Passageiro para Frankfurt
Capítulo IV
sra. Worrit.
Tinha sido, ele sentia, como jogar cara ou coroa com uma moeda. Um anúncio
num jornal matutino de Londres devia significar a Hungerford Railway
Bridge em Londres. Presumivelmente, portanto, isso era o que o anúncio
queria dizer, muito embora Sir Stafford Nye não pudesse absolutamente ter
qualquer certeza sobre essa específica anunciante. Suas ideias, pela breve
experiência que tivera com ela, eram originais. Não eram as respostas
normais que alguém poderia esperar. Mesmo assim, o que mais restaria
fazer? Além disso, provavelmente existiam outras Hungerfords, e era possível
que elas tivessem também outras pontes, em várias partes da Inglaterra. Mas
hoje, bem, hoje ele veria.
IV
Era um anoitecer frio e ventoso, com rajadas ocasionais de chuva fina e
nebulosa. Sir Stafford Nye levantou a gola de sua capa de chuva e avançou
com esforço. Ele não estava atravessando a Hungerford Bridge pela primeira
vez, mas aquele nunca lhe parecera ser um passeio prazeroso para se fazer.
Embaixo dele havia o rio, e atravessando a ponte havia uma enorme
quantidade de figuras apressadas como ele. Suas capas de chuva puxadas em
torno do corpo, seus chapéus abaixados e, em todos e cada um deles, o
fervoroso desejo de chegar em casa e fugir do vento e da chuva o mais
depressa possível. Seria muito difícil reconhecer alguém, pensou Sir Stafford
Nye, naquela multidão em correria. 7h20. Não era um bom momento para
marcar um encontro de qualquer tipo. Talvez fosse a Hungerford Bridge em
Berkshire. De todo modo, aquilo parecia muito estranho.
Ele continuou avançando com esforço. Manteve um ritmo regular, sem
ultrapassar os que estavam à frente, passando com certa dificuldade pelos
que vinham no sentido oposto. Andava depressa o bastante para não ser
ultrapassado pelos demais que estavam atrás, muito embora isso lhes fosse
possível, caso quisessem. Uma brincadeira, talvez, pensou Stafford Nye. Não
era exatamente o seu tipo de brincadeira, mas um gracejo de outra pessoa.
No entanto... não seria também um humor característico dela, ele diria.
Figuras apressadas passavam por Stafford de novo, empurrando-o
ligeiramente para o lado. Uma mulher com capa de chuva vinha se
aproximando, caminhando com passos pesados. A mulher colidiu com ele,
caindo de joelhos. Stafford Nye lhe deu ajuda para levantar.
– Tudo bem?
Ela tratou de seguir em frente com pressa, mas, tendo topado com ele, sua mão
molhada, pela qual ele a fizera levantar do chão, tinha escorregado algo na
palma da mão dele, fechando-lhe os dedos por cima. Então ela se afastou,
desaparecendo atrás dele, misturando-se com a multidão. Stafford Nye seguiu
seu caminho. Não teria como alcançá-la. Ela também não queria ser
alcançada. Ele avançou mais depressa, e sua mão segurava algo com firmeza.
Por fim, depois de um longo tempo, como lhe pareceu, ele chegou à
extremidade da ponte no lado de Surrey.
Alguns minutos depois Stafford entrou num pequeno café, sentando-se a uma
mesa e pedindo um café. Então ele observou o que estava em sua mão. Era um
envelope muito fino de oleado. Dentro havia um envelope branco de baixa
qualidade. Ele abriu este também. O que havia em seu interior o surpreendeu.
Era uma entrada.
Uma entrada para o Festival Hall na noite seguinte.