Rogações de Eremita

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 38 de 76

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Rogações de Eremita

Capítulo I

 

Ao longo do caminho da jornada na qual, dorido, vou calcando a terra, ouvi o cantar das sebes nas vigílias em que constantemente nos defendem e nos guardam os pomos, as searas e os lírios, todo o bendito pão que nos anima de vigor o sangue e nos enleva em alegria a alma.

Valos fundos em volta do pinhal, tosco acervo de pedras que circunda o campo onde o trigal vem a brotar, viridentes cômoros abrigando os ninhos sob grinaldas de rosais floridos, ramos espinhosos protegendo o alfobre para que as sementes desabrochem e vinguem, os silvados que escondem os vinhedos,— se uma vida despontando teme a avidez ingénua dos rebanhos e de aves diligentes em buscar sustento tenro para mimosos filhos; ou se a cegueira humana pervertida pode quebrar a árvore que nasce ou desrespeitar ruimmente o suor alheio, ergue-se a sebe e entoa os seus mandados,{66} e cobre de fortalezas todo o chão traçando os seus limites à cobiça, à imprevidência, à malvadez e ao próprio dano da inocência instigada por amor—como um gládio de justiça austera repartindo toda a terra entre os seus filhos. Ora severa e rude na mudez, ora coroada de verdura errante, murmurando o agreste murmúrio desprendido pelo beijar de brisas fugidias, pacientemente a sebe nos protege a selva, o prado, o pão e as açucenas, quanto pode amparar os nossos braços e encantar nossos olhos em beleza.