Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 11 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo 5 - Motivo wagneriano

CAPÍTULO 5

 

Motivo wagneriano

 

Sir Stafford Nye se ajeitou com mais conforto no seu assento e ouviu o

persistente martelar do Nibelungo, com o qual começava o programa.

Apesar de gostar das óperas wagnerianas, Siegfried não era, de maneira

alguma, a sua favorita entre as óperas que compunham o Anel. Rheingold e

Götterdämmerung eram as suas duas preferências. A música do jovem

Siegfried ouvindo as canções dos pássaros por alguma estranha razão sempre

o irritara em vez de enchê-lo de satisfação melódica. Talvez isso acontecesse

porque ele tinha visto uma apresentação em Munique, nos seus dias de

juventude, que fizera uso de um magnífico tenor com proporções infelizmente

magníficas em excesso, e na época ele era jovem demais para conseguir

divorciar o júbilo musical do júbilo visual de ver um jovem Siegfried que

parecesse minimamente jovem. O fato de haver um tenor grandalhão rolando

pelo chão num acesso de meninice o revoltara. Ele também não era

particularmente afeiçoado por passarinhos e murmúrios de florestas. Não,

que lhe dessem as donzelas do Reno todas as vezes, se bem que até mesmo as

donzelas do Reno, naquele tempo, tinham sido caracterizadas por sólidas

proporções. Mas isso não importava tanto. Arrebatado pelo melodioso fluxo

da água e pela jubilosa canção impessoal, ele não permitira que uma

apreciação visual tivesse importância.

De tempos em tempos, com ar despreocupado, Stafford olhava em volta. Ele

pagara o seu assento com bastante antecedência. A casa estava cheia, como

de costume. Veio o intervalo. Sir Stafford se levantou e olhou em volta. O

assento ao seu lado continuava vazio. Alguém que já deveria ter chegado

ainda não chegara. Seria essa a resposta? Ou era aquele um mero caso de

exclusão porque alguém chegara tarde? Essa prática era comum ainda nas

ocasiões em que se ouvia música wagneriana.

Ele saiu, deu uma volta, bebeu uma xícara de café, fumou um cigarro e

retornou quando tocou a campainha. Dessa vez, enquanto se aproximava, ele

viu que o assento ao lado do seu estava ocupado. Imediatamente a sua

excitação retornou. Stafford chegou ao seu lugar e se sentou. Sim, tratava-se

da mulher do aeroporto de Frankfurt. A jovem não olhou para ele, manteve o

olhar fixo na direção do palco. O perfil de seu rosto era tão bem-talhado e

puro quanto ele lembrava. A cabeça dela se voltou num movimento suave;

seus olhos passaram por ele, mas sem demonstrar reconhecimento. Esse não

reconhecimento era tão intencional que valia por uma palavra dita. Aquele

encontro não deveria ser assumido. Não agora, de qualquer modo. As luzes

começaram a diminuir. A mulher ao lado dele se voltou.

– Com licença, eu poderia dar uma olhada no seu programa? Receio ter

deixado o meu cair enquanto chegava ao meu lugar.

– É claro – ele disse.

Stafford estendeu-lhe o programa e ela o pegou. Ela o abriu, estudou os itens.

As luzes ficaram mais fracas ainda. Começou a segunda metade do programa,

iniciando com a abertura de Lohengrin. Ao final ela lhe devolveu o programa,

com algumas palavras de agradecimento.

– Muito obrigada. Foi bastante gentil da sua parte.

O item musical seguinte eram os murmúrios da floresta de Siegfried. Ele

consultou o programa que ela lhe devolvera. Foi então que percebeu algo

escrito a lápis, quase indistinto, ao pé da página. Não tentou ler a inscrição

naquele momento. Na verdade, a luz não teria sido suficiente. Ele

simplesmente fechou o programa e o segurou. Tinha certeza de que ele mesmo

não escrevera nada ali. Nada, isto é, em seu próprio programa. Ela trouxera,

ele pensou, um programa pronto, dobrado talvez em sua bolsa, já tendo

escrito alguma mensagem para lhe passar. Tudo ainda parecia estar marcado

por aquela mesma atmosfera de segredo, de perigo. O encontro na

Hungerford Bridge e o envelope com a entrada forçado em sua mão. E agora

a mulher silenciosa sentada ao seu lado. Ele a observou uma ou duas vezes

com o olhar rápido e despreocupado que damos a um estranho sentado ao

nosso lado. Ela se recostou no assento; seu vestido de gola alta era de um

opaco crepe preto, um antigo colar de ouro envolvia o pescoço. Os cabelos

escuros se mostravam bem curtos, no formato de sua cabeça. Ela não o olhou

e tampouco devolveu qualquer olhar. Ele ficou especulando. Será que havia

alguém, num dos assentos do Festival Hall, observando-a? Ou observando-o?

Tentando ver se os dois se olhavam ou conversavam? Provavelmente havia, ou

pelo menos havia uma possibilidade de algo assim. Ela respondera ao seu

apelo no anúncio de jornal. Isso era suficiente para ele. Sua curiosidade se

mantinha intacta, mas ao menos ele agora sabia que Daphne Theodofanous –

codinome Mary Ann – estava em Londres. Existiam possibilidades futuras de

saber mais sobre o que estava se passando. Mas o plano de campanha devia

ser deixado para ela. Stafford precisava seguir as orientações da jovem.

Assim como lhe obedecera no aeroporto, agora também lhe obedeceria, e –

era preciso admitir – a vida de súbito se tornara mais interessante. Aquilo

era melhor do que as tediosas conferências de sua vida política. Será que um

carro tentara realmente atropelá-lo naquela noite? Ele pensava que sim.

Duas tentativas – não apenas uma. É bem fácil pensar que somos alvo de um

ataque, as pessoas dirigem com tamanha imprudência hoje em dia que

facilmente podemos imaginar uma maldade premeditada quando na verdade

não é isso. Stafford dobrou o seu programa e não olhou mais para ele. A

música chegou ao fim. A mulher ao seu lado falou. Ela não virou a cabeça ou

pareceu falar com ele, mas falou em voz alta, com um pequeno suspiro entre

as palavras como se estivesse conversando consigo mesma ou possivelmente

com o vizinho do outro lado.

– O jovem Siegfried – ela disse, e suspirou de novo.

O programa terminou com a marcha dos Meistersinger. Depois dos

entusiasmados aplausos, as pessoas começaram a deixar os seus assentos. Ele

esperou para ver se ela lhe dava alguma orientação, mas ela não deu. A

jovem pegou o seu xale, saiu da fila de cadeiras e, com passos ligeiramente

acelerados, avançou com as demais pessoas e desapareceu na multidão.

Stafford Nye voltou até o seu carro e foi para casa. Chegando lá, abriu o

programa do Festival Hall sobre a sua escrivaninha e o examinou

cuidadosamente, depois de colocar um café para coar.

O programa se revelou decepcionante, para dizer o mínimo. Não parecia

conter nenhuma mensagem em seu interior. Apenas numa página, acima do

índice, apareciam as marcas de lápis que ele vagamente observara. Mas não

eram palavras, não eram letras e nem mesmo números. Pareciam ser

meramente uma notação musical. Era como se alguém tivesse rabiscado uma

frase musical com um lápis mais ou menos inadequado. Por um momento

ocorreu a Stafford Nye que talvez houvesse uma mensagem secreta que ele

poderia fazer aparecer com alguma aplicação de calor. Com bastante cautela

e de certa forma envergonhado por sua fantasia melodramática, ele segurou o

programa junto à barra do aquecedor elétrico, mas nada resultou. Com um

suspiro, atirou o programa de volta na mesa. Mas se sentiu justificadamente

aborrecido. Toda aquela complicação inexplicável, um encontro numa ponte

ventosa e chuvosa com vista para o rio! Sentado durante um concerto ao lado

de uma mulher para quem ansiava fazer pelo menos uma dúzia de perguntas...

E no final? Nada! Nenhum progresso. Mesmo assim, ela tinha desejado

encontrá-lo. Mas por quê? Se não queria falar com ele para fazer maiores

combinações, por que viera então?

Seus olhos cruzaram ociosamente a sala, pousando na estante que ele

reservava para diversos livros de suspense, romances policiais e um

ocasional volume de ficção científica. Stafford balançou a cabeça. A ficção,

ele pensou, era infinitamente superior à vida real. Cadáveres, chamadas

telefônicas misteriosas, lindas espiãs estrangeiras em profusão! Entretanto,

aquela específica dama elusiva talvez ainda não estivesse excluída de sua

vida. Da próxima vez, segundo pensou, ele faria certos arranjos por conta

própria. Dois poderiam disputar o jogo que ela estava jogando.

Sir Stafford Nye empurrou o programa para o lado, bebeu outra xícara de café

e foi até a janela. Ainda estava com o programa na mão. Enquanto ficou ali

parado, contemplando a rua, seus olhos recaíram no programa aberto e ele

cantarolou para si mesmo, de modo quase inconsciente. Ele tinha um bom

ouvido musical e foi capaz de cantarolar as notas rabiscadas com bastante

facilidade. Elas lhe soaram vagamente familiares enquanto as cantarolava.

Stafford aumentou um pouco a voz. O que era mesmo aquilo? Tum, tum, tum

tum ti-tum. Tum. Sim, aquilo era definitivamente familiar.

Ele começou a abrir sua correspondência.

As cartas eram quase todas desinteressantes. Alguns convites, um da

embaixada americana, outro de Lady Athelhampton, um espetáculo de

caridade que teria presença da Realeza e para o qual se sugeria que cinco

guinéus não seria um preço exorbitante por um assento. Ele os empurrou um

pouco para um lado. Duvidava muito que quisesse aceitar qualquer um.

Decidiu que em vez de permanecer em Londres ele partiria sem maiores

delongas para ver sua tia Matilda, como prometera. Gostava muito de sua tia

Matilda, embora não a visitasse com frequência. Ela morava no interior, num

apartamento reformado, formado por uma série de aposentos numa das alas

de um enorme solar georgiano e herdado do avô de Stafford. Ela tinha uma

imensa e lindamente proporcionada sala de estar, uma pequena sala de jantar

oval, uma nova cozinha montada no antigo quarto da governanta, dois

quartos para hóspedes, um imenso e confortável quarto para ela com

banheiro adjacente e adequados aposentos para uma paciente dama de

companhia que compartilhava de sua vida diária. Os empregados

remanescentes de uma fiel equipe doméstica eram bem providos e bem

alojados. O resto da casa permanecia resguardado sob capas de móveis, com

limpezas periódicas. Stafford Nye gostava muito do lugar, tendo passado

férias ali quando menino. A casa era sempre alegre nas suas lembranças. Seu

tio mais velho vivera nela com a esposa e os dois filhos. Sim, as lembranças

da casa eram agradáveis. Havia dinheiro e uma razoável equipe de

empregados para cuidar de tudo. Ele nunca tinha prestado muita atenção,

naqueles dias, nos quadros e nos retratos. Havia exemplares de arte vitoriana

em grandes dimensões ocupando os lugares de honra, superlotando as

paredes, mas também havia outros mestres de uma época mais antiga. Sim,

havia bons retratos na casa. Um Raeburn, dois Lawrences, um Gainsborough,

um Lely, dois Vandykes um tanto duvidosos. Turners também. Alguns tiveram

de ser vendidos para garantir dinheiro à família. Stafford ainda gostava, em

suas visitas à tia, de circular pela casa e estudar os retratos da família.

Tia Matilda era uma grande tagarela, mas adorava suas visitas. O apego de

Stafford por ela era manifestado de uma maneira inconstante, mas ele não

tinha plena certeza do motivo que o levara subitamente a querer visitá-la bem

naquele momento. E por que razão os retratos da família tinham entrado em

sua mente? Teria sido porque existia um retrato de sua irmã Pamela com

autoria de um dos artistas mais renomados de vinte anos atrás? Ele gostaria

de ver aquele retrato de Pamela e analisá-lo mais de perto. Verificar se tinha

sido considerável a semelhança entre sua irmã e a estranha que havia

perturbado sua vida de maneira um tanto ultrajante.

Ele pegou o programa do Festival Hall novamente, com certa irritação, e

começou a cantarolar as notas rabiscadas. Tum, tum, ti tum... Então a

iluminação lhe veio, ele descobriu o que era. Era o motivo de Siegfried. A

trompa de Siegfried. O motivo do jovem Siegfried. Fora isso o que a mulher

dissera na noite passada. Não aparentemente para ele, não aparentemente

para ninguém. Mas tinha sido a mensagem, uma mensagem que não teria

significado nada para quem quer que estivesse lá, pois teria parecido referir-

se à música que acabara de ser executada. E o motivo tinha sido escrito no

programa em termos musicais. O jovem Siegfried. Devia significar alguma

coisa. Bem, talvez acabassem surgindo novos esclarecimentos. O jovem

Siegfried. Que diabos aquilo queria dizer? Por que e como e quando e o quê?

Ridículo! Todas essas palavras de questionamento.

Stafford Nye pegou o telefone e discou para a tia Matilda.

– Mas é claro, querido Staffy, vai ser adorável ter você aqui. Pegue o trem das

quatro e meia. Esse horário ainda existe, sabe, mas o trem chega aqui uma

hora e meia depois. E sai de Paddington mais tarde: cinco e quinze. Isso é o

que eles nos dão com os aprimoramentos nas ferrovias, eu suponho. O trem

fica parando nas mais absurdas estações pelo caminho. Pois bem. Horace vai

buscá-lo em King’s Marston.

– Ele ainda está com a senhora?

– É claro que sim.

– Claro – disse Sir Stafford Nye.

Horace, primeiro cavalariço, depois cocheiro, sobrevivera como motorista, e

aparentemente seguia sobrevivendo.

– Ele deve ter no mínimo oitenta anos – disse Sir Stafford, sorrindo consigo

mesmo.