Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 37 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo III

A enfermeira apareceu. Lançou um rápido olhar na direção do professor

Shoreham, mas ele fez um gesto de contestação e apontou para o outro lado

da sala, onde Horsham e Munro ainda seguravam Kleek, que se debatia. A

mão da enfermeira desceu até o bolso de seu uniforme.

Shoreham balbuciou:

– É Altamount. Um ataque cardíaco.

– Ataque cardíaco uma ova – rugiu Munro. – Tentativa de homicídio.

Ele parou.

– Segure o camarada – ele disse para Horsham, voando para o outro lado da

sala. – Sra. Cortman? Desde quando ingressou na profissão de enfermeira?

Nós a perdemos bastante de vista desde que a senhora escapuliu em

Baltimore.

Milly Jean ainda tentava tirar algo do bolso. Então sua mão retornou com uma

pequena pistola automática. Ela olhou de relance para Shoreham, mas Munro

bloqueou sua visão, e Lisa Neumann ficou parada na frente da poltrona de

Shoreham.

James Kleek gritou:

– Pegue Altamount, Juanita, rápido, pegue Altamount!

O braço de Milly Jean se ergueu num átimo e ela disparou.

James Kleek disse:

– Que belo tiro!

Lord Altamount tivera uma educação clássica. Ele murmurou com voz fraca,

olhando para James Kleek:

– Jamie? Et tu Brute? – e desfaleceu contra o espaldar de sua cadeira.

III

O dr. McCulloch olhou em volta, um pouco incerto quanto ao que diria ou faria

em seguida. A noite tinha sido uma experiência um tanto incomum para ele.

Lisa Neumann se aproximou do doutor e pôs um copo a seu lado.

– Um grogue quente – ela disse.

– Eu sempre soube que você era uma mulher entre mil, Lisa – ele deu um gole

no grogue com prazer. – Preciso dizer que eu gostaria de saber o que houve...

mas deduzo que tudo seja tão sigiloso que ninguém vai me contar nada.

– O professor... ele está bem, não está?

– O professor? – ele olhou com gentileza para o rosto ansioso de Lisa. – Ele

está ótimo. Se você quer saber, isso fez maravilhas para ele.

– Eu pensei que talvez o choque...

– Eu estou bastante bem – disse Shoreham. – Era de um tratamento de choque

que eu estava precisando. Eu me sinto... como dizer?... vivo outra vez.

Ele parecia estar surpreso. McCulloch disse para Lisa:

– Notou como a voz dele está bem mais forte? A apatia é o pior inimigo nesses

casos... o que ele quer é trabalhar novamente... o estímulo de um trabalho

mental. A música é excelente... manteve o professor apaziguado e o ensinou a

apreciar a vida de uma maneira branda. Mas ele é de fato um homem de

grande potência intelectual... está sentindo falta da atividade mental que era

a essência da vida para ele. Faça com que ele comece tudo de novo, se você

puder.

Ele fez um gesto encorajador com a cabeça enquanto Lisa o olhava com um ar

desconfiado.

– Eu acho, dr. McCulloch – disse o coronel Munro –, que nós lhe devemos

algumas explicações sobre o que aconteceu nesta noite, muito embora, como

supõe o senhor, os poderes constituídos por certo exigirão uma política de

sigilo. A morte de Lord Altamount... – ele hesitou.

– A bala não o matou realmente – disse o médico. – A morte se deveu ao

choque. Aquela injeção hipodérmica teria surtido o efeito... estricnina. O

jovem...

– Eu tirei a injeção dele bem a tempo – disse Horsham.

– Ele foi a raposa no galinheiro o tempo todo? – perguntou o médico.

– Sim... visto com confiança e afeição por mais de sete anos. O filho de um dos

mais antigos amigos de Lord Altamount...

– Acontece. E a dama... cúmplice dele, estou correto?

– Sim. Ela conseguiu o posto aqui com credenciais falsas. Também é procurada

pela polícia por assassinato.

– Assassinato?

– Sim. Pelo assassinato de seu marido, Sam Cortman, o embaixador americano.

Ela atirou nele nos degraus da embaixada e depois contou uma bela história

sobre certos jovens, mascarados, atacando Cortman.

– Por que foi que a mulher acabou com ele? Razões políticas ou pessoais?

– Ele descobriu algumas das atividades dela, nós pensamos.

– Eu diria que ele suspeitou de infidelidade – disse Horsham – e em vez disso

descobriu um vespeiro de espionagem e conspiração, com a mulher dele

comandando o espetáculo. Não soube como lidar com a situação. Um

camarada simpático, mas meio lento nas ideias... e ela teve o bom senso de

agir depressa. Incrível como ela demonstrou pesar na cerimônia em memória

dele...

– Memória... – disse o professor Shoreham.

Todos, ligeiramente sobressaltados, voltaram-se para ele.

– É uma palavra difícil de dizer, memória... mas é o que eu quero. Lisa, nós

dois teremos de voltar ao trabalho.

– Mas, Robert...

– Eu estou vivo de novo. Pergunte ao doutor se eu deveria viver os meus dias

sossegado.

Lisa dirigiu um olhar interrogativo para o dr. McCulloch.

– Se o senhor procurar o sossego, vai encurtar a sua vida e afundar de novo na

apatia...

– Viu só? – falou Shoreham. – Está na mo-moda... nos círculos médicos hoje em

dia. Fazer o sujeito... mesmo que ele esteja... às... portas da morte... continuar

trabalhando...

O sr. McCulloch riu e se levantou.

– Isso não chega a estar errado. Vou mandar algumas pílulas para ajudar.

– Não vou tomar pílula nenhuma.

– Claro que vai.

Diante da porta o médico parou.

– Eu só gostaria de saber... como foi que a polícia apareceu tão depressa?

– O líder de esquadra Andrews – disse Munro – cuidou de tudo. Chegou na

hora certa. Nós sabíamos que a mulher estava por perto em algum lugar, mas

não tínhamos ideia de que ela já estava na casa.

– Bem... estou indo. Tudo isso que me contaram é verdade? Parece que eu vou

acordar a qualquer minuto, tendo pegado no sono no meio do filme de ação

mais recente. Espiões, assassinatos, traidores, espionagem, cientistas...

Ele saiu.

Houve um silêncio.

O professor Shoreham disse lenta e cuidadosamente:

– De volta ao trabalho...

Lisa disse, como as mulheres sempre disseram:

– Você precisa ter cuidado, Robert...

– Não... não preciso ter cuidado. O tempo pode ser curto.

Shoreham falou de novo:

– Memória...

– O que você quer dizer? Você já disse isso antes.

– Em memória. Sim. De Edward. O memorial dele! Eu sempre pensei que ele

tinha um rosto de mártir.

Shoreham parecia estar perdido em seus pensamentos.

– Eu gostaria de encontrar Gottlieb. Talvez ele esteja morto. Bom homem com

quem trabalhar. Com ele e com você, Lisa... tire o negócio do banco...

– O professor Gottlieb está vivo... na Fundação Baker, em Austin, Texas – disse

o sr. Robinson.

– Você está pensando em fazer o quê? – perguntou Lisa.

– O Benvo, é claro! Um memorial para Edward Altamount. Ele morreu por

isso, não foi? Ninguém deveria morrer em vão.