Rogações de Eremita
Capítulo IV
Exangue do pungir da Dor que nunca o abandona, ou na solidão dos montes o encontre ou, perdido, vagueie entre o tumulto das multidões humanas desvairadas, o poeta parou no seu caminho e contemplando a serrania e o prado que a seus pés se alargavam repousados em sereno esplendor, deixou cerrar seus olhos deslumbrados e adormeceu, dormindo o torpor magoado dos vencidos.
Cantava o sol o «cântico» do Santo, o ressurgir de toda a criação resgatada para a terra e para os{18} céus em um só Deus. Cantava os seus louvores ao «altíssimo, omnipotente, bom Senhor», a quem «toda a honra e bênção são devidas». Por todas as criaturas o louvava! Por sua própria luz que o iluminava; pela «irmã lua» que no firmamento tão «preciosa e bela» se formara; pelo «irmão vento e pelo ar e pela nuvem e todo o tempo» no qual as criaturas têm sustento; pela «irmã água» que é «humilde e casta», e também pelo «irmão fogo corajoso, e por nossa mãe a terra e por seus frutos, e pela «irmã morte» que à sua paz nos arrebata.
Desusada carícia o seduziu; ignorada ternura o fascinou! Gloriosa visão despertou o poeta e, beijando-o, o exalta naquela divina luz que em torno ela espargia.
E disse-lhe a visão:
«Desterrado da ventura que com o sangue marcaste o teu caminho e em cada passo feriste o teu coração! Onde um espinho te rasgar a carne, o perfume das rosas a embalsama. Onde o vento derruba a floresta, exultaram renovos na verdura. Onde o ódio, a mentira e o desespero te entenebrecem de terror e dúvida, a bondade e a fé virão salvar-te em sua luz bendita. Onde cai uma lágrima, a mão de Deus a enxuga. Ergue os teus olhos! Beija a minha fronte! Aviventa teu ser mortificado na salutar candura que me alenta!
E dos lábios vermelhos transfundindo a alegria{19} e a vida e a exaltação em lábios pálidos de sofrer e mágoas, enlevado seu peito em caridade e possuído de doçura infinda, a visão benfazeja do poeta restituiu à terra e seus paraísos, à luz do sol e a quanto ele ilumina, aquele que à Dor votara todo o ser e só a Dor servia sequestrado desse supremo amor que na bondade se libertou de toda a contingência.