Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 19 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo II

Renata tinha um círculo maior de amizades, visto que ela conhecia mais

estrangeiros – mulheres bem-vestidas, um ou dois homens, principalmente

alemães e austríacos, pensou Stafford Nye, um ou dois americanos. Apenas

algumas poucas palavras despropositadas. De onde as pessoas vieram ou

para onde iam, crítica ou apreciação da oferta musical. Ninguém perdeu

muito tempo, já que o intervalo para comer não fora muito grande.

Eles voltaram aos seus assentos para as duas últimas apresentações musicais.

Um poema sinfônico, Desintegração em júbilo, de um jovem compositor,

Solukonov, e depois a solene grandeza da Marcha dos Meistersinger.

Saíram outra vez no ar da noite. O carro que estava à disposição dos dois

todos os dias os esperava para levá-los de volta ao pequeno porém exclusivo

hotel na rua do vilarejo. Stafford Nye deu boa-noite para Renata. Ela lhe

falou com voz baixa:

– Quatro da manhã. Esteja pronto.

Ela foi direto até seu quarto e fechou a porta, e Stafford Nye foi até o dele.

O leve raspar de dedos em sua porta veio precisamente três minutos antes das

quatro horas da manhã. Ele abriu a porta e se apresentou pronto.

– O carro está esperando – ela disse. – Venha.

II

Eles almoçaram numa pequena pousada de montanha. O tempo estava bom, e

as montanhas, magníficas. Ocasionalmente, Stafford Nye se perguntava que

diabos estava fazendo ali. Ele compreendia cada vez menos a sua

companheira de viagem. Ela falava pouco. Stafford Nye se viu observando o

perfil de Mary Ann. Para onde ela o estava levando? Qual era sua verdadeira

motivação? Por fim, quando o sol estava quase se pondo, ele disse:

– Para onde nós estamos indo? Posso perguntar?

– Você pode perguntar, sim.

– Mas você não vai responder?

– Eu poderia responder. Poderia lhe contar certas coisas, mas será que elas

significariam algo? Ao que me parece, se você chegar ao lugar para onde

estamos indo sem que eu o prepare com explicações (que não podem, pela

natureza das coisas, significar algo), as suas primeiras impressões terão mais

força e significação.

enfeitado com peliça, roupas elegantes para viagem, estrangeiras na

fabricação e no corte.

– Mary Ann – ele disse, pensativo.

Havia uma pergunta contida na fala.

– Não – ela disse –, não neste momento.

– Ah. Você ainda é a condessa Zerkowski.

– Neste momento eu ainda sou a condessa Zerkowski.

– Você está na sua região natal?

– Mais ou menos. Passei a minha infância nesta parte do mundo. Durante um

período bem estendido, todos os anos, nós costumávamos vir aqui, no outono,

para ficar num Schloss a não muitos quilômetros daqui.

Ele sorriu e disse, pensativo:

– Que bela palavra. Schloss. Soa como algo tão sólido.

– Os Schlösser não se mostram muito sólidos hoje em dia. Estão quase todos

desintegrados.

– Esta é a região de Hitler, não é? Nós não estamos muito longe de

Berchtesgaden, estamos?

– Fica naquela direção, a nordeste.

– Os seus parentes, os seus amigos... eles aceitavam Hitler, acreditavam nele?

Talvez eu não devesse fazer perguntas como essas.

– Não gostavam dele nem de tudo o que ele representava. Mas diziam “Heil

Hitler”. Eram aquiescentes com aquilo que acontecia em seu país. O que mais

eles poderiam fazer? O que mais qualquer pessoa poderia fazer naquela

época?

– Nós estamos indo para as Dolomitas, não estamos?

– Tem alguma importância onde estamos ou o rumo que estamos tomando?

– Bem, esta é uma viagem de exploração, não é?

– Sim, mas a exploração não é geográfica. Estamos indo ver uma

personalidade.

– Você me faz sentir – Stafford Nye olhou a paisagem das montanhas

volumosas subindo até o céu – como se estivéssemos indo visitar o famoso

Velho da Montanha.

– O Mestre dos Assassinos, você quer dizer, que mantinha os seus seguidores

drogados para que eles morressem por ele de plena boa vontade, para que

matassem, sabendo que eles mesmos também seriam assassinados, mas

acreditando, também, que isso iria transferi-los imediatamente para o

Paraíso Muçulmano... lindas mulheres, haxixe e sonhos eróticos... uma

felicidade perfeita e interminável.

Ela parou por um minuto e então continuou:

– Oradores com poderes enfeitiçantes! Suponho que eles sempre tenham estado

por aí, ao longo das eras. Pessoas que fazem com que você acredite nelas de

modo que você fique disposto a morrer por elas. Não apenas assassinos. Os

cristãos também morriam.

– Os mártires sagrados? Lord Altamount?

– Por que você menciona Lord Altamount?

– Eu o vi dessa maneira... de repente... naquela noite. Esculpido em pedra...

numa catedral do século XIII, quem sabe.

– Um de nós talvez tenha que morrer. Talvez mais – ela interrompeu o que

estava prestes a dizer. – Há uma outra coisa em que eu penso às vezes. Um

verso do Novo Testamento... Lucas, eu creio. Cristo na Última Ceia dizendo a

seus seguidores: “Vocês são meus companheiros e meus amigos, todavia um

de vocês é um demônio”. Então, segundo todas as probabilidades, um de nós é

um demônio.

– Você acha que isso é possível?

– É quase certo. Uma pessoa que conhecemos e na qual depositamos confiança,

mas que vai dormir à noite não sonhando com martírio, e sim com trinta

moedas de prata, e que acorda sentindo o peso delas na palma de sua mão.

– O amor pelo dinheiro?

– Ambição é a melhor definição. Como reconhecer um demônio? Como a gente

poderia saber? Um demônio se destacaria na multidão, seria excitante... ele

se anunciaria... exerceria liderança.

Ela ficou em silêncio por um momento e depois disse com uma voz pensativa:

– Eu tinha uma amiga no serviço diplomático que me contou certa vez como ela

dissera para uma mulher alemã o quanto tinha ficado comovida com a – Você é um homem descontente. Um homem que se posiciona contra as

representação da Paixão de Cristo em Oberammergau. Mas a mulher alemã

respondeu com desdém: “Vocês não entendem. Nós, alemães, não precisamos

de Jesus Cristo! Nós temos o nosso Adolf Hitler aqui conosco. Ele é maior do

que qualquer Jesus que já existiu”. Ela era uma mulher simpática e um tanto

comum. Mas era assim que ela se sentia. As pessoas sentiam isso em massa.

Hitler era um orador com poderes enfeitiçantes. Ele falava e todos prestavam

atenção... e aceitavam o sadismo, as câmaras de gás, as torturas da Gestapo.

Ela encolheu os ombros e depois disse, com sua voz normal:

– Mesmo assim, é esquisito que você tenha dito isso justamente agora.

– Eu disse o quê?

– Sobre o Velho da Montanha. O Chefe dos Assassinos.

– Você está me dizendo que existe mesmo um Velho da Montanha por aqui?

– Não. Não um Velho da Montanha, mas poderia existir uma Velha da

Montanha.

– Uma Velha da Montanha. Como ela é?

– Você vai ver hoje à noite.

– O que nós vamos fazer hoje à noite?

– Frequentar a sociedade – disse Renata.

– Parece que você não é mais Mary Ann faz um longo tempo.

– Você vai precisar esperar até que estejamos outra vez num avião.

– Suponho que deva ser bastante ruim no aspecto moral – disse Stafford Nye,

pensativamente – viver bem alto no mundo.

– Você está falando socialmente?

– Não. Geograficamente. Se você vive num castelo no topo de uma montanha,

com uma vista para o mundo lá embaixo, bem, isso faz com que você acabe

desprezando as pessoas comuns, não faz? Você está no topo, você é o que há

de mais grandioso. Isso era o que Hitler sentia em Berchtesgaden, isso é o

que muitas pessoas talvez sintam quando escalam montanhas e olham para os

seus semelhantes nos vales abaixo.

– Você precisa ser cauteloso hoje à noite – Renata o advertiu. – A situação

será delicada.

– Alguma instrução?

instituições, contra o mundo convencional. Você é um rebelde, mas um

rebelde secreto. Consegue fazer isso?

– Posso tentar.

O cenário se tornara mais selvagem. O grande carro fazia curvas e desvios

subindo as estradas, passando por vilarejos nas montanhas, às vezes

proporcionando um desconcertante panorama longínquo com luzes brilhando

num rio, com campanários de igrejas se exibindo à distância.

– Para onde estamos indo, Mary Ann?

– Para um ninho de águia.

A estrada fez uma última curva e começou a serpentear por uma floresta.

Stafford Nye julgou ter vislumbrado aqui e ali cervos ou animais de algum

tipo. Ocasionalmente, também, apareciam homens com casacos de couro e

armas. Vigias, pensou. E então, afinal, eles começaram a ver um enorme

Schloss que se erguia diante de um penhasco. Uma parte do castelo, ele

pensou, estava um tanto arruinada, ainda que a maior parte tivesse sido

restaurada e reconstruída. Ele era ao mesmo tempo maciço e magnífico, mas

não havia nada de novo nele ou na mensagem que ele transmitia. O castelo

representava o poder do passado, um poder exercido em eras remotas.

– Este era originalmente o grão-ducado de Liechtenstolz. O Schloss foi

construído pelo grão-duque Ludwig em 1790 – disse Renata.

– Quem mora nele agora? O atual grão-duque?

– Não. Todos eles já sumiram faz muito tempo. Varridos do mapa.

– E quem mora nele agora, então?

– Alguém que exerce o poder – disse Renata.

– Dinheiro?

– Sim. Muito.

– Por acaso nós vamos encontrar o sr. Robinson tendo chegado antes por via

aérea para nos receber?

– A última pessoa que você vai encontrar por aqui será o sr. Robinson, eu

posso lhe garantir.

– Uma pena – disse Stafford Nye. – Eu gostei do sr. Robinson. Ele é uma figura

e tanto, não? Quem é ele na realidade? Qual é a nacionalidade dele?

– Não creio que alguém já tenha tomado conhecimento. Cada um me conta uma

história diferente. Algumas pessoas dizem que ele é turco, outras que é

armênio, outras que é holandês, outras que ele não passa de um inglês.

Alguns dizem que a mãe dele era uma escrava circassiana, uma grã-duquesa

russa, uma begume indiana e assim por diante. Ninguém sabe. Uma pessoa me

disse que a mãe dele era uma certa srta. McLellan da Escócia. Acho que isso

é tão provável como qualquer outra coisa.

Eles tinham estacionado embaixo de um grande pórtico. Dois criados de libré

desceram pelos degraus. Suas reverências foram ostensivas enquanto

saudavam os hóspedes. A bagagem foi retirada; eles haviam trazido uma

bagagem considerável. Stafford Nye especulara, no começo, sobre o motivo

pelo qual lhe disseram para trazer tanta coisa, mas agora ele estava

começando a entender que de tempos em tempos isso era necessário. Haveria,

ele pensou, uma necessidade especial naquela noite. Stafford Nye fez algumas

observações de questionamento e sua companheira lhe confirmou esse fato.

Os dois se encontraram antes do jantar, convocados pelo som de um grande

gongo retumbante. Parado no saguão, Stafford Nye esperou que ela se

juntasse a ele descendo as escadas. Renata estava usando um vestido de gala

nessa noite, um veludo vermelho escuro muitíssimo elegante, rubis em volta

do pescoço e uma tiara de rubis na cabeça. Um criado se apresentou e os

conduziu. Abrindo uma porta, ele anunciou:

– A gräfin Zerkowski, Sir Stafford Nye.

“Aqui vamos nós, espero que estejamos bem nos nossos papéis”, Stafford Nye

pensou consigo mesmo.

Ele olhou de maneira satisfeita os botões de safira e diamante na parte da

frente de sua camisa. Um instante depois, ele prendeu a respiração num

sobressalto atônito. Fosse o que fosse que ele tinha esperado ver, nada se

comparava com aquilo. Era uma sala enorme, em estilo rococó, poltronas e

sofás e reposteiros dos mais finos brocados e veludos. Nas paredes havia

quadros que ele não conseguiu reconhecer na totalidade num primeiro

momento, mas entre os quais notou imediatamente – porque tinha grande

apreço por pintura – decerto um Cézanne, um Matisse, possivelmente um

Renoir. Quadros de valor inestimável.

Sentada numa imensa poltrona, sugestiva de um trono, estava uma mulher

enorme. Uma baleia, pensou Stafford Nye; realmente não havia outra palavra

para descrevê-la. Uma mulher grande, volumosa, gordurosa, chafurdando em

gordura. Um queixo duplo, triplo, quase quádruplo. Ela usava um rígido

vestido de cetim laranja. Na sua cabeça podia ser vista uma tiara de pedras

preciosas, elaborada como uma coroa. Suas mãos, repousadas nos braços de

brocado do assento, eram também enormes. Mãos grandes, volumosas,

gordas, com dedos grandes, volumosos, gordos e disformes.

Em cada dedo, ele notou, havia um anel solitário. E em cada anel, ele pensou,

havia uma solitária pedra genuína. Um rubi, uma esmeralda, uma safira, um

diamante, uma pedra verde-clara que ele não conhecia, um crisópraso, talvez,

uma pedra amarela que, se não fosse um topázio, era um diamante amarelo. A

mulher era horrível, Stafford Nye pensou. Ela chafurdava em sua gordura.

Seu rosto era uma massa de gordura enorme, branca, enrugada e pegajosa.

Fincados no rosto, como se fossem duas groselhas num imenso bolo de

groselha, apareciam dois pequenos olhos pretos. Olhos muito astutos,

contemplando o mundo, apreciando o mundo, apreciando o novo visitante,

não apreciando Renata, ele pensou. Renata ela conhecia. Renata estava ali

cumprindo ordens, por compromisso, não importava como você quisesse

definir. Renata recebera ordens para que ele fosse trazido até ali. Stafford

Nye tentou imaginar por quê. Não conseguia realmente adivinhar o motivo,

mas tinha bastante certeza. Ele estava sendo apreciado, ele estava sendo

avaliado. Seria ele o que a mulher queria? Seria ele... sim, ele podia definir a

questão assim... seria ele aquilo que a cliente havia solicitado?

“Precisarei ter plena certeza de saber o que a mulher de fato quer”, ele

pensou. “Precisarei fazer o meu melhor, caso contrário...” Caso contrário ele

quase conseguia imaginar que ela poderia levantar uma mão gorda e cheia de

anéis e dizer para um dos musculosos e altos lacaios: “Peguem-no e joguem-

no das ameias”. É ridículo, pensou Stafford Nye. Essas coisas não podem

acontecer hoje em dia. Onde eu estou? Em que espécie de desfile, baile de

máscaras ou espetáculo teatral eu estou tomando parte?

– Você chegou com pontualidade absoluta, minha criança.

Era uma voz rouca e asmática que um dia talvez tivera, ele pensou, certo tom

de força, possivelmente até mesmo de beleza. Agora já não havia mais nada.

Renata se aproximou, fez uma ligeira reverência. Pegou a mão gorda e deu

nela um beijo cortês.

– Permita-me apresentar Sir Stafford Nye. A gräfin Charlotte von Waldsausen.

A mão gorda foi estendida na direção dele. Stafford Nye se inclinou por cima

dela no estilo estrangeiro. Então ela disse algo que o surpreendeu:

– Eu conheço a sua tia-avó.

Ele exibiu uma expressão atônita e viu de imediato que a condessa Von

Waldsausen se divertira com isso, mas viu também que ela esperava que ele

ficasse surpreso. Ela riu, um riso esquisito e irritante. Nem um pouco

atraente.

– Digamos que eu a conhecia. Já se passaram muitos anos desde que a vi pela

última vez. Estivemos juntas na Suíça, em Lausanne, quando éramos garotas.

Matilda. Lady Matilda Baldwen-White.

– Que maravilhosa novidade eu levarei comigo para casa – disse Stafford Nye.

– Ela é mais velha do que eu. Está com boa saúde?

– Considerando a idade dela, está com ótima saúde. Mora no interior, muito

sossegada. Tem artrite, reumatismo.

– Ah, sim, todas as moléstias da idade avançada. Ela deveria tomar injeções de

procaína. Isso é o que os médicos fazem aqui nesta altitude. É bastante

satisfatório. Ela sabe que o senhor veio me visitar?

– Imagino que ela não faça a menor ideia – disse Sir Stafford Nye. – Ela sabia

somente que eu iria para o festival de música moderna.

– Do qual o senhor deve ter gostado, eu espero?

– Ah, tremendamente. É um belo teatro de ópera para festivais, não é?

– Um dos melhores. Ah! Ele faz com que a velha casa de ópera de Bayreuth

pareça um teatro de colégio! O senhor sabe quanto custou construir o

prédio?

Ela mencionou uma soma de milhões de marcos. O valor quase deixou Stafford

Nye sem fôlego, mas ele não tinha nenhuma necessidade de esconder seu

espanto. A condessa Von Waldsausen ficou contente com o efeito que aquilo

lhe causara.

– Com dinheiro – ela disse –, se a pessoa sabe, se a pessoa tem habilidade, se

ela tem critério, o que é que o dinheiro não pode fazer? Pode proporcionar o

melhor.

Ele disse as duas últimas palavras com vívido prazer, com uma espécie de

estalar dos lábios que Stafford Nye considerou ao mesmo tempo desagradável

e ligeiramente sinistro.

– Posso constatar isso aqui – ele disse, olhando as paredes.

– O senhor gosta de arte? Sim, estou vendo que gosta. Ali, na parede leste, está

o melhor Cézanne do mundo hoje. Alguns dizem que o... ah, esqueci o nome no

momento, aquele que está no Metropolitan em Nova York... é melhor. Não é

verdade. O melhor Matisse, o melhor Cézanne, os melhores dessa grandiosa

escola de arte estão aqui. Aqui no meu ninho de águia nas montanhas.

– É maravilhoso – disse Stafford Nye. – De fato maravilhoso.

Bebidas foram distribuídas. A Velha da Montanha, Sir Stafford notou, não

bebia nada. Era possível, ele pensou, que ela temesse correr quaisquer riscos

com a sua pressão arterial em função de seu vasto peso.

– E onde o senhor conheceu essa criança? – perguntou o Dragão da Montanha.

Seria uma armadilha? Ele não sabia, mas tomou sua decisão.

– Na embaixada americana, em Londres.

– Ah, sim, foi o que eu ouvi. E como está... ah, esqueci o nome dela agora... ah,

sim, Milly Jean, a nossa herdeira sulista? Uma mulher atraente, o senhor não

achou?

– Muitíssimo encantadora. Ela faz grande sucesso em Londres.

– E o enfadonho Sam Cortman, o embaixador dos Estados Unidos?

– Um homem muito razoável, eu tenho certeza – disse Stafford Nye,

polidamente.

Ela soltou um risinho.

– Ah, o senhor tem bastante tato, não tem? Pois é, ele se vira bem o suficiente.

Faz o que lhe pedem como qualquer bom político. E é prazeroso ser

embaixador em Londres. Ela, Milly Jean, poderia fazer isso por ele. Ah, ela

poderia conseguir uma embaixada para o marido em qualquer lugar do

mundo, com aquela bolsa bem abastecida que ela tem. O pai dela é dono de

metade do petróleo do Texas, possui terras, minas de ouro, tudo. Um homem

grosseiro e de uma feiura singular... E que aparência ela tem? Uma pequena e

delicada aristocrata. Não é espalhafatosa, não parece rica. Isso é muito

esperto da parte dela, não é?

– Às vezes isso não apresenta nenhuma dificuldade – disse Sir Stafford Nye.

– E o senhor? O senhor não é rico?

– Bem que eu gostaria de ser.

– O Ministério das Relações Exteriores hoje em dia não é, digamos assim,

muito compensador?

– Ah, bem, eu não diria dessa forma... Afinal de contas, a gente viaja para

muitos lugares, encontra pessoas divertidas, vê o mundo, vê um pouco do que

está acontecendo.

– Um pouco, sim. Mas não tudo.

– Isso seria muito difícil.

– Algum dia o senhor desejou ver aquilo que... como poderei dizer... aquilo que

acontece nos bastidores da vida?

– Às vezes se pode ter uma ideia.

Stafford Nye imprimira um tom indiferente em sua voz.

– Já ouvi dizer que isso é verdade quanto ao senhor, que o senhor às vezes tem

ideias sobre as coisas. Não são ideias convencionais, imagino?

– Houve épocas nas quais eu acabei me sentindo como se fosse o menino mau

da família – Stafford Nye falou e riu.

A velha Charlotte soltou mais um riso.

– O senhor não se importa de admitir certas coisas de quando em quando, não

é?

– Fingir para quê? As pessoas sempre percebem o que você está escondendo.

Ela olhou para ele.

– O que quer da vida, meu jovem?

Stafford Nye encolheu os ombros. Aqui, novamente, ele tinha de desempenhar

seu papel no escuro.

– Nada – ele disse.

– Ora, ora, o senhor quer que eu acredite nisso?

– Sim, a senhora pode acreditar. Eu não sou ambicioso. Por acaso eu pareço

ambicioso?

– Não, admito que não.

– Só peço alguma diversão, viver confortavelmente, comer, beber com

moderação, ter amigos que me divirtam.

A velha senhora se inclinou à frente. Seus olhos se arregalaram e fecharam

três ou quatro vezes. Então ela falou com uma voz um tanto diferente. Era Quando entraram pelos portais da sala de jantar, ele sentiu como se aquele

uma nota quase de assobio.

– O senhor consegue odiar? O senhor é capaz de odiar?

– Odiar é uma perda de tempo.

– Entendi. Entendi. Não aparecem traços de descontentamento no seu rosto.

Isso é bem verdade. Mesmo assim, creio que o senhor está disposto a seguir

um determinado caminho que o levará para determinado lugar, e o senhor o

percorrerá sorrindo, como se não se importasse, mas mesmo assim, no fim das

contas, se o senhor encontrar os conselheiros certos, os ajudantes certos,

obter o que deseja, se for capaz de desejar.

– Quanto a isso – disse Stafford Nye –, quem não é? – e ele balançou a cabeça

para ela bem devagar. – A senhora enxerga demais – ele disse. – A senhora vê

coisas demais.

Lacaios abriram a porta.

– O jantar está servido.

Os procedimentos foram adequadamente formais. Eles estavam, na verdade,

um tanto envolvidos por um toque de realeza. As grandes portas na

extremidade da sala foram escancaradas, deixando revelar uma sala de

jantar cerimonial iluminada em vasto brilho, com um teto pintado e três

enormes candelabros. Duas mulheres de meia-idade se aproximaram da

gräfin, uma de cada lado. Estavam usando vestidos de gala, seus cabelos

grisalhos mostravam-se cuidadosamente arranjados em coque no alto de suas

cabeças, cada uma exibindo um broche de diamantes. Para Sir Stafford Nye,

elas transmitiam um vago ar de carcereiras. Elas não eram, ele pensou, tanto

guardas de segurança quanto talvez enfermeiras de alta classe, responsáveis

por cuidar da saúde, da toalete e de outros detalhes íntimos da existência da

gräfin Charlotte. Depois de respeitosas reverências, cada uma passou um

braço por entre o ombro e o cotovelo da mulher sentada. Com a facilidade da

longa experiência, ajudadas pelo esforço que era obviamente o máximo que

ela podia fazer, as duas a colocaram de pé de uma maneira digna.

– Nós vamos jantar agora – disse Charlotte.

Com suas duas atendentes, ela seguiu na frente. De pé, Charlotte parecia mais

ainda uma massa de geleia oscilante, mas mesmo assim parecia formidável.

Não se poderia classificá-la, na mente, como apenas uma mulher gorda e

velha. Ela era alguém, sabia ser alguém, pretendia ser alguém. Stafford Nye e

Renata foram seguindo as três.

fosse mais um salão de banquete do que uma sala de jantar. Havia homens de

uma guarda pessoal ali. Jovens altos, louros e bonitos. Vestiam uma espécie

de uniforme. Quando Charlotte entrou, houve um estrépito enquanto todos

sacavam suas espadas ao mesmo tempo. Eles cruzaram as espadas no alto

para formar uma passagem, e Charlotte, firmando seu passo, avançou ao

longo dessa passagem, libertada por suas atendentes e fazendo seu progresso

solo até uma vasta poltrona esculpida com ornamentos de ouro e estofada

com brocado dourado junto à cabeceira da comprida mesa. Parecia mais uma

procissão de casamento, Stafford Nye pensou. Um matrimônio naval ou

militar. Naquele caso, por certo, algo militar, estritamente militar – mas

faltava um noivo.

Eles eram todos jovens de físico poderoso. Nenhum deles, ele pensou, tinha

mais do que trinta anos. Tinham boa aparência, sua saúde era evidente. Não

sorriam, eram totalmente sérios, eram – ele procurou pela palavra certa –

sim, dedicados. Talvez não fosse tanto uma procissão militar quanto uma

procissão religiosa. Os serviçais apareceram, serviçais antiquados

pertencentes, pensou ele, ao passado do Schloss, a um tempo anterior à

guerra de 1939. Parecia uma superprodução de alguma peça sobre um

período histórico. E reinando sobre tudo, sentada numa poltrona ou num

trono ou seja lá como se queira chamar aquilo, não estava uma rainha ou

imperatriz, e sim uma mulher velha, notável principalmente por seu excesso

de peso e por sua feiura intensa e extraordinária. Quem era ela? O que estava

fazendo ali? Por quê?

Por que todo aquele baile de máscaras, essa guarda pessoal, uma guarda

pessoal de segurança talvez? Outros convivas chegaram à mesa. Eles se

curvaram perante a monstruosidade que presidia no trono e tomaram os seus

lugares. Usavam trajes de gala normais. Não houve nenhuma apresentação.

Stafford Nye, depois de longos anos avaliando as pessoas, analisou-os. Tipos

diferentes. Tipos variadíssimos. Advogados, ele tinha certeza. Diversos

advogados. Possivelmente contadores e financistas; um ou dois oficiais do

exército à paisana. Eles faziam parte da casa, Stafford Nye pensou, mas

também faziam lembrar o sentido feudal da expressão sobre aqueles que se

sentavam “depois do sal”, nos piores lugares da mesa.

A comida chegou. Uma imensa cabeça de javali em geleia de carne, caça, um

refrescante sorvete de limão, um magnífico edifício de confeitaria – um

superlativo mil-folhas que parecia ser dotado de uma inacreditável riqueza

de doçura.

A vasta mulher comeu, comeu com enorme avidez, com ânsia faminta,

apreciando o alimento. Do lado de fora veio um novo som. O som do poderoso

motor de um grande carro esporte. O carro passou pelas janelas num raio

branco. Houve um grito dentro da sala, vindo da guarda pessoal. Um grito

estridente de “Heil! Heil! Heil Franz!”.

A guarda de jovens se deslocou com a facilidade de uma manobra militar

conhecida de cor. Todos haviam se colocado de pé. Somente a velha se

manteve sentada, imóvel, sua cabeça erguida no alto, em seu estrado. E

agora, assim pensou Stafford Nye, uma nova excitação percorreu a sala.

Os outros convivas, ou os outros membros da casa, fossem lá o que eles fossem,

desapareceram de uma forma que chegou a fazer com que Stafford pensasse

em lagartos escapando por brechas numa parede. Os rapazes de cabelos

dourados formaram uma nova composição, suas espadas voaram para o alto,

eles saudaram sua benfeitora, ela baixou a cabeça em reconhecimento, as

espadas foram embainhadas e eles deram meia-volta, permissão concedida,

para sair marchando pela porta do salão. Os olhos de Charlotte os seguiram,

depois pousaram em Renata e então em Stafford Nye.

– O que o senhor pensa deles? – ela perguntou. – Meus meninos, meu

regimento jovem, minhas crianças. Sim, minhas crianças. O senhor tem

alguma palavra que possa descrevê-los?

– Acho que sim – disse Stafford Nye. – Magníficos. – Ele falava com ela como

quem se dirigia a uma rainha. – Magníficos, minha senhora.

– Ah! – ela curvou sua cabeça e sorriu, as rugas se multiplicando em todo o

seu rosto; essa expressão lhe dava uma perfeita semelhança a um crocodilo.

Uma mulher terrível, ele pensou, uma mulher terrível, difícil, dramática.

Aquilo tudo estava mesmo acontecendo? Stafford Nye não conseguia

acreditar. O que mais poderia ser aquilo, a não ser outra casa de festivais na

qual uma produção era apresentada?

As portas foram abertas de novo com estrépito. O bando de jovens super-

homens louros marchou salão adentro. Dessa vez eles não brandiam as

espadas; em vez disso, cantavam. Cantavam com incomum beleza de tom e de

voz.

Depois de anos a fio de música pop, Stafford Nye sentiu um prazer incrédulo.

Vozes treinadas, aquelas. Não eram berros roucos. Vozes treinadas por – Pois bem – ele disse –, nós temos convidados! – E acrescentou, sorrindo com

mestres da arte da canção. Cantores não autorizados a forçar as cordas

vocais, a sair do tom. Eles poderiam ser os novos Heróis de um Novo Mundo,

mas o que cantavam não era música nova. Era uma música que ele já tinha

ouvido antes. Um arranjo do Preislied, devia haver alguma orquestra

escondida em algum lugar, ele pensou, numa galeria por cima do salão. Era

um arranjo ou uma adaptação de diversos temas wagnerianos. Passava do

Preislied para os distantes ecos da música do Reno.

O Corpo de Elite formou novamente uma via dupla para esperar alguém. Não

foi a velha imperatriz dessa vez. Ela permaneceu sentada em seu estrado,

esperando quem quer que estivesse chegando.

E afinal ele chegou. A música mudou quando ele entrou, sendo agora marcada

pelo motivo que Stafford Nye conhecia de cor naquela altura. A melodia do

Jovem Siegfried. O chamado de trompa de Siegfried, elevando ao céu sua

juventude e seu triunfo, seu comando sobre um novo mundo que o jovem

Siegfried vinha conquistar.

Pelo vão da porta, marchando por entre as fileiras daqueles que eram

claramente seus seguidores, entrou um dos jovens mais bonitos que Stafford

Nye já vira. Cabelos dourados, olhos azuis, perfeitamente bem

proporcionado, como que produzido pelo mágico gesto de uma vara de

condão, ele vinha de um mundo mítico. Mito, heróis, ressurreição,

renascimento, estava tudo ali. Sua beleza, sua força, sua incrível segurança e

arrogância.

Ele avançou a passos largos pelas fileiras duplas de sua guarda e parou diante

da medonha montanha de feminilidade sentada no trono; colocou um joelho

no chão, levou a mão dela aos lábios e então, levantando-se de novo, estendeu

um braço em saudação e emitiu o grito que Stafford já ouvira dos outros:

“Heil!”. Seu alemão não era muito claro, mas Stafford Nye julgou ter

distinguido as sílabas “Heil à grande mãe!”.

Em seguida o belo herói olhou de um lado para o outro. Houve um ligeiro

reconhecimento de Renata, ainda que desinteressado, mas, quando seu olhar

encontrou Stafford Nye, houve um definido interesse de apreciação. Cautela,

pensou Stafford Nye. Cautela! Ele precisava desempenhar o seu papel agora.

Interpretar o papel que era esperado dele. Porém... que diabo de papel seria

esse? O que ele estava fazendo ali? O que ele ou a garota deveriam estar

fazendo ali? Eles tinham vindo por quê?

O herói falou.

a arrogância de um jovem que sabe ser imensamente superior a qualquer

outra pessoa no mundo: – Bem-vindos, convidados, bem-vindos ambos.

De algum lugar nas profundezas do Schloss um grande sino começou a soar.

Não havia nada de fúnebre em seu toque, mas havia um ar disciplinador. A

sensação de um mosteiro sendo convocado para a santa missa.

– Precisamos ir dormir agora – disse a velha Charlotte. – Dormir. Nós vamos

nos encontrar de novo às onze da manhã.

Ela olhou para Renata e Sir Stafford Nye.

– Vocês serão conduzidos até seus quartos. Espero que durmam bem.

Era a dispensa real.

Stafford Nye viu o braço de Renata ser lançado para cima na saudação

fascista, mas o braço não foi dirigido a Charlotte, e sim ao garoto de cabelos

dourados. Pensou ter ouvido Renata dizendo: “Heil Franz Joseph”. Copiou o

gesto e também disse “Heil!”.

Charlotte dirigiu-se a eles:

– Vocês gostariam de, amanhã, começar o dia com uma cavalgada pela

floresta?

– Não consigo imaginar nada melhor – disse Stafford Nye.

– E você, minha criança?

– Sim, eu também.

– Está ótimo, então. Tudo será providenciado. Boa noite a ambos. Fico

contente por recebê-los aqui. Franz Joseph... me dê o seu braço. Venha

comigo até o boudoir chinês. Temos muito para discutir, e você terá de sair a

tempo amanhã de manhã.

Os criados escoltaram Renata e Stafford Nye até os seus aposentos. Nye

hesitou por um momento no limiar da porta. Seria possível que eles trocassem

uma ou duas palavras agora? Decidiu que não. Enquanto eles estivessem

cercados pelas paredes do castelo, seria bom proceder com cautela. Nunca se

sabe... cada quarto podia muito bem ter microfones ocultos.

Mais cedo ou mais tarde, no entanto, ele tinha de fazer perguntas. Certas

coisas despertavam uma nova e sinistra apreensão em sua mente. Ele estava

sendo persuadido, induzido a alguma coisa. Mas a quê? E por ação de quem?

Os quartos eram bonitos, mas opressivos. Os ricos reposteiros de cetim e

veludo, alguns deles antigos, exalavam um leve perfume de decadência,

temperado por especiarias. Stafford ficou imaginando quantas vezes Renata

já se hospedara naquele castelo.