Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 31 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo 19 - Sir Stafford Nye recebe visitas

CAPÍTULO 19

 

 

Sir Stafford Nye recebe visitas

 

Sir Stafford Nye estava entretendo convidados. Eram convidados que ele nunca

encontrara antes, exceto no caso de um, que ele conhecia de vista bastante

bem. Eram homens jovens e bonitos, sérios e inteligentes; foi o que ele julgou.

Os cabelos eram arrumados num estilo meticuloso, as roupas eram bem

cortadas mas não antiquadas em demasia. Olhando para os jovens, Stafford

Nye não tinha como negar que gostava da aparência deles. Ao mesmo tempo,

tentava imaginar o que queriam dele. Um dos jovens, ele sabia, era o filho de

um rei do petróleo. Outro, desde que saíra da universidade, havia se

interessado por política; seu tio possuía uma rede de restaurantes. O terceiro

convidado era um jovem de sobrancelhas grossas que se mantinha de cenho

franzido e em quem uma perpétua suspeita parecia ser a segunda natureza.

– É muita bondade de sua parte nos permitir visitá-lo, Sir Stafford – disse o

rapaz que parecia ser o líder louro dos três.

Sua voz era muito agradável. Seu nome era Clifford Bent.

– Este é Roderick Ketelly e este é Jim Brewster. Estamos todos ansiosos em

relação ao futuro. Posso dizer assim?

– Acho que a resposta para isso seria: não estamos todos? – falou Stafford

Nye.

– Não gostamos do rumo que as coisas estão tomando – disse Clifford Bent. –

Rebelião, anarquia, tudo isso. Ora, enquanto filosofia tudo bem. Para ser

franco, dá para dizer que todos nós, ao que parece, sempre passamos por uma

fase assim, mas de fato acabamos saindo do outro lado. Queremos que as

pessoas sejam capazes de seguir carreiras acadêmicas sem que estas sejam

interrompidas. Queremos uma boa quantidade de manifestações, mas não

manifestações de vandalismo e violência. Queremos manifestações

inteligentes. E o que nós queremos, bem francamente, ou assim eu penso, é um

novo partido político. Jim Brewster, aqui, tem dedicado todas as suas

atenções para planos e ideias inteiramente novos a respeito de organizações

sindicais. Tentaram silenciá-lo e fazê-lo desistir, mas ele prosseguiu com as

discussões, não foi, Jim?

– Uns idiotas desnorteados, quase todos eles – disse Jim Brewster.

– Nós queremos uma política séria e sensata para a juventude, um método de

governo mais econômico. Queremos ideias diferentes na educação, mas nada

fantástico ou pretensioso demais. E vamos querer, se ganharmos assentos, e

se afinal formos capazes de formar um governo (e não vejo por que não

seríamos), colocar essas ideias em ação. Há muita gente no nosso movimento.

Representamos a juventude tanto quanto a facção violenta. Defendemos a

moderação e pretendemos ter um governo sensato, com uma redução no

número de membros do Parlamento, e nós estamos anotando, estamos

procurando por homens que já estejam na política não importando quais

sejam suas específicas inclinações, contanto que sejam, na nossa avaliação,

homens de bom senso. Viemos aqui para ver se conseguimos fazer o senhor se

interessar por nossas metas. No momento elas ainda estão em estágio de

formação, mas já sabemos quais são os homens que queremos. Posso dizer

que não queremos os que temos atualmente e que não queremos os que

poderiam ser colocados no lugar. Quanto ao terceiro partido, ele parece ter

perdido suas forças na corrida, embora existam bem poucas boas pessoas ali

que sofram agora na condição de minoria, mas creio que elas adotariam o

nosso modo de pensar. Queremos despertar o interesse do senhor. Queremos,

um dia desses, talvez não tão distante quanto o senhor poderia pensar...

queremos alguém que entenda e estabeleça uma política externa adequada e

exitosa. O resto do mundo está afundando numa bagunça pior do que a nossa.

Washington está arrasada. A Europa tem contínuas ações militares,

manifestações, destruição de aeroportos. Bem, eu não preciso lhe passar um

noticiário dos últimos seis meses, mas a nossa meta não é tanto colocar o

mundo de pé outra vez quanto colocar a Inglaterra de pé outra vez. Com os

homens certos para fazer isso. Queremos homens jovens, inúmeros jovens, e

nós temos inúmeros jovens que não são revolucionários, que não são

anarquistas, que estarão dispostos a tentar fazer com que o país progrida de

maneira proveitosa. E queremos alguns dos homens mais velhos... não me

refiro a homens de sessenta e poucos anos, eu me refiro a homens de quarenta

ou cinquenta... e viemos procurar o senhor porque, bem, ouvimos coisas a seu

respeito. Conhecemos as suas qualidades e o senhor é o tipo de homem que

nós queremos.

– Vocês se julgam sensatos? – perguntou Stafford Nye.

– Bem, nós pensamos que sim.

O segundo jovem soltou um pequeno riso.

– Esperamos que o senhor concorde conosco nesse ponto.

– Não sei se concordo. Vocês estão falando aqui nesta sala com bastante

liberdade.

– É a sua sala de estar.

– Sim, sim, é o meu apartamento, é a minha sala de estar. Mas isso que vocês

estão dizendo, e de fato o que vocês podem estar prestes a dizer, poderia não

ser muito sensato. Tanto para vocês quanto para mim.

– Ah! Creio que entendo aonde o senhor quer chegar.

– Vocês estão me oferecendo alguma coisa. Um modo de vida, uma nova

carreira, e vocês estão sugerindo um rompimento de certos laços. Vocês estão

sugerindo uma forma de deslealdade.

– Nós não estamos sugerindo que o senhor se torne um desertor para qualquer

outro país, se é isso o que o senhor quer dizer.

– Não, não, este não é um convite à Rússia ou um convite à China ou um

convite para qualquer outro lugar mencionado no passado, mas creio que

seja um convite relacionado a certos interesses estrangeiros. – Ele

prosseguiu: – Voltei recentemente do exterior. Uma viagem muito

interessante. Passei as últimas três semanas na América do Sul. Há algo que

eu gostaria de lhes contar. Notei, desde que voltei à Inglaterra, que tenha sido

seguido.

– Seguido? Não pode ter imaginado isso?

– Não, não acho que eu tenha imaginado. Esse é o tipo de coisa que eu aprendi

a perceber no decorrer da minha carreira. Já estive em certos lugares bem

longínquos e, digamos assim, interessantes no mundo. Vocês optaram por me

visitar para me sondar quanto a uma proposta. Poderia ter sido mais seguro,

porém, se tivéssemos nos encontrado em outro lugar.

Ele se levantou, abriu a porta do banheiro e abriu a torneira.

– Dos filmes que eu costumava ver anos atrás... – ele disse. – Se você quisesse

disfarçar a sua conversa quando uma sala tinha escutas, você abria torneiras.

Não tenho dúvida de que eu sou um tanto antiquado e de que existem métodos

mais eficazes para lidar com essas coisas agora. De todo modo, porém, talvez

nós possamos falar um pouco mais claramente agora, embora eu considere

ainda que deveríamos ter cuidado. A América do Sul – ele continuou – é uma

parte muito interessante do mundo. A Federação dos Países Sul-Americanos

(eles já tiveram o nome de Ouro Espanhol), composta agora por Cuba, – O senhor tem toda a razão – disse Clifford Bent. – Todos nós precisamos, eu

Argentina, Brasil, Peru, um ou dois outros que ainda não estão definidos e

firmados, mas que estão nesse caminho. Sim. Muito interessante.

– E qual é o seu ponto de vista nessa questão? – perguntou o desconfiado Jim

Brewster. – O que o senhor tem a dizer sobre isso tudo?

– Continuarei sendo cauteloso – disse Sir Stafford. – Vocês poderão confiar

mais em mim se eu não falar de modo imprudente. Mas acho que isso poderá

ser feito com bastante proveito depois que eu fechar a torneira do banheiro.

– Feche a torneira, Jim – disse Cliff Bent.

Jim arreganhou os dentes de súbito e obedeceu.

Stafford Nye abriu uma gaveta da mesa e tirou dali uma flauta doce.

– Não tenho muita prática no instrumento ainda – ele disse.

Ele levou a flauta aos lábios e começou a tocar uma melodia. Jim Brewster

voltou, carrancudo.

– O que é isso? Um maldito concerto que nós vamos apresentar?

– Cale a boca – falou Cliff Bent. – Você não passa de um ignorante, não sabe

nada sobre música.

Stafford Nye sorriu.

– Vocês compartilham do meu gosto pela música de Wagner, eu vejo – ele disse.

– Estive no Festival da Juventude este ano e os concertos me agradaram

muito.

Mais uma vez ele repetiu a melodia.

– Não é uma melodia que eu conheça – disse Jim Brewster. – Poderia ser a

Internacional ou a Bandeira vermelha ou Deus salve o rei ou a Yankee Doodle

ou A bandeira estrelada. Que diabos é isso?

– É um motivo de uma ópera – disse Ketelly. – E cale a boca. Nós sabemos tudo

que queremos saber.

– O chamado da trompa de um jovem Herói – disse Stafford Nye.

Ele ergueu a mão num gesto rápido, o gesto do passado que significava “Heil

Hitler”. Ele murmurou com suavidade:

– O novo Siegfried.

Os três se levantaram.

creio, ser muito cautelosos.

Eles apertaram as mãos.

– Ficamos contentes por saber que o senhor estará conosco. Uma das coisas de

que este país vai precisar em seu futuro... no seu grande futuro, eu espero... é

um ministro das Relações Exteriores de primeira categoria.

Eles saíram da sala. Stafford Nye os observou pela porta ligeiramente aberta

enquanto eles entravam no elevador e desciam.

Stafford esboçou um sorriso curioso, fechou a porta, passou os olhos pelo

relógio na parede e se sentou numa poltrona – para esperar...

Sua mente recuou até o dia (fazia uma semana) no qual ele e Mary Ann haviam

se separado no Aeroporto Kennedy. Eles tinham parado por um momento, os

dois com dificuldade para falar. Stafford Nye rompera o silêncio.

– Você acha que algum dia nós vamos nos encontrar de novo? Fico

imaginando...

– Existe alguma razão para isso não acontecer?

– Todas as razões, eu diria.

Ela olhou para Stafford e logo desviou o olhar.

– Essas despedidas precisam acontecer. Faz... faz parte do trabalho.

– O trabalho! É sempre o trabalho com você, não é?

– Tem que ser.

– Você é uma profissional. Eu sou só um amador. Você é... – ele parou de

súbito. – Você é o quê? Quem é você? Eu realmente não sei... ou sei?

– Não.

Stafford olhou para ela naquele momento. Pensou ver tristeza em seu rosto.

Algo que era quase dor.

– Então eu só posso... tentar imaginar. Você acha que eu deveria confiar em

você?

– Não, isso não. Isso é uma das coisas que eu aprendi, que a vida me ensinou.

Não há ninguém em quem você possa confiar. Lembre-se disso... sempre.

– Então esse é o seu mundo? Um mundo de desconfiança, de medo, de perigo.

– Quero ficar viva. Eu estou viva.

– Eu sei.

– E quero que você fique vivo.

– Eu acreditei em você... em Frankfurt...

– Você assumiu um risco.

– Era um risco que valia a pena correr. Você sabe disso tão bem quanto eu.

– Você quer dizer porque...

– Porque nós ficamos juntos. E agora... esse é o meu voo sendo chamado. Esse

companheirismo nosso, que começou num aeroporto, vai terminar aqui, em

outro aeroporto? Para onde você vai? Vai fazer o quê?

– Fazer o que eu preciso fazer. Vou para Baltimore, para Washington, para o

Texas. Para fazer o que me pediram.

– E eu? Não me pediram nada. Devo voltar para Londres, ficar lá... e fazer o

quê?

– Esperar.

– Esperar o quê?

– As propostas que quase certamente serão feitas para você.

– E o que eu devo fazer em relação a elas?

Mary Ann sorriu para ele, o sorriso repentino e alegre que ele conhecia tão

bem.

– Aí você toca de ouvido. Você vai saber como proceder melhor do que

ninguém. Você gostará das pessoas que vão se aproximar de você. Elas serão

bem selecionadas. É importante, muito importante, que saibamos quem são

elas.

– Preciso ir. Adeus, Mary Ann.

– Auf Wiedersehen.

No apartamento de Londres o telefone tocou. Num momento singularmente

apropriado, Stafford Nye pensou, sendo despertado de suas memórias bem

naquele momento da despedida. “Auf Wiedersehen”, ele murmurou enquanto

levantava para ir pegar o telefone, “que assim seja”.

Falou uma voz cujo tom enferrujado era de todo inconfundível.

– Stafford Nye?

Ele deu a resposta requerida:

– Não há fumaça sem fogo.

– O meu médico diz que deveria parar de fumar. Pobre coitado – disse o

coronel Pikeaway –, ele é que deveria parar com essa esperança. Alguma

novidade?

– Sem dúvida. Trinta moedas de prata. Isto é: prometidas.

– Malditos imundos!

– Sim, sim, fique calmo.

– E o que foi que você disse?

– Toquei uma melodia para eles. O motivo da trompa de Siegfried. Segui o

conselho de uma tia idosa. O efeito foi muito bom.

– Parece loucura para mim!

– Você conhece uma canção chamada Juanita? Preciso aprender essa também,

para o caso de precisar.

– Você sabe quem é Juanita?

– Acho que sim.

– Hmm, fico pensando... soubemos dela pela última vez em Baltimore.

– E a sua garota grega, Daphne Theodofanous? Por onde ela deve andar

agora?

– Sentada num aeroporto em algum ponto da Europa esperando por você,

provavelmente – disse o coronel Pikeaway.

– Os aeroportos europeus parecem estar quase todos fechados porque foram

explodidos ou mais ou menos danificados. Fogo, inferno, diabruras.

Meninos e meninas, venham brincar;

O dia findou, mas brilha o luar.

Saiam de casa, não durmam agora,

Matem as outras crianças lá fora.

– A Cruzada das Crianças à la mode.

– Não que eu saiba realmente muito a respeito. Só conheço a cruzada da qual

Ricardo Coração de Leão participou. Mas de certo modo esse negócio todo é

bem parecido com a Cruzada das Crianças. Começando com idealismo,

começando com ideias sobre o mundo cristão libertando a cidade sagrada dos

pagãos, e terminando com morte, morte e mais morte. Praticamente todas as

crianças morreram. Ou foram vendidas como escravas. Isso vai terminar da

mesma maneira, a menos que consigamos achar um jeito de salvá-las...