Rogações de Eremita
Capítulo I
No banquete da vida em que o destino me deu lugar onde os prazeres abundam e os regalos são o pão quotidiano, provei das suas taças mais queridas e vi meus companheiros de igual sorte ora erguidos na sua embriaguez ora prostrados pelos seus travores.
Riquezas, ambições, paixões, gloria, amor, as taças mais cobiçadas do banquete, a todas eu senti o seu sabor, todas vi disputadas com ardor e todas continham gotas de amargura, os traiçoeiros bens das alegrias cedo mudadas em desengano e dor.
Vi a riqueza inútil perante a morte, assistindo impotente à corrupção do corpo que no seu ser trazia os filtros de fatal caducidade inexorável. Vi ambições gerando em seus triunfos ambições maiores ainda, insaciáveis, de contínuo torturando suas vitimas, de degrau em degrau as elevando até que do mais alto as precipitam no torvo abismo das{10} desilusões. Vi as paixões mirrando-se exauridas, em vergonha, em remorso e inanidade, o orgulho aviltado nas fraquezas; vi a gloria a desfazer-se em fumo e apedrejando hoje por infames os que ontem beijara por heróis e em seus altares pusera como deuses. Vi transmudar-se amor numa mentira, a sua fé perjura na traição; vi a ternura magoada em lágrimas. E até a própria humildade, desprendida dos enganos do mundo, a mais pura das taças que anjos bons dos céus trazem à terra para remir quantos na terra penam suas penas, até a própria humildade eu vi chorar porque, salvando os bem-aventurados em cujo coração habita e resplandece, não lhes pôde poupar a compaixão de quantos desfalecem no martírio, pois, desventurados, não partilham das bênçãos da alegria no Senhor, naquela conformidade austera e santa que é a nossa redenção suprema e única.