Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 8 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo II

surpreendente, a limusine com aspecto de viúva, como ele a definira em sua

mente, acelerou. Acelerou com uma velocidade súbita e atordoante. Arrojou-

se para cima dele com tamanha agilidade que ele só teve tempo de dar um

salto até a calçada oposta. A limusine desapareceu como um raio, virando a

curva da rua mais adiante.

– Só posso ficar imaginando – disse Sir Stafford consigo mesmo. – Agora eu só

posso ficar imaginando. Será possível que exista alguém que não goste de

mim? Alguém me seguindo, talvez, me vigiando enquanto eu volto para casa,

esperando por uma oportunidade?

II

O coronel Pikeaway, com o corpanzil esparramado em sua cadeira na pequena

sala em Bloomsbury onde ficava sentado das dez às cinco, com um breve

intervalo para o almoço, estava cercado, como de costume, por uma

atmosfera de espessa fumaça de charuto; com seus olhos fechados, apenas

uma piscadela ocasional mostrava que ele estava acordado, e não

adormecido. O homem raras vezes erguia a cabeça. Alguém dissera que ele

parecia um cruzamento entre um antigo Buda e um enorme sapo azul, tendo

talvez, como um adolescente desbocado poderia ter acrescentado, um leve

toque bastardo de hipopótamo em seus antepassados.

O suave zumbido do interfone de sua mesa o despertou. Ele piscou três vezes e

abriu os olhos. Estendeu à frente uma mão de aspecto bastante fatigado e

levantou o fone.

– Sim? – ele disse.

Era a voz da sua secretária.

– O ministro está aqui, esperando para ver o senhor.

– Não diga – falou o coronel Pikeaway. – E que ministro é esse? O ministro

batista da igreja da esquina?

– Não, não, coronel Pikeaway, é Sir George Packham.

– Uma pena – disse o coronel Pikeaway, respirando asmaticamente. – Uma

pena mesmo. O reverendo McGill é muito mais divertido. Há nele um

esplêndido toque de fogo do inferno.

– Devo levá-lo até o senhor, coronel Pikeaway?

– Acho que ele espera ser trazido até mim de imediato. Os subsecretários são

bem mais suscetíveis de que os secretários de Estado – disse o coronel

Pikeaway, num tom sombrio. – Todos esses ministros insistem em entrar e

disparar reclamações para todos os lados.

Sir George Packham foi introduzido. Ele tossiu e resfolegou. A maioria das

pessoas fazia o mesmo. As janelas da pequena sala estavam completamente

fechadas. O coronel Pikeaway reclinou-se na cadeira, coberto dos pés à

cabeça por cinzas de charuto. A atmosfera era quase insuportável, e a sala

era conhecida nos círculos oficiais como a “casinha do gato”.

– Ah, meu caro companheiro – disse Sir George, falando de modo vivaz e

jovial, de uma maneira que não combinava com sua aparência ascética e

triste. – Faz um bom tempo que não nos encontramos, creio eu.

– Sente-se, sente-se, por favor – disse Pikeaway. – Aceita um charuto?

Sir George estremeceu ligeiramente.

– Não, obrigado – ele disse –, não, muito obrigado.

Ele olhou de modo ostensivo para as janelas. O coronel Pikeaway não captou a

insinuação. Sir George limpou a garganta e tossiu outra vez antes de dizer:

– Bem... acredito que Horsham tenha vindo ver você.

– Sim, Horsham veio e fez o seu discurso – disse o coronel Pikeaway,

lentamente permitindo a seus olhos que se fechassem de novo.

– Penso que tenha sido o melhor procedimento. Isto é: que ele viesse aqui lhe

fazer uma visita. É muitíssimo importante que as coisas não comecem a

circular por aí.

– Ah – disse o coronel Pikeaway –, mas elas vão circular, não vão?

– Perdão?

– Elas vão circular – disse o coronel Pikeaway.

– Eu não sei o quanto você... hã... bem, o quanto você sabe sobre esse negócio

recente.

– Nós sabemos de tudo aqui – disse o coronel Pikeaway. – É para isso que nós

servimos.

– Ah... claro, claro, sem dúvida. É sobre Sir S. N., você sabe o que quero dizer?

– Passageiro para Frankfurt – disse o coronel Pikeaway.

– Um assunto muitíssimo extraordinário. Muitíssimo extraordinário. Fica-se

especulando... Não há como saber, não se consegue chegar a imaginar...

O coronel Pikeaway o escutava de modo atencioso.

– O que devemos pensar? – insistiu Sir George. – Você o conhece

pessoalmente?

– Já topei com ele uma ou duas vezes – disse o coronel Pikeaway.

– Não se pode deixar de especular...

O coronel Pikeaway abafou um bocejo com alguma dificuldade. Ele já estava

um tanto cansado dos pensamentos, das especulações e das imaginações de

Sir George. De qualquer maneira, sua opinião sobre o poder de raciocínio de

Sir George não era nada boa. Um homem cauteloso, um homem que inspirava

confiança na administração cautelosa de seu departamento. Não era um

homem de intelecto fulgurante. Talvez, pensou o coronel Pikeaway, fosse até

melhor assim. De todo modo, aqueles que pensam e especulam e não têm

muita certeza de nada estão razoavelmente seguros no lugar em que Deus e os

eleitores os colocaram.

– Não podemos nos esquecer – continuou Sir George – das desilusões que

sofremos no passado.

O coronel Pikeaway sorriu gentilmente.

– Charleston, Conway e Courtfold – ele disse. – Confiança total, aprovação

total. Todos começando com C, todos eles traidores.

– Às vezes eu fico imaginando se nós podemos confiar em alguém – disse Sir

George, com tristeza na voz.

– Essa é fácil – disse o coronel Pikeaway. – Não podemos.

– Pegue o caso de Stafford Nye – disse Sir George. – Boa família, excelente

família, eu conheci o pai dele, conheci o avô.

– É bem comum uma falha na terceira geração – disse o coronel Pikeaway.

O comentário não ajudou Sir George.

– Eu não consigo deixar de ficar com uma dúvida... Isto é, às vezes ele não

parece ser realmente sério.

– Levei minhas duas sobrinhas para ver os castelos do Loire na minha

mocidade – disse de forma inesperada o coronel Pikeaway. – Havia um

homem pescando na margem do rio. Eu também tinha comigo a minha vara de

pescar. Ele disse para mim: “Vous n’êtes pas un pêcheur sérieux.Vous avez

des femmes avec vous”.