Rogações de Eremita
Capítulo II
Não te iludas, porém, oh Sonhador! tu que procuras ler, na contingência de impulsos vagos e caducas formas, a perene oferta do mover dos mundos à lei suprema do supremo amor. Não te engane o torpor em que o trigal se abandonou à{33} paz da atmosfera. Não cuides porque o vês assim submisso que deixou de elaborar fartas sementes.
De contínuo escutará vozes divinas, e há-de segui-las, destilando os sucos, que pela raiz beber na aspereza fria. Das entranhas do chão tira e semeia, constantemente, ou se mova ou pare, a rescendente esmola das doçuras com que suaviza a fome a quem trabalha e descerra em sorrisos de alegria, flores sanguíneas! os lábios das crianças.
Também passaste um dia ao pé do leito em que a mãe aquecia o filho ao seio. Não sentiste rumor que confessasse quanto afecto em silencio se derrama, transfundindo a quentura do sangue em outro sangue. E entretanto, fervorosa e muda, uma vida se consumia ali em outra vida.
Assim vi o trigal quando dormia, tal qual como em vigília, consagrando à paixão do seu ser inquebrantável aquele amor que é nosso alento e força.{34}{35}