Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 6 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo 3 - O homem da lavanderia

CAPÍTULO 3

 

 

O homem da lavanderia

 

Sir Stafford Nye voltou para o seu apartamento. Uma mulher enorme saltou de

dentro da cozinha com palavras de saudação.

– Estou vendo que o senhor chegou bem, no fim das contas. Esses aviões

insuportáveis... A gente nunca sabe, não é mesmo?

– É bem verdade, sra. Worrit – disse Sir Stafford Nye. – Duas horas de atraso

com aquele avião.

– Não é muito diferente dos carros – disse a sra. Worrit. – Eu quero dizer, a

gente nunca sabe, não é mesmo, o que vai acontecer de errado com eles. Só

que dá mais angústia, por assim dizer, estando lá em cima no ar, não é

verdade? Não dá para simplesmente parar no acostamento, não é a mesma

coisa, estou certa? Pois veja. Eu não viajaria em um de maneira alguma, nem

que me amarrassem.

Ela prosseguiu:

– Eu encomendei umas coisas. Espero que esteja tudo certo. Ovos, manteiga,

café, chá... – ela ia derramando as palavras com a loquacidade de um guia do

Oriente Próximo mostrando um palácio de faraó. – Pronto – disse a sra.

Worrit, fazendo uma pausa para recuperar o fôlego –, acho que isso é tudo de

que o senhor vai precisar. Eu encomendei a mostarda francesa.

– Não é a mostarda Dijon, é? Eles sempre tentam vender a Dijon.

– Não sei qual é essa, mas é uma Esther Dragon, a mostarda de que o senhor

gosta, não é?

– Isso mesmo – disse Sir Stafford. – A senhora é uma maravilha!

A sra. Worrit exibiu uma expressão satisfeita. Ela foi se refugiar na cozinha

novamente, ao passo que Sir Stafford colocou a mão na maçaneta da porta do

seu quarto.

– Tudo bem eu ter dado as suas roupas para o cavalheiro que veio buscar,

senhor? O senhor não tinha dito nada e nem deixado mensagem ou qualquer

coisa desse tipo.

– Que roupas? – perguntou Sir Stafford Nye, parando.

– Dois ternos, foi isso, foi o que o cavalheiro veio pedir. Da Twiss and

Bonywork, era isso, acho que a mesma que já tinha vindo outra vez. Tivemos

um pouco de problema com a lavanderia White Swan, se estou bem lembrada.

– Dois ternos? – perguntou Sir Stafford Nye. – Quais ternos?

– Bem, teve aquele que o senhor chegou da viagem usando. Imaginei que esse

seria um deles. Eu não tinha muita certeza sobre o outro, mas tinha o azul

com risca de giz sobre o qual o senhor não tinha deixado ordens quando saiu.

Ele estava precisando mesmo ser lavado, e também tinha necessidade de um

conserto no punho direito, mas não queria dar um jeito eu mesma enquanto o

senhor estava fora. Eu nunca gosto de fazer isso – disse a sra. Worrit, com um

ar de palpável virtude.

– Então o camarada, seja lá quem for, levou esses dois ternos?

– Espero não ter feito nada de errado, senhor.

A sra. Worrit começou a ficar preocupada.

– Não, eu não me importo com o risca de giz. Foi bom mesmo. Mas o terno com

o qual cheguei em casa, bem...

– Ele é um pouco fininho, senhor, para essa época do ano, não é mesmo? Ótimo

naqueles lugares quentes onde o senhor andou. E ele estava precisando

mesmo de uma limpeza. O cavalheiro disse que o senhor tinha telefonado

para falar sobre os ternos. Foi o que ele disse, quando veio buscar.

– Ele entrou no meu quarto para pegá-los?

– Sim, senhor. Achei que era melhor.

– Muito interessante – disse Sir Stafford. – Sim, muito interessante.

Ele foi até o seu quarto e olhou em volta. O quarto estava limpo e arrumado. A

cama estava feita, a mão da sra. Worrit era aparente, o barbeador elétrico

estava no carregador, as coisas no toucador se mostravam em perfeita

organização.

Stafford foi até o roupeiro e observou o seu interior. Olhou as gavetas da

cômoda alta junto à parede perto da janela. Não havia nada fora do lugar.

Estava tudo mais organizado, inclusive, do que deveria estar. Ele havia tirado

alguns objetos das malas na noite anterior, e o pouco que fizera havia sido

feito de uma maneira superficial. Tinha jogado roupas de baixo e várias

miudezas dentro da gaveta apropriada, mas não arrumara nada com muita

ordem. Iria fazer isso pessoalmente hoje ou amanhã. Não teria esperado que

a sra. Worrit o tivesse feito por ele. Esperava que ela somente mantivesse as

coisas como as encontrasse. Depois, quando voltasse da rua, haveria tempo

para rearranjos e reajustes em função do clima e de outras questões. Então

alguém tinha procurado algo ali, alguém abrira gavetas, olhara dentro delas

rapidamente, às pressas, recolocara certas coisas no lugar, em parte por

causa da pressa, com maior organização e cuidado do que ele mesmo teria

julgado necessário. Um trabalho rápido e cuidadoso, e depois o homem tinha

ido embora com os dois ternos e uma explicação plausível. Um terno

obviamente usado por Sir Stafford quando saía em viagem e um terno de

tecido fino que poderia ter sido levado para o exterior e trazido para casa.

Por quê?

– Porque – disse Sir Stafford consigo mesmo, pensativo – porque alguém

estava procurando alguma coisa. Mas o quê? E quem? Mas também por qual

motivo?

Sim, aquilo era interessante.

Ele se sentou numa poltrona e ficou pensando nesse mistério. Logo em seguida

os seus olhos se desviaram até a mesa junto à cama onde estava sentado, com

aspecto um tanto insolente, um pequeno panda peludo. Disso surgiu uma

linha de raciocínio. Ele foi até o telefone e discou um número.

– É a senhora, tia Matilda? – ele perguntou. – Stafford falando.

– Ah, meu querido, você já está de volta. Fico tão contente. Eu li no jornal que

apareceram casos de cólera na Malásia ontem, pelo menos eu acho que foi na

Malásia. Eu sempre me confundo tanto com esses lugares. Espero que você

venha me ver logo. Não tente fingir que você está ocupado. Você não pode

estar ocupado o tempo inteiro. A gente só aceita realmente essa desculpa de

magnatas, de pessoas da indústria, sabe, no meio de fusões e aquisições. Eu

nunca sei o que isso tudo realmente quer dizer. Antigamente isso significava

fazer o seu trabalho do modo mais adequado, mas agora tem relação com

bombas atômicas e fábricas de concreto – disse tia Matilda, num tom bastante

agitado. – E esses terríveis computadores que dão os nossos números todos

errados, para não falar de quando deformam tudo. Sem sombra de dúvida,

eles nos dificultam tanto a vida hoje em dia. Você não acreditaria nas coisas

que eles fizeram com a minha conta bancária. E com o meu endereço postal

também. Bem, acho que eu já vivi tempo demais.

– Não pense uma coisa dessas! Tudo bem se eu aparecer aí na semana que vem?

– Pode aparecer amanhã, se você quiser. O vigário vem para o jantar, mas

posso facilmente desmarcar com ele.

– Ah, por favor, não há necessidade disso.

– Há, sim, há muita necessidade. Ele é um homem muitíssimo irritante, e quer

um órgão novo, ainda por cima. O atual está funcionando muito bem. Quero

dizer, o problema é com o organista, na verdade, não é com o órgão. Um

músico absolutamente abominável. O vigário está com pena do organista

porque ele perdeu a mãe, de quem gostava muito. Mas vamos falar a verdade,

gostar da sua mãe não faz você tocar órgão muito melhor, faz? Quero dizer,

você precisa encarar as coisas como elas são.

– A senhora tem toda razão. Terá que ser na semana que vem... tenho algumas

coisas para resolver. Como vai Sybil?

– Querida menina! Muito travessa, mas tão engraçada.

– Eu trouxe um panda de pelúcia para ela – disse Sir Stafford Nye.

– Ora, que gentileza de sua parte, querido.

– Espero que ela goste – disse Sir Stafford, percebendo o olhar do panda e se

sentindo ligeiramente nervoso.

– Bem, de qualquer maneira, ela tem modos muito educados – disse tia

Matilda, no que pareceu ser uma resposta um tanto duvidosa, cujo significado

Sir Stafford não chegou a estimar direito.

Tia Matilda sugeriu os horários mais prováveis dos trens para a semana

seguinte, advertindo que com muita frequência eles não saíam, ou mudavam

seus planos, e também ordenou que ele trouxesse um queijo Camembert e a

metade de um Stilton.

– É impossível arranjar certas coisas por aqui agora. O nosso próprio

merceeiro... um homem tão simpático, tão atencioso e com tanto bom gosto em

relação a tudo de que a gente gostava... transformou a venda de uma hora

para outra num supermercado, seis vezes maior, tudo reconstruído, cestas e

carrinhos de arame para levar de um lado a outro e tentar encher com coisas

que você não quer, e mães sempre perdendo os seus filhos pequenos, e

chorando, e tendo crises histéricas. É muito exaustivo. Bem, estarei

esperando você, meu querido garoto.

Ela desligou. O telefone tocou de novo.

– Alô? Stafford? Eric Pugh falando. Eu soube que você voltou da Malásia...

Que tal um jantar hoje à noite?

– Eu gostaria muito.

– Ótimo. Limpits Club. Oito e quinze?

A sra. Worrit entrou ofegando no quarto enquanto Sir Stafford recolocava o

telefone no gancho.

– Um cavalheiro lá embaixo quer ver o senhor – ela disse. – Isto é, pelo menos

eu acho que é um cavalheiro. De qualquer maneira, ele disse que tinha

certeza que o senhor não ia se importar.

– Qual é o nome dele?

– Horsham, senhor, como aquele lugar no caminho para Brighton.

– Horsham.

Sir Stafford Nye estava um pouco surpreso. Ele saiu de seu quarto, desceu o

meio lance de escadas que levava à sala de estar principal no andar de baixo.

A sra. Worrit não cometera nenhum equívoco. Era de fato Horsham, com a

mesma aparência de meia hora antes, robusto, digno de confiança, queixo

fendido, faces rubicundas, farto bigode cinzento e um certo ar de

impassibilidade.

– Espero que o senhor não se importe – ele disse amavelmente, colocando-se

de pé.

– Espera que eu não me importe com o quê? – perguntou Sir Stafford Nye.

– De me ver outra vez tão depressa. Nós nos encontramos no corredor na saída

do escritório do sr. Gordon Chetwynd... o senhor não lembra?

– Não faço a menor objeção – disse Sir Stafford Nye.

Ele empurrou um maço de cigarros na mesa.

– Sente-se. Faltou alguma coisa, faltou dizer alguma coisa?

– Um homem muito aprazível, o sr. Chetwynd – disse Horsham. – Nós já

conseguimos aquietá-lo, eu penso. Ele e o coronel Munro. Eles estão um

pouco aborrecidos com tudo isso, claro. Sobre o senhor, eu quero dizer.

– É mesmo?

Sir Stafford Nye se sentou também. Ele sorriu, começou a fumar e ficou

olhando de maneira pensativa para Henry Horsham.

– E para onde nós vamos agora? – ele perguntou.

– Eu estava justamente imaginando se poderia perguntar, se não for

curiosidade demais, para onde o senhor vai agora...

– Fico encantado em informar – disse Sir Stafford. – Vou passar um tempo na

casa de uma tia, Lady Matilda Cleckheaton. Se o senhor quiser, posso lhe dar

o endereço.

– Eu sei onde é – disse Henry Horsham. – Bem, acho que é uma ideia excelente.

Ela vai ficar contente por ver que o senhor chegou em casa são e salvo. Deve

ter escapado por um triz, não?

– Isso é o que o coronel Munro e o sr. Chetwynd pensam?

– Bem, o senhor sabe como é – disse Horsham. – Sabe muito bem. Eles estão

sempre num estado de alerta, os cavalheiros naquele departamento. Não têm

certeza se devem confiar no senhor ou não.

– Confiar em mim? – falou Sir Stafford Nye, com uma voz ofendida. – O que

está querendo dizer com isso, sr. Horsham?

O sr. Horsham não chegou a ficar desconcertado. Apenas sorriu sem jeito.

– Ouça – ele disse –, o senhor tem uma reputação de não levar as coisas muito

a sério.

– Ah. Eu pensei que estivesse querendo dizer que eu era um simpatizante ou um

convertido para o lado errado. Algo desse gênero.

– Ah, não, senhor, eles apenas não consideram que o senhor seja sério. Eles

pensam que o senhor gosta de levar as coisas na brincadeira de vez em

quando.

– Não se pode passar a vida levando a si mesmo e os outros a sério – disse Sir

Stafford Nye, num tom de desagrado.

– Não. Mas o senhor correu um risco bem grande, como eu já disse antes, não

correu?

– Eu estou tentando avaliar se faço alguma ideia do que o senhor está falando.

– Eu vou lhe contar. Às vezes as coisas dão errado, senhor, e nem sempre elas

dão errado porque as pessoas as fizeram dar errado. Aquilo que o senhor

pode chamar de mão do Todo-poderoso, ou do outro cavalheiro... aquele com

um rabo, eu quero dizer.

Sir Stafford Nye pareceu achar a ideia divertida.

– O senhor está se referindo ao nevoeiro em Genebra? – ele perguntou.

– Exatamente, senhor. Havia um nevoeiro em Genebra e isso atrapalhou certos

planos. Alguém ficou numa enrascada.

– Conte tudo – disse Sir Stafford Nye. – Eu realmente gostaria de saber.

– Bem, uma passageira estava faltando quando aquele seu avião saiu de

Frankfurt ontem. O senhor tinha tomado a sua cerveja e estava sentado num

canto, roncando tranquila e confortavelmente sozinho. Uma passageira não

se apresentou e eles a chamaram e chamaram de novo. No final, é de se

presumir, o avião decolou sem ela.

– Ah. E o que houve com ela?

– Seria interessante saber. Em todo caso, o seu passaporte chegou em

Heathrow, mesmo que o senhor não tenha chegado.

– E onde ele está agora? Eu já deveria tê-lo comigo?

– Não. Não creio. Seria rápido demais. Um negócio confiável, aquela droga.

Bastante conveniente, se eu posso dizer assim. Deixou o senhor apagado e

não produziu nenhum efeito particularmente ruim.

– Aquilo me deu uma ressaca desgraçada – disse Sir Stafford.

– Ah, bem, não dá para evitar. Não nessas circunstâncias.

– O que teria acontecido – perguntou Sir Stafford –, já que o senhor parece

saber de todos os detalhes de tudo, se eu tivesse recusado aceitar a proposta

que talvez... vou dizer apenas talvez... tivesse sido feita para mim?

– É bem possível que isso representasse o prego no caixão de Mary Ann.

– Mary Ann? Quem é Mary Ann?

– A srta. Daphne Theodofanous.

– É o nome que eu pareço de fato ter ouvido... sendo chamado como uma

viajante não localizada?

– Sim, esse era o nome com o qual ela estava viajando. Nós a chamamos de

Mary Ann.

– Quem é ela? Apenas por curiosidade...

– Em sua área ela é mais ou menos a principal autoridade.

– E qual é a área dela? Ela é nossa ou deles? Se é que o senhor sabe quem são

“eles”... Eu devo dizer que encontro certa dificuldade quando tento chegar a

uma conclusão nesse ponto.

– Sim, não é tão fácil, não é mesmo? Com os chineses e os russos e com essa

turma um tanto esquisita que está por trás de todos os tumultos dos

estudantes e a Nova Máfia e aquele grupo um tanto estranho na América do

Sul. E o simpático ninho dos financistas que sempre parecem ter algo

escondido embaixo da manga. Não, não é fácil dizer.

– Mary Ann – falou Sir Stafford Nye, pensativo. – Parece ser um nome curioso,

se o nome verdadeiro dela é Daphne Theodofanous.

– Bem, a mãe dela é grega, o pai era inglês e o avô era um cidadão austríaco.

– O que teria acontecido se eu não tivesse feito para ela um... um empréstimo

de certa vestimenta?

– Ela poderia ter sido assassinada.

– Ora, ora... O senhor não está falando sério.

– Nós estamos preocupados com o aeroporto de Heathrow. Coisas aconteceram

ali ultimamente, coisas que precisam de alguma explicação. Se o avião tivesse

seguido via Genebra, como planejado, tudo teria corrido bem. Ela teria

recebido proteção completa, tudo estava arranjado. Mas por esse outro

caminho... não haveria tempo para fazer qualquer arranjo, e a gente não sabe

quem é quem, hoje em dia. Todo mundo está sempre fazendo um jogo duplo, ou

triplo, ou quádruplo.

– O senhor está me deixando alarmado – disse Sir Stafford Nye. – Mas ela está

bem, não está? É isso o que o senhor está me contando?

– Espero que ela esteja bem. Ainda não ouvimos nada em sentido contrário.

– Se lhe servir de alguma ajuda – disse Sir Stafford –, alguém apareceu aqui

hoje de manhã, enquanto eu estive fora conversando com os meus parceiros

em Whitehall. O sujeito inventou que eu tinha telefonado para uma

lavanderia e levou o terno que eu usei ontem e também outro terno. É claro,

pode ter acontecido simplesmente que ele tenha caído de amores pelo outro

terno, ou ele pode ter desenvolvido um hábito de colecionar vários trajes de

cavalheiros que tenham retornado recentemente do exterior. Ou... bem, talvez

o senhor tenha um “ou” para acrescentar?

– Ele poderia estar procurando por alguma coisa.

– Sim, eu creio que ele estava. Alguém andou procurando por alguma coisa.

Tudo estava muito bem organizado e arrumado. Não estava do jeito que eu

tinha deixado. Certo, ele estava procurando por alguma coisa. O que ele

estava procurando?

– Não tenho certeza – disse Horsham, lentamente. – Gostaria de ter essa

certeza. Alguma coisa está acontecendo... em algum lugar. O negócio tem

pontas aparecendo, sabe, como num embrulho malfeito. A gente consegue dar

uma espiada aqui e uma espiada ali. Por um momento você pensa que está

acontecendo no Festival de Bayreuth e no minuto seguinte você pensa que

surgem sinais numa estância sul-americana e aí descobre um indício nos

Estados Unidos. Há uma porção de negócios sórdidos em diferentes lugares,

algo está sendo desenvolvido. Talvez seja política, talvez seja algo muito

diferente de política. Provavelmente seja dinheiro.

Ele acrescentou:

– Conhece o sr. Robinson, não? Ou o sr. Robinson o conhece, acho que ele me

disse isso.

– Robinson? – ponderou Sir Stafford Nye. – Robinson. Um belo nome inglês.

Ele olhou para Horsham.

– Grandão, rosto amarelo? – ele perguntou. – Gordo? Sempre metido em

assuntos financeiros? Ele também é um dos anjos mecenas, isso é o que o

senhor está querendo me dizer?

– Não sei de nada sobre os anjos – disse Henry Horsham. – Ele nos tirou do

buraco neste país mais de uma vez. Pessoas como o sr. Chetwynd não

recorrem muito a ele. Pensam que ele é muito caro, eu imagino. Tende a ser

um pouco mesquinho, o sr. Chetwynd. Um grande homem para fazer inimigos

nos lugares errados.

– As pessoas costumam dizer “pobre mas honesto” – falou Sir Stafford Nye,

pensativo. – Acho que poderíamos dizer de maneira diferente. Poderíamos

descrever o nosso sr. Robinson como rico mas honesto. Ou talvez pudéssemos

dizer: honesto mas rico – Stafford suspirou. – Eu gostaria que o senhor

pudesse me dizer qual é o significado disso tudo – ele falou, num tom de

lamúria. – Eu estou envolvido em alguma coisa, ao que parece, e não faço a

menor ideia do que seja.

Ele olhou para Henry Horsham com uma expressão esperançosa, mas Horsham

balançou a cabeça.

– Nenhum de nós sabe. Não exatamente – ele disse.

– O que eu poderia ter escondido aqui, para que alguém venha mexer e

procurar?

– Francamente, eu não faço a mínima ideia, Sir Stafford.

– Bem, é uma pena, porque eu também não.

– Até onde o senhor sabe, o senhor não ficou com nada. Ninguém lhe deu

alguma coisa para guardar, para levar a determinado lugar ou tomar conta?

– Absolutamente nada. Se o senhor está falando de Mary Ann, ela me disse que

queria salvar sua vida, isso foi tudo.

– E a não ser que apareça um parágrafo nos jornais vespertinos, o senhor

salvou a vida dela.

– Parece mais um fim de capítulo, não parece? Uma pena. A minha curiosidade

está aumentando. Constato que eu gostaria muito de saber o que é que vai

acontecer a seguir. Todos vocês parecem ser muito pessimistas.

– Falando francamente, nós somos. As coisas estão indo de mal a pior neste

país. O senhor não fica pensando nisso?

– Eu sei o que o senhor quer dizer. Às vezes eu fico mesmo pensando...