Rogações de Eremita
Capítulo I
Em êxtase de luz rompe a manhã. Seus clarins sonoros de alvorada despertam o povoado, a serra e as águas. Dos salgueirais curvados sobre o rio erguem-se mansas neblinas, castas, sacrificando ao sol toda a pureza. Os píncaros severos da montanha desprendem da escuridão da noite a fortaleza. E na oficina e nos lares acordam fumos de carinhos e penas e trabalho.
E acordando também desse torpor em que, cansada, dorme a consciência exausta de torturas e de dúvidas, pensei, mísero e fraco, nas fadigas a que a luz da manhã me convidava. Por tenebrosa perversão da alma senti-me o escravo do ardor mundano, das cobiças, dos ódios, das vaidades, da cegueira que me oculta um irmão em cada homem e que me arroja a disputar-lhe o pão e que me afoita a exprobrar-lhe os erros, a mim que ouvi no peito voz divina de amor, de caridade e de perdão{50} e que ouvindo-a a deixei esmorecer, de culpa em culpa, traindo-lhe os mandados.
Enquanto à maldição desses infernos descia meu turvado pensamento, cantou a toutinegra na oliveira e ergueu seu doce canto à madrugada. Comungava na taça da alegria que na luz o Senhor oferece à terra. Isenta das cobiças e dos ódios, sem conhecer espinhos da ambição, confiando na suprema misericórdia que lhe alimente o sangue e o ninho e lhe module o inspirado enlevo dos seus hinos e a cada mágoa traga seu consolo, imaculada voz dum peito inocente, turíbulo sagrado, a toutinegra depunha no altar de Deus a sua oferenda, antes de partir em busca de sustento.
Então uma asa negra de remorso me fustigou o orgulho; e tremendo da própria impiedade, compungido de dor, eu perguntei que destino fatal e tão cruel me induzia em perjúrio à minha fé, sufocando em meus lábios, cerrados para o louvor da madrugada, essas canções benditas que a ave cantava e eram uma oração, que eu esquecera e eram redenção.