Passageiro para Frankfurt

Agatha Christie · Capítulo 35 de 38

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Passageiro para Frankfurt

Capítulo 23 - Viagem à Escócia

CAPÍTULO 23

 

 

Viagem à Escócia

 

I

O líder de esquadra tentava imaginar qual era o motivo daquilo. Ele estava

acostumado a ser parcialmente deixado à margem. Era coisa da Segurança,

ele supunha. Para não correr riscos. Ele já tinha feito aquele tipo de ação

mais de uma vez. Levar um avião com pessoas para um lugar incomum, com

passageiros incomuns, tomando cuidado para não fazer nenhuma pergunta

exceto as que fossem de uma natureza inteiramente factual. Ele conhecia

alguns dos passageiros naquele voo, mas não todos. Lord Altamount ele

reconhecia. Um homem doente, um homem muito doente, ele pensou, um

homem que, julgava ele, mantinha-se vivo por pura força de vontade. O

homem de olhar vivo e vigilante com ele era o seu cão de guarda especial,

presumivelmente. Cuidando não tanto de sua segurança quanto de seu bem-

estar. Um cão fiel que ficava o tempo todo a seu lado. Ele tinha consigo

fortificantes, estimulantes, todos os truques da medicina. O líder de esquadra

especulou por que não havia também um médico em companhia do velho.

Teria sido uma precaução a mais. O velho parecia uma caveira. Uma caveira

nobre. Algo feito de mármore num museu. Henry Horsham o líder de esquadra

conhecia bem. Ele conhecia vários da turma da Segurança. E o coronel

Munro, parecendo ligeiramente menos feroz do que de costume, um tanto

mais preocupado. Não muito feliz de um modo geral. Havia também um

homem enorme de rosto amarelado. Poderia ser estrangeiro. Asiático? O que

ele estava fazendo, indo de avião para o norte da Escócia? O líder de

esquadra se dirigiu com deferência para o coronel Munro:

– Tudo pronto, senhor? O carro está aqui esperando.

– Qual é a distância exata?

– Vinte e sete quilômetros, senhor, estrada acidentada mas não tão ruim assim.

Há mantas de viagem no carro.

– Você sabe as ordens? Repita, por favor, se puder, Andrews.

O líder de esquadra repetiu as ordens e o coronel assentiu com satisfação.

Quando o carro finalmente se afastou, o líder de esquadra o observou à

distância, perguntando a si mesmo por que raios aquelas pessoas específicas

estavam ali naquela viagem pelos morros desertos rumo a um venerável e

antigo castelo onde um homem doente vivia em reclusão sem amigos ou

visitantes no correr dos dias. Horsham sabia, ele supunha. Horsham devia

saber um monte de coisas estranhas. Ah, ora, por certo Horsham não lhe

contaria nada.

O carro foi conduzido com cautela e competência. Entrou afinal num caminho

de cascalho e parou diante do pórtico. Era um edifício com torres de pedra

maciça. Luzes pendiam de ambos os lados da grande porta. A porta se abriu

antes que houvesse qualquer necessidade de tocar uma campainha ou

solicitar admissão.

Uma mulher escocesa com mais de sessenta anos, dotada de um rosto severo e

azedo, ficou parada no vão da porta. O chofer ajudou os ocupantes do carro a

descer.

James Kleek e Horsham ajudaram Lord Altamount a sair e o apoiaram na

subida dos degraus. A escocesa deu um passo para o lado e lhe fez uma

respeitosa mesura. Ela disse:

– Boa noite, vossa senhoria. O patrão está esperando. Ele sabe que os senhores

chegaram. Temos quartos preparados e fogos acesos para os senhores em

todos.

Outra figura tinha surgido no saguão. Uma mulher alta e esguia com entre

cinquenta e sessenta anos, ainda bonita. Seu cabelo preto era partido no

meio; ela tinha testa alta, nariz aquilino e pele bronzeada.

– Eis aqui a srta. Neumann, que vai acompanhá-los – disse a mulher escocesa.

– Obrigada, Janet – disse a srta. Neumann. – Certifique-se de que as lareiras

sejam mantidas acesas nos quartos.

– Farei isso.

Lord Altamount apertou-lhe a mão.

– Boa noite, srta. Neumann.

– Boa noite, Lord Altamount. Espero que o senhor não esteja cansado demais

por causa da viagem.

– Tivemos um voo muito bom. Este é o coronel Munro, srta. Neumann. Estes

são o sr. Robinson, Sir James Kleek e o sr. Horsham, do Departamento de

Segurança.

– Eu me recordo do sr. Horsham de alguns anos atrás, eu creio.

– Eu não tinha esquecido – disse Henry Horsham. – Foi na Fundação Leveson.

A senhorita já era, eu creio, secretária do professor Shoreham naquela

época...

– Primeiro eu fui assistente dele no laboratório, e depois sua secretária. Ainda

sou, até onde ele precisa, sua secretária. Ele também precisa ter uma

enfermeira morando aqui de modo mais ou menos permanente. É preciso

haver mudanças de tempos em tempos... a srta. Ellis, que está conosco agora,

substituiu a srta. Bude apenas dois dias atrás. Sugeri que ela ficasse bem

próxima da sala na qual nós mesmos estaremos. Pensei que os senhores

fossem preferir privacidade, mas que ela não deveria estar longe do nosso

alcance caso precisássemos dela.

– A saúde do professor está muito mal? – perguntou o coronel Munro.

– Ele não sofre de fato – disse a srta. Neumann –, mas os senhores precisam

estar preparados, isto é, caso não tenham visto o professor por um longo

tempo. Ele é só o vestígio de um homem.

– Apenas mais um momento, antes que a senhorita nos leve até ele. Seus

processos mentais não estão esgotados demais? Ele consegue entender o que

lhe dizem?

– Sem dúvida, ele consegue entender perfeitamente, mas, visto que está

semiparalisado, ele não consegue falar com grande clareza, embora isso

possa variar, e é incapaz de andar sem ajuda. Seu cérebro, na minha opinião,

está ótimo como sempre esteve. A única diferença é que ele se cansa com

muita facilidade agora. Bem, os senhores vão querer beber alguma coisa

primeiro?

– Não – disse Lord Altamount. – Não, não quero esperar. O assunto que nos

trouxe aqui é muito urgente, então se a senhorita puder nos levar até ele

agora... ele está nos esperando?

– Está, sim – disse Lisa Neumann.

Ela tomou a frente subindo um lance de escadas, seguindo por um corredor e

abrindo a porta para uma sala de tamanho mediano. Havia tapeçarias na

parede, e cabeças de cervos olhavam do alto para eles; o lugar tinha sido um

pavilhão de caça. Pouco havia mudado na mobília e na decoração. Havia um

grande toca-discos num dos cantos do aposento.

O homem alto estava sentado numa poltrona junto ao fogo. Sua cabeça tremia

um pouco, bem como a sua mão esquerda. A pele do rosto estava decaída num

dos lados. Sem fazer rodeios, só seria possível descrevê-lo de uma maneira:

uma ruína. Um homem que já tinha sido alto, vigoroso, forte. Ele tinha a

fronte esbelta, olhos profundos e queixo rugoso e determinado. Os olhos, por

baixo das sobrancelhas grossas, eram inteligentes. Ele disse algo. Sua voz

não era fraca, produzia sons bastante claros mas nem sempre reconhecíveis.

A faculdade da fala lhe fugira só em parte; ele era ainda inteligível.

Lisa Neumann parou ao lado dele, observando seus lábios, para que pudesse

interpretar o que ele dizia caso fosse necessário.

– O professor Shoreham os saúda. Ele está muito contente por vê-los aqui,

Lord Altamount, coronel Munro, Sir James Kleek, sr. Robinson e sr. Horsham.

Ele me pede que eu lhes diga que sua audição está razoavelmente boa.

Qualquer coisa que os senhores lhe disserem ele terá condições de ouvir. Se

houver alguma dificuldade eu poderei ajudar. O que ele quiser lhes dizer ele

terá condições de transmitir por mim. Se ele ficar cansado demais para

articular palavras, eu consigo ler seus lábios, e nós também conversamos

numa linguagem de sinais aperfeiçoada se houver qualquer dificuldade.

– Eu tentarei – disse o coronel Munro – não desperdiçar o seu tempo, para que

se canse tão pouco quanto possível, professor Shoreham.

O homem na poltrona curvou sua cabeça em reconhecimento às palavras.

– Algumas perguntas eu posso fazer à srta. Neumann.

A mão de Shoreham foi estendida num gesto débil em direção à mulher a seu

lado. Sons saíram de seus lábios, mais uma vez não entendidos pelos demais,

mas ela os traduziu rapidamente.

– Ele diz que confia em mim para transcrever qualquer coisa que os senhores

queiram dizer para ele, ou eu para os senhores.

– O senhor, creio eu, já recebeu uma carta minha – disse o coronel Munro.

– Correto – disse a srta. Neumann. – O professor Shoreham recebeu a sua

carta e tem conhecimento do conteúdo.

A enfermeira abriu a porta numa pequena fresta – mas não entrou. Ela falou

num sussurro baixo:

– Tem algo que eu possa fazer ou arranjar, srta. Neumann? Para algum dos

hóspedes ou para o professor Shoreham?

– Acho que não há nada, obrigada, srta. Ellis. Eu ficaria contente, no entanto, Eles notaram a expressão alarmada que surgiu nos olhos do professor.

se a senhorita pudesse permanecer na sala de estar logo ali no corredor, para

o caso de precisarmos de algo.

– Certamente, eu entendo.

Ela se afastou, fechando a porta devagar.

– Não queremos perder tempo – disse o coronel Munro. – Sem dúvida o

professor Shoreham se mantém inteirado dos acontecimentos recentes.

– Completamente inteirado – disse a srta. Neumann –, até onde vai seu

interesse.

– Ele acompanha os avanços científicos e coisas do tipo?

Robert Shoreham balançou a cabeça de um lado ao outro. Ele mesmo

respondeu:

– Tudo isso acabou para mim.

– Mas o senhor tem noção, por cima, do estado no qual se encontra o mundo?

O sucesso daquilo que chamam de Revolução da Juventude. A tomada do

poder por forças jovens altamente aparelhadas.

A srta. Neumann disse:

– Ele se mantém inteirado de tudo o que está acontecendo... isto é, no sentido

político.

– O mundo de hoje está entregue à violência, à dor, a dogmas revolucionários,

a uma estranha e inacreditável filosofia do controle por uma minoria

anárquica.

Uma leve expressão de impaciência passou pelo rosto macilento.

– Ele sabe disso tudo – disse o sr. Robinson, manifestando-se de modo

inesperado. – Não é preciso repassar tudo isso mais uma vez. Ele é um homem

que sabe de tudo.

Ele perguntou:

– O senhor se lembra do almirante Blunt?

Outra vez a cabeça foi curvada. Algo semelhante a um sorriso se mostrou nos

lábios retorcidos.

– O almirante Blunt se lembra de um certo trabalho científico que o senhor fez

num determinado projeto... o senhor chama de “projetos” essas coisas?

Projeto Benvo.

– Projeto Benvo – disse a srta. Neumann. – O senhor está recuando bastante,

sr. Robinson, para recordar isso.

– Foi um projeto seu, não foi? – perguntou o sr. Robinson.

– Sim, foi um projeto dele.

A srta. Neumann agora falava por ele com maior facilidade, de maneira

natural.

– Não podemos usar armas nucleares, não podemos usar explosivos ou gás ou

química, mas o seu projeto, o Projeto Benvo, nós poderíamos usar.

Houve um silêncio e ninguém falou nada. E então mais uma vez os sons

esquisitos e distorcidos saíram dos lábios do professor Shoreham.

– Ele diz, é claro – falou a srta. Neumann –, que o Benvo poderia ser usado

com sucesso nas circunstâncias em que nos encontramos...

O homem na poltrona tinha se virado para ela e lhe dizia alguma coisa.

– Ele quer que eu lhes explique – disse a srta. Neumann. – O Projeto B, depois

chamado de Projeto Benvo, foi algo em que ele trabalhou por muitos anos,

mas que afinal deixou de lado por razões pessoais.

– Foi porque ele fracassou em fazer com que o projeto se materializasse?

– Não, ele não fracassou – disse Lisa Neumann. – Nós não fracassamos. Eu

trabalhei com ele nesse projeto. Ele o deixou de lado por certas razões, mas

não fracassou. Ele obteve sucesso. Estava no caminho certo, fez

desenvolvimentos e testes em várias experiências de laboratório, e o

experimento funcionou.

Ela se virou de novo para o professor Shoreham, fez alguns gestos com a mão,

tocando os lábios, a orelha e a boca numa estranha espécie de código de

sinais.

– Perguntei se ele quer que eu explique o que faz exatamente o Projeto Benvo.

– Gostaríamos muito que a senhorita explicasse.

– E ele quer saber como foi que os senhores ficaram sabendo do projeto.

– Nós ficamos sabendo – disse o coronel Munro – através de uma velha amiga

sua, professor Shoreham. Não foi com o almirante Blunt, ele não conseguia se

lembrar de grande coisa, mas com a outra pessoa com quem o senhor tinha

falado a respeito, Lady Matilda Cleckheaton.

De novo a srta. Neumann se virou para o professor e observou seus lábios. Ela

sorriu de leve.

– Ele diz que achava que Matilda tivesse morrido muito tempo atrás.

– Ela está vivíssima. Foi ela quem quis que nós soubéssemos sobre essa

descoberta do professor Shoreham.

– O professor Shoreham vai lhes falar sobre os pontos principais do que os

senhores quiserem saber, mas faz questão de adverti-los de que esse

conhecimento será um tanto inútil. Documentos, fórmulas, cálculos e provas

dessa descoberta foram todos destruídos. Mas, visto que a única maneira de

satisfazer as suas perguntas é lhes explicar o esboço geral do Projeto Benvo,

eu posso lhes dizer com bastante clareza no que ele consiste. Os senhores

conhecem os usos e os propósitos do gás lacrimogêneo usado pela polícia no

controle de multidões em tumultos, manifestações violentas e assim por

diante. O gás induz um acesso de choro, lágrimas dolorosas e inflamação dos

seios paranasais.

– E se trata de algo do mesmo tipo?

– Não, não é nem um pouco do mesmo tipo, mas pode ter o mesmo propósito.

Veio à mente dos cientistas que seria possível transformar não apenas as

principais reações e sensações de um homem, mas também suas

características mentais. Você pode transformar o caráter de um homem. As

qualidades de um afrodisíaco são bem conhecidas. Ele leva a um aumento do

desejo sexual, e existem vários medicamentos ou gases ou operações

glandulares... Qualquer uma dessas coisas pode levar a uma mudança no seu

vigor mental, a um acréscimo de energia, como por alterações na glândula

tireoide, e o professor Shoreham quer lhes dizer que existe um certo

processo... Ele não vai lhes dizer se é glandular ou um gás que pode ser

fabricado, mas existe algo que pode transformar um homem em sua

perspectiva perante a vida, em sua reação às pessoas e à vida em geral. Ele

pode estar num estado de fúria homicida, ele pode ser patologicamente

violento, e no entanto, por influência do Projeto Benvo, ele se transforma em

algo, ou melhor, em alguém muito diferente. Ele se torna... e só existe uma

palavra para isso, eu creio, uma palavra incorporada no nome... ele se torna

benevolente. Ele quer beneficiar os outros. Transpira bondade. Tem horror de

causar dor ou infligir violência. O Benvo pode ser aplicado numa grande

área, pode afetar centenas, milhares de pessoas caso seja fabricado em

quantidades grandes o suficiente e distribuído com sucesso.

– Quanto tempo ele dura? – perguntou o coronel Munro. – Vinte e quatro

horas? Mais?

– O senhor não compreendeu – disse a srta. Neumann. – Ele é permanente.

– Permanente? Você mudou a natureza de um homem, você alterou um

componente, um componente físico, é claro, de seu ser, produzindo o efeito de

uma mudança permanente em sua natureza. Não pode voltar atrás? Você não

pode fazê-lo voltar a ser o que era. Isso tem de ser aceito como uma mudança

permanente?

– Sim. Foi, talvez, antes de tudo uma descoberta de interesse médico no início,

mas o professor Shoreham concebera o projeto como um repressor para ser

usado em guerras, em revoltas em massa, distúrbios, revoluções, anarquia.

Não pensou nele em termos meramente médicos. O invento não produz

felicidade no sujeito, apenas um grande desejo de que os outros sejam felizes.

É um efeito, ele diz, que todas as pessoas sentem em suas vidas num

determinado momento. Elas sentem um grande desejo de fazer alguém, uma

pessoa ou muitas pessoas... de deixá-las confortáveis, felizes, com boa saúde,

todas essas coisas. E uma vez que as pessoas podem e de fato sentem essas

coisas, existe, nós acreditamos, um componente que controla esse desejo em

seus corpos, e se você colocar esse componente em operação ele poderá

continuar operando de forma perpétua.

– Maravilhoso – disse o sr. Robinson.

Ele falou num tom mais pensativo do que entusiasmado.

– Maravilhoso. Que coisa para se descobrir. Que coisa para conseguir colocar

em ação... mas por quê?

A cabeça recostada no espaldar da poltrona se virou lentamente na direção do

sr. Robinson. A srta. Neumann disse:

– Ele diz que o senhor entende melhor do que os outros.

– Mas é a resposta! – falou James Kleek. – É a exata resposta! É maravilhoso.

Seu rosto estava cheio de excitação entusiasmada.

A srta. Neumann estava balançando a cabeça.

– O Projeto Benvo – ela disse – não está à venda e não é um presente. Ele foi

abandonado.

– A senhorita está nos dizendo que a resposta é não? – perguntou o coronel

Munro, incrédulo.