Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 13 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo II

esportiva também. Eles são muito esportivos, sabe, os húngaros. Ela caçava

com cães, montava magnificamente.

– Ela está na galeria dos retratos?

– Está no primeiro patamar. Logo depois das escadas, um pouco à direita.

– Preciso olhar o retrato dela quando eu for dormir.

– Por que você não vai vê-lo agora? Aí você volta e nós conversarmos sobre

ela.

– Pode ser, se a senhora quiser.

Sir Stafford Nye sorriu para ela.

Ele saiu da sala e subiu a escadaria num instante. Sim, ela tinha um olho vivo,

a velha Matilda. Esse era o rosto. Esse era o rosto que ele vira e do qual se

lembrava. Não se lembrava por sua semelhança consigo, nem mesmo por sua

semelhança com Pamela, mas por uma semelhança ainda mais acentuada com

esse retrato. Uma garota bonita trazida para casa pelo trisavô embaixador,

ou até tataravô. Tia Matilda nunca ficava satisfeita com a antiguidade dos

antepassados. Ela devia ter mais ou menos vinte anos. Ela viera para cá e era

muito espirituosa e montava cavalos magnificamente e dançava de maneira

divina e vários homens haviam se apaixonado por ela. Mas ela tinha sido fiel,

era o que todos sempre diziam, ao tataravô, um integrante muito respeitável e

sério do serviço diplomático. Ela o acompanhara em visitas a embaixadas

estrangeiras e voltara para cá e tivera filhos – três ou quatro, ele acreditava.

Através de uma dessas crianças a herança do rosto dela, de seu nariz, da

curva de seu pescoço, havia passado para ele e para sua irmã Pamela. Sir

Stafford Nye ficou imaginando se aquela jovem que dopara sua cerveja e o

forçara a emprestar o manto e que dissera estar correndo perigo de vida a

menos que ele fizesse o que ela pedia não poderia ser de alguma forma uma

prima distante num quinto ou sexto grau, uma descendente dessa mulher

retratada na parede que ele estava observando. Bem, poderia ser esse o caso.

Talvez elas tivessem a mesma nacionalidade. Ela se sentara tão empertigada

na ópera, como era harmônico o seu perfil, o nariz fino, aquilino e

ligeiramente arqueado. E a atmosfera que pairava em volta dela.

II

– Encontrou o retrato? – perguntou Lady Matilda quando seu sobrinho voltou

até a sala de visitas branca, como costumava ser chamada sua sala de estar. –

Um rosto interessante, não é mesmo?

– É muito melhor ser interessante do que ser bonito. Mas você não esteve na

Hungria ou na Áustria, esteve? Você não iria encontrar uma mulher parecida

com ela na Malásia. Ela não estaria sentada junto de uma mesa, fazendo

pequenas anotações ou corrigindo discursos ou coisas assim. Ela era uma

criatura selvagem, segundo todos os relatos. Maneiras adoráveis e tudo mais.

Só que selvagem. Selvagem como uma ave selvagem. Não sabia o que

significava o perigo.

– Como a senhora sabe tanto sobre ela?

– Ah, reconheço que eu não fui contemporânea dela, só nasci vários anos

depois de sua morte. Mesmo assim, sempre tive muito interesse por ela. Ela

era aventureira, sabe? Muito aventureira. Histórias muito esquisitas eram

contadas sobre ela, sobre coisas nas quais ela se metia.

– E como é que o meu tataravô reagia diante disso?

– Imagino que tenha morrido de preocupação – disse Lady Matilda. – Dizem

que ele tinha grande devoção pela esposa, no entanto. Por falar nisto, Staffy,

você alguma vez leu O prisioneiro de Zenda?

– O prisioneiro de Zenda? Me soa bastante familiar.

– Bem, é claro que é familiar, é um livro.

– Sim, sim, eu entendi que é um livro.

– Você não deve saber muito a respeito dele, eu imagino. Não é do seu tempo.

Mas quando eu era menina... essa era a primeira amostra de romance que a

gente ganhava. Nada de cantores pop ou Beatles. Somente um livro

romântico. Nós não tínhamos autorização para ler romances quando eu era

jovem. Não de manhã, pelo menos. Só podíamos lê-los no período da tarde.

– Que regras extraordinárias – disse Sir Stafford. – Por que motivo era errado

ler romances de manhã e não à tarde?

– Bem, nas manhãs, veja, todo mundo esperava que as meninas estivessem

fazendo alguma coisa útil. Você sabe, arrumando as flores ou limpando as

molduras de prata das fotografias. Coisas que meninas como nós faziam.

Estudando um pouco com a preceptora... essas coisas. À tarde nós tínhamos

autorização para sentar e ler livros de histórias, e O prisioneiro de Zenda era

geralmente um dos primeiros que nos caía nas mãos.

– Uma história muito bonita e admirável, não era? Parece que eu me lembro de

algo a respeito. Talvez eu tenha lido mesmo. Tudo muito puro, eu suponho.

Não era ousado demais?

– Certamente que não. Nós não tínhamos livros ousados. Tínhamos livros

românticos. O prisioneiro de Zenda era muito romântico. Todas as garotas se

apaixonavam, geralmente, pelo herói, Rudolf Rassendyll.

– Parece que eu me lembro desse nome também. Um pouco floreado, não?

– Bem, eu ainda penso que era um nome muito romântico. Eu devia ter doze

anos. Você me fez lembrar do livro, sabe? Quando subiu a escada e foi olhar o

retrato. A princesa Flávia – acrescentou Lady Matilda.

Stafford Nye estava sorrindo para ela.

– A senhora está parecendo jovem e corada e muito sentimental – ele disse.

– Bem, é assim que eu estou me sentindo. As garotas não são mais capazes de

se sentir assim hoje em dia. Elas ficam desmaiando por amor, ou desfalecem

quando alguém toca violão ou canta numa voz muito espalhafatosa, mas não

são sentimentais. Mas eu não era apaixonada por Rudolf Rassendyll. Eu era

apaixonada pelo outro... pelo sósia dele.

– Ele tinha um sósia?

– Ah, sim, um rei. O rei da Ruritânia.

– Ah, é claro, agora eu me lembro. É daí que vem a palavra Ruritânia... não é

raro ouvir essa palavra. Sim, acho que eu de fato li esse livro. O rei da

Ruritânia, e Rudolf Rassendyll era o substituto do rei e se apaixonou pela

princesa Flávia, de quem o rei estava oficialmente noivo.

Lady Matilda soltou mais alguns suspiros profundos.

– Sim, Rudolf Rassendyll tinha herdado seus cabelos ruivos de uma

antepassada, e numa determinada parte do livro ele faz uma reverência

diante do retrato e diz alguma coisa sobre a... não consigo me lembrar do

nome agora... a condessa Amelia ou algo assim, de quem ele herdara sua

aparência e tudo mais. Então olhei para você e me lembrei de Rudolf

Rassendyll e você saiu e foi olhar o retrato de alguém que podia ter sido uma

antepassada sua para ver se ela se parecia com alguém. De modo que você

está metido num romance de algum tipo, não está?

– Por que raios a senhora pensa isso?

– Bem, não existem muitos padrões diferentes na vida, ora. A gente reconhece

os padrões na medida em que eles vão aparecendo. É como um livro de tricô.

Mais ou menos uns 65 tipos diferentes de pontos fantasia. Bem, a gente

reconhece um ponto particular quando põe os olhos nele. O seu ponto neste

momento, eu diria, é a aventura romântica – ela suspirou. – Mas você não vai

me contar nada, eu suponho.

– Não há nada para contar – disse Sir Stafford.

– Você sempre foi um mentiroso talentosíssimo. Bem, não importa. Traga sua

amiga para me ver uma hora dessas. Isso é tudo de que eu gostaria, antes que

os médicos consigam me matar com mais algum tipo novo de antibiótico que

tenham acabado de descobrir. As diferentes cores das pílulas que eu já tive

que tomar a essa altura! Você não acreditaria.

– Não sei por que motivo a senhora diz “ela”...

– Não sabe? Ah, pois bem, eu reconheço uma “ela” quando uma me cruza o

caminho. Existe alguma “ela” se esquivando na sua vida. O que me deixa

intrigada é como você a encontrou. Na Malásia, na mesa de conferências?

Filha de embaixador ou filha de ministro? Uma secretária bonita na piscina

da embaixada? Não, nenhuma probabilidade parece se encaixar... No navio

voltando para casa? Não, vocês não usam mais navios hoje em dia. No avião,

talvez.

– A senhora está chegando mais perto – Sir Stafford Nye não conseguiu deixar

de dizer.

– Ah! – arremeteu Lady Matilda. – Aeromoça?

Ele balançou a cabeça.

– Pois bem. Guarde o seu segredo. Eu hei de descobrir, não se preocupe.

Sempre tive um ótimo faro para coisas que acontecem com você. Para coisas

em geral também. É claro que eu estou por fora de tudo hoje em dia, mas eu

me encontro com os meus velhos camaradas de tempos em tempos e é bastante

fácil, fique sabendo, obter uma ou outra dica da parte deles. As pessoas estão

preocupadas. Em toda parte... elas estão preocupadas.

– A senhora quer dizer que existe uma espécie de descontentamento geral... um

distúrbio?

– Não, eu não quis dizer isso em absoluto. Eu quero dizer que os altos escalões

estão preocupados. Os nossos horríveis governos estão preocupados. O

estimado e sonolento Ministério das Relações Exteriores está preocupado.

Temos coisas que estão acontecendo, coisas que não deveriam existir.

Agitação.

– Agitações estudantis?

– Ah, as agitações estudantis são apenas uma das flores dessa árvore. E ela

está florescendo em todos os cantos e em todos os países, ou pelo menos é o

que parece. Eu tenho uma ótima garota que vem aqui e lê os jornais para mim

de manhã. Eu mesma não consigo mais ler com proveito. Ela tem uma ótima

voz. Escreve as cartas para mim e lê trechos dos jornais e é uma garota boa e

amável. Ela lê as coisas que eu quero saber, não as coisas que pensa que são

adequadas para mim. Sim, todos estão preocupados, até onde eu consigo

entender, e isso, fique sabendo, veio mais ou menos de um amigo muito antigo

meu.

– Um dos seus velhos camaradas militares?

– Ele é major-general, se é isso que você quer dizer, se aposentou muitos anos

atrás mas ainda está por dentro de tudo. A juventude é o que você pode

denominar como a ponta de lança de tudo. Mas não é isso o que é tão

preocupante. Eles... quem quer que sejam eles... trabalham através da

juventude. Da juventude de todos os países. A juventude incitada. A juventude

cantando suas palavras de ordem, palavras de ordem que soam como

emocionantes embora eles nem sempre saibam o que querem dizer. É tão fácil

começar uma revolução. É algo natural aos olhos da juventude. Todos os

jovens sempre se rebelaram. Você se rebela, você sai por aí derrubando tudo,

você quer que o mundo seja diferente do que é. Mas você também está cego.

Existem vendas nos olhos dos jovens. Eles não conseguem ver para onde estão

sendo levados pela situação. O que virá depois? O que há na frente deles? E

quem é que está por trás deles, os incitando? Isso é o que é assustador nessa

questão. Você sabe, tem alguém que vai mostrando a cenoura para fazer o

burro avançar e ao mesmo tempo tem alguém por trás incitando o burro com

uma vara.

– A senhora tem algumas fantasias extraordinárias.

– Não são apenas ideias fantasiosas, meu caro garoto. Isso era o que as

pessoas diziam sobre Hitler. Hitler e a juventude de Hitler. Mas foi uma

preparação longa e cuidadosa. Foi uma guerra planejada em detalhes. Era

uma quinta-coluna sendo plantada em diferentes países, já esperando os

super-homens. Os super-homens seriam a flor da nação alemã. Isso eles

pensavam e nisso eles acreditavam apaixonadamente. Talvez alguém esteja

acreditando em algo parecido com isso agora. É um credo que eles estarão

dispostos a aceitar... se lhes for oferecido de maneira inteligente o bastante.

– De quem a senhora está falando? Está se referindo aos chineses ou aos

russos? A senhora está querendo dizer o quê?

– Eu não sei. Não faço a menor ideia. Mas existe alguma coisa em algum lugar,

um sistema que segue essa mesma linha. O padrão outra vez, veja. O padrão!

Os russos? Atolados no comunismo, eu diria que eles são considerados

antiquados. Os chineses? Acho que se perderam no caminho. Uma dose

excessiva de camarada Mao, talvez. Eu não sei quem são essas pessoas que

estão fazendo o planejamento. Como eu já disse antes, é o porquê e o onde e o

quando e o quem.

– Muito interessante.

– É tão assustadora, essa mesma ideia que sempre retorna. A história se

repetindo. O jovem herói, o super-homem dourado que todos precisam seguir.

Ela fez uma pausa e depois falou:

– A mesma ideia, não é mesmo? O jovem Siegfried.