Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 34 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo 22 - Juanita

CAPÍTULO 22

 

Juanita

 

Lord Altamount estava ditando.

A voz que antes tinha sido forte e dominante agora estava reduzida a uma

suavidade que ainda possuía um inesperado apelo especial. Parecia vir

delicadamente das sombras do passado para ser comovente num nível

emocional que um tom mais dominante não teria sido.

James Kleek anotava as palavras à medida que eram ditas, fazendo pausas

aqui e ali quando surgia um momento de hesitação, tolerando a demora e

esperando com gentileza.

– O idealismo – disse Lord Altamount – pode assomar e de fato geralmente

assoma quando instigado por um natural antagonismo à injustiça. Trata-se de

uma natural repulsa ao crasso materialismo. O natural idealismo da

juventude é alimentado cada vez mais por um desejo de destruir essas duas

fases da vida moderna, a injustiça e o crasso materialismo. O desejo de

destruir o que é maligno por vezes acarreta o amor à destruição apenas em

nome da destruição. Pode levar ao prazer da violência e à inflição da dor.

Tudo isso pode ser nutrido e fortalecido de fora por pessoas dotadas de uma

natural capacidade de liderança. O idealismo original surge num estágio pré-

adulto. Ele deveria e poderia levar a um desejo por um novo mundo. Deveria

também levar a um amor por todos os seres humanos, à boa vontade em

relação aos outros. Mas aqueles que aprenderam a amar a violência pela

violência jamais se tornarão adultos. Ficarão fixados em seu próprio

desenvolvimento retardado e assim permanecerão durante a vida toda.

O interfone tocou. Lord Altamount fez um gesto e James Kleek atendeu.

– O sr. Robinson está aqui.

– Ah, sim. Ele pode entrar. Podemos continuar com isso mais tarde.

James Kleek se levantou, deixando de lado o caderno de anotações e o lápis.

O sr. Robinson entrou. James Kleek aproximou dele uma cadeira que tivesse

proporções suficientes para receber suas formas sem desconforto. O sr.

Robinson sorriu seu agradecimento e acomodou-se ao lado de Lord

Altamount.

– Pois bem – falou Lord Altamount. – Tem algo novo para nós. Diagramas?

Círculos? Bolhas?

Ele parecia estar levemente bem-humorado.

– Não exatamente – disse o sr. Robinson, imperturbável –, é mais como

delinear o curso de um rio...

– Um rio? – repetiu Lord Altamount. – Que tipo de rio?

– Um rio de dinheiro – disse o sr. Robinson, na voz ligeiramente apologética

que ele costumava usar quando lidava com a sua especialidade. – Na verdade

é bem como um rio, o dinheiro... saindo de algum lugar e definitivamente indo

para determinado lugar. De fato muito interessante... isto é, se você tiver

interesse por essas coisas... Perceba, o dinheiro conta a sua própria

história...

James Kleek exibiu uma expressão de quem parecia não perceber, mas

Altamount disse:

– Eu entendo. Prossiga...

– O dinheiro está jorrando da Escandinávia... da Bavária... dos Estados

Unidos... do sudeste da Ásia... alimentado por tributários menores no

caminho...

– E vai para onde?

– Principalmente para a América do Sul... atendendo às demandas do agora

seguramente bem estabelecido Quartel-General da Juventude Militante...

– E representando quatro ou cinco dos círculos entrelaçados que você nos

mostrou... Armamentos, Drogas, Mísseis de Guerra Científica e Química, bem

como Finanças?

– Sim, acreditamos saber agora, de um modo bastante preciso, quem controla

esses vários grupos...

– E quanto ao círculo J, Juanita? – perguntou James Kleek.

– Por enquanto não podemos ter certeza.

– James tem certas ideias em relação a isso – disse Lord Altamount. – Espero

que ele esteja errado... sim, tenho essa esperança. A letra J inicial é

interessante. Ela representa o quê? Justiça? Julgamento?

– Uma dedicada assassina – disse James Kleek. – A fêmea da espécie é mais

mortal do que o macho.

– Existem precedentes históricos – admitiu Altamount. – Jael servindo

manteiga num prato senhorial para Sísera... e depois cravando o prego em

sua cabeça. Judite executando Holofernes e sendo aplaudida por seus

conterrâneos. Sim, pode haver algo aí.

– Então você acha que sabe quem é Juanita, é isso? – falou o sr. Robinson. –

Interessante.

– Bem, talvez eu esteja errado, senhor, mas ocorreram coisas que me fizeram

pensar...

– Sim – disse o sr. Robinson. – Todos nós tivemos de pensar, não é mesmo?

Melhor dizer quem você pensa que é, James.

– A condessa Renata Zerkowski.

– O que faz com que você coloque o alvo nela?

– Os lugares pelos quais ela andou, as pessoas com as quais manteve contato.

Têm ocorrido coincidências demais no jeito em que ela andou aparecendo em

diferentes lugares e tudo mais. Ela esteve na Bavária. Andou visitando a

Grande Charlotte por lá. E o que é mais: levou Stafford Nye junto. Acho que

isso é significativo...

– Você acha que os dois estão nisso juntos? – perguntou Altamount.

– Não gostaria de dizer isso. Não sei o bastante sobre ele, mas... – James fez

uma pausa.

– Sim – disse Lord Altamount –, surgiram dúvidas a respeito dele. Suspeitaram

dele desde o começo.

– Henry Horsham?

– Henry Horsham é um, talvez. O coronel Pikeaway não tem certeza, eu

imagino. Ele esteve sob observação. Provavelmente sabe também. Ele não é

nenhum idiota.

– Mais um deles – disse James Kleek, exasperado. – Extraordinário como nós

conseguimos criar essa gente, como confiamos neles, lhes contamos os nossos

segredos, permitimos que saibam o que estamos fazendo, ficamos dizendo:

“Se há uma pessoa na qual eu tenho total confiança é... ah, McLean, ou

Burgess, ou Philby, ou qualquer um da turma”. E agora... Stafford Nye.

– Stafford Nye, doutrinado por Renata, codinome Juanita – disse o sr.

Robinson.

– Houve aquele negócio curioso no aeroporto de Frankfurt – disse Kleek –, e

houve a visita a Charlotte. Stafford Nye, pelo que eu sei, desde então esteve

na América do Sul com ela. E quanto a Renata... nós sabemos onde ela está

agora?

– Ouso dizer que o sr. Robinson sabe – disse Lord Altamount. – Sabe, sr.

Robinson?

– Ela está nos Estados Unidos. Eu soube que, depois de permanecer com

amigos em Washington ou nas proximidades, ela esteve em Chicago, depois

na Califórnia, e que ela saiu de Austin para visitar um cientista importante.

Foi o que eu soube por último.

– O que ela está fazendo lá?

– Presumimos – disse o sr. Robinson, com sua voz calma – que ela está

tentando obter informações.

– Que informações?

O sr. Robinson suspirou.

– É o que qualquer um gostaria de saber. Presumimos que é a mesma

informação que nós estamos ansiosos por obter, e que ela está fazendo essa

investigação em nosso benefício. Mas a gente nunca sabe... pode ser que seja

para o outro lado.

Ele se virou e encarou Lord Altamount.

– Hoje à noite, ao que parece, o senhor está indo para a Escócia. É isso

mesmo?

– Exato.

– Não concordo que ele vá, senhor – disse James Kleek, depois virando um

rosto ansioso para o seu empregador. – O senhor não andou muito bem nos

últimos tempos. Será uma viagem muito cansativa, qualquer que seja o meio.

Pelo ar ou por trem. O senhor não pode deixar para Munro e Horsham?

– Na minha idade, é perda de tempo tomar cuidado – disse Lord Altamount. –

Se eu puder ser útil, gostarei de morrer gastando a sola do meu sapato, como

diz o ditado.

Ele sorriu para o sr. Robinson.

– Será bom você ir conosco, Robinson.