Passageiro para Frankfurt
Capítulo III
– Eu estava escrevendo para aquela velha amiga que mencionei a você.
– Aquela que a senhora nunca mais viu nos últimos cinquenta ou sessenta
anos?
Lady Matilda assentiu com a cabeça.
– Eu de fato espero... – Amy falou num tom acanhado. – Quero dizer... eu... faz
tanto tempo. As pessoas têm memórias curtas hoje em dia. Eu de fato espero
que ela se lembre bem da senhora e de tudo.
– Claro que ela vai se lembrar – disse Lady Matilda. – As pessoas que você
não esquece são as pessoas que conheceu quando tinha entre dez e vinte anos
de idade. Elas grudam na sua mente para sempre. Você se lembra dos chapéus
que elas usavam, do jeito que elas tinham de rir, e você se lembra de seus
defeitos e de suas boas qualidades e de tudo a respeito delas. Ora, no caso
daquelas que eu conheci vinte anos atrás, digamos assim, eu simplesmente
não consigo lembrar quem são. Não lembro quando elas são mencionadas
para mim, e nem mesmo quando as vejo. Ah, sim, ela vai se lembrar de mim. E
de tudo com relação a Lausanne. Trate de mandar esta carta. Preciso fazer
um pouco de lição de casa.
Ela pegou o Almanaque de Gotha e voltou para a cama, onde se dedicou a um
sério estudo de itens que poderiam vir a ser úteis. Algumas relações
familiares e vários outros parentescos de caráter proveitoso. Quem tinha
casado com quem, quem havia morado onde, quais infortúnios haviam
acometido outros. Não que a pessoa que ela tinha em mente fosse passível de
ser encontrada no Almanaque de Gotha. Mas ela morava em certa parte do
mundo, tinha ido para lá deliberadamente para morar num Schloss
pertencente a antepassados de origem nobre, e absorvera o respeito e a
adulação local como se estivesse acima de todos em importância
aristocrática. De um nascimento nobre, mesmo que manchado por pobreza,
ela mesma, como Lady Matilda sabia muito bem, não poderia se vangloriar de
maneira alguma. Ela tivera de compensar com dinheiro. Oceanos de dinheiro.
Inacreditáveis somas de dinheiro.
Lady Matilda Cleckheaton tinha certeza de que no seu próprio caso, como filha
de um oitavo duque, ela seria merecedora de alguma festividade. Café, talvez,
e deliciosos bolos de creme.
III
Lady Matilda Cleckheaton fez sua entrada num dos grandes salões de recepção
do Schloss. Ela fizera uma viagem de carro de 25 quilômetros. Vestira-se com
algum cuidado, tendo enfrentado, no entanto, a desaprovação de Amy. Amy
raras vezes oferecia conselhos, mas sentia-se tão ansiosa por garantir o
sucesso de sua superiora no misterioso empreendimento atual que se
arriscara, dessa vez, numa censura moderada.
– A senhora não acha que o seu vestido vermelho está um pouco desgastado?
Entende o meu ponto? Estou me referindo às partes embaixo dos braços, e,
bem, dá para ver dois ou três remendos muito chamativos...
– Eu sei, minha querida, eu sei. É um vestido esfarrapado, mas não deixa de
ser um modelo de Patou. É velho mas custou caríssimo. Não estou tentando
parecer rica ou extravagante. Sou uma integrante empobrecida de uma
família aristocrática. Qualquer pessoa com menos de cinquenta anos, sem
dúvida, me desprezaria. Mas a minha anfitriã está vivendo e viveu por alguns
anos numa parte do mundo onde os ricos são mantidos esperando pela
refeição enquanto a anfitriã fará questão de servir uma mulher idosa e
esfarrapada de ascendência impecável. Tradições de família são coisas que a
gente não perde facilmente. Elas continuam absorvidas mesmo quando se vai
para uma nova vizinhança. Na minha mala, a propósito, você encontrará um
boá de plumas.
– A senhora vai usar um boá de plumas?
– Sim, vou. De plumas de avestruz.
– Minha nossa, ele deve ter não sei quantos anos de idade.
– Vários anos, mas eu o guardei com o maior cuidado. Você vai ver, Charlotte
reconhecerá o que é. Ela pensará que uma das melhores famílias da
Inglaterra foi rebaixada a ter de usar roupas velhas guardadas com o maior
cuidado ao longo de anos. E eu vou usar a minha pele de foca também. Essa
está um pouco desgastada, mas era um casaco tão magnífico em seu tempo...
Assim arrumada, Lady Matilda foi em frente. Amy foi junto como uma
acompanhante bem arrumada, mas apenas discretamente elegante.
Matilda Cleckheaton estava preparada para o que viu. Uma baleia, como
Stafford lhe dissera. Uma baleia chafurdante, uma velha medonha sentada
numa sala cercada por quadros que valiam uma fortuna. Levantando-se com
alguma dificuldade de uma poltrona semelhante a trono que poderia ter
figurado num palco representando o palácio de algum magnífico príncipe de
qualquer era da Idade Média para baixo.
– Matilda!
– Charlotte!
– Ah! Depois de todos esses anos. Como parece estranho!
As duas trocaram palavras de saudação e de prazer, falando um pouco em
alemão e um pouco em inglês. O alemão de Lady Matilda era ligeiramente
defeituoso. Charlotte falava um alemão excelente, e também um excelente
inglês, muito embora com um sotaque gutural bastante acentuado, e, por
vezes, com sotaque americano. Ela era realmente, Lady Matilda pensou,
esplendidamente medonha. Por um momento, sentiu certa ternura quase
remontando ao passado, ainda que, como refletiu no momento seguinte,
Charlotte tivesse sido uma garota muitíssimo detestável. Ninguém de fato
havia gostado dela, e ela mesma certamente não sentira qualquer afeição
pelos outros. Mas existe um laço muito forte, digam o que quiserem, nas
memórias dos velhos dias da escola. Se Charlotte gostara dela ou não, Lady
Matilda não sabia. Mas Charlotte, ela lembrava, certamente – como
costumavam dizer naquele tempo – a bajulara. Ela tivera pretensões,
possivelmente, de se hospedar num castelo ducal inglês. O pai de Lady
Matilda, embora pertencesse à mais louvável das linhagens, tinha sido um
dos menos endinheirados entre todos os duques da Inglaterra. Seus bens só
haviam se mantido graças à esposa rica com a qual se casara e a quem
tratara com a máxima cortesia, e a qual gostava de importuná-lo sempre que
possível. Lady Matilda tivera a sorte de ser filha dele pelo segundo
casamento. Sua mãe tinha sido uma pessoa extremamente agradável e também
uma atriz de muito sucesso, capaz de representar o seu papel de parecer uma
duquesa com maior talento do que qualquer duquesa verdadeira.
Elas trocaram reminiscências sobre o passado, sobre as torturas que tinham
infligido em alguns de seus professores, sobre os casamentos felizes e
infelizes que haviam ocorrido a determinadas colegas. Matilda fez algumas
menções a certas alianças e famílias extraídas das páginas do Almanaque de
Gotha – “Mas é claro que deve ter sido um casamento terrível para Elsa. Ela
era uma Bourbon de Parma, não era? Sim, sim, a gente sabe qual costuma ser
o resultado. Lamentável”.
Trouxeram o café, um café delicioso, baixelas com mil-folhas e deliciosos bolos
de creme.
– Eu não deveria tocar em nada disso – exclamou Lady Matilda. – Não devia
mesmo! O meu médico é muitíssimo severo. Ele disse que eu deveria me – Você me interessou – disse Charlotte.
limitar exclusivamente à Cura enquanto estivesse aqui. No entanto, pensando
melhor, este é um dia de festa, não é? Da renovação da juventude. Isso é o que
mais me interessa. O meu sobrinho-neto que a visitou não faz muito tempo...
esqueci quem o trouxe aqui, a condessa... ah, começava com Z, não consigo
lembrar o nome...
– A condessa Renata Zerkowski...
– Ah, esse era o nome, sim. Uma jovem muito encantadora, eu acredito. E ela o
trouxe aqui para visitá-la. Foi muitíssimo gentil da parte dela. Ele ficou tão
impressionado. Impressionado, também, com todas as suas lindas posses.
Com o seu modo de vida e, de fato, com as coisas maravilhosas que ouvira
falar a seu respeito. Como você tem um movimento inteiro de... ah, eu não
saberia usar o termo apropriado. Uma Galáxia da Juventude. Uma juventude
dourada, linda. Eles se aglomeram ao seu redor. Eles a idolatram. Que vida
maravilhosa você deve ter. Não que eu pudesse suportar uma vida semelhante.
Preciso viver bem sossegadamente. Artrite reumatoide. E também as
dificuldades financeiras. A dificuldade para manter a casa da família. Ah,
bem, você sabe como é para nós na Inglaterra... os nossos problemas de
impostos.
– Eu me lembro daquele sobrinho seu, sim. Um homem agradável, muito
agradável. Serviço diplomático, é isso?
– Isso. Mas é... bem, você sabe, não consigo sentir que o talento dele esteja
sendo reconhecido da maneira devida. Ele não fala muito. Não se queixa, mas
sente que... bem, sente que não tem sido valorizado como deveria. Os poderes
constituídos, aqueles que estão no comando atualmente, o que é que eles são?
– Canaille! – disse a Grande Charlotte.
– Intelectuais sem nenhum savoir faire na vida. Cinquenta anos atrás teria sido
diferente – disse Lady Matilda –, mas hoje em dia o progresso dele não é
incentivado como deveria ser. Eu lhe direi até mesmo, de modo confidencial, é
claro, que desconfiaram dele. Suspeitam que ele tenha... como eu diria?... um
lado rebelde, tendências revolucionárias. E, no entanto, seria preciso
perceber o que o futuro reserva para um homem capaz de adotar ideias mais
avançadas.
– Você quer dizer que ele não nutre, como vocês costumam dizer na Inglaterra,
grande simpatia pelas instituições?
– Fale baixo, não devemos dizer essas coisas. Pelo menos eu não devo – disse
Lady Matilda.
Matilda Cleckheaton suspirou.
– Coloque na conta, se quiser, de uma velha parente afeiçoada. Staffy sempre
foi meu favorito. Ele tem charme e espirituosidade. Penso também que tem
ideias. Ele tem sonhos quando ao futuro, um futuro que deveria ser bastante
diferente disso que nós temos agora. O nosso país, ai de nós, encontra-se
politicamente num péssimo estado. Stafford pareceu ter ficado muito
impressionado com coisas que você lhe contou ou mostrou. Você fez tanto
pela música, pelo que eu soube. O que é mais necessário para nós, não posso
deixar de sentir, é o ideal da super-raça.
– É necessário e possível que tenhamos uma super-raça. Adolf Hitler teve a
ideia certa – disse Charlotte. – Um homem sem nenhuma importância em si
mesmo, mas ele tinha elementos artísticos em seu caráter. E sem dúvida tinha
o poder da liderança.
– Ah, sim. Liderança, é disso que nós precisamos.
– Vocês tiveram os aliados errados na última guerra, minha querida. Se a
Inglaterra e a Alemanha tivessem caminhado lado a lado, se tivessem
acalentado os mesmos ideais, de juventude, de força, duas nações arianas
com os ideais corretos... Imagine até onde o seu país e o meu poderiam ter
chegado hoje! No entanto, talvez até esse seja um ponto de vista muito
estreito. De certa forma os comunistas e os outros nos ensinaram uma lição.
“Trabalhadores do mundo, uni-vos?” Mas isso é ter visões restritas demais.
Os trabalhadores são somente a nossa matéria-prima. O correto é “Líderes
do mundo, uni-vos!”. Jovens com o dom da liderança, jovens com sangue
nobre. E nós precisamos começar não com homens de meia-idade apegados a
seus costumes, repetindo-se como um disco arranhado na vitrola. Precisamos
procurar entre a população estudantil os jovens de coração valente, com
grandes ideias, dispostos a marchar, dispostos a morrer, mas também
dispostos a matar. Matar sem qualquer remorso... porque é certo que sem
agressividade, sem violência, sem ataque, não pode haver vitória. Preciso lhe
mostrar uma coisa...
Com uma boa dose de esforço ela conseguiu se colocar de pé. Lady Matilda
seguiu seu exemplo, acentuando um pouco sua dificuldade, que não chegava a
ser tão grande quanto fazia crer.
– Foi em maio de 1940 – disse Charlotte –, quando a Juventude Hitlerista
progrediu para o seu segundo estágio. Quando Himmler obteve de Hitler um Ela bufou e tossiu.
decreto. O decreto da famosa SS. Ela foi formada em nome da destruição dos
povos orientais, dos escravos, dos designados escravos do mundo. Abrindo
espaço à raça dominante alemã. O instrumento executivo da SS entrou em
funcionamento.
Sua voz perdeu um pouco a força e manifestou, por um momento, uma espécie
de reverência religiosa.
Lady Matilda quase se persignou por engano.
– A Ordem da Caveira – disse a Grande Charlotte.
Ela avançou lenta e penosamente pela sala e apontou para o ponto na parede
onde estava pendurada, emoldurada em dourado e encimada por um crânio, a
Ordem da Caveira.
– Você vê? É o meu bem mais precioso. Fica aqui na minha parede. Os jovens
do meu bando dourado, quando me visitam, saúdam a ordem. E nos nossos
arquivos no castelo existem fólios de suas crônicas. Algumas delas são
apenas leituras para pessoas de estômago forte, mas é preciso aprender a
aceitar essas coisas. As mortes nas câmaras de gás, as celas de tortura, os
julgamentos de Nuremberg falam maldosamente de todas essas coisas. Mas
era uma grande tradição. Força através da dor. Eles eram treinados jovens,
aqueles meninos, de modo que não vacilassem ou voltassem atrás ou
sofressem qualquer espécie de fraqueza. Até mesmo Lenin, pregando a sua
doutrina marxista, declarou “Abaixo a fraqueza!”. Foi uma de suas primeiras
regras para criar um Estado perfeito. Mas nós fomos estreitos demais.
Quisemos confinar o nosso sonho apenas à raça dominante alemã. Mas
existem outras raças. Elas também podem atingir a supremacia através do
sofrimento e da violência e através da considerada prática da anarquia.
Precisamos derrubar, derrubar todas as instituições fracas. Derrubar as
formas mais humilhantes de religião. Existe uma religião de força, a velha
religião do povo viking. E nós temos um líder, jovem ainda, ganhando poder a
cada dia que passa. O que foi que disse um grande homem? Me dê as
ferramentas e eu farei o trabalho. Algo parecido. O nosso líder já tem as
ferramentas. E ele terá mais ferramentas. Terá os aviões, as bombas, meios
para uma guerra química. Terá os homens para lutar. Terá os transportes.
Terá embarcações e petróleo. Terá o que poderíamos chamar de uma
evocação do gênio de Aladim. Você esfrega a lâmpada e o gênio aparece. Está
tudo nas nossas mãos. Os meios de produção, os meios de riqueza e o nosso
jovem líder, um líder tanto por nascença quanto por caráter. Ele tem tudo
isso.