Passageiro para Frankfurt
Capítulo 9 - A casa perto de Godalming
CAPÍTULO 9
A casa perto de Godalming
Ela foi subindo a ampla escadaria e os dois a seguiram. Sim, pensou Stafford
Nye, uma casa muito confortável. Papel de parede Jaime I, uma escadaria de
carvalho esculpido muitíssimo feiosa, mas pisos agradável. Quadros muito
bem escolhidos, mas sem nenhum interesse artístico em particular. A casa de
um homem rico, ele pensou. Não um homem de mau gosto – um homem de
gostos convencionais. Um tapete grosso de primeira qualidade com agradável
textura cor de ameixa.
No primeiro andar, a copeira com altura de granadeiro se dirigiu até a
primeira porta. Abriu-a e recuou um passo para deixá-los entrar, mas não
anunciou os nomes. A condessa entrou primeiro e Sir Stafford Nye a seguiu.
Ele ouviu a porta sendo fechada com suavidade atrás de si.
Havia quatro pessoas na sala. Sentado atrás de uma grande escrivaninha toda
coberta por papéis, documentos, um ou dois mapas abertos e presumivelmente
outros papéis que eram motivo de discussão, estava um homem gordo,
enorme, com um rosto muito amarelo. Era um rosto que Sir Stafford Nye já
tinha visto antes, embora no momento não conseguisse ligar um nome a ele.
Era um homem que ele só conhecera de maneira casual... Contudo, sabia que
o conhecera numa ocasião importante. Ele deveria saber, sim, definitivamente
ele deveria saber. Mas por quê... por que não lhe vinha o nome?
Com ligeira dificuldade, a figura sentada junto à escrivaninha se colocou de
pé. Ele apertou a mão estendida da condessa.
– Você chegou – ele disse. – Esplêndido.
– Sim. Permita-me apresentá-lo, embora eu ache que o senhor já o conhece. Sir
Stafford Nye, sr. Robinson.
É claro. Na mente de Sir Stafford Nye, algo estalou como uma máquina
fotográfica. Isso se encaixava, também, com um outro nome. Pikeaway. Dizer
que ele sabia tudo sobre o sr. Robinson não era verdade. Ele sabia sobre o sr.
Robinson tudo aquilo que o sr. Robinson permitia que se soubesse. O seu
nome, até onde todos sabiam, era Robinson, embora pudesse ser qualquer
nome de origem estrangeira. Ninguém jamais havia sugerido algo desse tipo.
O reconhecimento vinha também de sua aparência pessoal. A testa alta, os
olhos escuros e melancólicos, a grande boca generosa e os impressionantes
dentes brancos – dentes postiços, presumivelmente, mas de todo modo dentes
sobre os quais seria possível dizer, como na história de Chapeuzinho
Vermelho, “para te comer melhor, minha netinha!”.
Ele sabia também o que o sr. Robinson representava. Uma simples palavra o
descrevia. O sr. Robinson era o representante do Dinheiro com um D
maiúsculo. O dinheiro em todos os seus aspectos. Dinheiro internacional,
dinheiro do mundo inteiro, financiamento privado, movimentos bancários, o
dinheiro de uma forma diferente daquela na qual uma pessoa comum olhava
para ele. Ninguém pensaria que ele pudesse ser um homem muito rico. Sem
dúvida ele era um homem muito rico, mas esse não era o detalhe mais
importante. Ele era um dos administradores do dinheiro, pertencente ao
grande clã dos banqueiros. Seus gostos pessoais poderiam inclusive ser
simples, mas Sir Stafford duvidava que fossem. Um razoável padrão de
conforto, até mesmo de luxo, seria o modo de vida do sr. Robinson. Mas não
mais do que isso. Então, por trás de todos aqueles negócios misteriosos, havia
o poder do dinheiro.
– Eu ouvi falar do senhor um ou dois dias atrás – disse o sr. Robinson enquanto
os dois apertavam as mãos –, pelo nosso amigo Pikeaway.
Isso se encaixava, pensou Stafford Nye, porque agora ele lembrava que na
única ocasião em que havia encontrado o sr. Robinson o coronel Pikeaway
estivera presente. Horsham, ele lembrava, falara sobre o sr. Robinson. Então
havia Mary Ann (ou seria a condessa Zerkowski?) e o coronel Pikeaway
sentado em sua própria sala repleta de fumaça com os olhos semicerrados ou
se preparando para dormir ou tendo pouco antes acordado, e havia o sr.
Robinson com seu rosto amplo e amarelado, e portanto havia dinheiro em
jogo em algum lugar, e o olhar de Stafford Nye passou pelas três outras
pessoas presentes na sala porque queria ver se sabia quem eram e aquilo que
representavam, ou se seria capaz de adivinhar.
Em pelo menos dois casos ele não precisou adivinhar. O homem que estava
sentado na imponente poltrona alta perto da lareira, um sujeito idoso
emoldurado pela poltrona como a moldura de um quadro poderia tê-lo
emoldurado, era um rosto que havia sido bastante conhecido em toda a
Inglaterra. Na verdade, ainda era bastante conhecido, embora raramente
fosse visto nos dias de hoje. Um homem doente, um inválido, um homem que
fazia aparições muito fugazes, as quais, segundo diziam, cobravam-lhe um
alto preço físico em dores e dificuldades. Lord Altamount. Um rosto fino e
emaciado, um nariz saliente, cabelos grisalhos que haviam recuado um pouco
na testa e depois corriam para trás numa espessa juba cinzenta; orelhas um
tanto proeminentes, que os cartunistas da época tinham usado, e um olhar
profundo e penetrante que não tanto observava quanto sondava. Sondava
profundamente aquilo que ele agora observava. No momento ele estava
observando Sir Stafford Nye. Ele estendeu a mão quando Stafford Nye se
aproximou.
– Não consigo me levantar – disse Lord Altamount. Sua voz era fraca, a voz de
um velho, uma voz longínqua. – As minhas costas não deixam. O senhor
acabou de voltar da Malásia, não foi, Stafford Nye?
– Sim.
– Valeu a pena ir? Imagino que não tenha valido a pena na sua opinião. O
senhor provavelmente está certo também. Entretanto, somos obrigados a ter
essas excrescências na vida, essas filigranas ornamentais que adornam as
mentiras diplomáticas da melhor espécie. Fico contente que o senhor tenha
vindo aqui ou tenha sido trazido aqui esta noite. Foi por ação de Mary Ann,
eu suponho.
Então é assim que ele a chama e isso é o que pensa sobre ela, Stafford Nye
pensou consigo mesmo. Era como Horsham a chamara. Ela estava inserida no
grupo deles, sem nenhuma dúvida. Quanto a Altamount, ele representava...
hoje em dia ele representava o quê? Stafford Nye ficou pensando consigo
mesmo. Ele ainda defende a Inglaterra e vai defendê-la até ser enterrado na
Abadia de Westminster ou num mausoléu no campo ou seja lá o lugar que
escolher. Ele foi a Inglaterra, e ele conhece a Inglaterra, e eu diria que ele
conhece o valor de cada político e de cada funcionário do governo na
Inglaterra muitíssimo bem, mesmo que nunca tenha falado com eles.
Lord Altamount disse:
– Este é o nosso colega Sir James Kleek.
Stafford Nye não conhecia Kleek. Julgava que jamais ouvira falar dele. Um
sujeito inquieto e agitado. Olhares argutos e desconfiados que nunca
paravam por muito tempo em lugar nenhum. Ele dava mostras da avidez
contida de um cão de caça esperando a palavra de ordem. Pronto para sair
correndo ao menor olhar de seu mestre.
Mas quem era o mestre? Altamount ou Robinson?
Os olhos de Stafford Nye passaram para o quarto homem. Ele tinha se
levantado da poltrona onde estivera sentado perto da porta. Bigode farto,
sobrancelhas erguidas, observador, reservado, conseguindo de certa maneira
permanecer familiar e ao mesmo tempo quase irreconhecível.
– Então é você – disse Sir Stafford Nye. – Como vai, Horsham?
– Muito contente por vê-lo aqui, Sir Stafford.
Uma reunião bastante representativa, pensou Stafford Nye, com um rápido
olhar em volta.
Eles tinham posicionado uma cadeira para Renata não longe da lareira e de
Lord Altamount. Ela estendera uma mão – sua mão esquerda, ele notou – e
Lord Altamount a tomara entre as suas, segurando-a por um minuto para
então soltá-la. Ele disse:
– Você correu riscos, criança, você costuma correr riscos demais.
Olhando para ele, Renata disse:
– Foi o senhor quem me ensinou isso, e essa é a única maneira de viver.
Lord Altamount voltou sua cabeça na direção de Sir Stafford Nye.
– Não fui eu quem ensinou você a escolher o seu homem. Você tem um talento
natural para isso.
Olhando para Stafford Nye, ele falou:
– Eu conheço a sua tia-avó, ou talvez tia-bisavó...
– Tia-avó Matilda – Stafford Nye disse imediatamente.
– Sim. Essa mesma. Uma das tours de force vitorianas dos anos 1890. Ela
mesma deve estar chegando perto dos noventa agora.
Ele continuou:
– Eu não a vejo com muita frequência. Uma ou duas vezes por ano, talvez. Mas
sempre fico impressionado... aquela pura vitalidade que sobrevive às forças
do corpo dela. Eles possuem o segredo disso, esses vitorianos indomáveis e
alguns eduardianos também.
Sir James Kleek disse:
– Posso pegar uma bebida para o senhor, Nye? Gostaria de beber o quê?
– Gim-tônica, se possível.
A condessa recusou com um pequeno aceno de cabeça.
James Kleek trouxe a bebida para Nye e a colocou na mesa, perto do sr.
Robinson. Stafford Nye não iria falar primeiro. Os olhos escuros atrás da
escrivaninha perderam a melancolia por um momento. Havia neles uma
cintilação bastante súbita.
– Alguma pergunta? – ele quis saber.
– Inúmeras – disse Sir Stafford Nye. – Não seria melhor termos as explicações
antes e as perguntas depois?
– É o que o senhor prefere?
– Isso poderia simplificar as coisas.
– Bem, podemos começar com uma simples declaração dos fatos. O senhor
pode ou não ter sido convidado para vir aqui. Se não foi, os fatos poderão
doer um pouco.
– Ele sempre prefere ser convidado – disse a condessa. – Foi o que ele me
falou.
– Naturalmente – disse o sr. Robinson.
– Eu fui sequestrado – disse Stafford Nye. – Está muito na moda, eu sei. Um
dos nossos métodos mais modernos.
Ele manteve no seu tom um traço ligeiramente divertido.
– E isso propicia, seguramente, uma pergunta de sua parte – disse o sr.
Robinson.
– Apenas duas sílabas: por quê?
– Justamente. Por quê? Eu admiro a sua economia de palavras. Este é um
comitê privado... um comitê de inquérito. Um inquérito de implicação
mundial.
– Parece interessante – disse Sir Stafford Nye.
– É mais do que interessante. É pungente e imediato. Quatro diferentes modos
de vida estão representados nesta sala hoje à noite – disse Lord Altamount. –
Nós representamos ramos diferentes. Eu me aposentei da participação ativa
nos negócios deste país, mas sou ainda uma autoridade como consultor. Fui
consultado e convidado para presidir este particular inquérito no tocante ao
que está ocorrendo no mundo neste específico ano do nosso Senhor, porque
alguma coisa está acontecendo. O nosso James, aqui, tem a sua própria tarefa
especial. Ele é o meu braço direito. Ele é também o nosso porta-voz. Explique
a situação em termos gerais, Jamie, para o nosso Sir Stafford.
Pareceu a Stafford Nye que o cão perdigueiro estremeceu. Finalmente!
Finalmente eu posso falar e avançar com isso! Ele se inclinou um pouco em
sua cadeira.
– Quando coisas acontecem no mundo, é preciso procurar por uma causa para
elas. Os sinais exteriores são sempre fáceis de ver, mas eles não são... ou pelo
menos assim o nosso presidente – ele fez uma mesura para Lord Altamount –
e o sr. Robinson e o sr. Horsham acreditam... não são importantes. Tem sido
sempre da mesma maneira. Pegue uma força da natureza, uma grande queda
d’água lhe dará uma potência de turbina. Pegue a descoberta do urânio a
partir da uraninita e isso lhe dará, no devido tempo, uma potência nuclear
com a qual nunca tínhamos sonhado e que não sabíamos existir. Uma vez que
você encontrou carvão e minerais, eles lhe deram transportes, potência,
energia. Sempre existem forças em funcionamento que geram certas coisas.
Mas atrás de cada uma delas existe alguém que controla tudo. É preciso
encontrar quem está controlando as forças que lentamente vão ganhando
ascendência em praticamente todos os países da Europa, e mais longe ainda
em localidades da Ásia. Possivelmente não tanto na África, mas a mesma
coisa nos continentes americanos, tanto do norte quanto do sul. Você precisa
olhar por todos os lados as coisas que estão acontecendo e descobrir qual é a
força motriz que faz com que elas aconteçam. Uma coisa que produz
acontecimentos é o dinheiro.
Ele acenou com a cabeça na direção do sr. Robinson.
– O sr. Robinson sabe mais sobre dinheiro do que qualquer outra pessoa no
mundo, eu suponho.
– É bem simples – disse o sr. Robinson. – Temos grandes movimentos em
andamento. Tem de haver dinheiro por trás deles. Nós precisamos descobrir
de onde esse dinheiro está vindo. Quem está operando com ele? De onde ele é
tirado? Para onde está sendo enviado? Por quê? É bem verdade o que James
afirma: eu sei quase tudo sobre dinheiro! Mais do que qualquer outro homem
vivo pode saber atualmente. Depois temos aquilo que poderíamos chamar de
propensão. É uma palavra que usamos bastante hoje em dia! Propensões ou
tendências... são inúmeras palavras que todos usam. Elas não querem dizer
exatamente a mesma coisa, mas estão relacionadas umas com as outras. Uma
tendência de rebelião, digamos assim, está dando sinais. Olhe para trás ao
longo da história. Você irá encontrá-la voltando várias e várias vezes,
repetindo-se como uma tabela periódica, repetindo um padrão. Um desejo de
rebelião, os meios de rebelião, a forma que a rebelião assume. Não é algo
específico de nenhum país específico. Se a tendência surge num país, surgirá
em outros países em maior ou menor grau. É isso o que o senhor quer dizer,
não é? – ele se virou um pouco para Lord Altamount. – Foi mais ou menos
dessa maneira que o senhor expôs a questão para mim.
– Sim, você está colocando as coisas muito bem, James.
– É um padrão, um padrão que surge e que parece ser inevitável. Você pode
reconhecê-lo onde o encontra. Houve um período em que a ânsia pelas
Cruzadas varreu os países. Por toda a Europa as pessoas embarcavam em
navios, elas partiam para libertar a Terra Santa. Tudo muito claro, um padrão
perfeitamente visível de um determinado comportamento. Mas por que elas
partiam? Esse é o interesse da história. Ver onde esses desejos e padrões
aparecem. Não é sempre uma resposta materialista também. Todos os tipos de
coisas podem causar uma rebelião, um desejo de liberdade, liberdade de
expressão, liberdade de culto religioso, outra vez uma série de padrões
proximamente relacionados. Isso levava as pessoas a escolher a emigração
para outros países, levava à formação de novas religiões, com grande
frequência tão repletas de tiranias quanto as que haviam deixado para trás.
Mas em tudo isso, se você olhar com atenção suficiente, se você fizer
investigações suficientes, você poderá ver o que foi que deflagrou a origem
desses e de muitos outros... vou usar a mesma palavra... padrões. De certo
modo é como uma doença viral. O vírus pode ser levado pelo mundo inteiro,
atravessando mares, subindo montanhas. Pode avançar e infectar. Ele
aparentemente se dissemina sem ter sido colocado em movimento. Mas
ninguém pode ter certeza, nem mesmo agora, de que isso tenha sido sempre
verdade. Pode ser que existam causas. Causas que fizeram com que as coisas
acontecessem. Podemos dar alguns passos além. Existem pessoas. Uma
pessoa... dez pessoas... algumas centenas de pessoas que são capazes de
representar e colocar em movimento uma causa. Então não é para o processo
final que precisamos olhar. É para as primeiras pessoas que colocaram a
causa em movimento. Você tem os seus cruzados, você tem os seus entusiastas
religiosos, você tem os seus desejos de liberdade, você tem todos os outros
padrões, mas é preciso recuar ainda mais. Recuar mais até o interior
profundo. Visões, sonhos. O profeta Joel sabia disso quando escreveu: “Os
seus homens velhos sonharão sonhos, os seus homens jovens verão visões”. E,
dessas duas coisas, qual é a mais poderosa? Os sonhos não são destrutivos.
Mas as visões podem abrir novos mundos... e as visões também podem
destruir os mundos que já existem...
James Kleek voltou-se de súbito para Lord Altamount.
– Não sei se isso tem alguma ligação – ele disse –, mas certa vez o senhor me
contou uma história sobre alguém na embaixada em Berlim. Uma mulher.
– Ah, aquilo? Sim, achei interessante na época. Sim, tem algo a ver com isso
que nós estamos discutindo agora. Uma das esposas da embaixada, uma
mulher astuta, inteligente, bem-educada, estava muito ansiosa para ir
pessoalmente ouvir o Führer falar. Eu estou falando, é claro, da época que
precedeu imediatamente a guerra de 1939. Ela estava curiosa para saber
quais eram os poderes da oratória. Por que razão todos ficavam tão
impressionados? E então a mulher foi, voltou e disse: “É extraordinário. Eu
não acreditaria sem ter estado lá. É claro que eu não entendo alemão muito
bem, mas fiquei arrebatada também. E agora eu entendo por que todos ficam.
Quer dizer, as ideias dele eram maravilhosas... Elas nos inflamavam. As
coisas que ele disse! Quer dizer, você simplesmente sentia que não havia
outra maneira de pensar, que todo um mundo novo aconteceria se as pessoas
o seguissem. Ah, eu não consigo explicar direito. Vou escrever tudo o que eu
consigo lembrar e depois eu trago para o senhor ver. O senhor vai entender
melhor do que se eu simplesmente tentar descrever o efeito que aquilo tinha”.
Eu disse para ela que se tratava de uma ideia muito boa. Ela me procurou no
dia seguinte e disse: “Não sei se o senhor vai acreditar nisso. Eu comecei a
escrever as coisas que eu tinha ouvido, as coisas que Hitler tinha dito. O que
elas significavam... mas... foi assustador... não havia absolutamente nada
para escrever, eu não parecia ser capaz de me lembrar de uma única frase
estimulante ou empolgante. Tenho algumas das palavras, mas elas não
parecem querer dizer as mesmas coisas depois que as escrevi. Elas
simplesmente... ah, elas simplesmente não significam nada. Eu não entendo”.
Isso nos mostra um dos grandes perigos dos quais não nos lembramos sempre.
Mas esse perigo existe. Existem pessoas capazes de comunicar para outras
um entusiasmo contagiante, uma espécie de visão de vida e de fazer
acontecer. Elas conseguem fazer isso embora não seja realmente com o que
elas dizem, não são as palavras que você ouve, não é nem mesmo a ideia
descrita. É algo mais. É o poder magnético que raríssimos homens possuem
de começar alguma coisa, de produzir e criar uma visão. Talvez por seu
magnetismo pessoal, um tom de voz, talvez alguma emanação que saia direto
da carne. Eu não sei, mas isso existe. Essas pessoas têm poder. Os grandes
pregadores religiosos tinham esse poder, assim como um espírito maligno
também tem. A crença pode ser criada num certo movimento, em certas coisas
por fazer, coisas que resultarão num novo céu e numa nova terra, e as pessoas
acreditarão e trabalharão nisso e lutarão por isso e até mesmo morrerão por
isso.
Ele baixou a voz, dizendo:
– Jan Smuts tem uma frase para isso. Ele disse que a liderança, além de uma
grande força criativa, pode ser diabólica.
Stafford Nye se mexeu em sua cadeira.
– Eu entendo o que o senhor quer dizer. É interessante o que o senhor diz.
Consigo até admitir que possa ser verdade.
– Mas o senhor acha que é algo exagerado, claro.
– Não creio que eu ache isso – disse Stafford Nye. – As coisas que soam
exageradas não são, com grande frequência, exageradas. São apenas coisas
que você nunca ouviu ou nunca pensou antes. E portanto elas nos chegam de
maneira tão pouco familiar que dificilmente podemos fazer outra coisa com
elas exceto aceitá-las. A propósito, posso fazer uma simples pergunta? O que
é que alguém pode fazer a respeito delas?
– Se você topou com a suspeita de que esse tipo de coisa está acontecendo,
você precisa investigar – disse Lord Altamount. – Você tem de seguir o
exemplo do mangusto de Kipling: vá descobrir. Descubra de onde vem o
dinheiro e de onde as ideias estão vindo, e de onde, por assim dizer, de onde
vem a maquinaria. Quem está operando a maquinaria? Existe um chefe do
estado-maior, assim como existe um comandante em chefe. Isso é o que
estamos tentando fazer. Gostaríamos que o senhor ajudasse.
Essa foi uma das raras ocasiões de sua vida em que Sir Stafford Nye foi
apanhado de surpresa. Por mais que ele tivesse experimentado sensações
estranhas em outras ocasiões, sempre conseguira ocultar o fato. Mas dessa
vez era diferente. Ele olhou para cada um dos homens presentes na sala. Para
o sr. Robinson, seu rosto amarelo e impassível exibindo uma boca cheia de
dentes; para Sir James Kleek, um orador um tanto precipitado, segundo Sir
Stafford havia considerado, mas mesmo assim com alguma utilidade – o
cachorro do chefe, ele o denominou em seu íntimo. Olhou para Lord
Altamount, o topo da poltrona alta emoldurando sua cabeça. A luz não era
muito forte na sala, e dava ao homem o aspecto de um santo num nicho de
alguma catedral. Ascético. Século XIV. Um grande homem. Sim, Altamount
tinha sido um dos grandes homens do passado. Stafford Nye não tinha
nenhuma dúvida quanto a isso, mas agora ele já era um homem muito velho.
Daí, ele supôs, a necessidade de Sir James Kleek e a confiança nele por parte
de Lord Altamount. Olhou além deles para a criatura fria e enigmática que o
trouxera ali, a condessa Renata Zerkowski, ou então Mary Ann, ou então
Daphne Theodofanous. O rosto dela não lhe revelava nada. Ela não estava
nem mesmo olhando para ele. Seus olhos pousaram por fim no sr. Henry
Horsham, da Segurança.
Com leve surpresa, observou que Henry Horsham sorria para ele.
– Mas olhe só – disse Stafford Nye, deixando de lado qualquer linguagem
formal e falando bem como se fosse o estudante de dezoito anos que um dia
ele tinha sido. – Onde é que eu entro nessa história? O que é que eu sei?
Francamente, não tenho nenhuma distinção na minha própria profissão, os
senhores sabem disso. Não me levam muito a sério no Ministério. Nunca
levaram.
– Nós sabemos disso – disse Lord Altamount.
Tinha chegado a vez do sorriso de Sir James Kleek, e ele sorriu.
– Tanto melhor, talvez – ele disse, e acrescentou em tom de desculpa quando
Lord Altamount lhe franziu o cenho: – Perdão, senhor.
– Este é um comitê de investigação – disse o sr. Robinson. – Não entra em
discussão se o senhor fez algo no passado, ou qual poderá ser a opinião dos
outros a seu respeito. O que nós estamos fazendo é recrutar um comitê para
investigar. Não somos muitos, no momento, formando este comitê.
Convidamos o senhor a participar porque julgamos que o senhor possua
certas qualidades que poderão ajudar na investigação.
Stafford Nye girou sua cabeça na direção do homem da Segurança.
– O que você me diz, Horsham? – ele indagou. – Não consigo acreditar que
você concordaria com isso.
– Por que não? – disse Henry Horsham.
– É mesmo? Quais são as minhas “qualidades”, como vocês dizem? Nem eu
mesmo, francamente, consigo acreditar nelas.
– Você não é um adorador de heróis – disse Horsham. – É por isso. Você é o
tipo de sujeito que consegue enxergar através do embuste. Você leva em conta
as avaliações de alguém ou do mundo inteiro sobre qualquer coisa. Você leva
em conta as suas próprias avaliações.
Ce n’est pas un garçon sérieux. As palavras flutuaram pela mente de Sir – Mais do que certa, minha querida. Mary Ann você é e sempre será para nós.
Stafford Nye. Uma razão curiosa pela qual ele era escolhido para um
trabalho difícil e exigente.
– Eu preciso avisar – disse ele – que o meu principal defeito, um defeito que
frequentemente apontam em mim e que já me custou vários bons empregos, é,
creio eu, bastante conhecido. Não sou, eu diria, um sujeito suficientemente
sério para um trabalho importante como esse.
– Acredite ou não – disse Horsham –, essa é uma das razões pelas quais eles
querem você. Eu estou certo, meu senhor? – ele olhou para Lord Altamount.
– Serviço público! – disse Lord Altamount. – Permita-me que eu diga: muitas
vezes uma das mais sérias desvantagens da vida pública é quando alguém
numa posição pública se leva demasiadamente a sério. Nós sentimos que o
senhor não se levará. De qualquer modo – disse ele –, Mary Ann pensa assim.
Sir Stafford Nye girou sua cabeça. Então eis aqui ela, deixando de ser uma
condessa. Ela se tornara Mary Ann novamente.
– Você não vai se importar se eu perguntar – ele falou –, mas quem é você de
verdade? Eu quero dizer, você é uma condessa verdadeira?
– Absolutamente. Geboren, como dizem os alemães. Meu pai era um homem de
linhagem distinta, um bom esportista, um esplêndido atirador, e tinha um
castelo muito romântico mas um tanto dilapidado na Bavária. Ainda está lá, o
castelo. No tocante a isso, eu tenho conexões com uma vasta porção do mundo
europeu que ainda é profundamente esnobe quando a questão é a
ascendência. Uma condessa empobrecida e maltrapilha pega um dos melhores
lugares da mesa enquanto uma americana rica com uma fabulosa fortuna em
dólares no banco fica esperando sua vez.
– E quanto a Daphne Theodofanous? Onde é que ela entra?
– Um nome útil para um passaporte. A minha mãe era grega.
– E Mary Ann?
Era quase o primeiro sorriso que Stafford Nye via no rosto dela. Os olhos dela
se fixaram primeiro em Lord Altamount e depois no sr. Robinson.
– Talvez – ela disse – porque eu seja uma espécie de faz-tudo, indo a muitos
lugares, procurando coisas, levando coisas de um país para outro, varrendo
para baixo do tapete, faço qualquer coisa, vou para qualquer lugar, dou um
jeito nos problemas – ela olhou novamente para Lord Altamount. – Não estou
certa, tio Ned?
– Você estava levando alguma coisa naquele avião? Quer dizer, levando
alguma coisa importante de um país para outro?
– Sim. Sabiam que eu estava levando algo. Se você não tivesse atuado em meu
socorro, se não tivesse bebido uma cerveja possivelmente envenenada e não
tivesse entregado o seu manto de bandoleiro de cores brilhantes para o meu
disfarce, bem, acidentes acontecem às vezes. Eu não teria chegado aqui.
– O que é que você estava levando... ou eu não devo perguntar? Existem coisas
que eu nunca saberei?
– Existe um monte de coisas que você não saberá nunca. Existe um monte de
coisas que você não terá permissão de perguntar. Acho que essa pergunta eu
posso responder. Uma resposta nua e crua. Se eu tiver permissão.
Mais uma vez ela olhou para Lord Altamount.
– Eu confio no seu julgamento – disse Lord Altamount. – Vá em frente.
– Entregue a informação confidencial para ele – disse o irreverente James
Kleek.
O sr. Horsham falou:
– Suponho que você precisa saber. Eu não lhe contaria, mas é que eu sou da
Segurança. Vá em frente, Mary Ann.
– Uma frase. Eu estava levando uma certidão de nascimento. Isso é tudo. Não
vou contar mais nada e não vai adiantar você fazer mais perguntas.
Stafford Nye passou os olhos pela assembleia.
– Certo. Vou participar. Fico lisonjeado com o convite. Para onde nós vamos
agora?
– Você e eu – disse Renata – vamos sair daqui amanhã. Vamos ao continente.
Talvez você tenha lido, ou tenha tomado conhecimento, que há um festival de
música sendo realizado na Bavária. É um evento bem recente que só começou
a ser promovido nos últimos dois anos. Tem um nome alemão bastante
formidável que quer dizer “A Companhia dos Cantores Juvenis” e é
financiado pelos governos de diversos países. Ele se coloca em oposição aos
festivais e às produções tradicionais de Bayreuth. Grande parte das músicas
apresentadas é moderna... novos jovens compositores ganham a oportunidade
de ter suas composições ouvidas. Ao mesmo tempo em que é tido em alta
conta por alguns, é repudiado e desprezado com todas as forças por outros.
– Sim – disse Stafford Nye –, eu já li algo a respeito. Nós vamos comparecer?
– Já temos assentos reservados para duas das performances.
– Esse festival tem algum significado especial na nossa investigação?
– Não – disse Renata. – Ele funciona mais como algo que você poderia chamar
de entrada e saída de conveniência. Nós vamos até lá por uma razão
ostensiva e verdadeira, e vamos sair de lá para o nosso próximo passo no
devido momento.
Ele olhou em volta.
– Instruções? Vou receber orientações de procedimento? Vou ser informado de
antemão?
– Não no sentido desses termos. Você está partindo numa viagem de
exploração. Vai aprender certas coisas com o passar do tempo. Você irá com
seu próprio nome, sabendo apenas o que sabe no momento. Você irá como um
amante da música, como um diplomata ligeiramente desapontado que talvez
tivesse acalentado a esperança de algum posto em seu próprio país que não
lhe foi concedido. Fora isso, não vai saber de nada. É mais seguro assim.
– Mas esse é o sumário de atividades no momento? Alemanha, Bavária,
Áustria, o Tirol... essa parte do mundo?
– Esse é um dos centros de interesse.
– Não é o único?
– Não, não é nem mesmo o principal. Existem outros pontos no globo, todos
variando em importância e interesse. Quanta importância cada um deles tem
é o que nós precisamos descobrir.
– E eu não sei, ou nem devo ser informado, de nada sobre esses outros centros?
– Apenas de forma superficial. Um deles, que nós consideramos o mais
importante de todos, tem seu quartel-general na América do Sul; existem dois
com quartéis-generais nos Estados Unidos da América, um na Califórnia e o
outro em Baltimore. Existe um na Suécia, existe um na Itália. Neste último as
coisas vêm se tornando muito ativas de seis meses para cá. Portugal e
Espanha também têm pequenos centros. Paris, é claro. E temos outros pontos
interessantes que mal estão entrando na “linha de montagem”, por assim
dizer. De momento, não estão completamente desenvolvidos.
– Você quer dizer a Malásia ou o Vietnã?
– Não. Não, tudo isso já ficou no passado. Foi um bom grito de
arregimentação, um chamado à violência e à indignação estudantil e muitas
outras coisas. O que está sendo promovido, você precisa compreender, é a
crescente organização da juventude em todos os lugares contra as atuais
formas de governo, contra os costumes de seus pais e contra, muitas vezes, as
religiões nas quais todos foram criados. Há um culto insidioso da
permissividade, há um culto crescente da violência. Violência não como um
meio de ganhar dinheiro, mas violência por amor à violência. Essa
particularidade é ressaltada, e as razões para ela são, no entender das
pessoas interessadas, uma das coisas mais importantes, algo da máxima
relevância.
– A permissividade, ela é importante?
– É só um modo de vida, nada mais. Ela serve para certos abusos mas não
indevidamente.
– E quanto às drogas?
– O culto às drogas vem sendo deliberadamente intensificado e fomentado.
Vastas somas de dinheiro têm sido amealhadas dessa maneira, mas isso não é,
ou pelo menos é o que nós pensamos, inteiramente acionado por motivos
monetários.
Todos olharam para o sr. Robinson, que lentamente balançou a cabeça.
– Não – ele disse –, isso é o que parece. Existem pessoas que estão sendo
presas e levadas à justiça. Traficantes de drogas são perseguidos. Mas há
mais do que apenas a loucura das drogas por trás de tudo isso. A loucura das
drogas é um meio, e um meio maligno, para fazer dinheiro. Mas a explicação
não fica nisso.
– Mas quem... – Stafford Nye interrompeu sua pergunta.
– Quem e o que e por que e onde? As quatro perguntas fundamentais. Essa é a
sua missão, Sir Stafford – disse o sr. Robinson. – Isso é o que o senhor precisa
descobrir. O senhor e Mary Ann. Não vai ser fácil, e uma das coisas mais
difíceis do mundo, tenha isso em mente, é guardar segredo.
Stafford Nye olhou com interesse o rosto gordo e amarelado do sr. Robinson.
Talvez o segredo da dominação do sr. Robinson no mundo financeiro fosse
apenas esse. Seu segredo era que ele guardava o seu segredo. A boca do sr.
Robinson exibiu seu sorriso de novo. Os dentes enormes cintilaram.
– Se você sabe de alguma coisa – disse ele –, será sempre uma grande tentação
mostrar que sabe; falar sobre o assunto, em outras palavras. Não é que
queira passar adiante informações, não é que lhe tenham oferecido algum
pagamento para passar essas informações. É que você quer mostrar o quanto
você é importante. Sim, é simples assim. Na verdade – disse o sr. Robinson, e
ele semicerrou seus olhos –, tudo neste mundo é muito, muito simples. Isso é o
que as pessoas não entendem.
A condessa se levantou e Stafford Nye seguiu seu exemplo.
– Espero que vocês durmam bem e fiquem confortáveis – disse o sr. Robinson. –
Esta casa, creio eu, é moderadamente confortável.
Stafford Nye murmurou que tinha bastante certeza disso, e nesse ponto ele logo
pôde comprovar ter tido bastante razão. Ele deitou a cabeça no travesseiro e
pegou no sono imediatamente.