Rogações de Eremita

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 53 de 76

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Rogações de Eremita

Sagração do Escravo

I

 

No alto da montanha, ao romper de alva, já moureja no campo o cavador a alentar essa terra de que é escravo, seu sonho e seu tirano, e sempre amada, fidelíssimamente obedecida, ou a sonhe feliz dando-lhe frutos entre rosais corados olorosos, ou a sinta opressiva, insaciável, bebendo-lhe no suor do rosto todo o sangue. O tépido conforto do seu lar, o dormir sorridente dos seus filhos, o desvelado afã da companheira no seu mudo lidar e em seus carinhos, quanto lhe afaga o coração e o tenta a esquecer na ternura a escravidão, tudo deixou por essa tirania, para fecundar a terra à qual o prende o rigor de apaixonada sujeição. Mal ao nascente a luz embranqueceu, ei-lo que parte, erguido e corajoso, a pelejar a peleja bendita de criar!

Dorme além a cidade ainda prostrada da tenebrosa orgia que a desvaira. No dissipar de pálidas{90} neblinas, que a madrugada rasga pouco a pouco, irrompem, lentamente, as sombras orgulhosas dos palácios em que o luxo entorpece seus filhos corrompidos e enfermos, de alma e do corpo, por suas vãs loucuras tão cruéis.

Surgem a par as torres das igrejas, onde a fé, a mentira e a hipocrisia lançaram de tropel em um só templo a cruz de Cristo, a mais santa das crenças, e a mais torpe traição, essa que oculta sob véus da pureza e na oração toda a cobiça sórdida de mundos que em podridões sustentam o seu deleite.

É frouxo ainda o fumo da oficina. Nos seus leitos de ferro e de granito mal despertaram os monstros que, rugindo pelos lúgubres antros denegridos, convertem todo o sangue em alavanca ou em um numero, como se fora a haste fria e rígida do mais frio aço endurecido. Toda a emanação de Deus que anime um ser em Deus criado e nele engrandecido, coração, formosura, o próprio seio que amamenta um filho, supremo alento dum supremo amor, qualquer impulso duma consciência iluminado por visões dos céus, o mais leve passar duma alegria,—morrem, são nada à porta da oficina, escoria inútil que os dragões arrastam àquelas profundezas tenebrosas em que ter alma é um crime, e o pensar e o sentir são uma traição, um erro, um prejuízo dos argênteos tesouros mercantis.

No declive estreito dos outeiros e na sombra{91} mais húmida das suas pregas, ao redor dos palácios e dos templos, como varridos em monturo abjecto para longe das grandezas que afrontavam, confundem-se e amontoam-se os casebres onde a fome e a sua negra corte de vícios, de loucura, de enfermidade e morte e blasfémia têm seus covís e dilaceram os mártires que a crueza dos ricos lhes votou.

O próprio rio que regara os prados e os tingira em verdura e macieza, que adoçara vinhedos das encostas e orvalhara os vergéis alcandorados na ribanceira que a pervenca esmalta, o próprio rio onde foi espelhar-se o rosto lindo da donzela ingénua cativada dos olhos que respondem comungando nos seus o seu anseio, o rio que serviu a obra de Deus, sua pura beleza salutar,—tristemente se roja na cidade, turvado por as suas maldições e servindo a avareza despiedosa que roubou o pão de míseros humildes para em opulências cobrir de oiro a soberba.

E perante a cidade em seu letargo, atormentada e pálida de dores, sucumbida nas suas maldições, o sol rompendo ao longe sobre os montes, na resplendente luz do seu nascer, aureolou de gloria o cavador, sagrando-lhe a sua crença e o seu vigor, a robustez hercúlea do seu peito e a consagração bendita de sua alma a esse tributo infindo, heróico e santo, de em suor pagar à terra o nosso pão.{92}