Rogações de Eremita

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 58 de 76

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Rogações de Eremita

Capítulo I

 

Não ajoelhei no adito do templo e, como o filho querido do poeta, fiquei também de pé, rebelde e incrédulo, «quando um povo fiel na sombra das abobadas se curvava ao passar de cânticos celestes, tal qual se verga a multidão das canas quando sobre elas sopra o vento norte.»

Irreverente e altivo, passei coberta a fronte por monumentos altos, insensatos, em que orgulhosa demência de grandezas, poluindo com o fausto a divindade, num estranho tumulto de blasfémia e súplica, de mentira e verdade, de confissão ingénua e de impostura, pôs o sinal da cruz e da oração ao sagrado retiro em que confunde religião, vaidade, amor e ódio, fanatismo e doçura, mansidão, crueldade, perdão, vingança, cobardia e coragem, o nobre e o mísero, o sacripanta e o santo.

Muita vez me afastei desse desvairo, satânica traição, em que o resplendor de Deus no cálice e{98} na hóstia se empana esmorecendo em nuvens de vileza que derramam em torno a escuridão da impiedade e das paixões mundanas.