Rogações de Eremita

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 73 de 76

Páginas do PDF

Rogações de Eremita

Capítulo I

 

A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras do monte e do rebanho.

E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia.

E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas.

Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e a que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às convulsões das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de ondas salgadas{120} quanta doçura tinha no seu cálice—como se por vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê sua amargura.