Rogações de Eremita
Capítulo II
Minha mãe que do seu sangue me gerou, deu-me com o leite haustos de amor por ti, Senhor. Enquanto me criava o corpo e a forma, toda esta{51} ilusão da vida efémera, em seu último termo inexorável predestinada à consumpção dos vermes, ardentemente me ensinou a ver-te, ensinou-me a invocar-te, e em teu puro espírito renascer, liberto de corrupção, para a vida eterna. Ensinou-me a adorar-te em teu poder, a implorar humilde a tua graça, e prostrado sofrer tua vontade, contente por servir-te e em ti buscando a suprema alegria. E queria em sua fé, que dela recebi e é também minha, queria que ao despertar da minha consciência após suas horas de repouso e inércia, fosse teu nome o primeiro proferido por meus lábios; que para me sentir erguido à tua presença esquecesse eu o mundo e o seu tumulto e assim purificado, assim armado desse escudo inviolável, fortalecido contra todas as tentações de desvario, atravessasse a via dolorosa e de toda a fraqueza me isentasse.
Nessa manhã clara, entenebrecida em um momento fugaz e aflitivo pelo perpassar da asa do remorso, pequei, Senhor, porque transviado, perdido o meu espírito no tropel das cobiças orgulhosas, assaltou-me a miséria o pensamento e outro nome proferi que não o teu, antes que a ave me lembrasse a culpa cantando os teus louvores e a tua grandeza.
Perdoa-me, Senhor, se então traí essa fé que é o melhor dos meus tesoiros e me incendeia o peito em teu amor! Amparem-me as tuas aves,{52} teus arautos, mensageiros fieis da tua glória! Em cada aurora que os meus olhos vejam despontar nos céus, fazei, Senhor, que a toutinegra volte e me venha ensinar a repetir essas divinas orações de infância que à minha mãe ouvi no seu regaço!{53}