Rogações de Eremita
Capítulo II
Se o Estio esgotou fontes e rios e secou a campina, a ave infeliz, que tem filhos no ninho a sustentar, e em vão moureja, diligente e muda, por todo o abrasado e ingrato espaço, tem de voltar{95} ao poiso desprovida. Mas não castiga essas famintas bocas que a esperam, gritando e atribuladas, a pedir-lhe o alimento que não pode dar-lhes, pois lho recusam os calcinados campos adversos. Sofreu resignada o suplício, a fome, a sede, e a amarga invocação dos que um mau sestro confiou ao seu amparo.
Se o leite seca ao animal bravio, por qualquer contingência da sua sorte, oferece o peito exausto ao filho débil, todo o seu sangue quereria dar-lhe; e sentindo-o a morrer de inanição, responde com os carinhos ao queixume da vergontea que vai a definhar, aquece-a junto ao corpo, mas jamais se abandona a ímpetos de cólera, só porque um ser amado lhe suplicou, inquieto, angustiado e lacrimoso, o mantimento que carece para viver.