Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 14 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo 7 - Conselhos da tia-avó Matilda

CAPÍTULO 7

 

Conselhos da tia-avó Matilda

 

A tia-avó Matilda ficou olhando para ele. Ela tinha um olhar sagaz e muito

penetrante. Stafford Nye já tinha percebido isso antes. Ele o percebeu em

especial naquele momento.

– Então você já ouviu esse termo antes – ela disse. – Estou vendo.

– O que ele quer dizer?

– Você não sabe? – ela ergueu suas sobrancelhas.

– Juro pela minha vida – disse Sir Stafford, como se fosse uma criança.

– Sim, a gente costumava dizer isso, não era mesmo? – disse Lady Matilda. –

Você está realmente falando sério?

– Não sei nada sobre isso.

– Mas já ouviu o termo antes.

– Sim. Alguém me disse.

– Alguma pessoa importante?

– Pode ser que sim. Imagino que poderia ser importante. O que a senhora quer

dizer com “alguma pessoa importante”?

– Bem, você esteve envolvido em várias missões governamentais nos últimos

tempos, não? Você representou este infeliz e pobre país da melhor maneira

possível, o que, suponho, não deve ter sido muito melhor do que vários outros

poderiam fazer, sentando-se em volta de uma mesa e conversando. Não sei se

alguma coisa saiu disso tudo.

– Provavelmente não – disse Stafford Nye. – Afinal de contas, a gente não fica

otimista quando entra nessas coisas.

– Cada um deve fazer o seu melhor – disse Lady Matilda, num tom de correção.

– Um princípio muito cristão. Hoje em dia, se a pessoa faz o seu pior, muitas

vezes ela consegue se sair um tanto melhor. O que quer dizer tudo isso, tia

Matilda?

– Não creio que eu saiba – disse a tia.

– Bem, a senhora sabe de certas coisas com muita frequência.

– Não exatamente. Eu apenas apanho as coisas aqui e ali.

– Sim?

– Ainda me restaram alguns velhos amigos. Amigos que estão por dentro das

coisas. É claro, quase todos eles estão ou praticamente surdos como uma

porta ou meio cegos ou um pouco desfalcados no arquivo das memórias, ou

então incapazes de andar direito. Mas algo ainda funciona. Algo, digamos

assim, aqui em cima – ela bateu no topo de sua cabeça branca e perfeitamente

penteada. – Há uma tremenda dose de alarme e de desânimo por aí. Mais do

que o habitual. Essa é uma das coisas que eu percebi.

– Não é sempre assim?

– Sim, sim, mas agora é um pouco mais do que isso. Algo ativo em vez de

passivo, como poderíamos dizer. Desde muito tempo, como eu venho

percebendo na perspectiva de fora, e você, sem dúvida, na perspectiva de

dentro, nós estamos sentindo que as coisas estão bagunçadas. Uma bagunça

bastante ruim. Mas agora nós chegamos a um ponto em que sentimos que

talvez algo possa ter sido feito em relação à bagunça. Há um elemento de

perigo nela. Alguma coisa está acontecendo... algo está sendo fermentado.

Não apenas num único país. Em diversos países. Eles recrutaram um exército

particular e o perigo em torno disso é que é um exército de jovens. E é o tipo

de gente que se dispõe a ir para qualquer lugar, a fazer qualquer coisa, a

infelizmente acreditar em tudo, e, contanto que lhes prometam uma certa

quantidade de derrubadas, de demolição, de sabotagem das engrenagens, aí

eles pensam que a causa só pode ser boa e que o mundo será um lugar

diferente. Eles não são criativos, esse é o problema... são apenas destrutivos.

Os jovens criativos escrevem poemas, escrevem livros, provavelmente

compõem música e pintam quadros como sempre fizeram. Eles vão ficar bem...

Mas uma vez que as pessoas aprendem a gostar da destruição pela destruição

em si, aí a liderança maligna obtém a sua oportunidade.

– A senhora diz “eles” . A quem a senhora está se referindo?

– Bem que eu gostaria de saber – disse Lady Matilda. – Sim, bem que eu

gostaria de saber. Gostaria muito. Se ouvir qualquer coisa de útil eu conto

para você. Então você poderá fazer algo a respeito.

– Infelizmente, eu não tenho ninguém para contar, quero dizer, ninguém para

passar adiante.

– Sim, não passe adiante para qualquer um. Não podemos confiar nas pessoas.

Não passe adiante para nenhum daqueles idiotas do governo ou qualquer

pessoa que tenha conexão com o governo ou tenha esperança de participar do

governo quando o grupo atual sair. Os políticos não têm tempo de olhar para

o mundo no qual estão vivendo. Eles enxergam o país no qual vivem como

uma vasta plataforma eleitoral. Isso é mais do que suficiente para eles por

enquanto. Eles fazem coisas que, segundo honestamente acreditam, vão

tornar a situação melhor, e depois ficam surpresos quando não conseguiram

melhorar a situação porque aquela não é a situação que as pessoas queriam

ter. E não podemos deixar de chegar à conclusão de que os políticos sentem

que têm uma espécie de direito divino para contar mentiras em nome de uma

boa causa. Não faz tanto tempo assim que o sr. Baldwin fez o seu famoso

comentário: “Se eu tivesse falado a verdade, teria perdido a eleição”. Os

primeiros-ministros ainda pensam assim. De vez em quando nós ganhamos um

grande homem, graças a Deus. Mas é raro.

– Bem, o que a senhora sugere que seja feito?

– Você está pedindo o meu conselho? O meu? Você sabe quantos anos eu

tenho?

– A senhora está chegando perto dos noventa – sugeriu seu sobrinho.

– Não sou assim tão velha – disse Lady Matilda, ligeiramente ofendida. – Eu

pareço ter quase noventa, meu querido garoto?

– Não, minha querida. A senhora parece ter a tranquila idade de 66 anos.

– Assim fica melhor – disse Lady Matilda. – Não é nem um pouco verdade. Mas

é melhor. Se eu conseguir um palpite de qualquer tipo da parte de algum dos

meus queridos almirantes ou de um velho general ou até mesmo de um

marechal do ar... eles ouvem muitas coisas por aí, você sabe... eles ainda têm

camaradas e os velhos rapazes se juntam e conversam. E assim a informação

circula. O boca a boca sempre existiu e sempre vai existir, por mais idosas

que as pessoas sejam. O jovem Siegfried. Só precisamos de uma pista para

saber o que quer dizer isso... não sei se ele é uma pessoa ou uma senha ou o

nome de um clube ou um novo messias ou um cantor pop. Mas esse termo

encobre alguma coisa. E há o tema musical, também. Eu quase já me esqueci

dos meus dias wagnerianos – e sua voz envelhecida grasnou uma melodia

parcialmente reconhecível. – O chamado da trompa de Siegfried, não é isso?

Arranje para nós uma flauta, pode ser? Uma flauta simples mesmo. Não uma

daquelas flautas transversas que você sopra de lado... Estou me referindo

àquela que as crianças aprendem a tocar na escola. A flauta doce. Eu fui

outro dia numa palestra promovida pelo nosso vigário. Bem interessante.

Traçando a história da flauta doce, dos tipos de flautas que existiram desde a

era elisabetana em diante. Algumas grandes, outras pequenas, todos os

diferentes sons e notas. Muito interessante. Interessante de ouvir em dois

sentidos. As flautas em si. Algumas delas produzem ruídos adoráveis. E a

história. Sim. Bem, o que é que eu estava dizendo?

– A senhora me pediu para arranjar um desses instrumentos, pelo que eu

entendi.

– Sim. Arranje uma flauta e aprenda a soprar o chamado da trompa de

Siegfried. Você é musical, você sempre foi. Consegue fazer isso, não?

– Bom, esse parece ser um papel muito pequeno para desempenhar na salvação

do mundo, mas ouso dizer que consigo dar um jeito.

– E tenha o seu papel preparado. Porque, veja – ela bateu na mesa com a caixa

de seus óculos –, você poderá querer impressionar as pessoas erradas uma

hora dessas. Poderia ser útil. Elas o receberiam de braços abertos e aí você

poderia descobrir alguma coisa.

– A senhora certamente tem ideias mirabolantes – disse Sir Stafford, com

admiração.

– O que mais se pode ter com a minha idade? – perguntou sua tia-avó. – Você

não pode sair por aí. Não pode interagir com as pessoas, não pode praticar

jardinagem. Tudo que você pode fazer é sentar na sua poltrona e ter ideias.

Lembre-se disso quando tiver quarenta anos a mais.

– Uma das observações que a senhora fez me interessou.

– Só uma? – perguntou Lady Matilda. – É uma parcela bastante pequena,

considerando-se que eu falei por tanto tempo. O que foi?

– A senhora sugeriu que eu poderia ser capaz de impressionar as pessoas

erradas com a minha flauta... a senhora quis dizer isso mesmo?

– Bem, é uma maneira de agir, não é? As pessoas certas não importam. Mas as

pessoas erradas... Bem, nós precisamos descobrir as coisas, não? Nós

precisamos nos infiltrar. Bem como um inseto fazendo vigília na parede – ela

disse, com ar pensativo.

– Então eu deveria ficar imóvel na parede durante a noite?

– Bem, esse tipo de coisa, sim. Tivemos insetos intrometidos aqui na ala leste

da casa certa vez. Foi muito caro dar um jeito neles. Eu me atrevo a dizer que

seria também muito caro dar um jeito no mundo.

– Na verdade, um pouco mais caro do que isso – disse Stafford Nye.

– Não tem importância – disse Lady Matilda. – As pessoas nunca dão

importância se você quer gastar uma grande quantidade de dinheiro. Isso as

impressiona. É quando você quer fazer as coisas de maneira econômica que

elas se negam a participar do jogo. Neste país, eu digo. Nós somos as mesmas

pessoas que sempre fomos.

– O que a senhora quer dizer com isso?

– Nós somos capazes de fazer grandes realizações. Nós fomos bons em

administrar um império. Não fomos bons em manter um império funcionando,

mas, pensando bem, não precisávamos mais de um império. E reconhecemos

isso. Difícil demais conservá-lo. Robbie me fez ver isso – acrescentou ela.

– Robbie?

O nome era vagamente familiar.

– Robbie Shoreham. Robert Shoreham. É um amigo meu bem antigo.

Paralisado no lado esquerdo todo. Mas ele ainda consegue falar e tem um

aparelho auditivo razoavelmente bom.

– Além de ser um dos físicos mais famosos do mundo – disse Sir Stafford. –

Então ele também é um dos seus velhos camaradas?

– Conheço Robbie desde que ele era um menino – disse Lady Matilda. –

Suponho que lhe cause surpresa que nós sejamos amigos, tenhamos muito em

comum e gostemos de nos encontrar para conversar...

– Bem, eu nunca teria pensado...

– Que tivéssemos tanto assunto para conversar? É verdade que eu nunca me

dei bem com a matemática. Felizmente, quando eu era pequena, as meninas

nem precisavam tentar. A matemática chegou com facilidade para Robbie

quando ele tinha uns quatro anos de idade, eu acredito. Hoje em dia dizem

que isso é bastante natural. Ele tem assuntos de sobra para conversar.

Gostava de mim porque eu era frívola e o fazia rir. E eu sou uma boa ouvinte

também. E, realmente, ele diz coisas muito interessantes às vezes.

– É de se supor – Stafford Nye disse com secura.

– Ora, não seja esnobe. Molière se casou com sua empregada, não se casou? E

obteve com isso um grande sucesso... se for mesmo Molière, eu quero dizer. Se

um homem tem um cérebro privilegiado ele não vai realmente querer uma

mulher que tenha também um cérebro privilegiado para conversar. Isso seria

exaustivo. Ele vai preferir muito antes uma encantadora bobinha que consiga

fazê-lo rir. Eu não tinha uma aparência tão ruim na minha juventude – disse

Lady Matilda, complacente. – Sei que eu não tenho nenhuma distinção

acadêmica, que eu não sou nem um pouco intelectual. Mas Robert sempre diz

que eu tenho uma bela quantidade de bom senso e de inteligência.

– A senhora é uma pessoa encantadora – disse Sir Stafford Nye. – Eu gosto

muito de vê-la e vou partir tendo em mente todas as coisas que a senhora me

disse. Há muito mais coisas, eu imagino, que a senhora poderia me contar,

mas obviamente não vai.

– Só quando chegar o momento certo – disse Lady Matilda –, mas eu sempre

vou zelar pelos seus interesses. Me deixe informada sobre o que você anda

fazendo de tempos em tempos. Você vai jantar na embaixada americana na

semana que vem, não é?

– Como a senhora sabia disso? Eu fui convidado.

– E aceitou o convite, pelo que eu sei.

– Bem, isso diz respeito ao cumprimento do dever – e Stafford Nye olhou para

ela com curiosidade. – Como a senhora consegue se manter tão bem

informada?

– Ah, Milly me contou.

– Milly?

– Milly Jean Cortman. A esposa do embaixador americano. Uma criatura

muitíssimo atraente, fique sabendo. Pequena e com feições um tanto perfeitas.

– Ah, a senhora quer dizer Mildred Cortman.

– Ela foi batizada como Mildred mas preferiu Milly Jean. Eu estive

conversando com ela ao telefone sobre uma certa matinê de caridade... Ela é

o que nós costumávamos chamar de uma Vênus de bolso.

– Um termo muitíssimo atraente – disse Stafford Nye.