Passageiro para Frankfurt
Capítulo 18 - O pós-escrito de Pikeaway
CAPÍTULO 18
O pós-escrito de Pikeaway
A reunião se desfez nesse ponto. Dividiu-se num rearranjo definido.
O chanceler alemão, o primeiro-ministro, Sir George Packham, Gordon
Chetwynd e o dr. Reichardt saíram para almoçar na Downing Street.
O almirante Blunt, o coronel Munro, o coronel Pikeaway e Henry Horsham
permaneceram para fazer seus comentários com mais liberdade de expressão
do que teriam permitido a si mesmos caso tivessem permanecido os VIPs.
As primeiras observações foram um tanto desconexas.
– Graças a Deus levaram George Packham com eles – disse o coronel
Pikeaway. – Preocupação, inquietação, espanto, conjeturas... isso me deixa
abatido às vezes.
– Você deveria ter ido com eles, almirante – disse o coronel Munro. – Não
consigo ver Gordon Chetwynd ou George Packham sendo capazes de impedir
o nosso Cedric de ir fazer uma conferência de alto nível com os russos, os
chineses, os etíopes, os argentinos, ou em qualquer outro lugar para onde ele
se deixe levar por sua fantasia.
– Tenho mais o que fazer – disse o almirante, ríspido. – Tenho que ir para o
interior, vou ver uma velha amiga minha.
Ele olhou com alguma curiosidade para o coronel Pikeaway.
– Esse negócio sobre Hitler foi realmente uma surpresa para você, Pikeaway?
O coronel Pikeaway sacudiu a cabeça.
– Não foi, na verdade. Nós tomamos conhecimento de tudo sobre os rumores do
nosso Adolf aparecendo na América do Sul e mantendo a suástica ativa por
anos. Uma história com cinquenta por cento de chance de ser verdadeira.
Quem quer que fosse o camarada, um louco, um impostor com dons teatrais
ou o homem mesmo, ele bateu as botas bem depressa. Histórias sórdidas
nesse aspecto também... ele não era um grande trunfo para os seus
apoiadores.
– De quem era o corpo no bunker? Essa é ainda uma boa discussão – falou
Blunt. – Nunca houve nenhuma identificação definida. Os russos cuidaram
disso.
Ele se levantou, cumprimentou os demais com a cabeça e foi até a porta.
Munro afirmou, pensativo:
– Suponho que o dr. Reichardt saiba da verdade... mas ele quis bancar o
desconfiado.
– E quanto ao chanceler? – perguntou Horsham.
– Um homem sensato – grunhiu o almirante, virando a cabeça de onde estava,
no vão da porta. – Ele estava organizando o seu país do jeito que queria
quando esse negócio da juventude começou a brincar com o mundo civilizado. Uma pena!
Ele olhou com astúcia para o coronel Munro.
– E quanto ao Prodígio dos Cabelos Dourados? O filho de Hitler. Sabe tudo
sobre ele?
– Não precisamos nos preocupar – disse de forma inesperada o coronel
Pikeaway.
O almirante soltou a maçaneta da porta, voltou e se sentou.
– Só acredito vendo – disse o coronel Pikeaway. – Hitler nunca teve um filho.
– Você não pode ter certeza disso.
– Nós temos certeza. Franz Joseph, o jovem Siegfried, o Líder idolatrado, é
uma fraude das mais ordinárias, um impostor asqueroso. É filho de um
carpinteiro argentino e de uma loura bonita, uma cantora de ópera com
ínfima origem alemã; herdou a beleza e a voz sonora de sua mãe. Foi
cuidadosamente escolhido para o papel que deveria interpretar, preparado
para o estrelato. Tinha sido ator na adolescência... marcaram seu pé com a
suástica... uma história inventada para ele, cheia de detalhes românticos. Foi
tratado como um dedicado Dalai Lama.
– E você tem prova disso?
– Documentação completa – sorriu o coronel Pikeaway. – Uma das minhas
melhores agentes conseguiu tudo. Depoimentos juramentados, cópias
fotostáticas, declaração assinada, incluindo uma da mãe, evidência médica
quanto à data da cicatriz, cópia da certidão de nascimento original de Karl
Aguileros... evidência assinada de sua identidade com o dito Franz Joseph.
Os truques todos. A minha agente se safou com a documentação bem a tempo.
Estavam atrás dela; ela por pouco não foi apanhada, mas teve um lance de
sorte em Frankfurt.
– E onde estão esses documentos agora?
– Num lugar seguro. Esperando pelo momento certo para um espetacular
desmascaramento de um impostor de primeira...
– O governo sabe disso? O primeiro-ministro?
– Eu nunca conto tudo que sei aos políticos... não até que eu não possa mais
evitar, ou até que eu tenha certeza de que eles farão a coisa certa.
– Você é um demônio, Pikeaway – disse o coronel Munro.
– Alguém precisa ser – falou com tristeza o coronel Pikeaway.