Rogações de Eremita
Capítulo I
Entenebrecidas noites de tristeza afastaram-me da via iluminada para lugares distantes, desprezados dos escravos das seduções mundanas, prisioneiros fieis dos seus regalos.
Passei pelas vielas lobregas, estreitas, onde se acoitam multidões abjectas, que os ricos aviltaram condenando-as à ignorância, à fome, aos vícios do infortúnio, à loucura e ao crime, a epilépticas convulsões da embriaguez, à indigência, ora prostrada ou insolente, ora mendiga lacrimosa e tímida, ora cuspindo pragas e blasfémias em sua altivez irada, revoltada. Vi os negros covís dos desgraçados que a opulência arrojou longe dos olhos para os monturos humanos da cidade,—não fossem os andrajos e os vermes confundir-se entre vestes de purpura manchando-as!
Dos gemidos que vinham desses antros, tantas vezes castigando as nossas faces como um{94} viperino jacto de veneno, a procurar vingança; do rugido da miséria nos seus transes nenhum me tocou mais o coração do que o grito das crianças açoitadas, entre imprecações raivosas de possessos, flageladas com desprezo e ódio vermelho, somente por chorarem doloridas de fome e frio e ínfima indigência, sem carinho e sem pão, sem um leve consolo, que conforte e que alegre e vivifique dum reflexo de divina essência o corpo enfermo e a empedernida e bruta animalidade.
Longas horas depois de ter deixado os coitos dessa escoria penitente que sofre e geme em vão nos seus infernos, sem alcançar mover à misericórdia os soberbos e grandes que em seu fausto, emudecida e cega a consciência, lhe negaram justiça, ainda ouvia insistente o clamor desse tormento louco das crianças.
E nenhum mais cruel tenho encontrado!
Em nenhum—e são muitos entre os homens! encontrei maior dor e perversão.