse a constatar, quando pensava melhor, que as

coisas raramente terminavam como gostaríamos. Na verdade, uma

perspectiva muito mais tenebrosa o confrontava. Era bem possível, no âmbito

das tradições do passado do marechal, que de uma forma ou de outra ele

conseguisse induzir um grande amontoado de estudantes eufóricos e

sanguinários a escutar o que ele dizia, confiar em suas promessas e insistir

em restaurá-lo ao poder que uma vez ele possuíra. Era o tipo de coisa que

acontecera uma ou duas vezes na carreira do marechal. Seu magnetismo

pessoal era tamanho que certos políticos, no passado, tinham sido derrotados

por ele quando menos esperavam.

– Nós precisamos detê-lo! – ele exclamou.

– Sim, sim – disse Signor Vitelli –, o mundo não pode perdê-lo.

– Chego a ter medo – disse Monsieur Poissonier. – Ele tem amigos demais na

Alemanha, contatos demais, e vocês sabem que em questões militares eles se

mexem bem rápido na Alemanha. Pode ser que aproveitem com ânsia essa

oportunidade.

– Bon Dieu, bon Dieu – disse Monsieur Grosjean, enxugando sua testa. – O que

faremos? O que podemos fazer? Que barulho é esse? Estou ouvindo rifles,

não estou?

– Não, não – disse Monsieur Poissonier, de modo tranquilizador. – São as

bandejas de café da cantina que você está ouvindo.

– Há uma citação que eu poderia usar – disse Monsieur Grosjean, que era um

grande amante do drama –, se ao menos eu conseguisse me lembrar. Uma

citação de Shakespeare: “Porventura ninguém me livrará desse”...

– ...“padre turbulento” – disse Monsieur Poissonier. – Sobre Becket.

– Um louco como o marechal é pior do que um padre. Um padre deveria pelo

menos ser inofensivo, se bem que até Sua Santidade o papa recebeu uma

delegação de estudantes ainda ontem. Ele os abençoou. Ele os chamou de

seus filhos.

– Um gesto cristão, porém – disse Monsieur Coin, com alguma dúvida.

– É possível ir longe demais até mesmo com gestos cristãos – disse Monsieur

Grosjean.