Passageiro para Frankfurt
Capítulo 17 - Herr Heinrich Spiess
CAPÍTULO 17
Herr Heinrich Spiess
Herr Heinrich Spiess era um homem preocupado. Ele não tentava esconder
esse fato. Reconhecia, de fato, sem ocultar nada, que a situação em função da
qual aqueles cinco homens se reuniam para discutir era muito séria. Ao
mesmo tempo, trazia consigo um senso de confiança que tinha sido o seu
principal recurso quando lidara com as recentes dificuldades da vida política
na Alemanha. Era um homem firme, um homem sensato, um homem capaz de
trazer bom senso a todas as reuniões das quais participasse. Não passava
nenhuma impressão de ser um homem brilhante, e até mesmo isso inspirava
confiança. Políticos brilhantes haviam sido os responsáveis por cerca de dois
terços das crises nacionais em mais de um país. O outro terço de problemas
tinha sido causado por políticos incapazes de esconder, embora legalmente
eleitos em governos democráticos, incapazes de esconder sua dramática
pobreza de raciocínio, de bom senso e, na verdade, de quaisquer qualidades
mentais perceptíveis.
– Esta não é de forma alguma uma visita oficial, os senhores compreendem –
disse o chanceler.
– Ah, sem sombra de dúvida.
– Uma certa informação chegou ao meu conhecimento e eu julguei ser
essencial que ela fosse compartilhada. Ela lança uma luz bastante
interessante em certos acontecimentos que tanto nos intrigaram quanto nos
perturbaram. Este é o dr. Reichardt.
Foram feitas as apresentações. O dr. Reichardt era um homem corpulento e de
aparência tranquila com o hábito de dizer “Ach, so” de tempos em tempos.
– O dr. Reichardt é responsável por um grande estabelecimento nos arredores
de Karlsruhe. Ele trata de pacientes com distúrbios mentais lá. Creio que
estarei certo se disser que o senhor trata entre quinhentos e seiscentos
pacientes, não é mesmo?
– Ach, so – disse o dr. Reichardt.
– Presumo que o senhor trate várias formas diferentes de doença mental...
– Ach, so. Na clínica há diferentes formas de doença mental, mas, mesmo
assim, tenho um interesse especial e trato quase exclusivamente de um tipo
particular deste tipo de doença.
Ele enveredou pelo alemão e Herr Spiess logo apresentou uma breve tradução
para o caso de alguns de seus colegas ingleses não conseguirem entender.
Isso era tanto necessário quanto atencioso. Dois deles entendiam em parte,
um definitivamente não entendia e os outros dois estavam verdadeiramente
intrigados.
– O dr. Reichardt obteve – explicou Herr Spiess – o maior dos sucessos em seu
tratamento daquilo que eu, na condição de leigo, descrevo como
megalomania. A crença de que você é alguém que não é. A ideia de ser mais
importante do que você é. Ideias que, se você tem mania de perseguição...
– Ach, não! – exclamou o dr. Reichardt – Mania de perseguição, não, disso eu
não trato. Não há nenhuma mania de perseguição na minha clínica. Não no
grupo pelo qual estou especialmente interessado. Pelo contrário, eles
acalentam as ilusões que têm porque desejam ser felizes. E eles são felizes, e
eu posso mantê-los felizes. Mas se eu os curar, vejam bem, eles não serão
felizes. Portanto, preciso encontrar uma cura que lhes restaure a sanidade,
mas mantendo a felicidade ao mesmo tempo. Nós chamamos esse particular
estado de espírito...
Ele pronunciou uma palavra longa, de ao menos oito sílabas, que soava
ferozmente germânica.
– Para os propósitos dos nossos amigos ingleses, continuarei a usar o termo
“megalomania”, embora eu saiba – Herr Spiess continuou um tanto
apressadamente – que esse não é o termo que o senhor usa hoje em dia, dr.
Reichardt. Então, como eu ia dizendo, o senhor tem seiscentos pacientes na
sua clínica.
– E num determinado momento, o momento ao qual vou referir, eu tinha
oitocentos.
– Oitocentos!
– Foi interessante... muitíssimo interessante!
– O senhor tem essas pessoas... para começar do princípio...
– Nós temos Deus Todo-poderoso – explicou o dr. Reichardt. – O senhores
compreendem?
O sr. Lazenby pareceu ficar ligeiramente assombrado.
– Ah... hã... sim... hã... sim. Muito interessante, eu tenho certeza.
– Temos um ou outro rapaz, é claro, pensando que é Jesus Cristo. Mas Jesus
não é tão popular como o Todo-poderoso. E depois temos os outros. Eu tive,
na época que vou mencionar, 24 Adolf Hitlers. Isso, os senhores precisam
compreender, era na época em que Hitler estava vivo. Sim, 24 ou 25 Adolf
Hitlers... – ele consultou um pequeno caderno de anotações que tirou do
bolso. – Fiz algumas anotações aqui, sim. Quinze Napoleões. Napoleão é
sempre popular, dez Mussolinis, cinco reencarnações de Júlio César e vários
outros casos, muito curiosos e muito interessantes. Mas não vou cansá-los
com esses neste momento. Não sendo especialmente qualificados no sentido
médico, isso não teria nenhum interesse para os senhores. Chegaremos ao
incidente que importa.
O dr. Reichardt falou de novo sem se estender tanto, e Herr Spiess continuou a
traduzir.
– Certo dia se apresentou a ele um oficial do governo. Tido em alta
consideração naquela época (isso foi durante a guerra, tenham em mente)
pelo governo que estava no poder. Vou chamá-lo por enquanto de Martin B.
Os senhores saberão a quem eu me refiro. Ele trouxe consigo o seu chefe. Na
verdade, trouxe consigo... bem, podemos falar sem evasivas... o próprio
Führer.
– Ach, so – disse o dr. Reichardt. – Foi uma grande honra, os senhores
entendem, que ele tivesse vindo fazer uma inspeção – prosseguiu o doutor. –
Ele foi muito afável, mein Führer. Contou-me que ouvira relatórios muito
bons sobre os meus sucessos. Disse que vinham ocorrendo problemas
ultimamente. Casos no exército. No exército, mais de uma vez, haviam
aparecido homens acreditando que eram Napoleão, às vezes acreditando que
eram determinados marechais de Napoleão, e, por vezes, os senhores
compreendem, comportando-se de acordo com a ilusão, distribuindo ordens
militares e causando por isso dificuldades militares. Eu teria ficado feliz em
lhe passar qualquer conhecimento profissional que lhe pudesse ser útil, mas
Martin B., que o acompanhava, disse que isso não seria necessário. O nosso
grande Führer, no entanto – falou o dr. Reichardt, olhando para Herr Spiess
com ligeiro desconforto –, não queria ser importunado com tais detalhes. Ele
me disse que sem dúvida seria melhor se homens medicamente qualificados,
com alguma experiência em neurologia, viessem fazer uma consulta. O que
ele queria era... ach, bem... ele queria dar uma olhada, e eu logo descobri o
que ele realmente tinha interesse por ver. Eu não deveria ter ficado surpreso.
Ah, não, porque, vejam, era um sintoma que a pessoa reconhece. A tensão de
sua vida já estava começando a dar sinais no caso do Führer.
– Suponho que naquela altura ele estivesse começando a pensar que era Deus
Todo-poderoso – disse o coronel Pikeaway de forma inesperada, soltando um
riso.
O dr. Reichardt pareceu ficar chocado.
– Ele me pediu para informá-lo de certas coisas. Disse que Martin B. lhe
contara que eu tinha de fato um grande número de pacientes pensando, não
era preciso falar com rodeios, que eram pessoalmente Adolf Hitler. Expliquei-
lhe que aquilo não era incomum, que naturalmente, com o respeito e a
veneração que dedicavam a Hitler, era bastante natural que o grande desejo
de ser como ele acabasse por fazer com que se identificassem com ele. Fiquei
um pouco ansioso ao mencionar isso, mas fiquei encantado ao constatar que
ele expressava sinais de satisfação. Ele tomava aquilo, fico grato ao dizer,
como um elogio, aquele apaixonado desejo de buscar uma identificação com
ele. Depois o Führer perguntou se poderia encontrar um número
representativo de pacientes que tivessem essa particular aflição. Debatemos
um pouco. Martin B. pareceu estar em dúvida, mas me levou até um canto e
me assegurou que Herr Hitler de fato queria ter essa experiência. O que ele
próprio estava ansioso por assegurar era que Herr Hitler não topasse... bem,
em suma, que Herr Hitler não fosse submetido a nenhum risco. Se alguns
daqueles autodenominados Hitlers, acreditando apaixonadamente em si
mesmos, tivessem certas inclinações violentas ou perigosas... Eu lhe garanti
que ele não precisava ter nenhuma preocupação. Sugeri que eu selecionasse
um grupo dos mais amáveis entre os nossos Führers e os reunisse para o
encontro. Herr B. insistiu que o Führer estava muito ansioso por entrevistá-
los e se misturar com eles sem que eu o acompanhasse. Os pacientes, ele
disse, não se comportariam naturalmente caso vissem o diretor do
estabelecimento ali, e como não havia nenhum perigo... Eu lhe garanti mais
uma vez que não havia nenhum perigo. Eu disse, no entanto, que ficaria
contente se Herr B. lhe fizesse companhia. Não houve dificuldade quanto a
isso. Foi tudo arranjado. Mensagens foram enviadas aos Führers para que se
reunissem numa sala e esperassem um visitante muito distinto que estava
ansioso para trocar ideias com eles. Ach, so. Martin B. e o Führer foram
apresentados ao grupo. Eu me retirei, fechando a porta, e fiquei conversando
com os dois ajudantes de ordens que os acompanhavam. O Führer, eu disse,
parecia encontrar-se num estado particularmente aflito. Ele vinha tendo, sem
dúvida, inúmeros problemas. Nós estávamos, devo dizer, bem perto do fim da
guerra, quando as coisas, para ser franco, estavam indo muito mal. O próprio
Führer, eles me disseram, andava muito transtornado, mas estava convencido
de que poderia encerrar a guerra de modo triunfante se as ideias que ele
continuamente apresentava para o seu estado-maior fossem levadas em frente
e prontamente aceitas.
– O Führer, eu presumo – disse Sir George Packham –, estava naquela altura...
quero dizer... sem dúvida ele estava num estado que...
– Não precisamos enfatizar esses pontos – disse Herr Spiess. – Ele estava
completamente fora de si. Tinham de assumir autoridade em nome dele em
vários pontos. Mas tudo isso os senhores decerto sabem muito bem com as
investigações que fizeram no meu país.
– Lembro que nos julgamentos de Nuremberg...
– Não há necessidade de fazer referências aos julgamentos de Nuremberg,
tenho certeza – disse o sr. Lazenby, decisivo. – Isso tudo já ficou bem para
trás. Aguardamos um grande futuro no Mercado Comum com ajuda do seu
governo, com o governo de Monsieur Grosjean e os seus outros colegas
europeus. O passado é o passado.
– Isso mesmo – disse Herr Spiess –, e é do passado que agora falamos. Martin
B. e Herr Hitler permaneceram pouquíssimo tempo na sala de reunião.
Saíram depois de sete minutos. Herr B. expressou-se ao dr. Reichardt como
muito satisfeito com a experiência. O carro deles estava esperando e Herr B.
e Herr Hitler precisavam seguir imediatamente para outro compromisso.
Saíram com muita pressa.
Houve um silêncio.
– E então? – perguntou o coronel Pikeaway. – Algo aconteceu? Ou já tinha
acontecido?
– O comportamento de um de nossos pacientes Hitlers parecia estranho – disse
o dr. Reichardt. – Era um homem que tinha particular semelhança com Herr
Hitler, o que sempre lhe dera uma confiança especial em sua personificação.
Ele agora insistia com mais veemência do que nunca que ele era o Führer,
que ele precisava partir imediatamente para Berlim, que ele precisava
presidir um Conselho do Estado-Maior. De fato, o homem se comportava sem
nenhum sinal da ligeira melhora que demonstrara em sua condição. Parecia
tão transformado que eu realmente não consegui compreender aquela
mudança ocorrendo tão de repente. Fiquei aliviado, na verdade, quando dois
dias depois seus parentes vieram levá-lo para casa, para um futuro
tratamento particular.
– E o senhor o deixou partir – falou Herr Spiess.
– Naturalmente o deixei partir. Eles tinham um médico responsável com eles,
ele era um paciente voluntário, sem atestado, e portanto tinha esse direito. E
assim ele se foi.
– Não vejo... – começou Sir George Packham.
– Herr Spiess tem uma teoria...
– Não é uma teoria – disse Spiess. – O que eu estou lhes contando é fato. Os
russos esconderam tal fato, nós escondemos tal fato. Abundantes evidências e
provas apareceram. Hitler, o nosso Führer, permaneceu no hospício por sua
própria vontade naquele dia e um homem com a mais acentuada semelhança
em relação ao Hitler verdadeiro partiu com Martin B. Foi o corpo desse
paciente que foi depois encontrado no bunker. Não vou falar com rodeios.
Não precisamos entrar em detalhes desnecessários.
– Todos nós precisamos saber a verdade – disse Lazenby.
– O verdadeiro Führer foi mandado de forma clandestina, por uma rota
planejada de antemão, para a Argentina, e lá viveu por alguns anos. Teve um
filho na Argentina com uma linda moça ariana de boa família. Alguns
afirmam que ela era inglesa. A condição mental de Hitler piorou e ele morreu
louco, acreditando que comandava seus exércitos no campo de batalha. Foi o
único plano possível pelo qual ele poderia ter escapado da Alemanha. Ele o
aceitou.
– E o senhor quer dizer que durante todos esse anos nada vazou a respeito
disso, nada veio à tona?
– Houve rumores, sempre existem rumores. Se o senhor lembrar, diziam que
uma das filhas do czar russo escapara do massacre total de sua família.
– Mas isso era... – George Packham parou. – Falso. Completamente falso.
– Foi provado como falso por um grupo de pessoas. Foi aceito por outro grupo
de pessoas, sendo que os dois grupos a tinham conhecido. Aquela Anastásia
era de fato Anastásia, ou aquela Anastásia, grã-duquesa da Rússia, era na
verdade apenas uma camponesa. Qual das histórias era verdadeira?
Rumores! Quanto mais tempo duram, tanto menos as pessoas acreditam neles,
exceto aquelas com mentes românticas, que seguem acreditando. Com muita
frequência surgiram rumores de que Hitler estava vivo, não morto. Não há
alguém que jamais tenha dito com certeza ter examinado seu cadáver. Os
russos o declararam. Não apresentaram provas, entretanto.
– O senhor realmente pretende afirmar... Dr. Reichardt, o senhor confirma essa
história extraordinária?
– Ach – disse o dr. Reichardt. – Os senhores me perguntam, mas eu lhes contei
qual foi a minha parte. Certamente foi Martin B. quem veio ao meu sanatório.
Foi Martin B. quem trouxe consigo o Führer. Foi Martin B. quem o tratou
como Führer, quem falou com ele com a deferência típica de alguém que se
dirige ao Führer. Quanto a mim, já convivi com centenas de Führers,
Napoleões, Júlios Césares. Os senhores precisam entender que os Hitlers que
viveram no meu sanatório se pareciam, poderiam ter sido, quase todos
poderiam ter sido Adolf Hitler. Eles nunca poderiam ter acreditado em si
mesmos com a paixão, com a veemência com a qual sabiam que eram Hitler, a
menos que possuíssem uma básica semelhança, com maquiagem, roupas,
contínua representação e interpretação do papel. Eu até ali não tivera
nenhum encontro pessoal com Herr Adolf Hitler. Era possível ver retratos
dele nos jornais, qualquer um sabia como era o aspecto do nosso grande
gênio, mas nós só víamos as imagens que ele queria que fossem exibidas.
Então ele veio, ele era o Führer, Martin B., um homem com autoridade mais
do que confiável nessa questão, disse que ele era o Führer. Não, eu não tive
nenhuma dúvida. Cumpri ordens. Herr Hitler queria entrar sozinho numa sala
para encontrar uma seleção de seus... como dizer?... de suas cópias de gesso.
Ele entrou. Ele saiu. Uma troca de roupas poderia ter sido feita, roupas não
muito diferentes em todo caso. Quem saiu foi ele mesmo ou um dos
autodenominados Hitlers? Retirado às pressas por Martin B. e levado embora
enquanto o homem verdadeiro poderia ter ficado para trás, poderia ter
gostado de desempenhar seu papel, poderia ter sabido que dessa maneira e
apenas dessa maneira ele conseguiria fugir do país que a qualquer momento
poderia se render. Hitler já estava perturbado, mentalmente afetado por fúria
e raiva... as ordens que ele dava, as mensagens disparatadas e fantásticas que
mandava para o seu pessoal, aquilo que deviam fazer, aquilo que deviam
dizer, as coisas impossíveis que tinham de empreender, já não eram, como
antes, obedecidas de imediato. Ele já conseguia sentir que não mais dispunha
do supremo comando. Mas tinha um ou dois homens fiéis e estes tinham um
plano para ele, para tirá-lo do país, da Europa, e mandá-lo a um lugar onde
ele poderia mobilizar a seu redor, num continente diferente, seus seguidores
nazistas, os jovens que acreditavam nele com tanta paixão. A suástica
nasceria de novo lá. Ele desempenhou o seu papel. Sem dúvida gostou disso.
Sim, isso seria condizente com um homem cuja razão já cambaleava. Ele
mostraria para esses outros que conseguia interpretar o papel de Adolf Hitler
melhor do que eles. Ele ria sozinho ocasionalmente, e os meus médicos, os
meus enfermeiros observavam e percebiam alguma ligeira mudança. Um
paciente que parecia estar mentalmente perturbado com intensidade
incomum, talvez. Ora, não havia grande problema nisso. Aquilo sempre
acontecia. Com os Napoleões, com os Júlios Césares, com todos eles. Em
determinados dias, como um leigo poderia dizer, eles se mostravam mais
loucos do que o habitual. É só assim que eu posso relatar. Agora, então, cabe
a Herr Spiess falar.
– Fantástico! – disse o secretário de Assuntos Internos.
– Sim, fantástico – disse Herr Spiess, com paciência –, mas coisas fantásticas
podem acontecer, não é mesmo? Na história, na vida real, por mais
fantásticas que sejam.
– E ninguém suspeitou, ninguém soube?
– Foi muito bem planejado. Foi bem planejado, bem pensado. A rota de fuga
estava pronta, os exatos detalhes não são claramente conhecidos, mas dá
para fazer uma bela recapitulação deles. Algumas das pessoas envolvidas,
que passaram certa personalidade de um lugar para outro sob diferentes
disfarces, sob diferentes nomes, algumas dessas pessoas, quando nós fizemos
investigações retrospectivas, constatamos que elas não viveram por tanto
tempo quanto deveriam ter vivido.
– Para o caso de que eles entregassem o segredo ou falassem demais?
– A SS tratou de cuidar disso. Ricas recompensas, louvores, promessas de altas
posições no futuro e então... a morte é uma solução muito mais fácil. E a SS
estava acostumada com a morte. Eles conheciam as diferentes formas de
morte, sabiam como se desfazer de corpos... Sim, posso lhes dizer, as
investigações nesse âmbito já vêm sendo feitas há um bom tempo. O
conhecimento nos chegou aos poucos, e nós fizemos investigações,
documentos foram obtidos e a verdade veio à tona. Adolf Hitler certamente
chegou à América do Sul. Dizem que uma cerimônia de casamento foi
realizada... que uma criança nasceu. A criança foi marcada no pé com o sinal
da suástica. Marcada nos primeiros dias de vida. Falei com agentes
respeitáveis nos quais posso acreditar. Eles viram esse pé marcado na
América do Sul. Lá essa criança foi criada, cuidadosamente tutelada,
protegida, preparada... preparada como o Dalai Lama poderia ter sido
preparado para o seu grande destino. Pois essa foi a ideia por trás dos jovens
fanáticos, a ideia era maior do que a ideia com a qual haviam começado. Isso
não foi meramente um ressurgimento dos novos nazistas, da nova super-raça
alemã. Foi isso, sim, mas foi também inúmeras outras coisas. Os jovens de
várias outras nações, a super-raça dos homens jovens de quase todos os
países da Europa, se uniriam, se juntariam nas fileiras do anarquismo, para
destruir o velho mundo, esse mundo materialista, para introduzir um grande
novo bando de irmãos matadores, assassinos, violentos. Voltados primeiro à
destruição e depois à tomada do poder. E agora eles tinham o seu líder. Um
líder com o sangue certo em suas veias e um líder que, mesmo tendo crescido
sem grande semelhança com seu pai morto, era... não, é... um belo e louro
garoto nórdico, com aparência presumivelmente herdada de sua mãe. Um
garoto dourado. Um garoto que o mundo inteiro poderia aceitar. Os alemães
e os austríacos primeiro porque esse era o grande fundamento de sua fé, de
sua música, o jovem Siegfried. Então ele cresceu como o jovem Siegfried que
os comandaria, que levaria todos eles rumo à terra prometida. Não a terra
prometida dos judeus, que eles desprezavam, para onde Moisés levou seus
seguidores. Os judeus já estavam embaixo da terra, mortos ou assassinados
nas câmaras de gás. Essa seria uma terra só deles, uma terra conquistada por
sua própria intrepidez. Os países da Europa seriam unidos com os países da
América do Sul. Lá eles já tinham sua ponta de lança, seus anarquistas, seus
profetas, seus Guevaras, os Castros, as guerrilhas, seus seguidores, um longo
e árduo treinamento em crueldade e tortura e violência e morte e depois a
vida gloriosa. Liberdade! Na condição de Regentes do Novo Mundo. Os
designados conquistadores.
– Uma bobagem absurda – disse o sr. Lazenby. – Assim que se der um fim a
tudo isso... a coisa toda vai entrar em colapso. Tudo isso é bastante ridículo.
O que eles podem fazer?
As palavras de Cedric Lazenby eram meramente rabugentas. Herr Spiess
balançou sua pesada e sábia cabeça.
– O senhor pode perguntar. E eu lhe dou a resposta, que é: eles não sabem.
Eles não sabem para onde estão indo. Não sabem o que será feito com eles.
– Ou seja, eles não são os verdadeiros líderes?
– Eles são os jovens heróis em marcha, progredindo com passos firmes no
caminho da glória, nos trampolins da violência, da dor, do ódio. Eles agora
têm seus seguidores não apenas na América do Sul e na Europa. O culto se
deslocou para o norte. Nos Estados Unidos, lá também os jovens fazem
tumultos, eles marcham, seguem o estandarte do jovem Siegfried. Aprendem a
idolatrar os procedimentos dele, aprendem a matar, a gostar da dor,
aprendem as regras da Caveira, as regras de Himmler. Ora, eles estão sendo
treinados. Estão sendo secretamente doutrinados. Não sabem a razão pela
qual estão sendo treinados. Mas nós sabemos, ao menos alguns de nós. E os
senhores? Neste país?
– Quatro ou cinco de nós – disse o coronel Pikeaway.
– Na Rússia eles sabem, na América eles começaram a tomar conhecimento.
Eles sabem que existem os seguidores do jovem herói, Siegfried, com base nas
lendas escandinavas, e que um jovem Siegfried é o líder. Que essa é a nova
religião deles. A religião do garoto glorioso, do triunfo dourado da
juventude. Nele os velhos deuses nórdicos renasceram.
– Mas é claro que essa – disse Herr Spiess, deixando sua voz descer a um tom
mais trivial –, é claro que essa não é a simples e prosaica verdade. Existem
algumas poderosas personalidades por trás de tudo. Homens malignos com
cérebros de primeira categoria. Uma pessoa importantíssima no
financiamento, grande industrial, alguém que controla minas, petróleo,
reservas de urânio, que manda em cientistas do mais alto nível, e estes são
homens, um comitê de homens, que em si mesmos não parecem
particularmente interessantes ou extraordinários, mas não obstante
controlam muita coisa. Controlam as fontes de energia, e controlam, com
recursos especiais, os jovens que matam e os jovens que são escravos.
Controlando as drogas eles obtêm escravos. Escravos em todos os países que,
pouco a pouco, progridem das drogas leves para as drogas pesadas e se
tornam então de todo subservientes, de todo dependentes de homens que eles
nem mesmo conhecem, mas que secretamente os dominam no corpo e na alma.
Sua necessidade ávida por uma droga específica os transforma em escravos,
e, no devido tempo, esses escravos revelam não ter nenhuma utilidade por
causa de sua dependência das drogas, eles só serão capazes de ficar parados,
apáticos, sonhando doces sonhos, e aí eles serão abandonados para morrer,
ou inclusive terão sua morte facilitada. Eles não herdarão o reino no qual
acreditam. Estranhas religiões estão sendo deliberadamente apresentadas a
eles. Os deuses dos tempos antigos disfarçados.
– E o sexo desregrado também desempenha sua parte, eu suponho?
– O sexo pode se autodestruir. Nos velhos tempos romanos os homens que se
afundavam no vício, que abusavam do sexo, que dedicavam todos os minutos
ao sexo até ficar entediados e cansados de tanto sexo, por vezes fugiam dele e
partiam para o deserto e se tornavam anacoretas ao modo de são Simeão
Estilita. O sexo acaba se exaurindo. Ele funciona por certo tempo, mas não
consegue controlar a sua vida como as drogas conseguem. As drogas e o
sadismo e o amor pelo poder e pelo ódio. Um desejo de sentir dor pelo apego
à dor. Os prazeres de infligir a dor. Eles estão ensinando a si mesmos os
prazeres do mal. Uma vez que os prazeres do mal tomam conta de você, você
não consegue voltar atrás.
– Meu caro chanceler... eu realmente não posso acreditar no senhor... quero
dizer, bem... se existem essas tendências, elas precisam ser eliminadas com
adoção de medidas incisivas. Quero dizer, não podemos... de fato não
podemos lavar as mãos diante desse tipo de coisa. É preciso assumir uma
posição firme... uma posição firme.
– Cale a boca, George.
O sr. Lazenby tirou seu cachimbo do bolso, observou-o e voltou a guardá-lo.
– O melhor plano, eu creio – ele prosseguiu, sua idée fixe reafirmando-se –,
seria eu pegar um voo para a Rússia. Entendo que... bem, que esses fatos são
conhecidos pelos russos.
– Eles sabem o bastante – disse Herr Spiess. – O quanto eles admitirão que
sabem – ele encolheu os ombros –, isso é difícil dizer. Nunca é fácil fazer com
que os russos falem às claras. Eles têm os seus próprios problemas na
fronteira chinesa. Talvez acreditem menos do que nós no estado bastante
avançado ao qual chegou o movimento.
– Eu faria dessa uma missão especial.
– Eu ficaria aqui se fosse você, Cedric.
A voz calma de Lord Altamount vinha da cadeira onde, fatigado, ele se
recostava.
– Nós precisamos de você aqui, Cedric – ele disse, com um traço de suave
autoridade em sua voz. – Você encabeça o nosso governo... Precisa
permanecer aqui. Temos agentes treinados... os nossos próprios emissários
que são qualificados para missões no exterior.
– Agentes? – Sir George Packham questionou, em dúvida. – O que podem os
agentes fazer a essa altura? Precisamos de um relatório de... Ah, Horsham, aí
está você, eu não tinha percebido a sua presença. Diga-nos, quais são os
agentes que nós temos? E até que ponto eles podem contribuir?
– Temos alguns agentes ótimos – Henry Horsham disse com tranquilidade. –
Eles nos trazem informações. Herr Spiess também nos trouxe informações.
Informações que os agentes dele obtiveram para ele. O problema é... sempre
foi (basta ler sobre a última guerra)... que ninguém quer acreditar nas
notícias que os agentes trazem.
– Por certo o serviço de inteligência...
– Ninguém quer aceitar que os agentes são inteligentes! Mas eles são, ora.
Eles são altamente treinados e os seus relatórios, em nove de cada dez vezes,
são verdadeiros. O que acontece então? Os altos escalões se recusam a
acreditar, não querem acreditar, vão além e se recusam a tomar qualquer tipo
de medida.
– Realmente, meu caro Horsham, eu não consigo...
Horsham se virou para o alemão.
– Mesmo no seu país, senhor, por acaso isso não aconteceu? Relatórios
verdadeiros foram apresentados mas nem sempre geraram alguma medida. As
pessoas não querem saber... quando a verdade é impalatável.
– Sou obrigado a concordar... isso pode acontecer por vezes... não com muita
frequência, eu garanto. Mas sim, às vezes...
O sr. Lazenby mexia de novo em seu cachimbo.
– Não vamos ficar discutindo sobre informações. É uma questão de lidar... de
agir a partir das informações de que dispomos. Essa não é uma mera crise
nacional. É uma crise internacional. Decisões precisam ser tomadas no nível
mais alto... precisamos agir. Munro, a polícia precisa ser reforçada com o
exército... ações militares devem ser empregadas. Herr Spiess, o senhor
sempre teve uma grande nação militar; as rebeliões devem ser esmagadas
pelas forças armadas antes que fiquem fora de controle. O senhor
concordaria com essa política, tenho certeza...
– Com a política, sim. Mas as insurreições já estão nesse estágio que o senhor
classifica como “fora de controle”. Eles têm ferramentas, rifles,
metralhadoras, explosivos, granadas, bombas, materiais químicos e gases...
– Mas com as nossas armas nucleares... uma mera ameaça de guerra nuclear
e...
– Não estamos lidando com escolares descontentes. Com esse Exército da
Juventude colaboram cientistas... jovens biólogos, químicos, físicos.
Começar... ou provocar uma guerra nuclear na Europa... – Herr Spiess
balançou a cabeça. – Nós já tivemos uma tentativa de envenenar o
fornecimento de água em Colônia... tifoide.
– A situação como um todo é inacreditável – Cedric Lazenby olhou em volta,
esperançoso. – Chetwynd? Munro? Blunt?
Para certo espanto de Lazenby, o almirante Blunt foi o único a responder.
– Não sei onde entra o almirantado... Essa não é bem a nossa praia. Eu lhe dou
um conselho, Cedric: se você quer fazer a melhor coisa por si mesmo, pegue o
seu cachimbo e um grande estoque de tabaco e se afaste tanto quanto possível
do alcance de qualquer guerra nuclear em que você esteja pensando. Vá
acampar na Antártida ou em algum lugar onde a radioatividade levará um
longo tempo para alcançá-lo. O professor Eckstein nos advertiu, não é
mesmo? E ele sabe do que está falando.