Passageiro para Frankfurt
Capítulo III
A enfermeira apareceu. Lançou um rápido olhar na direção do professor
Shoreham, mas ele fez um gesto de contestação e apontou para o outro lado
da sala, onde Horsham e Munro ainda seguravam Kleek, que se debatia. A
mão da enfermeira desceu até o bolso de seu uniforme.
Shoreham balbuciou:
– É Altamount. Um ataque cardíaco.
– Ataque cardíaco uma ova – rugiu Munro. – Tentativa de homicídio.
Ele parou.
– Segure o camarada – ele disse para Horsham, voando para o outro lado da
sala. – Sra. Cortman? Desde quando ingressou na profissão de enfermeira?
Nós a perdemos bastante de vista desde que a senhora escapuliu em
Baltimore.
Milly Jean ainda tentava tirar algo do bolso. Então sua mão retornou com uma
pequena pistola automática. Ela olhou de relance para Shoreham, mas Munro
bloqueou sua visão, e Lisa Neumann ficou parada na frente da poltrona de
Shoreham.
James Kleek gritou:
– Pegue Altamount, Juanita, rápido, pegue Altamount!
O braço de Milly Jean se ergueu num átimo e ela disparou.
James Kleek disse:
– Que belo tiro!
Lord Altamount tivera uma educação clássica. Ele murmurou com voz fraca,
olhando para James Kleek:
– Jamie? Et tu Brute? – e desfaleceu contra o espaldar de sua cadeira.
III
O dr. McCulloch olhou em volta, um pouco incerto quanto ao que diria ou faria
em seguida. A noite tinha sido uma experiência um tanto incomum para ele.
Lisa Neumann se aproximou do doutor e pôs um copo a seu lado.
– Um grogue quente – ela disse.
– Eu sempre soube que você era uma mulher entre mil, Lisa – ele deu um gole
no grogue com prazer. – Preciso dizer que eu gostaria de saber o que houve...
mas deduzo que tudo seja tão sigiloso que ninguém vai me contar nada.
– O professor... ele está bem, não está?
– O professor? – ele olhou com gentileza para o rosto ansioso de Lisa. – Ele
está ótimo. Se você quer saber, isso fez maravilhas para ele.
– Eu pensei que talvez o choque...
– Eu estou bastante bem – disse Shoreham. – Era de um tratamento de choque
que eu estava precisando. Eu me sinto... como dizer?... vivo outra vez.
Ele parecia estar surpreso. McCulloch disse para Lisa:
– Notou como a voz dele está bem mais forte? A apatia é o pior inimigo nesses
casos... o que ele quer é trabalhar novamente... o estímulo de um trabalho
mental. A música é excelente... manteve o professor apaziguado e o ensinou a
apreciar a vida de uma maneira branda. Mas ele é de fato um homem de
grande potência intelectual... está sentindo falta da atividade mental que era
a essência da vida para ele. Faça com que ele comece tudo de novo, se você
puder.
Ele fez um gesto encorajador com a cabeça enquanto Lisa o olhava com um ar
desconfiado.
– Eu acho, dr. McCulloch – disse o coronel Munro –, que nós lhe devemos
algumas explicações sobre o que aconteceu nesta noite, muito embora, como
supõe o senhor, os poderes constituídos por certo exigirão uma política de
sigilo. A morte de Lord Altamount... – ele hesitou.
– A bala não o matou realmente – disse o médico. – A morte se deveu ao
choque. Aquela injeção hipodérmica teria surtido o efeito... estricnina. O
jovem...
– Eu tirei a injeção dele bem a tempo – disse Horsham.
– Ele foi a raposa no galinheiro o tempo todo? – perguntou o médico.
– Sim... visto com confiança e afeição por mais de sete anos. O filho de um dos
mais antigos amigos de Lord Altamount...
– Acontece. E a dama... cúmplice dele, estou correto?
– Sim. Ela conseguiu o posto aqui com credenciais falsas. Também é procurada
pela polícia por assassinato.
– Assassinato?
– Sim. Pelo assassinato de seu marido, Sam Cortman, o embaixador americano.
Ela atirou nele nos degraus da embaixada e depois contou uma bela história
sobre certos jovens, mascarados, atacando Cortman.
– Por que foi que a mulher acabou com ele? Razões políticas ou pessoais?
– Ele descobriu algumas das atividades dela, nós pensamos.
– Eu diria que ele suspeitou de infidelidade – disse Horsham – e em vez disso
descobriu um vespeiro de espionagem e conspiração, com a mulher dele
comandando o espetáculo. Não soube como lidar com a situação. Um
camarada simpático, mas meio lento nas ideias... e ela teve o bom senso de
agir depressa. Incrível como ela demonstrou pesar na cerimônia em memória
dele...
– Memória... – disse o professor Shoreham.
Todos, ligeiramente sobressaltados, voltaram-se para ele.
– É uma palavra difícil de dizer, memória... mas é o que eu quero. Lisa, nós
dois teremos de voltar ao trabalho.
– Mas, Robert...
– Eu estou vivo de novo. Pergunte ao doutor se eu deveria viver os meus dias
sossegado.
Lisa dirigiu um olhar interrogativo para o dr. McCulloch.
– Se o senhor procurar o sossego, vai encurtar a sua vida e afundar de novo na
apatia...
– Viu só? – falou Shoreham. – Está na mo-moda... nos círculos médicos hoje em
dia. Fazer o sujeito... mesmo que ele esteja... às... portas da morte... continuar
trabalhando...
O sr. McCulloch riu e se levantou.
– Isso não chega a estar errado. Vou mandar algumas pílulas para ajudar.
– Não vou tomar pílula nenhuma.
– Claro que vai.
Diante da porta o médico parou.
– Eu só gostaria de saber... como foi que a polícia apareceu tão depressa?
– O líder de esquadra Andrews – disse Munro – cuidou de tudo. Chegou na
hora certa. Nós sabíamos que a mulher estava por perto em algum lugar, mas
não tínhamos ideia de que ela já estava na casa.
– Bem... estou indo. Tudo isso que me contaram é verdade? Parece que eu vou
acordar a qualquer minuto, tendo pegado no sono no meio do filme de ação
mais recente. Espiões, assassinatos, traidores, espionagem, cientistas...
Ele saiu.
Houve um silêncio.
O professor Shoreham disse lenta e cuidadosamente:
– De volta ao trabalho...
Lisa disse, como as mulheres sempre disseram:
– Você precisa ter cuidado, Robert...
– Não... não preciso ter cuidado. O tempo pode ser curto.
Shoreham falou de novo:
– Memória...
– O que você quer dizer? Você já disse isso antes.
– Em memória. Sim. De Edward. O memorial dele! Eu sempre pensei que ele
tinha um rosto de mártir.
Shoreham parecia estar perdido em seus pensamentos.
– Eu gostaria de encontrar Gottlieb. Talvez ele esteja morto. Bom homem com
quem trabalhar. Com ele e com você, Lisa... tire o negócio do banco...
– O professor Gottlieb está vivo... na Fundação Baker, em Austin, Texas – disse
o sr. Robinson.
– Você está pensando em fazer o quê? – perguntou Lisa.
– O Benvo, é claro! Um memorial para Edward Altamount. Ele morreu por
isso, não foi? Ninguém deveria morrer em vão.