Passageiro para Frankfurt
Capítulo II
esportiva também. Eles são muito esportivos, sabe, os húngaros. Ela caçava
com cães, montava magnificamente.
– Ela está na galeria dos retratos?
– Está no primeiro patamar. Logo depois das escadas, um pouco à direita.
– Preciso olhar o retrato dela quando eu for dormir.
– Por que você não vai vê-lo agora? Aí você volta e nós conversarmos sobre
ela.
– Pode ser, se a senhora quiser.
Sir Stafford Nye sorriu para ela.
Ele saiu da sala e subiu a escadaria num instante. Sim, ela tinha um olho vivo,
a velha Matilda. Esse era o rosto. Esse era o rosto que ele vira e do qual se
lembrava. Não se lembrava por sua semelhança consigo, nem mesmo por sua
semelhança com Pamela, mas por uma semelhança ainda mais acentuada com
esse retrato. Uma garota bonita trazida para casa pelo trisavô embaixador,
ou até tataravô. Tia Matilda nunca ficava satisfeita com a antiguidade dos
antepassados. Ela devia ter mais ou menos vinte anos. Ela viera para cá e era
muito espirituosa e montava cavalos magnificamente e dançava de maneira
divina e vários homens haviam se apaixonado por ela. Mas ela tinha sido fiel,
era o que todos sempre diziam, ao tataravô, um integrante muito respeitável e
sério do serviço diplomático. Ela o acompanhara em visitas a embaixadas
estrangeiras e voltara para cá e tivera filhos – três ou quatro, ele acreditava.
Através de uma dessas crianças a herança do rosto dela, de seu nariz, da
curva de seu pescoço, havia passado para ele e para sua irmã Pamela. Sir
Stafford Nye ficou imaginando se aquela jovem que dopara sua cerveja e o
forçara a emprestar o manto e que dissera estar correndo perigo de vida a
menos que ele fizesse o que ela pedia não poderia ser de alguma forma uma
prima distante num quinto ou sexto grau, uma descendente dessa mulher
retratada na parede que ele estava observando. Bem, poderia ser esse o caso.
Talvez elas tivessem a mesma nacionalidade. Ela se sentara tão empertigada
na ópera, como era harmônico o seu perfil, o nariz fino, aquilino e
ligeiramente arqueado. E a atmosfera que pairava em volta dela.
II
– Encontrou o retrato? – perguntou Lady Matilda quando seu sobrinho voltou
até a sala de visitas branca, como costumava ser chamada sua sala de estar. –
Um rosto interessante, não é mesmo?
– É muito melhor ser interessante do que ser bonito. Mas você não esteve na
Hungria ou na Áustria, esteve? Você não iria encontrar uma mulher parecida
com ela na Malásia. Ela não estaria sentada junto de uma mesa, fazendo
pequenas anotações ou corrigindo discursos ou coisas assim. Ela era uma
criatura selvagem, segundo todos os relatos. Maneiras adoráveis e tudo mais.
Só que selvagem. Selvagem como uma ave selvagem. Não sabia o que
significava o perigo.
– Como a senhora sabe tanto sobre ela?
– Ah, reconheço que eu não fui contemporânea dela, só nasci vários anos
depois de sua morte. Mesmo assim, sempre tive muito interesse por ela. Ela
era aventureira, sabe? Muito aventureira. Histórias muito esquisitas eram
contadas sobre ela, sobre coisas nas quais ela se metia.
– E como é que o meu tataravô reagia diante disso?
– Imagino que tenha morrido de preocupação – disse Lady Matilda. – Dizem
que ele tinha grande devoção pela esposa, no entanto. Por falar nisto, Staffy,
você alguma vez leu O prisioneiro de Zenda?
– O prisioneiro de Zenda? Me soa bastante familiar.
– Bem, é claro que é familiar, é um livro.
– Sim, sim, eu entendi que é um livro.
– Você não deve saber muito a respeito dele, eu imagino. Não é do seu tempo.
Mas quando eu era menina... essa era a primeira amostra de romance que a
gente ganhava. Nada de cantores pop ou Beatles. Somente um livro
romântico. Nós não tínhamos autorização para ler romances quando eu era
jovem. Não de manhã, pelo menos. Só podíamos lê-los no período da tarde.
– Que regras extraordinárias – disse Sir Stafford. – Por que motivo era errado
ler romances de manhã e não à tarde?
– Bem, nas manhãs, veja, todo mundo esperava que as meninas estivessem
fazendo alguma coisa útil. Você sabe, arrumando as flores ou limpando as
molduras de prata das fotografias. Coisas que meninas como nós faziam.
Estudando um pouco com a preceptora... essas coisas. À tarde nós tínhamos
autorização para sentar e ler livros de histórias, e O prisioneiro de Zenda era
geralmente um dos primeiros que nos caía nas mãos.
– Uma história muito bonita e admirável, não era? Parece que eu me lembro de
algo a respeito. Talvez eu tenha lido mesmo. Tudo muito puro, eu suponho.
Não era ousado demais?
– Certamente que não. Nós não tínhamos livros ousados. Tínhamos livros
românticos. O prisioneiro de Zenda era muito romântico. Todas as garotas se
apaixonavam, geralmente, pelo herói, Rudolf Rassendyll.
– Parece que eu me lembro desse nome também. Um pouco floreado, não?
– Bem, eu ainda penso que era um nome muito romântico. Eu devia ter doze
anos. Você me fez lembrar do livro, sabe? Quando subiu a escada e foi olhar o
retrato. A princesa Flávia – acrescentou Lady Matilda.
Stafford Nye estava sorrindo para ela.
– A senhora está parecendo jovem e corada e muito sentimental – ele disse.
– Bem, é assim que eu estou me sentindo. As garotas não são mais capazes de
se sentir assim hoje em dia. Elas ficam desmaiando por amor, ou desfalecem
quando alguém toca violão ou canta numa voz muito espalhafatosa, mas não
são sentimentais. Mas eu não era apaixonada por Rudolf Rassendyll. Eu era
apaixonada pelo outro... pelo sósia dele.
– Ele tinha um sósia?
– Ah, sim, um rei. O rei da Ruritânia.
– Ah, é claro, agora eu me lembro. É daí que vem a palavra Ruritânia... não é
raro ouvir essa palavra. Sim, acho que eu de fato li esse livro. O rei da
Ruritânia, e Rudolf Rassendyll era o substituto do rei e se apaixonou pela
princesa Flávia, de quem o rei estava oficialmente noivo.
Lady Matilda soltou mais alguns suspiros profundos.
– Sim, Rudolf Rassendyll tinha herdado seus cabelos ruivos de uma
antepassada, e numa determinada parte do livro ele faz uma reverência
diante do retrato e diz alguma coisa sobre a... não consigo me lembrar do
nome agora... a condessa Amelia ou algo assim, de quem ele herdara sua
aparência e tudo mais. Então olhei para você e me lembrei de Rudolf
Rassendyll e você saiu e foi olhar o retrato de alguém que podia ter sido uma
antepassada sua para ver se ela se parecia com alguém. De modo que você
está metido num romance de algum tipo, não está?
– Por que raios a senhora pensa isso?
– Bem, não existem muitos padrões diferentes na vida, ora. A gente reconhece
os padrões na medida em que eles vão aparecendo. É como um livro de tricô.
Mais ou menos uns 65 tipos diferentes de pontos fantasia. Bem, a gente
reconhece um ponto particular quando põe os olhos nele. O seu ponto neste
momento, eu diria, é a aventura romântica – ela suspirou. – Mas você não vai
me contar nada, eu suponho.
– Não há nada para contar – disse Sir Stafford.
– Você sempre foi um mentiroso talentosíssimo. Bem, não importa. Traga sua
amiga para me ver uma hora dessas. Isso é tudo de que eu gostaria, antes que
os médicos consigam me matar com mais algum tipo novo de antibiótico que
tenham acabado de descobrir. As diferentes cores das pílulas que eu já tive
que tomar a essa altura! Você não acreditaria.
– Não sei por que motivo a senhora diz “ela”...
– Não sabe? Ah, pois bem, eu reconheço uma “ela” quando uma me cruza o
caminho. Existe alguma “ela” se esquivando na sua vida. O que me deixa
intrigada é como você a encontrou. Na Malásia, na mesa de conferências?
Filha de embaixador ou filha de ministro? Uma secretária bonita na piscina
da embaixada? Não, nenhuma probabilidade parece se encaixar... No navio
voltando para casa? Não, vocês não usam mais navios hoje em dia. No avião,
talvez.
– A senhora está chegando mais perto – Sir Stafford Nye não conseguiu deixar
de dizer.
– Ah! – arremeteu Lady Matilda. – Aeromoça?
Ele balançou a cabeça.
– Pois bem. Guarde o seu segredo. Eu hei de descobrir, não se preocupe.
Sempre tive um ótimo faro para coisas que acontecem com você. Para coisas
em geral também. É claro que eu estou por fora de tudo hoje em dia, mas eu
me encontro com os meus velhos camaradas de tempos em tempos e é bastante
fácil, fique sabendo, obter uma ou outra dica da parte deles. As pessoas estão
preocupadas. Em toda parte... elas estão preocupadas.
– A senhora quer dizer que existe uma espécie de descontentamento geral... um
distúrbio?
– Não, eu não quis dizer isso em absoluto. Eu quero dizer que os altos escalões
estão preocupados. Os nossos horríveis governos estão preocupados. O
estimado e sonolento Ministério das Relações Exteriores está preocupado.
Temos coisas que estão acontecendo, coisas que não deveriam existir.
Agitação.
– Agitações estudantis?
– Ah, as agitações estudantis são apenas uma das flores dessa árvore. E ela
está florescendo em todos os cantos e em todos os países, ou pelo menos é o
que parece. Eu tenho uma ótima garota que vem aqui e lê os jornais para mim
de manhã. Eu mesma não consigo mais ler com proveito. Ela tem uma ótima
voz. Escreve as cartas para mim e lê trechos dos jornais e é uma garota boa e
amável. Ela lê as coisas que eu quero saber, não as coisas que pensa que são
adequadas para mim. Sim, todos estão preocupados, até onde eu consigo
entender, e isso, fique sabendo, veio mais ou menos de um amigo muito antigo
meu.
– Um dos seus velhos camaradas militares?
– Ele é major-general, se é isso que você quer dizer, se aposentou muitos anos
atrás mas ainda está por dentro de tudo. A juventude é o que você pode
denominar como a ponta de lança de tudo. Mas não é isso o que é tão
preocupante. Eles... quem quer que sejam eles... trabalham através da
juventude. Da juventude de todos os países. A juventude incitada. A juventude
cantando suas palavras de ordem, palavras de ordem que soam como
emocionantes embora eles nem sempre saibam o que querem dizer. É tão fácil
começar uma revolução. É algo natural aos olhos da juventude. Todos os
jovens sempre se rebelaram. Você se rebela, você sai por aí derrubando tudo,
você quer que o mundo seja diferente do que é. Mas você também está cego.
Existem vendas nos olhos dos jovens. Eles não conseguem ver para onde estão
sendo levados pela situação. O que virá depois? O que há na frente deles? E
quem é que está por trás deles, os incitando? Isso é o que é assustador nessa
questão. Você sabe, tem alguém que vai mostrando a cenoura para fazer o
burro avançar e ao mesmo tempo tem alguém por trás incitando o burro com
uma vara.
– A senhora tem algumas fantasias extraordinárias.
– Não são apenas ideias fantasiosas, meu caro garoto. Isso era o que as
pessoas diziam sobre Hitler. Hitler e a juventude de Hitler. Mas foi uma
preparação longa e cuidadosa. Foi uma guerra planejada em detalhes. Era
uma quinta-coluna sendo plantada em diferentes países, já esperando os
super-homens. Os super-homens seriam a flor da nação alemã. Isso eles
pensavam e nisso eles acreditavam apaixonadamente. Talvez alguém esteja
acreditando em algo parecido com isso agora. É um credo que eles estarão
dispostos a aceitar... se lhes for oferecido de maneira inteligente o bastante.
– De quem a senhora está falando? Está se referindo aos chineses ou aos
russos? A senhora está querendo dizer o quê?
– Eu não sei. Não faço a menor ideia. Mas existe alguma coisa em algum lugar,
um sistema que segue essa mesma linha. O padrão outra vez, veja. O padrão!
Os russos? Atolados no comunismo, eu diria que eles são considerados
antiquados. Os chineses? Acho que se perderam no caminho. Uma dose
excessiva de camarada Mao, talvez. Eu não sei quem são essas pessoas que
estão fazendo o planejamento. Como eu já disse antes, é o porquê e o onde e o
quando e o quem.
– Muito interessante.
– É tão assustadora, essa mesma ideia que sempre retorna. A história se
repetindo. O jovem herói, o super-homem dourado que todos precisam seguir.
Ela fez uma pausa e depois falou:
– A mesma ideia, não é mesmo? O jovem Siegfried.