Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 1 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Introdução

 

A autora fala:

 

A primeira pergunta feita para uma autora, pessoalmente ou pelo correio, é:

– De onde a senhora tira as suas ideias?

É grande a tentação de responder: “Eu vou sempre à Harrods”, ou “Eu as

obtenho quase sempre nas Army & Navy Stores”, ou, com mordacidade,

“Tente na Marks & Spencer”.

A opinião universal, estabelecida e arraigada, parece indicar que existe uma

mágica fonte de ideias que os autores aprenderam a explorar.

A pessoa mal consegue remeter seus questionadores ao passado elisabetano,

com a indagação de Skakespeare:

 

Diga, onde nasce a imaginação,

Na cabeça ou no coração?

Como é gerada, nutrida?

Responda, responda.

Você meramente diz com firmeza:

– Da minha própria cabeça.

Isso, é claro, não ajuda ninguém nem um pouco. Se você simpatiza com seu

investidor, acaba cedendo e avança na resposta:

– Se uma ideia em particular parece atraente, se você sente que poderia fazer

alguma coisa com ela, então você a joga de um lado ao outro, faz alguns

truques com ela, vai desenvolvendo e aparando essa ideia, e aos poucos lhe

dá uma forma. Aí, é claro, você precisa começar a escrever. Isso não é nem de

longe uma boa diversão: a coisa vira trabalho duro. Uma alternativa é

guardar a ideia com cuidado, deixá-la numa gaveta, para talvez usá-la depois

de um ou dois anos.

Uma segunda pergunta – ou melhor, uma afirmação – será provavelmente a

seguinte:

– Eu imagino que a senhora tire a maioria dos seus personagens da vida real.

Uma negativa indignada para essa sugestão monstruosa:

– Não, não tiro. Eu os invento. Eles são meus. Eles só podem ser os meus

personagens... fazendo aquilo que eu quero que eles façam, sendo aquilo que

eu quero que eles sejam... ganhando vida para mim, tendo às vezes suas

próprias ideias, mas apenas porque eu os tornei reais.

Assim a autora produziu as ideias e os personagens – mas agora vem a terceira

necessidade: o cenário. Os dois primeiros itens surgem de fontes internas,

mas o terceiro está no lado de fora – precisa estar lá – esperando – já

existindo de fato. Você não inventa o cenário – ele está lá – é real.

Você saiu, talvez, para um cruzeiro no Nilo – você se lembra de tudo –

exatamente o cenário que você quer para essa história em particular. Você fez

uma refeição em um café no Chelsea. Uma briga estava acontecendo – uma

garota arrancou um punhado de cabelo de outra garota. Um excelente

começo para o livro que você vai escrever a seguir. Você viaja no Expresso

Oriente. Que divertido fazer dele o cenário de uma trama que está

imaginando! Você vai tomar chá com uma amiga. Quando chega, o irmão dela

fecha um livro que está lendo – ele o joga de lado e diz: “Nada mau, mas por

que diabos não perguntaram a Evans?”.

Então você decide imediatamente que um livro seu a ser escrito em pouco

tempo terá o título Por que não pediram a Evans?.

Você não sabe ainda quem Evans vai ser. Não importa. Evans virá no devido

tempo – o título está definido.

Então, de certa forma, você não inventa os seus cenários. Eles estão fora de

você, ao seu redor, existentes – você só precisa estender a mão e escolher. Um

trem, um hospital, um hotel de Londres, uma praia do Caribe, um vilarejo

rural, uma festa, uma escola para meninas.

Mas uma coisa só se aplica: eles devem estar lá – existentes. Pessoas reais,

lugares reais. Um lugar definido no tempo e no espaço. Se vai ser aqui e

agora – como é que você obtém a informação completa – além da evidência

de seus próprios olhos e ouvidos? A resposta é assustadoramente simples.

É o que a imprensa traz para você a cada dia, em seu jornal matutino, sob o

título geral de “notícias”. Pegue a primeira página. O que está acontecendo

no mundo hoje? O que todo mundo está dizendo, pensando, fazendo? Segure

um espelho para refletir o ano de 1970 na Inglaterra.

Olhe essa primeira página todos os dias por um mês, faça anotações, analise e

classifique.

Todos os dias há uma morte.

Uma garota estrangulada.

Mulher idosa atacada e roubada de suas parcas economias.

Homens jovens ou meninos – atacando ou atacados.

Edifícios e cabines telefônicas quebrados e destroçados.

Tráfico de drogas.

Roubo e assalto.

Crianças desaparecidas e corpos de crianças assassinadas encontrados não

muito longe de suas casas.

A Inglaterra pode ser isso? A Inglaterra é realmente assim? A gente sente –

não – ainda não, mas poderia ser.

O medo desperta – o medo do que pode vir. Não tanto por causa de

acontecimentos reais, mas devido às possíveis causas por trás deles. Algumas

conhecidas, algumas desconhecidas, mas todas sentidas. E não apenas no

nosso próprio país. Há parágrafos menores em outras páginas, dando

notícias da Europa, da Ásia – das Américas. Notícias mundiais.

Sequestros de aviões.

Sequestros de pessoas.

Violência.

Tumultos.

Ódio.

Anarquia – tudo cada vez mais forte.

Tudo parecendo conduzir à veneração de um prazer destrutivo, cruel.

O que significa tudo isso? Uma frase elisabetana ecoa do passado, falando da

Vida:

 

...é uma história

Contada por um idiota, cheia de som e fúria,

Significando nada.

E no entanto sabemos, por nosso próprio conhecimento, quanta bondade existe

neste nosso mundo – os feitos caridosos, a bondade do coração, os atos de

compaixão, a bondade de vizinho para com vizinho, as ações úteis de meninas

e meninos.

Então, por que essa atmosfera fantástica de notícias diárias – de coisas que

acontecem – que são fatos reais?

Para escrever uma história neste ano do Nosso Senhor de 1970 – você precisa

entrar em acordo com o seu plano de fundo. Se o fundo é fantástico, então a

história deve aceitar o seu fundo. Ela, também, deve ser uma fantasia – uma

extravagância. A ambientação deve incluir os fatos fantásticos da vida diária.

Podemos conjeturar uma causa fantástica? Uma Campanha Secreta pelo

Poder? Pode um desejo maníaco de destruição criar um novo mundo?

Podemos ir um pouco mais longe e sugerir a libertação por meios fantásticos,

que soam impossíveis?

Nada é impossível, a ciência nos ensinou isso.

Esta história é, em essência, uma fantasia. Não pretende ser nada mais.

Mas a maioria das coisas que acontecem nela estão acontecendo, ou

prometendo acontecer, no mundo de hoje.

Não é uma história impossível – é apenas uma história fantástica.