Passageiro para Frankfurt
Capítulo II
surpreendente, a limusine com aspecto de viúva, como ele a definira em sua
mente, acelerou. Acelerou com uma velocidade súbita e atordoante. Arrojou-
se para cima dele com tamanha agilidade que ele só teve tempo de dar um
salto até a calçada oposta. A limusine desapareceu como um raio, virando a
curva da rua mais adiante.
– Só posso ficar imaginando – disse Sir Stafford consigo mesmo. – Agora eu só
posso ficar imaginando. Será possível que exista alguém que não goste de
mim? Alguém me seguindo, talvez, me vigiando enquanto eu volto para casa,
esperando por uma oportunidade?
II
O coronel Pikeaway, com o corpanzil esparramado em sua cadeira na pequena
sala em Bloomsbury onde ficava sentado das dez às cinco, com um breve
intervalo para o almoço, estava cercado, como de costume, por uma
atmosfera de espessa fumaça de charuto; com seus olhos fechados, apenas
uma piscadela ocasional mostrava que ele estava acordado, e não
adormecido. O homem raras vezes erguia a cabeça. Alguém dissera que ele
parecia um cruzamento entre um antigo Buda e um enorme sapo azul, tendo
talvez, como um adolescente desbocado poderia ter acrescentado, um leve
toque bastardo de hipopótamo em seus antepassados.
O suave zumbido do interfone de sua mesa o despertou. Ele piscou três vezes e
abriu os olhos. Estendeu à frente uma mão de aspecto bastante fatigado e
levantou o fone.
– Sim? – ele disse.
Era a voz da sua secretária.
– O ministro está aqui, esperando para ver o senhor.
– Não diga – falou o coronel Pikeaway. – E que ministro é esse? O ministro
batista da igreja da esquina?
– Não, não, coronel Pikeaway, é Sir George Packham.
– Uma pena – disse o coronel Pikeaway, respirando asmaticamente. – Uma
pena mesmo. O reverendo McGill é muito mais divertido. Há nele um
esplêndido toque de fogo do inferno.
– Devo levá-lo até o senhor, coronel Pikeaway?
– Acho que ele espera ser trazido até mim de imediato. Os subsecretários são
bem mais suscetíveis de que os secretários de Estado – disse o coronel
Pikeaway, num tom sombrio. – Todos esses ministros insistem em entrar e
disparar reclamações para todos os lados.
Sir George Packham foi introduzido. Ele tossiu e resfolegou. A maioria das
pessoas fazia o mesmo. As janelas da pequena sala estavam completamente
fechadas. O coronel Pikeaway reclinou-se na cadeira, coberto dos pés à
cabeça por cinzas de charuto. A atmosfera era quase insuportável, e a sala
era conhecida nos círculos oficiais como a “casinha do gato”.
– Ah, meu caro companheiro – disse Sir George, falando de modo vivaz e
jovial, de uma maneira que não combinava com sua aparência ascética e
triste. – Faz um bom tempo que não nos encontramos, creio eu.
– Sente-se, sente-se, por favor – disse Pikeaway. – Aceita um charuto?
Sir George estremeceu ligeiramente.
– Não, obrigado – ele disse –, não, muito obrigado.
Ele olhou de modo ostensivo para as janelas. O coronel Pikeaway não captou a
insinuação. Sir George limpou a garganta e tossiu outra vez antes de dizer:
– Bem... acredito que Horsham tenha vindo ver você.
– Sim, Horsham veio e fez o seu discurso – disse o coronel Pikeaway,
lentamente permitindo a seus olhos que se fechassem de novo.
– Penso que tenha sido o melhor procedimento. Isto é: que ele viesse aqui lhe
fazer uma visita. É muitíssimo importante que as coisas não comecem a
circular por aí.
– Ah – disse o coronel Pikeaway –, mas elas vão circular, não vão?
– Perdão?
– Elas vão circular – disse o coronel Pikeaway.
– Eu não sei o quanto você... hã... bem, o quanto você sabe sobre esse negócio
recente.
– Nós sabemos de tudo aqui – disse o coronel Pikeaway. – É para isso que nós
servimos.
– Ah... claro, claro, sem dúvida. É sobre Sir S. N., você sabe o que quero dizer?
– Passageiro para Frankfurt – disse o coronel Pikeaway.
– Um assunto muitíssimo extraordinário. Muitíssimo extraordinário. Fica-se
especulando... Não há como saber, não se consegue chegar a imaginar...
O coronel Pikeaway o escutava de modo atencioso.
– O que devemos pensar? – insistiu Sir George. – Você o conhece
pessoalmente?
– Já topei com ele uma ou duas vezes – disse o coronel Pikeaway.
– Não se pode deixar de especular...
O coronel Pikeaway abafou um bocejo com alguma dificuldade. Ele já estava
um tanto cansado dos pensamentos, das especulações e das imaginações de
Sir George. De qualquer maneira, sua opinião sobre o poder de raciocínio de
Sir George não era nada boa. Um homem cauteloso, um homem que inspirava
confiança na administração cautelosa de seu departamento. Não era um
homem de intelecto fulgurante. Talvez, pensou o coronel Pikeaway, fosse até
melhor assim. De todo modo, aqueles que pensam e especulam e não têm
muita certeza de nada estão razoavelmente seguros no lugar em que Deus e os
eleitores os colocaram.
– Não podemos nos esquecer – continuou Sir George – das desilusões que
sofremos no passado.
O coronel Pikeaway sorriu gentilmente.
– Charleston, Conway e Courtfold – ele disse. – Confiança total, aprovação
total. Todos começando com C, todos eles traidores.
– Às vezes eu fico imaginando se nós podemos confiar em alguém – disse Sir
George, com tristeza na voz.
– Essa é fácil – disse o coronel Pikeaway. – Não podemos.
– Pegue o caso de Stafford Nye – disse Sir George. – Boa família, excelente
família, eu conheci o pai dele, conheci o avô.
– É bem comum uma falha na terceira geração – disse o coronel Pikeaway.
O comentário não ajudou Sir George.
– Eu não consigo deixar de ficar com uma dúvida... Isto é, às vezes ele não
parece ser realmente sério.
– Levei minhas duas sobrinhas para ver os castelos do Loire na minha
mocidade – disse de forma inesperada o coronel Pikeaway. – Havia um
homem pescando na margem do rio. Eu também tinha comigo a minha vara de
pescar. Ele disse para mim: “Vous n’êtes pas un pêcheur sérieux.Vous avez
des femmes avec vous”.