Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 20 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo 11 - Os adoráveis jovens

CAPÍTULO 11

 

Os adoráveis jovens

 

No dia seguinte, depois de tomar o café da manhã numa pequena sala no andar

de baixo, ele encontrou Renata, que já o esperava. Os cavalos estavam diante

da porta.

Ambos haviam trazido roupas de montaria. Tudo de que eles possivelmente

poderiam precisar parecia ter sido antecipado com inteligência.

Eles montaram e foram saindo pela pequena estrada do castelo. Renata

conversou com o cavalariço durante algum tempo.

– Ele perguntou se nós gostaríamos que ele nos acompanhasse, mas eu disse

que não. Conheço as trilhas aqui da região bastante bem.

– Estou vendo. Você já esteve aqui antes?

– Não com muita frequência nos últimos anos. Na minha infância eu conhecia

este lugar muito bem.

Stafford lançou para Renata um olhar penetrante. Ela não devolveu o olhar.

Enquanto a jovem ia cavalgando a seu lado, ele observou seu perfil – o nariz

fino e aquilino, a cabeça posicionada orgulhosamente no pescoço esbelto. Ela

sabia montar um cavalo muito bem, percebia-se.

Contudo, havia uma sensação de desconforto em sua mente naquela manhã. Ele

não sabia bem por quê...

Seu pensamento recuou até o saguão do aeroporto. A mulher que se

aproximara para ficar ao lado dele. O copo de Pilsner na mesa... Não havia

nada naquilo que não devesse ter acontecido – nem naquele momento e nem

depois. Um risco que ele aceitara. Por que motivo, então, agora que tudo

aquilo terminara, a situação provocava tamanho desconforto?

Eles andaram a meio-galope por algum tempo depois de um trote lento por

entre as árvores. Uma belíssima propriedade, belíssimas matas. Na distância

ele viu alguns animais de chifre. Um paraíso para um caçador, um paraíso

para o jeito antigo de viver, um paraíso que continha... o quê? Uma serpente?

Como era no início... com o Paraíso vinha uma serpente. Stafford puxou as

rédeas e os cavalos voltaram a trote lento. Ele e Renata estavam sozinhos –

nada de microfones, nada de paredes com ouvidos... Chegara o momento de

fazer perguntas.

– Quem é ela? – ele perguntou com urgência. – Ela é o quê?

– É fácil responder. Tão fácil que quase não é possível acreditar.

– Pois então? – ele insistiu.

– Ela é petróleo. Cobre. Minas de ouro na África do Sul. Armamentos na

Suécia. Depósitos de urânio no norte. Desenvolvimento nuclear, vastas

extensões de cobalto. Ela é todas essas coisas.

– E no entanto eu nunca tinha ouvido falar sobre ela, não sabia seu nome, não

sabia...

– Ela não quis que as pessoas soubessem.

– Mas alguém consegue manter isso em segredo?

– Com muita facilidade, se você tem a quantidade suficiente de cobre e

petróleo e depósitos nucleares e armamentos e o resto todo. O dinheiro pode

propagandear, mas o dinheiro também pode manter segredos, pode abafar as

coisas.

– Mas quem é ela na realidade?

– O avô dela era americano. Ele era principalmente ferrovias, eu acho.

Possivelmente porcos em Chicago naqueles tempos. É como voltar na história

para descobrir. Ele se casou com uma alemã. Você já ouviu falar dela, eu

imagino. Grande Belinda era o apelido que lhe davam. Armamentos, navios,

toda a riqueza industrial da Europa. Ela herdou tudo do pai.

– Entre os dois, uma fortuna inacreditável – disse Sir Stafford Nye. – E assim...

o poder. É isso o que você está me contando?

– Sim. Ela não herdou apenas as coisas, sabe? Também ganhou dinheiro por

conta própria. Herdou o cérebro do pai, era uma grande financista por seus

próprios méritos. Tudo o que ela tocava se multiplicava. Resultavam somas

inacreditáveis de dinheiro, e ela investia tudo. Seguindo conselhos, seguindo

o julgamento de outras pessoas, mas no fim sempre usando o seu próprio

critério. E sempre prosperando. Sempre ampliando sua fortuna, que acabou

se tornando fabulosa demais para ser possível. Dinheiro gera dinheiro.

– Sim, eu consigo entender. A riqueza sempre aumenta quando existe uma

superabundância dela. Mas... o que ela queria? O que ela conseguiu?

– Você acabou de dizer. Poder.

– E ela mora aqui? Ou ela...

– Ela visita a América e a Suécia. Sim, ela faz algumas viagens, mas não

muitas. É aqui que ela prefere ficar, no centro de uma teia, como uma imensa

aranha controlando todos os fios. Os fios das finanças. Outros fios também.

– Quando você diz outros fios...

– As artes. Música, pintura, escritores. Seres humanos... jovens seres humanos.

– Sim. Dá para perceber. Aqueles quadros, uma coleção maravilhosa.

– Há galerias inteiras nos andares superiores do Schloss. Há Rembrandts e

Giottos e Rafaéis e há caixas de joias... algumas das mais maravilhosas joias

do mundo.

– Tudo pertencendo a uma única velha gorda e repulsiva. Ela não está

satisfeita?

– Ainda não, mas está bem a caminho disso.

– Para onde ela está indo, o que ela quer?

– Ela adora a juventude. Essa é a sua forma de poder. Controlar a juventude. O

mundo está cheio de jovens rebeldes neste momento. Isso tem sido

incentivado. Filosofia moderna, pensamento moderno, escritores e outros que

ela financia e controla.

– Mas como ela... – Stafford Nye se interrompeu.

– Não posso dizer porque eu não sei. É uma ramificação enorme. Ela está por

trás de tudo num certo sentido, sustenta caridades um tanto curiosas,

fervorosos filantropos e idealistas, levanta inúmeras bolsas para estudantes e

artistas e escritores.

– E no entanto você diz que não está...

– Não, ainda não está completo. É uma grande sublevação que está sendo

planejada. Há uma crença nisso, no novo céu e na nova terra. É o que já foi

prometido antes por líderes ao longo de milhares de anos. Prometido por

religiões, prometido por aqueles que apoiam os messias, prometido por

aqueles que voltam para pregar a lei, como o Buda. Prometido pelos

políticos. O básico céu de fácil acesso no qual acreditavam os Assassinos, e

que o Mestre dos Assassinos prometia para seus seguidores e, no ponto de

vista deles, lhes dava.

– Ela está por trás das drogas também?

– Claro. Sem convicção, é claro. Somente um meio para ter as pessoas

curvadas à vontade dela. É uma maneira, também, de destruir pessoas. Os

fracos. Aqueles que ela pensa que não servem, muito embora tenham sido uma

promessa. Ela mesma nunca tomaria drogas... ela é forte. Mas as drogas

destroem as pessoas fracas com mais facilidade e mais naturalidade do que

qualquer outra coisa.

– E a força? E o que dizer da força? Não se pode fazer tudo com a propaganda.

– Não, é claro que não. A propaganda é o primeiro estágio e por trás dela

existem montanhas de armamentos. Armas que vão para países sob condições

precárias e depois seguem para outros lugares. Tanques e canhões e armas

nucleares que são remetidos à África e aos Mares do Sul e à América do Sul.

Na América do Sul há uma grande preparação. Forças compostas por homens

e mulheres jovens fazendo exercícios e treinamentos. Enormes afluxos de

armas... meios para guerra química...

– É um pesadelo! Como você sabe de tudo isso, Renata?

– Em parte porque me contaram, por informações recebidas, em parte porque a

minha atuação foi fundamental para provar alguns dos fatos.

– Mas você. Você e ela?

– Há sempre alguma coisa idiota por trás de todos os grandes e vastos projetos

– e Renata riu de repente. – Certa vez, veja só, ela se apaixonou pelo meu

avô. Uma história tola. Ele morava aqui nesta parte do mundo. Ele tinha um

castelo a uns dois quilômetros daqui.

– Ele era um homem de gênio?

– Nem um pouco. Apenas um ótimo caçador. Bonito, dissoluto e atraente aos

olhos das mulheres. E assim, por causa disso, ela é num certo sentido a minha

protetora. E eu sou uma de suas convertidas ou escravas! Eu trabalho para

ela. Encontro pessoas para ela. Levo a cabo suas ordens em diferentes partes

do mundo.

– É mesmo?

– O que você quer dizer com isso?

– Estou tentando entender – disse Sir Stafford Nye.

Ele estava de fato tentando entender. Stafford olhou para Renata e pensou de

novo no aeroporto. Ele estava trabalhando para Renata, ele estava – Esse é o nome dele?

trabalhando com Renata. Ela o trouxera para o Schloss. Quem mandara que

ela o trouxesse? A grande e asquerosa Charlotte no meio de sua teia de

aranha? Ele tinha adquirido uma reputação, uma reputação de ser instável

em certos quadrantes diplomáticos. Podia talvez ser útil para essas pessoas,

mas útil de uma maneira irrisória e um tanto humilhante. E ele pensou de

súbito, numa espécie de névoa com pontos de interrogação: “Renata??? Eu

assumi um risco com ela no aeroporto de Frankfurt. Mas eu estava certo.

Tudo correu de modo seguro. Nada me aconteceu. Mas mesmo assim”, ele

pensou, “quem é ela? O que é ela? Eu não sei. Não posso ter certeza.

Ninguém pode, no mundo de hoje, ter certeza em relação a ninguém.

Absolutamente ninguém. Talvez tenham mandado que ela me pegasse. Que me

pegasse e me tivesse preso nas mãos, e sendo assim aquela história em

Frankfurt poderia ter sido astutamente planejada. A situação se encaixava

bem no meu gosto pelo risco, e eu acabaria sentindo segurança em relação a

ela. Eu acabaria confiando nela”.

– Vamos andar a meio-galope de novo – ela disse. – Já cavalgamos a trote

lento por tempo demais.

– Eu não lhe perguntei o que você é nisso tudo.

– Eu acato ordens.

– De quem?

– Existe uma oposição. Sempre existe uma oposição. Existem pessoas que

alimentam suspeitas sobre o que está acontecendo, sobre como o mundo será

levado a sofrer uma transformação, ou sobre como isso vai acontecer com

dinheiro, riqueza, armamentos, idealismo, grandes e poderosas palavras de

incitamento. Existem pessoas que dizem que isso não vai acontecer.

– E você está do lado delas?

– Eu digo que sim.

– O que você quer dar a entender com isso, Renata?

Ela falou:

– Eu digo que sim.

Ele falou:

– Aquele jovem ontem à noite...

– Franz Joseph?

– É o nome pelo qual ele é conhecido.

– Mas ele tem outro nome, não tem?

– Você acha isso?

– Ele é o jovem Siegfried, não é?

– Você o viu dessa maneira? Você percebeu que isso é o que ele era, o que ele

representa?

– Creio que sim. Juventude. Juventude heroica. Juventude ariana, é preciso

que haja uma juventude ariana nesta parte do mundo. Ainda existe esse ponto

de vista. Uma super-raça, o super-homem. Eles precisam ser de origem

ariana.

– Ah, claro, isso perdurou desde os tempos de Hitler. Nem sempre vem muito à

tona, e em outros lugares pelo mundo todo não há tanta ênfase. A América do

Sul, posso afirmar, é um dos mais fortes redutos. E o Peru e a África do Sul

também.

– O que faz o jovem Siegfried? O que é que ele faz além de desfilar sua beleza

e beijar a mão de sua protetora?

– Ah, ele é um orador e tanto. Ele fala e os seus seguidores o seguiriam até a

morte.

– Isso é verdade?

– Ele acredita nisso.

– E você?

– Acho que eu poderia acreditar.

Ela acrescentou:

– A oratória é uma coisa bem assustadora, sabe? O que uma voz consegue

fazer, o que palavras conseguem fazer, e palavras não particularmente

convincentes, ainda por cima. A maneira com que elas são ditas. A voz dele é

como um soar de campainha, e as mulheres choram e gritam e desmaiam

quando ele lhes dirige a palavra... você vai ver por conta própria. Você viu a

guarda pessoal de Charlotte ontem à noite, todos os guardas vestidos a

rigor... as pessoas de fato adoram se vestir bem nos dias de hoje. Você poderá

vê-los no mundo inteiro em seus próprios trajes especiais escolhidos com

carinho, diferentes em lugares diferentes, alguns com longos cabelos e

barbas, e as garotas com camisolas brancas ondulantes, falando sobre paz e

beleza, e o mundo maravilhoso que é o mundo dos jovens, que será deles

quando tiverem destruído a contento o velho mundo. O País dos Jovens

original ficava a oeste do Mar da Irlanda, não ficava? Um lugar muito

simples, um País dos Jovens diferente desse que estamos planejando agora...

Eram areias prateadas, raios de sol e canções nas ondas... Mas agora nós

queremos Anarquia, quebrar e destruir tudo. Somente a Anarquia poderá

beneficiar aqueles que marcham pelo novo mundo. É assustador, e também é

maravilhoso... por causa de sua violência, porque é obtido com dor e

sofrimento...

– Então é assim que você vê o mundo hoje?

– Às vezes.

– E o que é que eu devo fazer a seguir?

– Venha com a sua guia. Eu sou a sua guia. Como Virgílio com Dante, vou levar

você às profundezas do inferno, vou lhe mostrar os filmes sádicos em parte

copiados da velha SS, mostrar-lhe a crueldade e a dor e a violência venerada.

E vou lhe mostrar os grandes sonhos do paraíso na paz e na beleza. Você não

vai saber qual é qual e o que é o quê. Mas vai ter que se decidir.

– Devo confiar em você, Renata?

– Essa vai ser a sua escolha. Você pode fugir correndo de mim se quiser, ou

você pode ficar comigo e ver o novo mundo. O novo mundo que está sendo

fabricado.

– Que papelão – Sir Stafford Nye disse violentamente.

Renata olhou para ele de modo intrigado.

– Como Alice no País das Maravilhas. As cartas, as cartas de papel todas

subindo no ar. Voando por todos os lados. Reis e Rainhas e Valetes. Todos os

tipos de coisas.

– Você quer dizer... Você quer dizer exatamente o quê?

– Quero dizer que não é real. É faz de conta. Toda essa maldita coisa é faz de

conta.

– Em certo sentido, sim.

– Todos vestidos a rigor e interpretando papéis, apresentando um espetáculo.

Eu estou chegando mais perto do significado das coisas, não estou?

– De certa maneira sim, e de certa maneira não...

– Tem uma coisa que eu gostaria de perguntar a você porque é um mistério

para mim. A grande Charlotte ordenou que você me levasse até ela... por quê?

O que ela sabia a meu respeito? Que utilidade essa mulher pensou que eu

teria para ela?

– Eu não sei muito bem... possivelmente uma espécie de eminência parda...

trabalhando por trás de uma fachada. Isso cairia muito bem em você.

– Mas ela não sabe absolutamente nada sobre mim!

– Ah, isso! – e de repente Renata começou a dar gargalhadas. – É tão ridículo,

sem dúvida... a mesma bobagem de sempre mais uma vez.

– Não estou entendendo, Renata.

– Não... porque é tão simples. O sr. Robinson entenderia.

– Você poderia, por gentileza, explicar o que você está falando?

– É o mesmo negócio de sempre: “Não é o que você é. É quem você conhece”.

A sua tia-avó Matilda e a Grande Charlotte estudaram na mesma escola...

– Você está dizendo mesmo que...

– Quando meninas.

Ele encarou sua companheira. Então jogou a cabeça para trás e riu alto.