Rogações de Eremita

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 75 de 76

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Rogações de Eremita

Capítulo I

 

Após um breve e pálido crescente perdido além, ao longe, sobre o mar, na cerrada treva que se lhe seguiu, fulguram tragicamente as labaredas do incêndio que se ateia na montanha e enegrece o pousio, raso e nu, em toda a vastidão onde implacável o fogo apascentou os mortíferos rebanhos das suas chamas. É cinza a urze que tingiu de púrpura a aspereza mais ingrata dos fraguedos. É cinza o tojo que arrojadamente floriu doirando, de oiro precioso, o chão ainda gelado de Dezembro. E os renovos do sobro e o pinheiral, que entre os seixos avaros despontavam, em cinzas converteram a curta e tenra vida das suas hastes.

A tirania do fogo em sua gloria toda a beleza esquece e todo o bem. Em sua austeridade e em seu mistério, enquanto nos fascina e nos subjuga, ou nos avivente e exalte em manso alento ou em delírio lavre devastando, tem por escrava{122} toda a formosura, dissipa-a sem piedade em seus altares. A flor que canta a aurora e é o seu sacrário, a árvore que ao peregrino deu sombras e pomos, sumas riquezas, sumas alegrias desta vida mortal dos nossos olhos —são pó e em pó se volvem, se a pureza do fogo as inflamou.