Rogações de Eremita

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 45 de 76

Páginas do PDF

Rogações de Eremita

Capítulo I

 

Entardecer de outono tépido e quieto!.... O sol baixa ao poente, brandamente, em seu rubor velado de neblinas. A soberba do Estio esmoreceu. Há manchas desbotadas sobre os campos; empalidecem vinhas e pomares. A ceifeira já ergueu da terra a seara e deixou cor de cinza todo o chão. Os frutos coram derradeiras cores nas hastes semi-nuas e vergadas, e os mostos, refervendo capitosos seus túrbidos perfumes traiçoeiros, semeiam nos vilares visões pagãs de bacantes e faunos em delírio.

Descem do monte os bandos dos romeiros. A essa orgia da terra generosa, embalsamando a aldeia em seu deleite e remindo-a da fome com o seu pão, responderam na ermida da montanha descantes amorosos, plangentes, orvalhados da noite e abençoados do sereno fulgor de astros propícios.

Rebeldes à fadiga, alegremente, voltam à paz da{78} aldeia e ao seu trabalho os romeiros que foram à capela a confessar as penas e paixões, implorando do bem-aventurado santo que lá mora, nessa agreste pureza do seu ermo, que às suas penas lhes mandasse alívio e que às paixões lhes desse horas fagueiras. E para que dilatadamente se prolonguem confissões e promessas murmuradas candidamente em estos de ternura, para que jamais se apague a sua lembrança nos lares em que se abriga o coração cativo do juramento bafejado pelo resplendor do santo do altar que entre lírios e rosas lhe sorriu, trazem no peito um ramo de perpetuas os romeiros saudosos da vigília em que sonharam o céu e o paraíso. Querem que um tão breve instante de ventura, por magia de amor, se torne eterno e que perpétuamente o guarde a flor em que sempre o verão como em sacrário.