Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 21 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo 12 - Bobo da corte

CAPÍTULO 12

 

Bobo da corte

 

Os dois deixaram o Schloss ao meio-dia, dando adeus à anfitriã. Depois eles

desceram de carro pela estrada serpenteante, com o Schloss nas alturas atrás

deles, e chegaram afinal, após muitas horas de percurso, a um reduto nas

Dolomitas – um anfiteatro nas montanhas onde eram promovidos encontros,

concertos e reuniões dos vários Grupos da Juventude.

Renata o trouxera até ali, sua guia, e de seu assento na rocha nua ele

observara os acontecimentos e ouvira tudo. Stafford Nye agora entendia um

pouco melhor aquilo que ela dissera horas antes. Essa grande aglomeração

humana, animada como todas as aglomerações humanas podem se tornar

quando são chamadas por um líder religioso evangelista na Madison Square,

em Nova York, ou nas sombras de uma igreja galesa, ou na massa de

torcedores de um jogo de futebol, ou nas grandes manifestações que

marchavam para atacar embaixadas e a polícia e as universidades e todo o

resto.

Ela o trouxera até ali para lhe mostrar o significado daquela frase isolada: “O

jovem Siegfried”.

Franz Joseph, se esse era realmente o seu nome, havia discursado para a

multidão. Sua voz, subindo, baixando, com sua curiosa qualidade estimulante,

seu apelo emocional, havia dominado aquela multidão suspirante, quase

gemente, formada por homens e mulheres jovens. Cada palavra que ele havia

proferido parecera ser prenhe de significado, revelara um apelo

inacreditável. A multidão respondera como uma orquestra. A voz de Franz

Joseph atuara como a batuta do regente. E, no entanto, o que dissera mesmo

aquele garoto? Qual tinha sido a mensagem do jovem Siegfried? Não havia

palavras que ele conseguisse lembrar quando tudo chegou ao fim, mas ele

sabia que se sentira comovido, que lhe tinham sido prometidas coisas, que ele

havia sido levado ao entusiasmo. E agora tudo acabara. A multidão se

aglomerara em volta da plataforma rochosa, bradando, gritando. Algumas

das garotas haviam berrado com entusiasmo. Algumas delas haviam

desmaiado. “Que mundo estranho nós temos hoje”, ele pensou. Tudo sendo

usado o tempo inteiro para provocar emoção. Disciplina? Restrição?

Nenhuma dessas coisas tinha qualquer valor agora. Nada importava exceto

sentir.

“Que espécie de mundo”, pensou Stafford Nye, “poderia sair disso?”

Sua guia o tocara no braço, e os dois haviam se desemaranhado da multidão.

Eles tinham encontrado seu carro e o motorista os levara, avançando por

estradas com as quais estava evidentemente bem familiarizado, até uma

cidade e uma pousada na encosta de uma montanha onde havia quartos

reservados para eles.

Os dois logo saíram a pé da pousada e subiram uma encosta de montanha por

um caminho frequentemente percorrido até que chegaram a um assento.

Ficaram ali sentados por alguns momentos em silêncio. Foi então que

Stafford Nye disse de novo:

– Que papelão.

Por mais ou menos cinco minutos os dois permaneceram sentados,

contemplando o vale, e então Renata falou:

– E então?

– Você está me perguntando o quê?

– O que você pensa, até aqui, sobre tudo que mostrei?

– Não estou convencido – disse Stafford Nye.

Ela deu um suspiro, um suspiro profundo e inesperado.

– Era o que eu vinha esperando que você dissesse.

– Nada daquilo é verdade, certo? É um gigantesco espetáculo. Um espetáculo

montado por um produtor... todo um grupo de produtores, talvez. Aquela

mulher monstruosa paga o produtor. Nós não vimos o produtor. O que nós

vimos hoje foi a estrela do espetáculo.

– Qual é a sua opinião sobre ele?

– Ele também não é real – disse Stafford Nye. – Ele é só um ator. Um ator de

primeira categoria, produzido de maneira soberba.

Um som o surpreendeu. Era Renata rindo. Ela se levantou de seu assento;

parecia estar de súbito excitada, feliz, e ao mesmo tempo tinha um ar

levemente irônico.

– Eu sabia – ela disse. – Eu sabia que você iria ver. Eu sabia que você sentiria

onde estava pisando. Você sempre soube tudo sobre cada pequeno

acontecimento ao seu redor na vida, não é verdade? Você sempre reconheceu

as farsas, você sempre soube como as pessoas e as coisas realmente eram.

Não há necessidade de ir a Stratford e ver peças shakespearianas para saber

qual é o papel que lhe coube... os reis e os homens importantes precisam ter

um bobo... o bobo da corte que diz a verdade para o rei e usa o bom senso, e

faz graça com todas as coisas que estão enganando as outras pessoas.

– Então é isso o que eu sou? Um bobo da corte?

– Você mesmo não consegue perceber isso? Isso é o que nós queremos. É disso

que precisamos. “Papelão”, você disse. “Cartolina.” Um espetáculo

grandioso, bem produzido, esplêndido! E como você está certo! Mas as

pessoas são enganadas. Elas acham que algo é maravilhoso, ou acham que

algo é diabólico, ou acham que algo é terrivelmente importante. Claro que

não é... só que... só que é preciso descobrir justamente como mostrar às

pessoas... que a coisa toda, tudo, é simplesmente ridículo. Nada mais do que

ridículo. Isso é o que eu e você vamos fazer.

– A sua ideia, por acaso, é que no fim a gente acabe desmascarando tudo isso?

– Isso parece ser incrivelmente improvável, eu concordo. Mas você sabe: uma

vez que as pessoas são levadas a descobrir que algo não é real, que estão

somente lhes passando a perna numa manobra gigantesca, bem...

– Você está propondo pregar um evangelho do bom senso?

– Claro que não – disse Renata. – Ninguém iria dar ouvidos a isso, é ou não é?

– Não no presente momento.

– Não. Nós precisaremos lhes fornecer evidências... fatos... a verdade...

– Nós temos essas coisas?

– Sim. O que eu trouxe de volta comigo via Frankfurt... o que você me ajudou a

trazer em segurança para a Inglaterra...

– Eu não estou entendendo...

– Ainda não. Você saberá mais adiante. Por enquanto nós temos um papel para

interpretar. Estamos prontos e dispostos, ofegando de ânsia por sermos

doutrinados. Nós veneramos a juventude. Somos seguidores e crentes do

jovem Siegfried.

– Você é capaz de se sair bem nisso, sem dúvida. Não tenho tanta certeza

quanto a mim. Nunca tive muito sucesso enquanto adorador de qualquer

coisa. O bobo da corte não se dá bem nisso. Ele é o grande desmascarador.

Ninguém vai gostar muito disso no presente momento, não é mesmo?

– Claro que não. Não. Você não pode deixar esse seu lado aflorar. Exceto,

claro, quando falar sobre os seus mestres e superiores, políticos e

diplomatas, Ministério das Relações Exteriores, as instituições, todas as

outras coisas. Aí você pode se mostrar amargurado, malicioso, espirituoso,

ligeiramente cruel.

– Eu ainda não percebo a minha função na cruzada mundial.

– É uma função muito antiga, uma que todos apreciam e entendem. Algo para

você. É a sua inserção. Você não foi apreciado no passado, mas o jovem

Siegfried e tudo que ele representa estenderão a promessa de recompensa

para você. Porque você pode lhe fornecer todas as informações confidenciais

que ele quer ter sobre o seu próprio país, ele vai prometer a você posições de

poder nesse país nos bons tempos que virão.

– Você está insinuando que este é um movimento mundial. Isso é verdade?

– Claro que é. Bem como um desses furacões, sabe, que ganham nomes. Flora

ou Pequena Annie. Eles vêm do sul ou do norte ou do leste ou do oeste, mas

surgem do nada e destroem tudo. Isso é o que todos querem. Na Europa e na

Ásia e na América. Talvez África, embora lá não vá ser gerado muito

entusiasmo. Eles são bastante novatos no tocante a poder e tramoias e assim

por diante. Ah, sim, com toda certeza é um movimento mundial. Organizado

pela juventude e por toda a intensa vitalidade da juventude. Eles não têm

conhecimentos e não têm experiência, mas têm visão e vitalidade, e são

amparados pelo dinheiro. Rios e rios de dinheiro sendo injetados. Houve

materialismo demais, então pedimos algo diferente, e ganhamos. Mas como

isso é baseado em ódio, não tem como chegar a lugar algum. Não tem como

sair do chão. Você não se lembra de 1919? Todo mundo falando aos quatro

ventos, com uma expressão arrebatada, que o comunismo era a resposta para

tudo? A doutrina marxista iria produzir um novo céu aproximado de uma

nova terra. Tantas ideias incontáveis pairando por todos os lados. Mas então,

veja bem, quem você tem para colocar em prática essas ideias? No fim das

contas, você só tem os mesmos seres humanos que sempre teve. Você pode

criar um terceiro mundo agora, ou assim todos pensam, mas o terceiro mundo

vai dispor das mesmas pessoas que existem no primeiro mundo ou no segundo

mundo ou seja lá o nome que se queira dar. E quando você tem os mesmos

seres humanos organizando as coisas, eles decerto vão organizar tudo da

mesma maneira. Basta olhar a história.

– Por acaso alguém se importa em olhar a história hoje em dia?

– Não. Eles preferem olhar para um futuro imprevisível. Houve um tempo em

que a ciência prometia ser a resposta para tudo. Crenças freudianas e sexo

irreprimido seriam a próxima resposta para a infelicidade humana. Não mais

existiriam pessoas com transtornos mentais. Se alguém tivesse dito que as

instituições mentais ficariam ainda mais cheias como resultado da eliminação

das repressões, ninguém teria acreditado.

Stafford Nye a interrompeu:

– Quero saber uma coisa – disse Sir Stafford Nye.

– O que é?

– Para onde nós vamos agora?

– América do Sul. Possivelmente Paquistão ou Índia no caminho. E certamente

precisamos ir para os Estados Unidos. Tem muita coisa interessante

acontecendo por lá. Em especial na Califórnia...

– Universidades? – Sir Stafford suspirou. – Qualquer um fica logo cansado

com as universidades. Elas se repetem tanto.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos. A luz estava esmaecendo, mas um

cume de montanha se mostrava num vermelho suave.

Stafford Nye disse, com um tom nostálgico:

– Se nós pudéssemos ter um pouco mais de música agora... neste momento...

você sabe o que eu pediria?

– Mais Wagner? Ou você se libertou das amarras de Wagner?

– Não, você está completamente certa: mais Wagner. Eu gostaria de ter Hans

Sachs sentado embaixo de seu sabugueiro, dizendo sobre o mundo: “Loucos,

loucos, todos loucos...”.

– Sim, isso expressa bem. É uma música adorável, também. Mas nós não

estamos loucos. Nós somos lúcidos.

– Eminentemente lúcidos – disse Stafford Nye. – Essa vai ser a dificuldade. Há

mais uma coisa que eu quero saber.

– Pois não?

– Talvez você não vá querer me contar. Mas eu preciso saber. Nós vamos

desfrutar de um pouco de diversão com esse negócio louco que estamos

tentando?

– É claro que vamos. Por que não?

– Loucos, loucos, todos loucos... mas vamos nos divertir bastante com tudo. As

nossas vidas serão longas, Mary Ann?

– Provavelmente não – disse Renata.

– Esse é o espírito. Estou com você, minha camarada e minha guia.

Ganharemos um mundo melhor como resultado de nossos esforços?

– Eu não diria isso, mas poderemos obter um mundo mais bondoso. O mundo

está cheio de crenças sem bondade no momento.

– Isso é bom o bastante – disse Stafford Nye. – Vamos em frente!