Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 12 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo 6 - Retrato de uma senhora

CAPÍTULO 6

 

 

Retrato de uma senhora

 

I

– Você está bem bonito e bronzeado, meu querido – disse tia Matilda,

inspecionando-o de modo apreciativo. – Deve ter sido a Malásia, eu suponho.

Foi na Malásia mesmo que você esteve? Ou foi no Sião ou na Tailândia? Eles

trocam os nomes de todos esses lugares e a coisa realmente fica muito difícil.

De qualquer maneira, não foi no Vietnã, foi? Você sabe, eu não gosto nem um

pouco de como soa Vietnã. É tudo muito confuso, Vietnã do Norte e Vietnã do

Sul e o Vietcongue e o Viet qualquer outra coisa e todos querendo brigar com

os outros e ninguém querendo parar. Eles não são capazes de ir para Paris ou

seja lá onde for de modo que se sentem em volta de mesas e conversem de

maneira sensata. Você não acha que realmente, meu querido... eu andei

pensando nisso e achei que seria uma bela solução... nós poderíamos fazer um

monte de campos de futebol e todos eles poderiam ficar lá brigando entre si,

só que com armas menos mortíferas. Nada daquele negócio sórdido

queimando as palmeiras. Você sabe. Eles só iam se bater e dar socos uns nos

outros e coisas assim. Eles achariam o máximo, todos achariam o máximo, e

nós ainda poderíamos cobrar entradas para que as pessoas fossem vê-los

nessa briga. Acho que nós não sabemos dar às pessoas aquilo que elas

realmente querem.

– É uma ideia excelente, tia Matilda – disse Sir Stafford Nye enquanto beijava

um rosto rosado, enrugado e agradavelmente perfumado. – E como vai a

senhora, minha querida?

– Bem, eu estou velha – disse Lady Matilda Cleckheaton. – Sim, eu estou velha.

É claro que você não sabe o que é ser velho. Se não é uma coisa, é outra.

Reumatismo ou artrite ou um sórdido ataque de asma ou uma dor de garganta

ou um tornozelo que você torceu. Sempre alguma coisa, sabe? Nada de muito

importante. Mas não há como escapar. Por que foi que você veio me ver,

querido?

Sir Stafford ficou ligeiramente desconcertado pela objetividade do

questionamento.

– Eu habitualmente venho vê-la quando volto de uma viagem ao exterior.

– Você precisa se sentar numa cadeira mais próxima – disse tia Matilda. –

Estou um tantinho mais surda desde que você me viu pela última vez. Você me

parece estar diferente... Por que você parece diferente?

– Porque estou mais queimado de sol. A senhora mesma já disse isso.

– Bobagem, não foi isso o que eu quis dizer em absoluto. Não vá me dizer que é

uma garota, finalmente.

– Uma garota?

– Bem, eu sempre senti que haveria de surgir uma um dia. O problema é que

você tem um senso de humor que é excessivo.

– Ora, por que motivo a senhora pensaria isso?

– Bem, é o que as pessoas de fato pensam sobre você. Sim, pensam mesmo. O

seu senso de humor é um obstáculo na sua carreira também. Você está sempre

misturado com toda essa gente. Diplomatas e políticos. O que eles chamam de

estadistas jovens e estadistas velhos e estadistas de meia-idade também. E

todos esses partidos diferentes. Francamente, eu acho uma idiotice essa

quantidade exagerada de partidos. Primeiro todas aquelas pessoas

horrorosas, aqueles trabalhistas horrorosos.

Ela ergueu o seu nariz conservador e prosseguiu:

– Veja só, quando eu era menina não existia essa coisa de Partido Trabalhista.

Ninguém saberia o que alguém quereria dizer com isso. Todos teriam dito:

“Que bobagem”. Pena que não tenha sido uma bobagem mesmo. E depois há

os liberais, é claro, mas eles são terrivelmente tolos. E depois os tories, ou os

conservadores, como eles chamam a si mesmos agora de novo.

– E qual é o problema com eles? – perguntou Stafford Nye, sorrindo

ligeiramente.

– Uma quantidade excessiva de mulheres sérias. Isso tira um pouco a graça,

não?

– Ah, bem, hoje em dia nenhum partido político se preocupa muito em ter

graça.

– Isso mesmo – disse tia Matilda. – E aí, lógico, é nisso que as coisas não vão

bem. Seria bom alegrar as coisas um pouco. Seria bom ter um pouco de

diversão e você poder brincar um pouco com as pessoas, mas as pessoas, é

claro, não gostam disso. Elas dizem: “Ce n’est pas un garçon sérieux...”,

como aquele homem na pescaria.

Sir Stafford Nye riu. Seus olhos vagueavam pela sala.

– O que você está olhando? – perguntou tia Matilda.

– Os seus quadros.

– Você não quer que eu venda os meus quadros, quer? Parece que todo mundo

anda vendendo seus quadros hoje em dia. O velho Lord Grampion, por

exemplo. Vendeu seus Turners e vendeu alguns dos seus antepassados também.

E Geoffrey Gouldman. Todos aqueles adoráveis cavalos que ele tinha. Eram

obras de Stubbs, não eram? Algo assim. Realmente, os preços que eles

conseguem! Mas eu não quero vender os meus quadros. Eu gosto deles. Os

que estão nesta sala, na maioria, têm um interesse verdadeiro para mim

porque são antepassados. Eu sei que ninguém mais quer saber de

antepassados hoje em dia, mas, ora, eu sou antiquada. Gosto de

antepassados. Dos meus antepassados, quero dizer. Para qual deles você está

olhando? Pamela?

– Sim. Eu andei pensando nela outro dia.

– É impressionante o quanto vocês dois são parecidos. Quero dizer, não é bem

como se vocês fossem gêmeos, muito embora todos digam que gêmeos de

sexos diferentes, mesmo que sejam gêmeos, não podem ser idênticos... você

entende o que eu quero dizer.

– Então Shakespeare deve ter cometido um engano com Viola e Sebastião.

– Bem, irmãos e irmãs comuns podem ser parecidos, não podem? Você e

Pamela sempre foram muito parecidos... em termos de aparência, quero dizer.

– E não em outro aspecto? A senhora não acha que nós éramos iguais em

personalidade?

– Não, nem um pouco. Essa é a parte engraçada. Mas é claro que você e

Pamela possuem o que eu chamo de rosto da família. Não o rosto dos Nye.

Estou me referindo ao rosto dos Baldwen-White.

Sir Stafford Nye nunca tinha sido totalmente capaz de competir com sua tia-

avó quando a conversa descambava numa questão de genealogia.

– Eu sempre achei que você e Pamela tinham puxado Alexa – ela continuou.

– Alexa era quem?

– Sua trisavó... acho que tataravó. Húngara. Uma condessa ou baronesa

húngara, não sei direito. O seu tataravô se apaixonou por ela quando estava

em Viena na embaixada. Sim. Húngara. Ela era húngara mesmo. Muito – Sim, e muito bonito, também.