Passageiro para Frankfurt
Capítulo II
Cleghorn, que era incansável na sua busca por essas tímidas raridades
florais e que a qualquer momento poderia escalar um rochedo ou saltar
alegremente num brejo caso enxergasse a menor das florzinhas – cujo
comprimento de nome latino fosse inversamente proporcional ao seu
tamanho.
Um pequeno grupo de entusiastas já ficara se dedicando a essa pesquisa
botânica nas encostas das montanhas por cerca de dez dias quando ocorreu a
Sir Stafford que era uma pena que o parágrafo não fosse verdade. Ele estava
um pouco – só um pouco – cansado de flores silvestres e, por mais apegado
que fosse à querida Lucy, a capacidade dela (apesar de seus sessenta e tantos
anos) para subir correndo as colinas em alta velocidade, ultrapassando
facilmente o ritmo dele, às vezes o irritava. Sempre logo à frente ele via o
fulgurante fundilho azul-imperial das calças dela, e Lucy, embora fosse
magricela o bastante no resto do corpo, era decididamente volumosa demais
no traseiro, Deus é testemunha, para usar uma calça de veludo azul-imperial.
Uma bela intriguinha internacional, ele havia pensado, na qual mergulhar
seus dedos, para brincar um pouco...
No avião, a voz metálica do sistema de som falou de novo. Disse aos
passageiros que, devido a um forte nevoeiro em Genebra, o avião seria
desviado para o aeroporto de Frankfurt e prosseguiria de lá para Londres. Os
passageiros para Genebra seriam reencaminhados de Frankfurt o mais breve
possível. Não fazia nenhuma diferença para Sir Stafford Nye. Se houvesse
nevoeiro em Londres, ele supôs que iriam redirecionar o avião para
Prestwick. Stafford esperava que isso não acontecesse. Ele já estivera em
Prestwick mais vezes do que o recomendável. A vida e as viagens por via
aérea, ele pensou, eram de fato excessivamente chatas. Se apenas – ele não
sabia – se apenas – o quê?
II
Fazia calor no Saguão de Trânsito de Passageiros em Frankfurt, portanto Sir
Stafford Nye deslizou para trás o seu manto, permitindo ao forro carmesim
que ondulasse espetacularmente em volta de seus ombros. Ele estava bebendo
um copo de cerveja e ouvindo com atenção negligente os vários avisos que
eram feitos.
“Voo 4387. Voando para Moscou. Voo 2381 com destino ao Egito e Calcutá.”
Viagens pelo mundo todo. Como deveria ser romântico. Mas havia algo na
atmosfera de um saguão de passageiros num aeroporto que esfriava o
romance. O lugar era cheio demais de gente, cheio demais de coisas para
comprar, cheio demais de assentos igualmente coloridos, cheio demais de
plástico, cheio demais de seres humanos, cheio demais de crianças chorando.
Ele tentou se lembrar de quem dissera:
Eu gostaria de amar os seres humanos;
Gostaria de amar seus rostos insanos.
Chesterton, talvez? Era sem dúvida verdadeiro. Coloque pessoas suficientes
juntas e elas vão parecer tão dolorosamente iguais que mal se pode suportar.
Um rosto interessante agora, pensou Sir Stafford. Que diferença isso faria.
Ele olhou de maneira depreciativa para duas jovens, esplendidamente
maquiadas, vestidas com o uniforme nacional do seu país – a Inglaterra, ele
presumia –, de minissaias cada vez mais curtas, e para outra jovem, ainda
mais bem maquiada – de fato muito atraente –, que estava usando algo que
ele acreditava ser chamado de saia-calça. Ela tinha ido um pouco mais longe
na estrada da moda.
Stafford não estava muito interessado por garotas de boa aparência que se
pareciam todas umas com as outras. Ele gostaria de ver alguém diferente.
Alguém sentou-se ao lado dele no sofá de couro sintético coberto por plástico
no qual ele estava acomodado. O rosto dela chamou sua atenção de imediato.
Não exatamente porque era diferente; na verdade, ele quase parecia
reconhecê-lo como um rosto familiar. Ali estava alguém que ele já tinha visto
antes. Sir Stafford não conseguia se lembrar de onde ou quando, mas o rosto
era certamente familiar. Vinte e cinco ou vinte e seis anos, ele pensou, era
possivelmente a idade. Um delicado nariz aquilino e proeminente, um
volumoso cabelo preto caindo até os ombros. Ela tinha uma revista diante dos
olhos, mas não a lia. A jovem estava, de fato, olhando para ele com algo que
era quase ânsia. De repente, ela falou. Era uma voz de contralto profundo,
quase tão profunda quanto a voz de um homem. Tinha um levíssimo sotaque
estrangeiro. Ela disse:
– Posso falar com o senhor?
Ele analisou-a por um momento antes de responder. Não – não era o que se
poderia pensar – aquilo não era uma cantada. Aquilo era outra coisa.
– Não vejo nenhuma razão – ele disse – para a senhorita não fazê-lo. Nós
temos bastante tempo para gastar aqui, ao que parece.
– Nevoeiro – disse a mulher –, nevoeiro em Genebra, nevoeiro em Londres,
talvez. Nevoeiro em toda parte. Eu não sei o que fazer.
– Ah, não deve se preocupar – disse ele, tranquilizador –, vai desembarcar em
algum lugar com toda certeza. Eles são bastante eficientes, claro. Para onde
está indo?
– Eu estava indo para Genebra.
– Bem, eu espero que acabe chegando lá no final.
– Eu preciso chegar lá agora. Se eu conseguir chegar a Genebra, vai dar tudo
certo. Tem alguém que vai me encontrar lá. Ficarei segura.
– Segura?
Ele sorriu um pouco.
Ela disse:
– Segurança é uma palavra e tanto, mas não é o tipo de palavra pela qual as
pessoas se mostram interessadas nos dias de hoje. Mas a segurança pode
significar muito. Estar segura significa muito para mim.
Em seguida ela falou:
– Veja, se eu não puder chegar a Genebra, se eu tiver que abandonar este avião
aqui, ou ir neste avião para Londres sem fazer certos arranjos, eu vou ser
assassinada.
A jovem olhou para ele com vivacidade.
– Imagino que o senhor não esteja acreditando nisso.
– Receio que não.
– É a mais pura verdade. As pessoas podem ser assassinadas. Assassinatos
ocorrem todos os dias.
– Quem quer matar a senhorita?
– Será que isso importa?
– Não para mim.
– O senhor pode acreditar em mim, se quiser. Eu estou falando a verdade. Eu
preciso de ajuda. Ajuda para chegar a Londres com segurança.
– E por que razão me escolheria para ajudá-la?
– Porque eu acho que o senhor sabe um pouco sobre a morte. O senhor
conhece a morte, talvez tenha visto a morte acontecer.
Stafford Nye olhou para ela com interesse e em seguida desviou o olhar.
– Algum outro motivo? – ele perguntou.
– Sim. Isso.
Ela estendeu sua fina mão de pele morena e tocou as dobras do manto
volumoso.
– Isso – ela disse.
Pela primeira vez o interesse dele foi despertado.
– Ora, o que é que a senhorita quer dizer com isso?
– É incomum... característico. Não é o que todo mundo usa.
– É verdade. É uma das minhas extravagâncias, digamos assim...
– É uma extravagância que poderia ser útil para mim.
– Como assim?
– Eu estou lhe pedindo uma coisa. Provavelmente o senhor irá recusar, mas
pode muito bem não recusar, porque eu acho que o senhor é um homem que
está disposto a correr riscos. Assim como eu sou uma mulher que corre
riscos.
– Eu vou ouvir qual é o seu plano – ele disse, com um leve sorriso.
– Eu quero vestir o seu manto. Eu quero o seu passaporte. Eu quero o seu
bilhete de embarque para o avião. Dentro de pouco tempo, em vinte minutos
mais ou menos, digamos, o voo para Londres será chamado. Vou ficar com o
seu passaporte, vou usar o seu manto. E desse modo vou viajar para Londres
e desembarcar com segurança.
– Quer dizer que a senhorita vai se passar por mim? Minha cara...
A jovem abriu uma bolsa. Tirou um pequeno espelho quadrado.
– Olhe – disse ela. – Olhe para mim e, em seguida, olhe para o seu próprio
rosto.
Ele viu então, viu o que estivera vagamente importunando a sua mente. Sua
irmã, Pamela, que morrera cerca de vinte anos antes. Os dois sempre tinham
sido muito parecidos, ele e Pamela. Uma forte semelhança de família. Ela
tinha um tipo de rosto ligeiramente masculino. O rosto dele talvez tivesse
sido, por certo no início da vida, de um tipo um pouco efeminado. Possuíam
ambos o nariz proeminente, a inclinação das sobrancelhas, o leve sorriso de
canto dos lábios. Pamela tinha sido alta, mais de um metro e setenta, e ele
tinha quase um metro e oitenta. Stafford olhou para a mulher que lhe – E mesmo assim diz que posso confirmar facilmente a minha identidade.
oferecera o espelho.
– Existe uma semelhança fisionômica entre nós, isso é o que a senhorita quer
dizer, não é? Só que, minha cara, isso não iria enganar ninguém que me
conhecesse ou conhecesse a senhorita.
– É claro que não. O senhor não entende? Não é preciso. Eu estou usando
calças. O senhor viajou com o capuz do seu manto puxado em volta do rosto.
Tudo o que eu preciso fazer é cortar o meu cabelo, embrulhá-lo numa bola de
jornal amassado e jogá-lo numa cesta de lixo. Depois, vou colocar o seu
albornoz; eu tenho o seu cartão de embarque, o bilhete e o passaporte. A
menos que possa existir alguém que o conheça bem nesse avião, e eu presumo
que não exista, ou já teriam falado com o senhor, poderei viajar com
segurança como se eu fosse o senhor. Mostrando o seu passaporte quando for
necessário, mantendo o albornoz com o capuz puxado de modo que somente o
nariz e os olhos e a boca sejam visíveis. Eu poderei sair com segurança
quando o avião chegar ao seu destino, porque ninguém vai saber que viajei
nele. Sair com segurança e desaparecer em meio à multidão da cidade de
Londres.
– E eu faço o quê? – perguntou Sir Stafford, com um leve sorriso.
– Posso dar uma sugestão, se o senhor tiver coragem para encará-la.
– Sugira – disse ele. – Eu sempre gosto de ouvir sugestões.
– O senhor se levanta, se afasta e vai comprar uma revista ou um jornal, ou um
presente no balcão de presentes. Deixa o seu manto pendurado aqui no
assento. Quando voltar com seja lá o que for, o senhor se senta em outro
lugar... digamos que na extremidade do banco ali em frente. Haverá um copo
diante do senhor, este mesmo copo. Nele haverá algo que vai botar o senhor
para dormir. Dormir num canto sossegado.
– O que acontece a seguir?
– O senhor terá sido presumivelmente vítima de um roubo – ela disse. – Alguém
vai ter adicionado algumas gotas entorpecedoras na sua bebida e vai ter
roubado a sua carteira. Algo desse tipo. O senhor declara a sua identidade,
diz que o seu passaporte e seus pertences foram roubados. O senhor pode
facilmente confirmar a sua identidade.
– A senhorita sabe quem eu sou? Meu nome, eu quero dizer...
– Ainda não – ela disse. – Não vi o seu passaporte ainda. Não faço a menor
ideia de quem seja o senhor.
– Eu costumo avaliar com precisão as pessoas. Sei quem é importante ou quem
não é. O senhor é uma pessoa importante.
– E por que motivo eu deveria fazer isso tudo?
– Talvez para salvar a vida de uma criatura humana.
– Essa história não parece ser altamente fantasiosa?
– Sem dúvida. É muito fácil não acreditar. O senhor acredita nela?
Stafford Nye olhou para ela, pensativo.
– A senhorita sabe como está falando? Como uma linda espiã num filme de
ação.
– Sim, talvez. Mas eu não sou linda.
– E também não é uma espiã?
– Eu poderia ser descrita dessa maneira, talvez. Tenho comigo certas
informações. Informações que quero preservar. O senhor vai ter que confiar
na minha palavra, são informações que seriam valiosas para o seu país.
– A senhorita não acha que está sendo um tanto absurda?
– Sim, acho. Se isso fosse escrito, iria parecer absurdo. Mas tantas coisas
absurdas são verdadeiras, não são?
Stafford olhou para ela de novo. Era muito parecida com Pamela. Sua voz,
embora fosse estrangeira na entonação, era semelhante à voz de Pamela. O
que estava propondo era ridículo, absurdo, quase impossível, e
provavelmente perigoso. Perigoso para ele. Infelizmente, porém, isso era o
que o atraía. Ter a coragem de sugerir uma coisa dessas para ele! O que
resultaria de tudo isso? Seria interessante, com toda certeza, tentar
descobrir.
– O que eu ganho com isso? – ele perguntou. – Isso é o que eu gostaria de
saber.
Ela olhou para ele, refletindo.
– Divertimento – ela disse. – Algo estranho em relação aos acontecimentos
cotidianos. Um antídoto contra o tédio, talvez. Nós não temos muito tempo.
Cabe ao senhor decidir.
– E o que acontece com o seu passaporte? Eu preciso comprar uma peruca, se