Rogações de Eremita

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 12 de 76

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Rogações de Eremita

Capítulo I

 

Sonhei que o peregrino ao apartar-se dos lugares em que amara e fora amado no benigno lar onde abrigara o corpo enfermo e o coração sequioso de carinho, afectos e de graças, passou ondas do mar escuro e turvo, e ao passá-las deixou nas vagas fundas um sulco ténue, vermelho, coruscante entre o negrume da cerração ambiente.

Longos anos, por séculos infindos, na esteira do peregrino o mar cavou suas iradas vagas espumantes de espumas alvas, claras, diamantinas; e iluminaram-nas pálidos luares; e a tempestade atroz escureceu-as; e pairaram sobre elas sorridentes as primaveras brandas incitando toda a terra a renascer em alegria.

Em vão, em vão! Bafejo algum dos astros, ou propício trouxesse a exaltação da vida triunfante, ou inclemente derramasse a dor, jamais pôde apagar esse sulco vermelho sobre o mar que ali deixara{22} o peregrino ferido. Mais forte que as ondas, a saudade traçou nas águas lúgubre derrota. Em vão os poderes da terra as agitaram provocando-lhes a fúria temerosa! Em vão as repousaram em cristalina calma suavíssima! Em vão ali passaram combatendo seus raivosos combates os titãs! Em vão tentaram afundar na voragem aquele sangue que do coração brotara por saudade!

Em séculos infindos, para sempre, esse rasto de angústia ali ficou.