Rogações de Eremita
Companheiro e Guarda
II
Se para nos guardar na terra a formosura e alimentar nas veias o calor elegeste na sebe um missionário, servidor desvelado da tua graça, se nem esses teus bens mais preciosos viveram sem o abrigo e a caridade dos companheiros que lhes destinaste, como poderei eu, Senhor, criar no peito, neste peito gerado da fraqueza, o amor fecundo em que ele se arrebate, florindo em bondade e mansidão, se em tua misericórdia não mandares anjos bons que me guardem e dos teus inimigos me defendam?!...
Sinta eu sempre a meu lado, protegendo-me, o doce abrigo de filhos teus, Senhor, daqueles teus eleitos e inspirados que na tua bondade e em teu{67} amor souberam redimir-se! Que por sua voz e sua fortaleza arranquem meu coração ao sinistro abutre da descrença, do ódio e da avareza a que lugubremente se entregaram os que em solitário orgulho te ignoram!{68}{69}
COMPANHEIRO E GUARDA
Do vale aos cerros onde me encontrei, vai minguando a vida. Lentamente, a solidão alarga o seu domínio até que ao cimo, pela planura extensa que remata o encastelar de montes sobre montes, de todo impera na aridez ingrata que despiu de verdura a terra rasa e a adormeceu, estéril, semi-morta de avareza e silêncio.
No deserto severo a que subi, apagou-se distante e emudeceu quanto na veiga fértil me fascina, esse fremente rebrilhar de vidas irrompendo da terra alegremente que por seus anseios vinham demandando seu lugar e glória à luz do sol—a carícia agitada das ramagens, mugidos da manada no pascigo, o argentino rebater da forja, a espessura ondeante das searas, a viveza das rosas nos jardins, a murmurante faina dos casais, toda a abundância, toda a flor e toda a lida que no vale se expandiram opulentas, na abrigada largueza dos seus campos e nos bastos vilares que ela alimenta.{70}
Eis que, porém, no árido silêncio dessa terra sem viço, devastada, se ergueu um casebre humilde, o mais humilde, e dali se elevou um ténue fumo! E logo se povoou e foi amena a solidão austera desse chão que o desamor dos homens e dos astros asperamente votara ao abandono. Foi como se uma afeição dali emanasse e banisse, amorável, por encanto, todo o ermo da gândara desolada.
É a morada singela dum pastor. Recolhe agora ao aprisco o seu rebanho, o seu pobre rebanho, filho e imagem da pobreza da urze endurecida na terra recalcada dos invernos que nunca conheceu o arado e o jugo. E protegidas do rigor da noite as ovelhas, seu único tesoiro, por sua vez procura acautelar-se da aragem fria que lhe tolhe os membros, acendendo a fogueira mal nutrida das escassas giestas que juntou.
Outro alento de vida não pressinto em redor do bravio solitário. Mas só por magia desse ténue fumo, companheiro e conforto do pastor no ríspido exílio em que perfaz sua missão de amor servindo a terra, senti que até ali mesmo me guardava das sombrias visões do desamparo não sei que voz estranha e poderosa.