Passageiro para Frankfurt
Capítulo 21 - Projeto Benvo
CAPÍTULO 21
Projeto Benvo
O professor John Gottlieb, sentado em sua cadeira, encarava de modo bastante
fixo a bela jovem sentada à sua frente. Ele coçou a orelha com um gesto de
macaco que era característico de sua postura. Ele se parecia muito com um
macaco, de qualquer forma. Um queixo prógnato, uma comprida cabeça de
linhas exatas para contrastar e um corpo pequeno e encarquilhado.
– Não é todos os dias – disse o professor Gottlieb – que uma jovem dama me
traz uma carta do presidente dos Estados Unidos. Entretanto – ele disse com
jovialidade –, os presidentes nem sempre sabem ao certo o que estão fazendo.
Qual é o propósito disso tudo? Deduzo que a senhorita esteja investida da
mais alta autoridade.
– Vim lhe perguntar o que o senhor sabe ou pode me contar sobre algo
chamado Projeto Benvo.
– A senhorita é realmente a condessa Renata Zerkowski?
– Tecnicamente, possivelmente, eu sou. Costumo ser mais chamada de Mary
Ann.
– Sim, foi o que me disseram. E a senhorita quer saber sobre o Projeto Benvo.
Bem, existe algo com esse nome, mas já está morto e enterrado, e o homem
que o criou também, eu imagino.
– O senhor se refere ao professor Shoreham.
– Isso mesmo. Robert Shoreham. Um dos grandes gênios do nosso tempo.
Einstein, Niels Bohr e alguns outros. Mas Robert Shoreham não durou tanto
quanto deveria ter durado. Uma grande perda para a ciência. O que é mesmo
que Shakespeare diz de Lady Macbeth? “Ela deveria ter morrido doravante.”
– Ele não está morto – disse Mary Ann.
– Ah. Tem certeza disso? Não temos notícias dele faz muito tempo.
– Ele é inválido. Vive no norte da Escócia. Está paralítico, não consegue falar
direito, não consegue caminhar direito. Fica sentado na maior parte do
tempo, ouvindo música.
– Sim, posso imaginar. Bem, fico contente. Se ele consegue fazer isso, não
estará triste demais. Em todos os outros sentidos, isso é um inferno e tanto
para um homem brilhante que não é mais brilhante. Que está, por assim dizer,
morto numa cadeira de rodas.
– Houve algo chamado Projeto Benvo?
– Sim, ele estava muito entusiasmado.
– Ele conversou com o senhor a respeito?
– Ele conversava com alguns de nós nos primeiros tempos. A senhorita não é
cientista, eu suponho.
– Não, eu...
– A senhorita é só uma agente, eu suponho. Espero que esteja do lado certo.
Ainda temos uma esperança por milagres hoje em dia, mas não acho que a
senhorita possa obter alguma coisa com o Projeto Benvo.
– Por que não? O senhor disse que ele trabalhou no projeto. Teria sido uma
grande invenção, não teria? Ou descoberta, ou seja lá como vocês chamam
essas coisas.
– Sim, teria sido uma das maiores descobertas do nosso tempo. Simplesmente
não sei o que deu errado. Já aconteceu antes. Algo avança com boas
perspectivas mas nos últimos estágios, de alguma forma, a equação não
fecha. A coisa desmorona. Não gera o resultado esperado e você desiste de
tudo, em desespero. Ou então faz o mesmo que Shoreham.
– Ele fez o quê?
– Ele destruiu tudo. Cada pedacinho. Me disse isso pessoalmente. Queimou
todas as fórmulas, todos os documentos, todos os dados. Três semanas depois
ele teve o derrame. Sinto muito. Ou seja, não posso ajudá-la. Eu nunca soube
de quaisquer detalhes do projeto, nada exceto a ideia geral. Não me lembro
nem mesmo da ideia, a não ser por uma coisa. Benvo significava
“benevolência”.