Passageiro para Frankfurt
Capítulo II
talvez ela quisesse. Interessante...
II
Grosvenor Square era o retrato da quietude. Havia estilhaços de vidro
quebrado nas calçadas ainda. Havia inclusive ovos, tomates esmagados e
fragmentos brilhantes de metal. Mas no alto as estrelas pairavam em paz. Um
carro atrás do outro se aproximava da porta da embaixada para pegar os
convidados que voltavam para casa. A polícia estava lá, nos cantos da praça,
mas sem ostentação. Tudo estava sob controle. Um dos políticos convidados,
preparando-se para sair, falou com um dos policiais. Ele voltou e murmurou:
– Nem tantas prisões. Oito. Estarão na Bow Street pela manhã. Mais ou menos
o grupo de sempre. Petronella esteve aqui, é claro, e Stephen e o seu bando.
Pois bem. Seria de se pensar que um dia desses eles cansariam.
– O senhor não mora muito longe daqui, não é mesmo? – falou uma voz no
ouvido de Sir Stafford Nye, uma voz profunda de contralto. – Eu posso levá-lo
no meu caminho para casa.
– Não, não. Eu posso muito bem caminhar. São apenas uns dez minutos.
– Não me vai dar nenhum trabalho, eu lhe garanto – disse a condessa
Zerkowski, acrescentando em seguida: – Eu estou no St. James’s Tower.
O St. James’s Tower era um dos mais novos hotéis da cidade.
– É muita gentileza de sua parte.
Um carro alugado luxuoso e grande a esperava. O chofer abriu a porta, a
condessa Zerkowski entrou e Sir Stafford a seguiu. Foi ela quem informou
para o chofer o endereço de Sir Stafford Nye. O carro partiu.
– Então você sabe onde eu moro? – ele perguntou.
– Por que não saberia?
Ele tentou adivinhar o que significava aquela resposta.
– Sim, por que não saberia mesmo... – ele disse. – Você sabe tanto, não sabe?
Stafford Nye acrescentou:
– Foi gentil de sua parte devolver o meu passaporte.
– Eu pensei que isso poderia livrá-lo de certas inconveniências. Seria mais
simples se você o queimasse. Já devem ter emitido um novo, eu presumo...
– Você presumiu corretamente.
cômoda alta. Foi posto lá hoje à noite. Pensei que comprar outro talvez não o
deixasse satisfeito, e, na verdade, achar um parecido poderia ser impossível.
– Ele vai ter mais valor para mim agora, depois de ter passado por certas...
aventuras – disse Stafford Nye. Ele acrescentou: – O manto se prestou ao
propósito.
O carro seguia roncando pela noite.
A condessa Zerkowski disse:
– Sim, o manto se prestou ao propósito, uma vez que eu estou aqui... viva.
Sir Stafford Nye não disse nada. Ele presumia, estando certo ou não, que a
jovem queria que ele lhe fizesse perguntas, que a pressionasse para saber
mais sobre aquilo que ela estivera fazendo, sobre o destino do qual escapara.
A jovem queria que ele demonstrasse curiosidade, mas Sir Stafford Nye não
faria isso. Não exibir curiosidade era inclusive uma diversão naquele
momento. Ele a ouviu soltar um riso contido. E no entanto imaginou, para sua
surpresa, que se tratava de um riso contente, um riso de satisfação, e não um
riso de impasse.
– Você gostou do jantar? – ela perguntou.
– Uma boa recepção, eu creio, mas Milly Jean sempre oferece boas recepções.
– Você a conhece bem, então?
– Eu a conheci quando ela não passava de uma garota em Nova York, antes de
se casar. É uma Vênus de bolso.
A condessa olhou para ele com ligeira surpresa.
– Essa é a sua definição para ela?
– Para dizer a verdade, não. Uma parente minha, uma senhora de idade, foi
quem me disse isso.
– Sim, não é uma descrição que a gente costuma ouvir a respeito de uma
mulher hoje em dia. Cai nela, eu creio, como uma luva. Mas...
– Mas o quê?
– Vênus é sedutora, não é? Ela também é ambiciosa?
– Você acha que Milly Jean é ambiciosa?
– Ah, acho sim. Acima de tudo.
– E você acha que ser a esposa do embaixador na corte de St. James não é
suficiente para satisfazer uma ambição?
– Claro que não – disse a condessa. – Isso é só o começo.
Stafford Nye não respondeu. Ele estava olhando para fora pela janela do
carro. Começou a falar alguma coisa mas logo se conteve. Notou o olhar
rápido que ela lhe dirigiu, mas ela também ficou calada. Foi somente quando
eles estavam passando sobre uma ponte por cima do Tâmisa que ele disse:
– Então você não está me dando uma carona para casa e não está voltando
para o St. James’s Tower. Nós estamos atravessando o Tâmisa. Já nos
encontramos assim uma vez, atravessando uma ponte. Para onde você está me
levando?
– Você se importa?
– Creio que sim.
– Sim, estou vendo que você se importa.
– Bem, é óbvio que você está seguindo de boa vontade os costumes atuais. Os
sequestros estão na moda hoje em dia, não? Você me sequestrou. Por quê?
– Porque, a exemplo da outra vez, eu estou precisando de você. – Ela
acrescentou: – E outros estão precisando de você.
– Não diga.
– E isso não é do seu agrado.
– Teria me agradado mais se alguém tivesse me convidado.
– Se eu tivesse convidado, você viria?
– Talvez sim, talvez não.
– Sinto muito.
– Sente mesmo?
Eles avançaram em silêncio pela noite. Não era um percurso de carro por uma
região isolada, eles estavam numa estrada principal. De vez em quando os
faróis revelavam um nome ou uma sinalização, de modo que Stafford Nye via
claramente o sentido da rota. Atravessaram Surrey e os primeiros trechos
residenciais de Sussex. Ocasionalmente eles pareciam tomar um desvio ou
uma estrada secundária que não era o caminho mais direto, mas nem mesmo
disso ele conseguia ter certeza. Ele quase perguntou para sua companheira se
aquela tática era empregada porque eles poderiam estar sendo seguidos
desde Londres. Mas Stafford Nye determinara com bastante firmeza que
manteria sua política de silêncio. Era ela quem deveria falar, era ela quem
deveria fornecer as informações. Ele a considerou, mesmo com as
informações adicionais que conseguira obter, uma figura enigmática.
Eles estavam andando de carro pelo campo depois de um jantar formal em
Londres. Estavam, ele tinha quase certeza, num dos tipos mais caros de
carros alugados. Isso era algo planejado de antemão. Razoável, sem nada de
duvidoso ou inesperado. Logo, Stafford Nye imaginou, ele descobriria para
onde estavam indo. Ou melhor: a não ser que estivessem seguindo rumo ao
litoral. Isso também era possível, ele pensou. Haslemere, ele viu numa placa.
Agora eles estavam contornando Godalming. Tudo muito simples e às claras.
A rica região campestre dos subúrbios abastados. Bosques agradáveis,
residências bonitas. Eles entraram em mais alguns desvios e então, enquanto
o carro finalmente diminuía sua velocidade, pareceram estar chegando ao
destino. Portões. Uma pequena e branca casa de guarda junto ao portões.
Subindo uma alameda, rododendros bem-cuidados de ambos os lados. Após
uma curva, se aproximaram da entrada de uma casa.
– Estilo Tudor da Bolsa de Valores – Sir Stafford Nye murmurou por entre os
dentes.
Sua companheira virou a cabeça de maneira intrigada.
– Foi só um comentário – disse Stafford Nye. – Não dê atenção. Constato que
agora estamos chegando ao destino que você escolheu...
– E você não admira muito a aparência do lugar.
– O terreno parece ser bem-cuidado – disse Sir Stafford, seguindo a luz dos
faróis enquanto o carro ia fazendo a curva. – Custa dinheiro conservar um
lugar como este em boa ordem. Eu diria que é uma casa confortável para
morar.
– Confortável mas não bonita. O homem que mora nela prefere o conforto à
beleza, devo dizer.
– Talvez sabiamente – disse Sir Stafford. – E no entanto, de certo modo, ele é
um grande apreciador da beleza, de certos tipos de beleza.
Eles estacionaram diante do alpendre bem iluminado. Sir Stafford desceu do
carro e ofertou um braço para ajudar sua companheira. O chofer havia
subido os degraus e apertado a campainha. Ele encarou a mulher com ar
inquiridor enquanto ela se aproximava pelos degraus.
– Não vai mais necessitar de mim essa noite, minha senhora?
– Não. Por enquanto é só. Nós telefonaremos de manhã.
– Boa noite. Boa noite, senhor.
Passos do lado de dentro se fizeram ouvir e a porta foi aberta. Sir Stafford
tinha esperado alguma espécie de mordomo, mas em vez disso apareceu uma
copeira alta como um granadeiro. Cabelos grisalhos, lábios apertados,
tremendamente confiável e competente, ele pensou. Uma qualidade
inestimável e difícil de encontrar nos dias de hoje. Digna de confiança, capaz
de agir com ferocidade.
– Receio que estejamos um pouco atrasados – disse Renata.
– O patrão está na biblioteca. Ele pediu que a senhora e o cavalheiro fossem
encontrá-lo lá quando chegassem.