Rogações de Eremita

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 34 de 76

Páginas do PDF

Rogações de Eremita

Capítulo II

 

Em andrajos, curvada, carregando o parco e mesquinho feixe de caruma, vem recolhendo ao lar da sua choupana, uma pobre velhinha. No rosto emaciado estão marcadas por fundas rugas, restos de agonias, as canseiras, velhice e privações. Nem uma só faúlha já lhe resta do fogo que algum dia entumeceu as veias duma face enamorada de ventura e prazer, e em ventura enlevando os que a buscavam. Aqueles sadios braços que acudiam a recolher o pão no sol do eirado, são mal definidas sombras esqueléticas de formosuras que passaram breves. E os olhos que brilharam amorosos, em zelos inflamando e fascinando os turbulentos moços{60} do arraial, esmoreceram todo o seu calor, amortecidos em descorados véus, quase sem luz.

Mansamente, quando eu cismava no turbilhão de vidas tão diversas que ali contemplava, no mistério sem fim dos seus combates para expandirem na luz os seus anseios, a velhinha, arrastando seus passos no caminho em que resignada arrasta a sua pobreza, saudou-me e disse, interrompendo o sonho e outros sonhos trazendo em sua voz:

—«Boa tarde, meu senhor, salve-o Deus!»